Neste episódio da série de estudos do Velho Testamento à luz da Doutrina Espírita, Haroldo Dutra Dias aprofunda a análise do livro Gênesis, utilizando a metáfora da Arca de Noé como representação da casa mental e da jornada evolutiva do Espírito.
O que é estudado neste episódio
- A Arca de Noé como metáfora da casa mental: Haroldo retoma a comparação da Arca com a casa mental apresentada no livro “No Mundo Maior”, de André Luiz, psicografado por Chico Xavier, que divide a mente em três andares: porão (passado/instintos), andar intermediário (presente/ego) e sótão (futuro/potenciais divinos).
- O Cérebro Triúnio: É mencionada a obra “O Cérebro Triúnio” de Irvênia Prada, Dersi Anduli e Sérgio Lopes, que também explora a estrutura da mente em três níveis.
- Questão 101 de “O Livro dos Espíritos”: A escala espírita, com suas três ordens (Espíritos imperfeitos, bons e puros), é correlacionada com os andares da casa mental e da Arca de Noé.
- Espíritos imperfeitos e a predominância da matéria: O estudo foca nas características da terceira ordem (Espíritos imperfeitos), destacando a predominância da matéria sobre o Espírito, a propensão ao mal, ignorância, orgulho e egoísmo. É explicado que a imperfeição reside na falta de autocontrole e autodomínio, resultado de milhões de anos de evolução nos reinos inferiores, onde o princípio inteligente aprendeu a lidar com a matéria e a vida orgânica.
- Instintos e automatismos psíquicos: A formação de automatismos psíquicos a partir do instinto de conservação, reprodução e defesa, e como esses instintos podem se manifestar como egoísmo, orgulho e vaidade na fase humana, tornando-se excessos de energias que deveriam ser positivas.
- A consciência no porão da individualidade: A ideia de que a consciência, quando vive apenas no plano do automatismo e da satisfação dos instintos mais primários, está no “porão da individualidade”, perdendo a humanidade e a sensibilidade.
- A evolução consciente: A importância de educar a “carga animal” e utilizar essa energia sem ser dominado por ela, colocando as forças instintivas a serviço do Espírito.
- A encarnação como um “dilúvio”: A encarnação é apresentada como um grande dilúvio, uma experiência desafiadora onde o Espírito precisa estruturar sua casa mental (Arca) para não “afogar na carne”, ou seja, não ser conduzido pelas circunstâncias e viver à deriva.
- A importância da estrutura mental: A necessidade de uma casa mental estruturada para navegar pelos desafios da encarnação e dos “mini dilúvios” da vida, buscando uma evolução consciente e nutrindo o Espírito.
- Jesus como guia e modelo: Cristo é apresentado como o GPS da Arca, o guia e modelo que oferece os parâmetros e a rota para a jornada evolutiva, enquanto os valores morais são universais.
Reflexões
- A Arca de Noé simboliza a construção interior e a organização da casa mental, essenciais para a evolução espiritual e para enfrentar os desafios da vida sem se “afogar” nas provações.
- A predominância da matéria sobre o Espírito, característica dos Espíritos imperfeitos, reflete a dificuldade em transcender os automatismos e instintos adquiridos nas fases iniciais da evolução, necessitando de autodomínio e consciência para progredir.
- A encarnação é um “dilúvio” de experiências e interações, onde a preparação e a estruturação da consciência são cruciais para que o Espírito não viva à deriva, mas sim com propósito e direção, seguindo os ensinamentos de Jesus.
Ler transcrição do episódio
A Luz da Doutrina Espírita Olá, amigos! Bem-vindos a mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis, do Velho Testamento, Gênesis Mosaica, A Luz da Doutrina Espírita. No episódio anterior, nós comentávamos a estrutura da Arca de Noé fazendo uma comparação entre a casa mental, tal como foi apresentada no livro No Mundo Maior, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ditado pelo Espírito André Luiz, naquele capítulo em que Calderaro compara a nossa casa mental a uma casa comum, em que há um porão, a parte em que as pessoas vivem, e um sótão.
E ele compara, então, passado, presente e futuro, a nossa experiência passada do automatismo, o nosso estágio pelos reinos inferiores da natureza, depois, o ego, o presente, a personalidade atual, como esse esforço que nós estamos agora de assentar, de aplainar o passado e projetar o futuro, e a semente da divindade, os potenciais divinos que dormem em cada um de nós, representados, então, pelo andar superior dessa casa. No episódio anterior, também citamos o livro extraordinário da doutora Irvênia, do Dersi Anduli e do Sérgio Lopes, que é o Cérebro Triúnio, uma obra escrita por três pessoas, que procura também explorar esses três andares da casa mental.
Nós utilizamos lá uma descrição muito bem feita na primeira parte do livro e hoje nós vamos trabalhar alguns elementos do primeiro andar, dessa nossa parte extintiva, desse estágio que o princípio inteligente faz nos chamados reinos inferiores da natureza. Mas, antes disso, eu gostaria de chamar a atenção para a questão 101 do livro dos Espíritos. Na questão 101, Kardec está tratando da escala espírita, ou degraus dos Espíritos. E olha que curioso, são três ordens. A terceira ordem, a segunda ordem e a primeira ordem.
Então, aqui, nós também nos permitimos fazer um paralelo, uma analogia dessas três ordens com a casa mental e com a Arca de Noé. Porque já comentamos aqui que a Arca de Noé é um grande símbolo, é uma grande metáfora dessa construção interior, de um processo de organização da nossa casa mental para que a nossa evolução se dê com mais estabilidade, com mais equilíbrio, sem as quedas que nos caracterizam, sem as oscilações que são muito características dos Espíritos da terceira ordem. Olha aqui a característica da terceira ordem, que são os Espíritos imperfeitos.
Imperfeitos, ou seja, Espíritos que estão no processo de aperfeiçoamento. Alguns apresentam um grau de imperfeição mais ostensivo, outros, um grau de imperfeição menos ostensivo. Mas tem aqui, Kardec é muito didático, ele coloca as características gerais dos Espíritos imperfeitos. Primeira característica geral, predominância da matéria sobre o Espírito. É importante para nós. Propensão para o mal, ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes. Como é que nós podemos entender isto aqui sem um falso moralismo?
Porque o que caracteriza o Espírito imperfeito não é porque ele não se comporta segundo uma listazinha de padrões morais, não é isso. O que caracteriza o Espírito imperfeito é que ele não tem autocontrole, ele não tem autodomínio da sua estrutura psíquica. Isto é muito natural, por quê? Durante milhões de anos na evolução espiritual, nós gastamos largo tempo e múltiplas experiências aprendendo a lidar com a matéria e com a vida orgânica, com a vida na matéria. Então, se nós examinarmos todas as espécies animais, todas elas, elas estão aprendendo o quê?
Aprendendo a se alimentar, aprendendo a se conservar, a se proteger de predadores, a proteger a sua própria vida orgânica, a sua forma física, aprendendo a se reproduzir e aprendendo a viver na comunidade dos seus semelhantes. Esta é a experiência das várias espécies animais e mesmo das várias espécies vegetais. Tanto no reino vegetal, quanto no reino animal, o princípio inteligente está na aquisição destas habilidades. Por que isto é tão importante? Porque ele precisa aprender – isto está lá no livro Evolução em Dois Mundos, é a linha geral do livro Evolução em Dois Mundos – o princípio inteligente precisa construir a sua forma perispiritual, construir o seu corpo perispiritual, que é o molde do corpo físico.
Porque, uma vez chegada à experiência humana, a forma humana é por demais preciosa, é muito preciosa. E ele precisa aprender a conservar esta forma para que a experiência na encarnação seja produtiva. Daí o instinto de conservação, de reprodução, de defesa, etc. Acontece que milhões de anos estagiando num contato direto com a matéria, o que acontece com o princípio inteligente? Ele fica condicionado à experiência física e biológica. E esta experiência física, de cuidar quase que exclusivamente da sua forma física, produz automatismos psíquicos.
Quando ele atinge a humanidade, quando ele atinge a razão, quando ele passa a ter emoção, sentimento, desejo, imaginação, raciocínio, ideia, esses instintos, eles começam a ser rebuscados pelo intelecto e pelo sentimento, pelas paixões, pelo desejo. E daí surge egoísmo, orgulho, vaidade, etc. Que são excessos, são exageros de uma energia, de um princípio que em si é positivo. Então, o egoísmo é o transbordamento, é o excesso do cuidado consigo mesmo, do instinto de conservação, daquelas experiências que ele adquiriu ao longo da evolução nos reinos inferiores, mas que agora ele não consegue ter controle sobre isso, ele não consegue ter domínio sobre isso.
Então, essas experiências como que escravizam o psiquismo do espírito em evolução. Esse é o ponto. É como se a consciência espiritual vivesse lá com os animais da arca. Então, ele vive apenas no plano do automatismo. A única preocupação é Atender as questões materiais, atender a forma orgânica, é Seguir o que ele vinha seguindo nas espécies inferiores. Mas, à medida que o Espírito avança, ele vai aprendendo a educar essa carga animal, essa carga evolutiva do passado, vai aprendendo a utilizar essa energia sem que ela o domine.
Então, ele coloca essas forças a seu serviço e não se coloca a serviço dessas forças. É diferente. Porque, se nós descermos e o Calderaro vai afirmar isso no livro O Mundo Maior, ele está examinando um caso de ódio entre pai e filho, o pai adotivo e o filho, e uma tragédia familiar que ocorre e aí, de uma maneira simbólica, mas que a gente consegue captar, ele diz assim, os dois despencaram dos andares superiores para do andar superior, que é dos ideais superiores, da espiritualidade, dos potenciais divinos, para a praticidade, para o presente.
E depois, quer dizer, quando a pessoa está com excesso de atividade, ela quer atuar apenas no ambiente físico, está apegada apenas às questões imediatas. E depois, o que acontece com eles? Eles despencam para o andar inferior da individualidade, que é onde estão os instintos mais materiais, aqueles mais primários que dizem respeito à conservação da forma física. E aí, o que nós vamos perceber? Um ser humano, no caso lá, por exemplo, é o filho adotivo, ele não só mata o pai adotivo, como fica com a madrasta do pai adotivo, toma posse de tudo, num comportamento que não é mais humano, não é mais humano.
É um comportamento de alguém que perdeu a sua humanidade, a sua sensibilidade humana, os seus valores humanos e precipitou-se nos andares inferiores da pura instintividade. Do puro trato com a matéria, do puro desejo, é só desejo, é só pulsão, é só vontade de satisfazer os impulsos. Então, é bonito isto, porque Calderón diz que eles caíram no andar inferior. É bonito isto porque a nossa consciência, ela que vai escolher onde ela vai habitar, se é no terceiro andar, se é no segundo andar, se é no andar superior, embora ela tenha sempre que circular e fazer o movimento.
Mas, onde que ela reside? Onde tiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Então, nós percebemos, e os Espíritos não cansam de retratar isto na obra subsidiária e mesmo na codificação, a gente pode ver, por exemplo, o livro O Céu e o Inferno. Na segunda parte do livro, há uma série de casos de pessoas que voltam e contam como elas viveram e agora o estado que elas se encontram no mundo espiritual. E nós vamos chegar a uma constatação, a maioria das pessoas, a maioria dos encarnados, oscila ali, nesta parte inferior da instintividade e No segundo andar ali, que é o da humanidade, que é o do presente.
Fica oscilando, mais no andar de baixo do que no do meio. Pouquíssimos conseguem viver em padrões superiores da consciência, de espiritualidade, de sentimento, de ideal. Pouquíssimos conseguem fazer esta ascensão. Então, o que nós constatamos? Basta você ligar os jornais, você dar uma ligeira olhada hoje no mundo, nos países, no que está acontecendo no mundo, para a gente perceber o grau de brutalidade, o grau de materialidade das consciências encarnadas no Orbe. Como que as consciências estão embrutecidas? Elas estão utilizando todo o seu potencial espiritual para viver no porão da individualidade, nas experiências de retaguarda do passado, sem avançar.
Por isso, então, esta característica, ressaltada aqui por Kardec, que é a predominância da matéria sobre o Espírito. Porque, quando a consciência precipita neste porão da individualidade e passa a viver ali, qual que é a grande preocupação? A preocupação é apenas uma preocupação de manutenção da forma biológica. Agora, como é que nós precisamos entender isto? Se O leão, a cobra, o antílope, a girafa, o elefante, como eles não possuem autoconsciência, não possuem ainda razão, raciocínio, um desejo aprimorado, esta manutenção da forma biológica é mais simples, ela é mais instintiva mesmo, mais automática.
Quando chega no ser humano e um ser humano precipita no porão, ele já tem raciocínio, já tem intelecto, ele já tem desejo. Então, esta vivência, apenas para manter a forma física, ela fica mais sofisticada. O fato de ficar mais sofisticada não significa que é menos inferior, porque aí uma obsessão com o conforto biológico, físico, o monoideísmo, a mente apenas pensa em questões materiais. Então, a mente está totalmente focada naquilo que é palpável, naquilo que pode ser experimentado, nas convenções, e isto aprisiona a consciência e ele esquece que, para além da forma biológica, ele é um Espírito.
E o nosso Espírito também tem sede, também tem fome, também precisa ser nutrido. O Espírito precisa ser nutrido. Então, ainda que o encarnado se seque de tudo que é necessário e superfluo para a manutenção da sua estrutura biológica, desde as questões materiais até relações, conforto, estabilidade, fama, etc., mesmo que ele se seque de tudo isto, ele ainda precisa ser nutrido no Espírito. Então, ele tem fome de transcendência, de contato com Deus, ele tem uma ânsia pelos aspectos divinos da sua individualidade. Por quê?
Porque ele não é só forma biológica, ele é também Espírito. Por isso, a característica principal do Espírito imperfeito é a predominância da matéria sobre o Espírito. E, nós vamos ver, é tão interessante isto, que quando chega na primeira ordem, os Espíritos puros, olha a primeira característica que Kardec escreve, nenhuma influência da matéria. Olha que interessante! Então, no Espírito imperfeito, a matéria predominava. Aqui, no Espírito puro, nenhuma influência ela tem sobre o Espírito. Ou seja, este Espírito já alcançou um tão alto grau de domínio, um tão alto grau de integração com a sua natureza espiritual, que a matéria já não tem mais influência sobre ele.
Então, ele já vive em experiências que nós não somos nem capazes de descrever e sequer de imaginar. Porque, aí, realmente está muito acima da nossa compreensão, da nossa capacidade de projetar, de imaginar do que se trata esta experiência. Mas, é muito interessante isto. Então, a Arca de Noé, com esta simplicidade, que é uma família entrando em uma arca, guardando os animais em bar, tendo um andar de cima, que tem uma janelinha, com esta simplicidade do símbolo, os escritores bíblicos, que estavam inspirados por Espíritos superiores, quando descreveram isto, estavam narrando uma realidade muito profunda.
Porque, a Arca de Noé, na verdade, é a estruturação da nossa casa mental. Só que, aqui, é uma casa móvel, é uma casa barco, é um barco móvel. A nossa estrutura mental é assim. Nós estamos estagiando, ora encarnados, ora no mundo espiritual, estamos em um processo, estamos navegando. E, às vezes, encontramos um mar para vir, experiências desafiadoras, experiências difíceis, com uma dose, às vezes, alta de sofrimento, para que a gente consiga organizar-se, estruturar-se. A gente percebe isto, por exemplo, quando examina a jornada espiritual de Paulo.
Você pega Saulo, os problemas que ele tem, os problemas que ele cria, e a gente vê que ali, embora todo o potencial que ele já trazia, potencial divino, porque os potenciais, para ser Paulo, já estavam dentro do Saulo, estava tudo lá. Mas, ele estava tão apegado às estruturas materiais, às instituições, à vontade de se destacar, de prosperar, atender as expectativas sociais, atender as expectativas da comunidade, da família. Estava a consciência toda impregnada da vida material. E, aí, quando ele se converte, nós vemos uma jornada de alguém que está em busca de autodomínio, de autocontrole, de aprimoramento e de conexão com Deus e com a sua essência espiritual.
Então, a gente encontra um Paulo lá na frente do romance, no momento que vai ser decapitado, dando testemunhos já grandiosos de fé, de esperança no futuro, de firmeza, de coragem, de autocontrole, de serenidade. Então, essa jornada é muito bonita, porque ele percorre essa escala. Ele exatamente sai da sua consciência dos porões da individualidade, vai para o presente e, depois, alcança o andar superior dos altos ideais, dos valores superlativos da espiritualidade e da exemplificação. Então, essa é a experiência de Paulo, que retrata isto aqui.
A proposta da Arca de Noé é que, diante de uma experiência desafiadora, diante de uma aprovação intensa, de uma grande expiação, se nós não organizarmos a nossa casa mental, se ela não estiver estruturada, o dilúvio engole. A experiência nos atropela. Então, você não passa pela experiência, você se afoga. Isto aqui é o interessante. Por isso que os Espíritos dizem assim, não basta sofrer, isso não é o suficiente. Às vezes, nós estamos vivendo uma experiência nessa encarnação que já está se repetindo há 30, 40 vezes.
Nós estamos tendo o mesmo sofrimento. Por quê? Porque a gente não aprende. Você passa pelo dilúvio e, na hora que você está nele, você se afoga. Então, você não passou. Você não foi capaz de construir uma Arca e navegar e sair intacto do outro lado. Então, você não passou na prova. Não passou na prova. É como uma escola. Você vai lá e passou na prova, você passou. Você já está hábil, mesmo que você esqueça, você volta ali na matéria e lembra, você é capaz de passar de novo. Porque você superou aquilo. E, ao superar, você altera a sua natureza íntima e você sobe um degrau na evolução.
Este é o recado do dilúvio. Por isso que Deus ordena a Noé que construa uma Arca. Estruture a sua individualidade, a sua casa mental, para que ele consiga passar. Isto é muito importante, a gente refletir sobre isto, porque nós poderíamos dizer que encarnar é ir para um dilúvio. A encarnação em si, nos seus aspectos gerais, num todo, nós podemos dizer que a encarnação é um dilúvio. Por que ela é um dilúvio? Porque, imaginemos assim, ninguém encarna sozinho. Quando você encarna, um grupo de Espíritos encarna com você.
Por exemplo, quem vai ser seu pai e sua mãe? Quem vai ser sua família? Com quem você vai se unir? No caso daqueles que têm filhos, quem serão os filhos? As pessoas que você vai se encontrar, por exemplo, na sua comunidade religiosa, que você vai fazer um trabalho com elas. Então, há um grupo e você encarna naquele grupo de Espíritos com propostas, com propostas. Mas, vejamos, tem garantias, tem garantia de que todo mundo que encarnou com você, todo mundo vai fazer tudo certinho? Não tem garantia. Não tem garantia nem de que você vai fazer tudo certinho.
Por isso que os completistas são raros. Aqueles que vêm com a programação espiritual e completam a sua programação e retornam ao mundo espiritual, o completista é raro. O comum é a pessoa vir com a programação e executar 5%, 10%, 20%, 30% da programação espiritual. Então, em uma encarnação inteira, muitos retornam ao mundo espiritual e 70% ele não cumpriu. Então, deu errado. Ora, se ele não cumpriu, o que acontece? Ele prejudicou toda uma estrutura do grupo, porque o grupo se estruturou aguardando aquela peça funcionar.
Aí, essa peça não funciona, essa aqui não funciona, essa aqui não funciona. Então, a encarnação apresenta uma dinâmica. Por isso que a programação não se dá em linha reta. Emmanuel diz que toda a existência humana, está lá no capítulo Fuga, do livro Vinha de Luz, toda a existência humana é estruturada em preciosos cálculos de probabilidade. Então, você faz a programação e fala há uma probabilidade de fulano encontrar ciclano e deles construírem isso e isso. Probabilidade, está programado, mas é provável que pode não acontecer.
E se não acontecer? Um vai para cá, vai para cá, aí aqui já tem uma probabilidade. Então, é um cálculo complexo de variáveis. Limitado, mas complexo. Então, a pessoa se movimenta mais ou menos. Por isso que a gente está sempre trombando nas pessoas. Você encontra a pessoa e fala, nossa, mas eu já conheci isso aqui, conhecido daqui. Você vê que a gente está mesmo preso num grupo, numa estrutura, numa rede, um network de pessoas, de contatos. E você nunca é que sai muito daquele network, daquela rede. Usando aí uma linguagem de computação.
Você não sai muito. Como isso é uma realidade, encarnar é uma grande experiência. Por quê? Porque não há garantia. E você tem que estar preparado para os imprevistos. Você tem que estar preparado para aquele que vai desertar de um compromisso, para aquele outro que não vai dar conta, para aquilo que vai dar errado, para a reestruturação. É um dilúvio. Então, quem vem para esse dilúvio, que é a encarnação, e não estrutura a sua casa mental, ele se afoga, Emmanuel tem uma expressão, ele diz assim, se afoga na carne. Olha isso, entre aspas, se afoga na carne.
Porque a experiência material da encarnação é esse mar, esse mar revolto. Se você não tem a arca, você afunda, afoga. Afogar em que sentido? No sentido de que você vai ser conduzido pelas circunstâncias e não o contrário. As circunstâncias vão te moldar e vão te levar e você é um barco à deriva. Uma onda vai para cá, te joga para lá, você bate, aí vem o vento, te joga para lá, você bate aqui e você vai à deriva. Por quê? Porque você não está com o GPS, você não está alinhado, você não tem um plano de navegação, você não está estruturado, você vai à deriva.
Muitos, muitos, uma multidão de seres encarnados regressam no mundo espiritual como barcos à deriva. Se estraçalhar, bater, mas, as experiências que eles viveram não tem uma unidade. É um mosaico de loucura, de delírio, de desejo, de pulsão e aí, não tem uma trajetória. Não tem uma trajetória reta, não estou dizendo isso. Não tem puritanismo aqui. A trajetória pode ser corrigida. Você veio para cá, não deu, aí você vai, vai para cá. Você vai se adaptando, porque Deus está te ajudando, Deus está no comando. A arca foi conduzida.
De quando em quando nós vamos falar sobre isso? Noé soltava lá a pomba para ver se tinha terra. Então, a arca está sendo conduzida. E, não é fácil, não. Às vezes, ela passa código e você navega. Mas, você não está à deriva. Você está em uma trajetória. Para isso acontecer, a casa mental tem que estar estruturada. Tem que estar estruturada. Mas, aquele que se permite viver no porão, lá com os animais, com os casais de animais, ele tem uma vida como? Uma vida guiada por impulso. Guiada por impulso. Não é assim. Você observa lá um leão, uma leoa na floresta.
Ela está lá deitada, deu fome, ela levanta. Aí, ela vai ver o que tem. O que tem aqui? Aí, ela vai explorar. Deu um frio, secou, aí eles migram. Então, é as circunstâncias que conduzem. As circunstâncias que conduzem. Então, para aquela consciência que desceu para o porão da individualidade, ele é conduzido pelas circunstâncias. Não é uma evolução consciente. E, por que nós estamos estudando aqui Gênesis? Por que nós estamos entendendo esse texto? Por que nós estamos aqui fazendo isso? Para incorporar elementos do Evangelho, nossa compreensão do Evangelho, para que a gente comece uma evolução consciente.
Em que eu tenho consciência dos meus instintos, eu tenho consciência dos meus desejos, eu tenho consciência das minhas imperfeições, das minhas contradições, das minhas fraturas, eu tenho consciência disso. Eu tenho consciência, também, da espiritualidade, dos meus potenciais divinos, e eu vou administrando isso com todas as minhas forças, buscando estabelecer uma conexão com Deus, com a espiritualidade superior, para que eu faça o melhor que está ao meu alcance, mas caminhando com direção, com direção, segundo uma rota.
Por isso que Jesus é guia e é modelo, porque Ele dá esses parâmetros, essa nossa rota, que a gente vai buscando alcançar. É o GPS da arca, que vai dizendo a direção. E, imaginem, cada arca tem uma trajetória, cada consciência, cada casa mental tem uma trajetória. Por isso, nós não temos um padrãozinho de trajetória para impor para os outros. É que o que funcionou para mim, pode não funcionar para o outro. Mas, os valores, os princípios morais, esses são universais. Esses se aplicam a todos nós. O caminho de um e de outro é que varia.
É cada qual vai viver experiências, desafios, provações, expiações. Então, um está vivendo um problema na área da saúde, outro está vivendo um problema financeiro, outro está vivendo um problema no relacionamento, outro está vivendo um problema no trabalho, etc. Cada um está ali na sua luta, no seu aprendizado. Mas, os valores morais e o padrão que é o Cristo é universal para todos nós. É o GPS. Compete a cada um posicionar a sua arca, estruturar a sua arca para que consiga nesse dilúvio que é a encarnação, que é o grande dilúvio, e nos mini dilúvios, que são as fases da nossa vida que a gente passa, você passa por fases tormentosas, que são esses pequenos dilúvios dentro do dilúvio, você consiga navegar e consiga um aproveitamento.
Então, nesse episódio, a gente ficou aqui no porão da individualidade. Quem quiser aprofundar um pouco mais, eu aconselho muito mesmo a leitura dessa parte do livro No Mundo Maior. É só você pegar no índice do livro o capítulo A Casa Mental. Dá uma lida, dá uma lida nesse capítulo do livro No Mundo Maior, de André Luiz, psicografia de Francisco Cântico Xavier, leia o texto da arca, acompanhe os episódios anteriores, porque aí vai já se familiarizando com esses conceitos, com essa ideia, com esses elementos. E, no próximo episódio, nós vamos falar do segundo andar da arca, que é onde estava Noé e toda a sua família.
Vamos aproveitar também o que o Calderaro fala sobre esse andar da individualidade. Então, até o próximo episódio! Existe uma parte no nosso psiquismo que opera sem que nós estejamos conscientes de que essa parte está operando. Isso é que é o mais relevante. Então, vamos dizer assim, tem um leão, tem uma pantera…
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.

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