#099 – Estudo do Velho Testamento – Livro Gênesis

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Neste episódio do estudo do Velho Testamento à luz da Doutrina Espírita, Haroldo Dutra Dias dá continuidade à análise do Livro de Gênesis, focando na intrincada trama familiar dos patriarcas, especialmente entre Jacó, Esaú, Rebeca e Isaque.

O que é estudado neste episódio

  • A venda da primogenitura: Retoma-se o acordo entre Jacó e Esaú, onde Esaú vende sua primogenitura por um prato de guisado, motivado por sua compulsão pela comida. É destacado que esse acordo não teve a validação do patriarca Isaque.
  • O engano de Jacó e Rebeca: Com Isaque já idoso e cego, Rebeca orquestra um plano para que Jacó se passe por Esaú e receba a bênção da primogenitura. Jacó, sem pelos, usa peles de cabrito para simular a textura de Esaú, enquanto Rebeca prepara o guisado que Isaque apreciava.
  • A bênção roubada: Jacó consegue enganar Isaque e recebe a bênção destinada a Esaú. Quando Esaú retorna da caça e descobre o ocorrido, ele se desespera e clama por uma bênção.
  • A reação de Isaque: Isaque, ao invés de apaziguar os filhos, profere uma bênção a Esaú que, na prática, agrava o conflito, colocando-o em submissão a Jacó e incitando o ódio entre os irmãos.
  • A fuga de Jacó: Temendo a vingança de Esaú, Rebeca aconselha Jacó a fugir para a casa de seu irmão Labão em Harã, prometendo chamá-lo de volta quando a ira de Esaú passar.
  • A colheita de Jacó: É antecipado que Jacó, ao chegar na casa de Labão, será enganado por seu futuro sogro, vivenciando na própria pele o ardil que ele mesmo utilizou.

Reflexões

  • As misérias humanas nos patriarcas: O estudo enfatiza que as famílias patriarcais, longe de serem modelos de perfeição, representam as misérias e conflitos humanos, com suas ambições, enganos e desonestidades.
  • Jesus como o modelo e guia: A figura de Jesus é apresentada como a cura para o ciclo de sombras e conflitos vivenciados pelos patriarcas. Ele traz um novo modelo de conduta, baseado no perdão e na compaixão, que se contrapõe às soluções antigas de “olho por olho, dente por dente”.
  • Perdão e compaixão como soluções: O perdão é a chave para interromper o ciclo de agressões, enquanto a compaixão permite enxergar agressores e vítimas como parceiros de infortúnio, escravizados pelo sofrimento mútuo, e não como figuras a serem julgadas.

Ler transcrição do episódio

Olá, amigos, estamos aqui para mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis à luz da doutrina espírita e dando sequência ao episódio anterior em que comentávamos o plano de Jacó para roubar a primogenitura do seu irmão gêmeo mais velho, que nasceu primeiro, Ezaú, nós tínhamos falado que primeiro ele faz um acordo com Ezaú para que Ezaú venda a sua primogenitura a ele e vendeu por um guisado, porque o Ezaú tinha uma compulsão pela comida, pelo prato feito com caça, só que nenhum dos dois avisou ao patriarca Isaac do acordo que sequer poderia ter sido feito, porque esse acordo para ter validade, para ter legitimidade, precisava ser aprovado, endossado pelo patriarca Isaac.

O fato é que o tempo passa, Isaac envelhece e chega aquele momento crucial, que é o momento em que Isaac começa a se aproximar da velhice, ele já não estava enxergando, já estava bem velho mesmo, se preparando para partir para o outro mundo, e ele então combina a cerimônia da posse, a cerimônia em que o pai chama o filho primogênito e lhe entrega a liderança espiritual do grupo, a liderança espiritual da tribo em função da primogenitura. E, como toda a sociedade possui os seus ritos de passagem, os seus rituais, o ritual aqui é que Isaac também era chegado em um guisado de caça, onde veio uma afinidade do pai com o filho e a afinidade da mãe, Rebeca, com o filho, Jacó.

Jacó não tinha pelo, era mais próximo do padrão que nós temos hoje, contemporâneo, então tem aí esse choque de características do Jacó e do Esau. Então, o pai chama o Esau, fala para ele que ele já está realmente se preparando para partir e que ele precisava dar a Esau a bênção, a bênção da primogenitura. E fato interessante é que o Esau, isso é o mais interessante, uma coisa que fica assim permeando aqui a história é que o Esau meio que esquece que vendeu a primogenitura para o irmão, então o Esau sai para caçar, lá buscar a caça, depois ele ia preparar o prato, servir para o pai receber a bênção e aí que entra uma terceira pessoa, uma terceira pessoa, não, uma outra pessoa nesse drama, nessa trama perversa, que é a mãe, Rebeca.

Ela então fala, olha, a maldição vem sobre mim, meu filho, você vai fazer o seguinte, como você não tem pelo nenhum, seu corpo é todo lisinho, você vai colocar uma pele de cabrito cobrindo você, para o seu pai te tocar e vai achar que é o Esau, eu vou cozinhar aqui um guisado caprichado, bem gostoso e você vai lá servir o guisado e vai roubar, agora recebendo a bênção, você já tinha feito o acordo com seu irmão, agora você vai realmente receber a bênção do seu pai e aí acabou de estar sacramentado, porque ele abençoando você, você se torna o primogênito e Esau sai da liderança do clã familiar.

Esse era o fato, né. E acontece tudo, tudo é feito, ele beija o filho, dá a bênção para ele e tal, mas quando o Esau chega e percebe que o guisado já tinha sido oferecido, que o Jacó já tinha sido abençoado, quer dizer, já tinha oficialmente roubado a primogenitura, Esau diz assim, quando Esau ouviu a palavra de seu pai, gritou com muita força e amargou e disse ao pai, abençoa-me também, meu pai, está no capítulo 27 de Gênesis, abençoa-me também, meu pai, mas este respondeu, teu irmão veio com astúcia e tomou a tua bênção, Esau retomou, com razão se chama Jacó, é a segunda vez que me enganou, ele também se fez um pouco de vítima, a segunda vez que enganou não, porque na primeira ele vendeu a primogenitura, mas acrescentou, não reservaste nenhuma bênção para mim, Isaac tomando a palavra respondeu a Esau, eu estabeleci teu senhor, dele e todos os seus irmãos como servos e o proví de trigo e de vinho, que poderia eu fazer por ti, meu filho, ou seja, ele já havia dado toda a liderança para Jacó, Esau disse a seu pai, é pois tua única bênção, meu pai, abençoa-me também, Esau se pôs a chorar, então seu pai Isaac tomou a palavra e disse, longe das gorduras da terra será tua morada, longe do orvalho que cai do céu, tu viverás de tua espada, servirás a teu irmão, mas quando te libertares, sacudirás seu jugo de tua serviço, olha isso, uma bênção quase que jogando gasolina no fogo, Esau passou a odiar a Jacó, por causa da bênção que seu pai lhe dera e disse consigo mesmo, estão próximos os dias de luto de meu pai, então matarei meu irmão Jacó, quando foram relatadas a Rebeca as palavras de Esau, seu filho mais velho, ela chamou Jacó, seu filho mais novo e lhe disse, teu irmão Esau quer vingar-se de ti, matando-te, agora meu filho, ouve-me, parte, foge para junto do meu irmão Labão em Haram, habitarás com ele algum tempo, até que se passe o furor de teu irmão e até que a cólera de teu irmão se desvie de ti e esqueça o que lhe fizeste, e então te mandarei buscar, porque vos perderia os dois num só dia, então se tivesse ali um conflito dos dois, ela, a mãe perderia os dois numa única batalha, num único conflito e aí nessa saída do Jacó, a história dele se desenvolve e acredite, todo esse ardil de engano vai voltar tudo para Jacó, a primeira experiência que ele terá, ele chega para o seu futuro sogro, que é o Labão, e o que vai acontecer, ele vai ser enganado pelo sogro, é muito interessante isso, todo o ardil que ele usou para enganar o irmão volta contra ele, ele é enganado, é obrigado, amava a Raquel, mas aí ele recebe a Lia, aí tem que trabalhar o dobro, é aquela história toda do Jacó em que ele agora se defronta com a própria energia do engano que ele espalhou e fica aí esse problema familiar de dois irmãos gêmeos, essa história do conflito, então é muito importante a gente entender algo aqui, ao invés de nós imaginarmos as famílias dos patriarcas como famílias equilibradas, famílias de pessoas que tem uma alta religiosidade, um alto padrão de espiritualidade, nós não devemos pensar assim, nós devemos pensar a família dos patriarcas como famílias problemáticas, que estão vivendo profundos conflitos internos, estão vivendo questões da mais alta delicadeza.

Por que nós precisamos entender isso? Porque somente colocará fim a esse ciclo de enganos, de maldade, de infidelidade, de desonestidade, de ambição desvairada, etc., quando chegar o modelo e guia que é o Cristo. Então Jesus representa aquele modelo e guia enviado por Deus que reúne todo o remédio para essas doenças. Por isso que ele diz que veio salvar e não condenar. Então a figura de Jesus chega nesse contexto das famílias patriarcais ou dessa história transgeracional das famílias patriarcais, Jesus chega como a cura, não como a condenação.

Por que não como a condenação? Porque todo mundo aqui já havia sofrido as consequências dos seus atos várias vezes. Isso aqui se transformou num ação-reação, ação-reação, ação-reação, ação-reação. Então já estão todos esgotados, já estão todos saturados desse conjunto de experiências desastrosas. Então a figura do Cristo chega como alguém que vem apaziguar e vem curar, vem trazer um padrão de conduta que possa efetivamente construir paz no cérebro da família patriarcal e na sociedade como um todo. Agora é claro que Jesus irá enfrentar todos os problemas enfrentados pelas famílias patriarcais e a solução que ele dará a esses problemas são soluções inusitadas, inusitadas, que apavoram ainda hoje muitas pessoas.

Soluções que deixam até hoje muitos de nós perplexos e, no fundo, quando nós vivemos, vivenciamos na nossa vida alguma situação que se assemelha a esse drama dos patriarcas, nós nos sentimos assim perplexos e quando examinamos a solução, a orientação dada pelo Cristo para esses problemas, nós nos sentimos desconfortáveis, porque ao longo de muitos séculos nós criamos um conjunto de automatismos, de hábitos que nos levam a acreditar que as soluções dadas pelos patriarcas são soluções efetivas, são soluções capazes de apaziguar o problema e não são, não são.

Então nós vamos perceber aqui, nessa confusão toda, depois de tanta discórdia, tanta agressão recíproca, que uma das soluções que Jesus vai trazer é a do perdão, o perdão, para interromper um ciclo de agressões e de maldade, só o perdão para pôr fim a esse embate de toma lá, dá cá, olho por olho, dente por dente, o perdão encerra. Outra solução trazida por Jesus é a da compaixão, a compaixão de alguém que enxerga, agressor, vítima, que se revezam, então uma hora um é o agressor e outra a vítima, na outra hora o outro é o agressor e esse aqui é a vítima, aí eles vão revisando as posições de vítima e de agressor ao longo do tempo e aí é preciso uma alta dose de compaixão para que a gente perceba que os dois não tem nenhuma vítima e nenhum agressor, na verdade os dois estão vinculados, estão unidos, profundamente acorrentados e escravizados no infortúnio, então eles são parceiros de infortúnio, se vincularam para sofrerem juntos, um com o outro, um em decorrência do outro, muito triste isso, porque são seres humanos que tem um potencial divino de construírem relacionamentos felizes e construtivos, mas optam por usar essa energia co-criativa para construírem relacionamentos autodestrutivos, então um se encarrega de fazer o outro infeliz, é uma parceria, montam uma empresa chamada infelicidade ou desespero e aí cada sócio dá a sua cota com muita dedicação, muito empenho para que o outro seja infeliz, para que o outro sofra, então um contribuindo para o sofrimento do outro, são parceiros de infortúnio, para esses casos a compaixão e não o julgamento, não adianta julgar, porque se você for examinar, você vai ver que nenhum dos dois tem razão, nenhum dos dois está completamente certo ou completamente errado, a história é longa, você vai puxando e puxando e fica assim, se você examina uma existência, você fala esse aqui é vítima e o outro é agressor, aí você examina duas e fala um mudou, agora um é agressor e o outro é vítima, aí você examina uma outra encarnação anterior, muda de novo e aí chega um determinado momento, você não consegue mais posicionar nenhum nem outro na condição de vítima e de agressor, então fica difícil julgar, a gente não consegue ter clareza para emitir um juízo, qual dos dois está certo, qual dos dois está errado, então nessa situação Jesus traz a compaixão, porque a compaixão é aquela força renovadora, capaz de fazer com que ambos compreendam que eles são responsáveis pela infelicidade que estão causando no outro, então se eles não perceberem isso e se eles não se libertarem desse padrão, eles vão continuar sofrendo, são dois sofredores, parceiros do infortúnio, então essa é uma solução que o Evangelho traz, Jesus representa essa solução e aqui a gente percebe que não é banal a gente dizer que Jesus é o modelo, Jesus é o modelo, porque imagine que você tome Jacó como modelo, digamos que o seu modelo seja Jacó, Jacó mas ele chantageou o irmão, depois ele se fez passar pelo irmão, estelionado, furtou a bênção que era do irmão e é uma bênção que implica posses, propriedades, prestígio, poder, tirou do irmão, depois ele começa uma confusão que a gente não faz ideia, vai ter os problemas familiares, a condução do Jacó com relação às questões familiares, é uma tragédia total, esse é o seu modelo e ele é um grande patriarca, o Isaac também da mesma maneira, o Isaac não conversa com os filhos e depois ele dá uma bênção aqui para o filho mais velho que é uma bênção de ódio, ele praticamente joga o filho mais velho numa luta permanente com o irmão, ele não teve nenhuma habilidade aí para apaziguar e para resolver o conflito, pelo contrário, ele só agravou o conflito.

Aí nós pensamos em Abraão, se você toma Abraão como modelo, Abraão chega numa situação difícil e a primeira coisa que ele imagina lá é de vender a mulher dele para o faraó, então, é um padrão ético muito questionável. Os patriarcas, os grandes patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó, representam padrões éticos adoecidos, pessoas portadoras de graves problemas, o que evidentemente não retira delas a qualidade que elas têm, da fé, da confiança em Deus, da fidelidade ao monoteísmo que nascia, nós não podemos retirar, não é? Isso é bonito, porque o ser humano é isso, é uma mescla de luz e sombra, até que venha o modelo, o modelo que é a luz do mundo, luz do mundo, modelo que vai vivenciar, vai transitar por todas essas dificuldades dos patriarcas e passa por elas com uma nova solução, resolvendo de uma maneira nunca antes vista no Novo Testamento, por isso que chocou, por isso que chocou.

E a fala dele, ouvi-te o que foi dito pelos antigos, é isso, né? O que que foi dito por Jacó? O que que foi dito pela mãe de Esaú e Jacó, Rebeca? O que que foi dito por Rebeca? Vai lá, meu filho, engana teu irmão, é isso, essas são as vozes aqui e essas vozes também estão em nós, em um nível espiritual, nós trazemos essa voz, vai lá, se dá bem, prejudica o outro, não, você tem que pensar em você, essas vozes nós trazemos dentro de nós, então, ouvi-te o que foi dito aos antigos, são vozes antigas, e aí, eu, porém, vos digo, eu, porém, vos digo, Jesus vem com uma nova fala, uma nova proposta, então, a gente percebe isso aqui.

Outro tema que eu gostaria de chamar bastante atenção aqui é que o primogênito vendeu, perdeu a primogenitura. Então, aqui, agora, a gente pode, numa perspectiva, à luz do Evangelho, à luz do Evangelho de Jesus, fazer essa interpretação, que o povo hebreu vendeu sua primogenitura. Então, porque ele recebe o Messias, o Messias vem, e ele é dos filhos, aí, você imagina aqui que cada nação, cada povo da Terra era um filho, o filho mais velho, no sentido do mais experiente, do que já tinha a primeira revelação, a revelação espiritual.

Estava preparado para levar adiante o processo, ele abre mão da sua primogenitura. Por quê? Por posse, prazer, poder e prestígio. Abre mão dessa liderança espiritual do orbe, abre mão dessa, para se restringir, para continuar num processo sem grande avalos, sem grande avalos. Então, é, é muito curioso isso, então, a gente vai vendo esses, e aí o filho mais novo tem que assumir. Então, a gente vê lá aquela questão do Paulo de Tarso, agora eu vou falar para o mais novo, para o gentil, para o inexperiente, deixar de falar para o mais experiente, para o mais velho, e a gente percebe essa dinâmica também nos grupos religiosos de hoje, a mesma coisa.

Então, é um padrão aí, muito interessante, um tipo que vai se refletir também no Novo Testamento. Então, essa história aí do patriarca Jacó nessa relação com seu pai Isaac, e aí a gente vê porque que não é Abraão, Isaac e Esaú, é Abraão, Isaac e Jacó. Essa história está precisando ser curada, tem uma ferida aberta nessa história. Quando a gente fala o Deus, Abraão, Isaac e Jacó, tem uma ferida aberta aí, tem uma ferida. Há uma grande ferida na Primeira Revelação. Então, é necessário que venha um médico para curar essas feridas da alma.

Então, era isso que a gente queria trazer. No próximo episódio, nós já vamos adentrar, então, nas consequências. Aquilo que Jacó plantou, ele vai começar agora a colher, e a história do Jacó, e como que nós vamos ter um ponto final, alguém que vai chegar já representando um pouco, dando uma ideia do que seria a vinda de Jesus. É uma, um pontinho que fica ali na história do Velho Testamento, para lembrar o padrão que seria o padrão de Jesus. Nós estamos falando de José, do Egito, e aí nós vamos estudar essa história toda com detalhes.

Então, até o próximo episódio. A nossa mais profunda religiosidade, por quanto nós abrimos mão nela? Por qual compulsão? Muito interessante, não é? Porque, muitas vezes, o indivíduo encarna como um encargo, uma responsabilidade, uma missão.

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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