Neste episódio do estudo do Velho Testamento, Haroldo Dutra Dias dá continuidade à análise do livro de Gênesis, com foco no Capítulo 1. O estudo se aprofunda na simbologia da “água” do Gênesis, que representa o fluido cósmico universal e a onipresença divina, e explora a natureza de Deus à luz da Doutrina Espírita, utilizando como base um texto de Allan Kardec da Revista Espírita de maio de 1866, intitulado “Deus está em toda parte”.
O que é estudado neste episódio
- A simbologia da água no Gênesis: A água, presente “em cima” e “embaixo”, é interpretada como o fluido cósmico universal, símbolo da onipresença de Deus, que permeia toda a criação.
- A onipresença e onipotência de Deus: O estudo reitera que tudo foi criado por Deus e está imerso em Sua presença, onisciência e poder criador. Não há nada que não tenha sido feito por Ele, e Ele tem o poder de desfazer, recriar e transformar a qualquer momento.
- A concepção humana de Deus: Kardec questiona a visão limitada e antropomórfica de Deus, muitas vezes imaginado como um ser finito e com características humanas. Ele argumenta que, sendo Deus infinito, não pode ser circunscrito a nenhuma forma ou limite.
- O fluido cósmico universal como veículo do pensamento divino: É apresentada a ideia de que o fluido cósmico, que permeia o universo, é o veículo do pensamento, da vontade e do amor de Deus. Assim, cada partícula da criação está saturada da sabedoria e do amor divinos.
- A impossibilidade de “fugir” de Deus: A onipresença de Deus implica que não há como se afastar d’Ele. Estamos constantemente em Sua presença, e nossos pensamentos e ações repercutem n’Ele. A distância não é física, mas sim de percepção e sintonia vibratória.
- A visão de Deus e a purificação da alma: Kardec aborda a questão de “ver a Deus”. Ele explica que a visão de Deus não é física, mas espiritual, e que só é possível para as almas mais depuradas. As imperfeições morais são como “véus” que obscurecem a percepção divina, e a purificação da alma, através das encarnações, remove esses véus.
- A limitação da linguagem humana para descrever Deus: A linguagem e a inteligência humanas são insuficientes para descrever a plenitude de Deus, que transcende qualquer comparação ou forma conhecida.
Reflexões
- A compreensão da onipresença de Deus transforma nossa relação com o Criador, revelando que não há “distância” entre nós e Ele, mas sim uma questão de percepção e sintonia vibratória.
- As imperfeições morais atuam como “véus” que impedem a alma de perceber a Deus em Sua plenitude, destacando a importância da purificação e elevação espiritual para uma conexão mais profunda com o Divino.
- A ideia de que “Deus está em toda parte” é consoladora para o humilde e o homem de bem, mas “terrível para o mau e para o orgulhoso”, pois revela a impossibilidade de escapar da ação e do olhar divino.
Ler transcrição do episódio
Os amigos, temos aqui um recado muito importante, eu vou passar para a Sheila, que é um encontro que vai ocorrer em Goiás, em Goiânia, dia 25 de julho, e a Sheila vai divulgar um pouquinho. Senta aqui, Sheila. Pessoal, boa noite. Eu queria divulgar para vocês o primeiro encontro de evangelização de bebês que nós vamos fazer. Vai ser em Goiânia, 24, 25 e 26 de julho, último final de semana de julho. É um encontro realizado pelo SER, pela FEGO e pela FERGES. E nós vamos ter nesses dois dias e meio, sexta, sábado e domingo, várias oficinas, minicursos, palestras.
Vamos ter um seminário de manhã com o Haroldo e com essas outras regiões do SER e o pessoal de Goiânia. À noite, nós vamos ter um seminário literomusical, mas vai ser o foco, vão ser os evangelizadores, não só os evangelizadores de bebês, mas os evangelizadores de uma forma geral. E as inscrições vocês podem acessar no www.fego.org.br Então, aguardamos vocês lá. Muito obrigada. Até mais. Retomando o nosso estudo do Gênesis, hoje, a gente gostaria de dar uma finalização naquela reflexão que nós tínhamos feito sobre o fluido cósmico, que, de certo modo, simbolizava a água do Gênesis, do capítulo 1 de Gênesis.
Essa água que está em cima, que está embaixo e que, segundo uma fala de Jesus no livro de Boa Nova, é o símbolo perfeito de Deus, porque a água está em toda parte, está em todos os corpos, está em cima, nas nuvens, está embaixo, na terra, que revela essa onipresença de Deus. Nós encontramos um texto que, hoje, nós vamos fazer uma leitura comentada desse texto, que é um texto sensacional do Kardec, está na Revista Espírita de 1866, no mês de maio de 1866. E, Kardec deu o título assim, Deus está em toda parte. Então, a gente vai lendo os parágrafos e fazendo alguns comentários relacionando com o Gênesis.
A gente só gostaria de chamar a atenção que, aqui, Kardec está falando em uma linguagem que é uma linguagem mais acessível à nossa mentalidade de hoje. Nós, hoje, culturalmente, somos mais sensíveis a esse tipo de linguagem. Mas, há 3.500 anos atrás, as pessoas eram sensíveis a outro tipo de linguagem, a essa linguagem do Gênesis. E, o que o Gênesis está dizendo no primeiro capítulo é exatamente isso aqui que Kardec vai dizer, só que, em uma outra simbologia, utilizando metáforas. O que o capítulo 1 de Gênesis quer dizer é que, primeiro, tudo foi criado por Deus.
Se tudo foi criado por Ele, a primeira conclusão que a gente chega é que Ele pode desfazer e renovar tudo. Ele pode, como Criador, Ele recria, transforma, renova, modifica a hora que Ele quiser. Esse é um poder que é inerente a Ele. E, pela narrativa do Gênesis, não há nada, nada, nada. O Gênesis tem um cuidado de ficar falando os elementos que eles enxergavam, as estrelas, o sol, a lua, os animais, para dizer que nada, nada, não tem nada que não tenha sido criado por Deus, não tem nada que não esteja mergulhado na sua presença, na sua onisciência e no seu poder criador.
Essa é a mensagem central. Porque a gente corre o risco, às vezes, de fazer uma leitura puramente intelectual do texto e escapar esses aspectos do sentimento que o texto quer passar. E, o texto quer passar que Deus é onipotente, não há nada impossível para Deus, nada. Tudo Ele pode. Então, Kardec começa assim Como é que Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, pode me excluir-se em detalhes ínfimos, preocupar-se com os menores atos e os menores pensamentos de cada indivíduo? Tal é a pergunta que muitas vezes se faz.
Kardec já começa com a pergunta. E, a gente vai ver que é uma pergunta que angustia muitos Espíritas, muitos católicos, muitos evangélicos, muitos budistas, muçulmanos, mas, aqui, a gente vai focar no público espírita, que é o nosso público, que é a nossa família. Muitos Espíritas se angustiam com isso. Como é que Deus pode se preocupar com o copo de água que eu tomei? Pode? Ele se preocupa com isso? Ele sabe disso? Aí, Kardec dá a sequência. Em seu estado atual de inferioridade, só dificilmente os homens podem compreender Deus infinito, porque eles próprios são finitos, razão porque o imaginam finito e limitado como eles mesmos.
Representando-o como um ser circunscrito, dele fazem uma imagem à sua semelhança. Pintando-o com traços humanos, nossos quadros não contribuem pouco para alimentar este erro no Espírito das Massas. Contribui muito para alimentar este erro, que nele mais adoram a forma do que o pensamento. A gente adora mais a forma de Deus do que o pensamento. É para o maior número um soberano poderoso sobre um trono inacessível, perdido na imensidade dos céus e, porque suas faculdades e percepções são restritas, não compreendem que Deus possa ou haja por bem intervir diretamente nas menores coisas.
Olha que coisa curiosa! Eu tenho duas mãos. O alcance das minhas mãos são limitados. O alcance dos meus pés são limitados. Eu sou um ser circunscrito, tenho dois olhos. Eu só enxergo uma faixa de frequência e uma distância. Eu só escuto uma faixa de frequência e uma distância, até uma certa distância. Eu não consigo, agora, ouvir uma música que está tocando em três bairros distantes daqui. Então, nós somos seres finitos. O que é mais importante é que não há nenhuma criatura, nem que ela seja um Cristo, que seja infinito.
Toda criatura é finita. Pode ser poderosíssima, mas ela é finita. Como que a gente imagina Deus? Pode perguntar para qualquer espírita. Como é que ele imagina Deus? Um homem de barba, quase que um Papai Noel, em uma esfera muito superior do plano espiritual. Esta é a nossa imagem de Deus. E, qualquer quadro que você vai ver, qualquer obra de arte, sempre representa Deus com uma mão, tocando o dedo, abraçando. É um homem velho, mas é um homem. O que o Kardec vai dizer aqui? Se um dos atributos de Deus – está lá no Livro dos Espíritos, questão 13 – é ser infinito, então, está tudo errado.
Está tudo errado. Porque, como é que um ser infinito pode ser representado de uma forma? Não interessa se você está representando Deus como um triângulo, um quadrado, um círculo, um corpo humano. Não importa. Como é que uma coisa infinita pode ser circunscrita? É da natureza do infinito não caber em nada. O infinito não cabe em nada e não pode ser circunscrito. Significa que não há limite para a percepção de Deus. Então, Deus não faz esforço nenhum para perceber tudo. Ele não precisa fazer esforço para perceber tudo da criação.
Nenhum esforço. Este é o natural dEle. Então, já começa a mudar. Então, a gente costuma dizer – é muito curioso, porque você ouve um Stephen Hawking, um grande cientista, um grande biólogo, um grande ateu dizendo assim – não, eu não acredito em Deus. O que é que ele não acredita? Ele não acredita no Deus que foi ensinado na escola dominical. Aquele homem no trono, julgando, apontando o dedo, limitado, cheio de imperfeição. Neste Deus, nós também não acreditamos. Neste Deus, nós também não acreditamos. A questão é como é que nós temos que pensar a Deus com os elementos que a doutrina espírita trouxe?
Aí, Kardec vai nos ajudar. Ele diz assim Na incapacidade em que se acha o homem de compreender a essência mesma da divindade, desta não pode fazer, senão uma ideia aproximada, auxiliado por comparações necessariamente muito imperfeitas, mas que podem, ao menos, mostrar-lhe a possibilidade do que, à primeira vista, lhe parece impossível. Mas, a gente só pode comparar. Suponhamos – Kardec vai trazer o elemento agora – Suponhamos um fluido bastante sutil para penetrar todos os corpos. É evidente que cada molécula deste fluido produzirá sobre cada molécula da matéria com a qual está em contato uma ação idêntica à que produziria a totalidade do fluido.
É o que a química nos mostra a cada passo. Cada átomo do fluido cósmico exerce uma influência em cada átomo do nosso corpo que é a mesma influência que todo o fluido exerce no Universo inteiro. É isto que Kardec está dizendo, porque este é um princípio da química. Sendo ininteligente, se este fluido não tiver inteligência, este fluido age mecanicamente apenas pelas forças materiais. Correto? Mas, se supusermos este fluido dotado de inteligência, de faculdades perceptivas e sensitivas, ele agirá, não mais cegamente, mas com discernimento, com vontade e liberdade, verá, ouvirá e sentirá.
O Kardec vai explicar que isto é só uma comparação, só uma metáfora. Mas, o fluido cósmico, toda a criação mergulhada no fluido cósmico e Deus no fluido cósmico. Então, o fluido cósmico discerne, tem vontade, tem liberdade, vê, ouve, sente. Então, cada partícula subatômica do meu corpo físico e do meu corpo espiritual não escapa à vontade, à percepção e à ação de Deus. Aí, ele continua. As propriedades do fluido perispiritual, dele pode nos dar uma ideia. Então, vamos analisar o nosso perispírito. Ele não é inteligente por si mesmo.
Claro, o fluido perispiritual não é inteligente por si mesmo, desde que é matéria, mas é o veículo do pensamento, das sensações e das percepções do Espírito. É em consequência da sutileza deste fluido que os Espíritos penetram em toda parte, perscrutam os nossos pensamentos, veem e agem à distância. É a este fluido, chegado a um certo grau de depuração, que os Espíritos superiores devem o dom da ubiquidade. Então, em mais de um lugar ao mesmo tempo. Basta um raio do seu pensamento dirigido para diversos pontos para que eles possam, aí, manifestar sua presença simultaneamente.
A extensão desta faculdade está subordinada ao grau de elevação e depuração do Espírito. Então, quanto mais elevado e mais depurado o Espírito, ele pode estar em diversos lugares ao mesmo tempo, basta ele irradiar, o fluido dele se espraia e ele vê, ouve, sente, percebe, age, atua. Ele é um Espírito. É um Espírito. Mas, sendo os Espíritos, por mais elevados que sejam, criaturas limitadas em suas faculdades, seu poder e a extensão de suas percepções não poderiam, sob esse aspecto, aproximar-se de Deus. Não pode. Não tem como.
Nem o Cristo, se comparar com a gente, é algo extraordinariamente maior. Mas, comparado a Deus, é nada. Contudo, eles nos podem servir de ponto de comparação. O que o Espírito não pode realizar, senão num limite restrito, Deus, que é infinito, o realiza em proporções infinitas. Há, ainda, esta diferença. A ação dos Espíritos é momentânea e subordinada às circunstâncias. Por mais superior que Ele seja, Ele age naquele momento. Depois, Ele age em outro lugar, não? Enquanto, a ação de Deus é permanente. O pensamento do Espírito só abarca um tempo e um espaço circunscritos, ao passo que o pensamento de Deus abarca o Universo e a Eternidade.
Numa palavra, entre os Espíritos e Deus, há a distância do finito ao infinito. Não importa o grau de elevação do Espírito. Ah, mas Ele é um Cristo planetário. Ele é um Cristo do planeta. Ah, Ele é um Cristo da galáxia. Ah, mas Ele tem bilhões de galáxias. Ah, mas Ele é um Cristo de todas as galáxias do nosso Universo. Ah, mas Ele tem mais de um Universo. O fluido perispiritual não é o pensamento do Espírito, mas o agente e o intermediário desse pensamento. Como é o fluido que o transmite? Dele está, de certo modo, impregnado, claro, porque o ar transmite o som.
Então, o ar está impregnado das ondas sonoras. Se o fluido perispiritual transmite o pensamento do Espírito, ele está impregnado do pensamento do Espírito. Então, adivinha se o fluido cósmico é o veículo de transmissão do pensamento de Deus? Ele está impregnado de do pensamento e do amor de Deus. É o que ele vai dizer. E, na impossibilidade em que nos achamos de isolar o pensamento, nós não temos como fazer isso, isolar o pensamento, ele não parece fazer, senão um com o fluido. O pensamento e o fluido se confundem.
Assim como o som parece ser um com o ar. Não é? De sorte que podemos, a bem dizer, materializá-lo. Então, Kardec está fazendo a comparação, está ajudando a gente. Do mesmo modo que dizemos que o ar se torna sonoro, poderíamos, tomando o efeito pela causa, dizer que o fluido torna-se inteligente. Kardec não está dizendo que o fluido cósmico é inteligente, mas como ele é o veículo do pensamento de Deus, ele se torna inteligente, porque ele é o veículo. Eu não consigo separar o pensamento do fluido. Seja ou não seja assim o pensamento de Deus, Kardec não está fechando a questão, não está dizendo que é assim.
Ele está falando assim, seja ou não seja assim, isto é, quer ele, Deus, haja diretamente ou por intermédio de um fluido, para facilitar a nossa compreensão, vamos representar este pensamento sob a forma concreta de um fluido inteligente enchendo o universo infinito. Então, penetrando todas as partes da criação, a natureza inteira está mergulhada no fluido divino. Tudo está submetido à sua ação inteligente, à sua previdência, à sua solicitude. A previdência e a solicitude é amor. Nenhum ser, por mais ínfimo que seja, que dele não esteja, de certo modo, saturado.
Parada aqui. Dificilmente, a gente vê espírita refletindo sobre isto. Deus, agora, deixou de ser um papai noel em um trono em uma esfera superior e ele passou a ser um pensamento e um amor que circulam em um fluido. Ele não tem forma, ele não tem limite, só que toda a natureza está mergulhada neste fluido, toda a criação está mergulhada neste fluido. E, como este fluido transmite o pensamento e o amor de Deus, este fluido é inteligente e é amoroso, porque ele fica impregnado do amor e da sabedoria de Deus. Então, cada célula do nosso corpo físico está saturada de fluido cósmico.
Toda a sabedoria de Deus toda a sabedoria de Deus está em cada célula do nosso corpo. Todo o amor de Deus, toda a previdência de Deus, toda a providência de Deus, toda a visão de Deus está acompanhando cada coisa que acontece em cada célula do nosso corpo físico, em cada célula do nosso corpo espiritual, em cada ínfimo do universo infinito. Era esta imagem que eu estava pensando, Haroldo. Você pensou assim, o nosso organismo, o nosso corpo como um mundo, quando a gente respira, a gente vai impregnar de oxigênio todas as células que vai para o estômago, o pulmão, o coração e que vai ali envolver todo o nosso corpo, que vai no fluxo e no refluxo.
E, aqui, ainda é melhor, porque não é nenhum ar que está circulando. Aqui, a ideia é de um peixe mergulhado no mar. Porque ele está por fora e, por dentro, ele está todo dentro. A questão que o Kardec está dizendo aqui é que não há nada fora. Não há fora. A criação está dentro. Ela está mergulhada. Ele vai continuar. Assim, estamos constantemente em presença da divindade. Não há uma só de nossas ações que possamos subtrair ao seu olhar. Nosso pensamento está em contato com o seu pensamento e é com razão que se diz que Deus lê nos mais profundos recônditos do nosso coração.
Estamos nele como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo. Para entender sua solicitude sobre as menores criaturas, ele não tem necessidade de mergulhar seu olhar do alto da imensidade, nem deixar sua morada de glória, pois essa morada está em toda a parte. Para serem ouvidas por ele, nossas preças não precisam transpor o espaço, nem serem ditas com voz retumbante, porque, incessantemente penetrados por ele, nossos pensamentos nele repercutem. A imagem de um fluido inteligente universal, evidentemente, não passa de uma comparação.
Então, Kardec está reconhecendo humildemente que isso aqui é uma explicação de Deus, é uma ideia, é muito mais do que isso, mas já dá uma ideia melhor do que um Deus sentado em um troninho. Já é melhor, não é completa, mas é melhor. A imagem de um fluido inteligente universal, evidentemente, não passa de uma comparação, mais própria a dar uma ideia mais justa de Deus do que os quadros que o representam sobre a figura de um velho, de longas barbas envolto em um manto. Não podemos tomar nossos pontos de comparação, senão nas coisas que conhecemos, porque isso aqui é uma imagem do que a gente consegue imaginar, porque é muito superior a isso.
É por isso que dizemos, diariamente, o olho de Deus, a mão de Deus, a voz de Deus, o sopro de Deus, a face de Deus, na infância da humanidade, o homem toma estas comparações ao pé da letra. Mais tarde, seu Espírito, mais apto a apreender as abstrações, espiritualiza as ideias materiais. A de um fluido universal inteligente, penetrando tudo, como seria o fluido luminoso, o fluido calórico, o fluido elétrico ou quaisquer outros, se fossem inteligentes, tem o objetivo de fazer compreender a possibilidade para Deus de estar em toda parte.
De ocupar-se de tudo, de velar pelo pé de erva como pelos mundos. Entre ele e nós, a distância foi suprimida. Não tem distância. Não tem distância. Como? Da onde começou a vir esta imagem? O faraó que matou a imagem, quando ele apelava que o Deus é único, o que ele colocava era de um sol, então a representatividade era de um sol e os raios tinham uma mãozinha na ponta de cada raio. Mas, o que ele colocava era que Deus era como se fosse um sol que irradiava e que ia em todos os lugares. Exato. É, e isto há quantos mil anos antes de Jesus.
Exato. E, aí, eu fico pensando, será que esta imagem de Deus, o homem barbudo, veio e foi depois de Jesus? Porque na Grécia também tinha o Senhor Jesus. Não, é muito antes. Na verdade, na história das religiões, primeiro, Deus é associado a elementos da natureza. Então, o relâmpago, o fogo, o mar, a terra, o vento, tanto que na mitologia grega todos os elementos da natureza são um Deus. Então, você tem Poseidon, Deus do mar, Zeus, é dos raios, o relâmpago. Então, os elementos da natureza são divinizados até que se progride para a ideia de um Deus único e, aí, a gente fica tentando uma imagem para representá-lo.
E, aí, chega num avanço mais para frente em que o homem se acreditando ser o mais perfeito da criação, como, de fato, o é. A figura humana é o rei da criação, é a figura de Adão, o rei da criação, aí começa a representar Deus como um homem, que é o que, de mais sofisticado, ele dá conta. Agora, aqui, o que Kardec está fazendo é espiritualizar, tirar a forma, desmaterializar completamente. E, aí, ele fala compreendendo sua presença e este pensamento, quando a ele nos dirigimos, aumenta a nossa confiança, porque não podemos dizer mais que Deus esteja muito longe e seja muito grande para se ocupar de nós.
Mas, este pensamento, tão consolador para o humilde, para o homem de bem, é terrível para o mau e para o orgulhoso, endurecidos, que a ele esperavam subtrair-se em favor da distância e que, doravante, sentir-se sobre o domínio de seu poder. Então, a ideia, aqui, é de um peixe mesmo no mar. Eu acho que é melhor com o peixe no mar, acho que como se fosse uma esponja, quando se coloca na água. Exatamente, a esponja, a água entra dentro dela, ela está dentro da água, ela está saturada, somos nós. Para o princípio da soberana inteligência, nada impede admitir um centro de ação, um foco principal irradiante sem cessar, inundando o universo com seus efluvos, como o Sol com a sua luz.
Então, Deus é algo, Ele é um foco irradiador, Ele é o centro do universo. Ok, mas onde está este foco? É provável que não esteja mais fixado em um ponto determinado do que a sua ação. Se simples Espíritos têm o dom da ubiquidade, em Deus, esta faculdade não deve ter limites. Enchendo Deus o universo, poder-se-ia admitir a título de hipótese que este foco não necessita transportar-se e que se forme em todos os pontos onde sua soberana vontade julgue conveniente produzir-se. Então, Ele irradia onde Ele quiser. Donde se poderia dizer que está em toda parte e em parte alguma.
Diante destes problemas insondáveis, nossa razão deve humilhar-se. É indubitável. Deus existe. É indubitável. É infinitamente justo e bom. É sua essência. Essência de Deus é ser infinitamente justo e infinitamente bom. Sua solicitude se estende a tudo. Nós o compreendemos agora. Incessantemente em contato com Ele, podemos orar a Ele com a certeza de sermos ouvidos. Ele não pode querer senão o nosso bem. Razão por que devemos confiar nEle. Eis o essencial Para o resto, esperamos que sejamos dignos de o compreender. Porque nós não temos como compreender.
Depois, tem uma outra parte que é muito interessante e que eu vou ler também para a gente finalizar. Na sequência, Kardec escreve sobre a visão de Deus. Sobre ver a Deus. É possível ver Deus? E, aí, ele começa assim Se Deus está em toda parte, por que não o vemos? Veloemos quando deixarmos a Terra? Também são perguntas que se formulam todos os dias. É incrível que pessoas muito inteligentes fazem perguntas tolas. Por exemplo, Neil Armstrong, quando pisou na Lua, falou assim, não vi Deus por aqui. Mas, ele imaginava que Deus morava na Lua?
Ele realmente imaginava que Deus estava na Lua? Um astronauta, um homem tão inteligente, estudou tanto e, quando se refere a Deus, as pessoas têm ideias tão acanhadas, tão tolas, tão infantis. Aí, Kardec fala assim, a primeira é fácil de responder. Se Deus está em toda parte, por que não o vemos? A primeira é fácil de responder, por serem limitadas as percepções dos nossos órgãos visuais, elas o tornam inaptos à visão de certas coisas, mesmo materiais. Mesmo materiais. Então, a gente precisa de ultrassom, de raio-x.
Alguns fluidos nos forgem totalmente a visão e aos instrumentos de análise. Está vendo, aí, a matéria e a energia escura. Não é possível medir, não é possível fazer nada. Mas, é ela que controla a expansão do Universo. Vemos os efeitos da peste, mas não vemos o fluido que a transporta. Vemos os corpos em movimento, sob a influência da força da gravitação, mas não vemos essa força. Quem vê a gravidade? Os nossos órgãos materiais não podem perceber as coisas de essência espiritual. Unicamente, com a visão espiritual é que podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial.
Somente a nossa alma, portanto, pode ter a percepção de Deus. Dá-se a que ela o veja logo após a morte? Morreu e viu Deus? A esse respeito, só as comunicações de Alê-Entumo nos podem instruir. Vamos ouvir quem já morreu. Por elas, sabemos que a visão de Deus constitui um privilégio das mais depuradas almas e que bem poucas, ao deixarem o envoltório terrestre, se encontram no grau de desmaterialização necessária a tal efeito. Algumas comparações vulgares o tornarão facilmente compreensível. Uma pessoa que se acha no fundo de um vale envolvida por densa bruma não vê o sol.
Entretanto, pela luz difusa, percebe que está fazendo sol. Se se dispõe a subir a montanha, à medida que for acendendo, o nevoeiro se irá tornando mais claro, a luz cada vez mais viva. Contudo, ainda não verá o sol. Quando começa a percebê-la, ainda está velado, pois basta o mais leve vapor para enfraquecer o seu brilho. Só depois que se haja elevado acima da camada brumosa, chegada a um ponto onde o ar esteja perfeitamente límpido, ela o contemplará em todo o seu esplendor. Dá-se outro tanto com quem tivesse a cabeça envolta por vários véus.
A princípio não vê absolutamente nada. A cada véu que se retira, distingue um clarão cada vez mais nítido. Apenas quando desaparece o último véu é que percebe as coisas claramente. Também se dá o mesmo com o licor carregado de matérias estranhas. De começo fica turvo. A cada destilação, sua transparência aumenta, até que, estando completamente depurado, adquire perfeita limpidez e não apresenta nenhum obstáculo à visão. Aqui é o estudo do Levítico todo, a história de purificação da alma. Assim é com a alma. O envoltório perispirítico, conquanto nos seja invisível e impalpável, é, com relação a ela, com relação a alma, verdadeira matéria.
Ainda grosseira demais para certas percepções. Ela, porém, se espiritualiza à medida que a alma se eleva em moralidade. As imperfeições da alma são como véus que obscurecem a sua visão. Cada imperfeição de que ela se desfaz é um véu a menos. Todavia, só depois de se haver depurado completamente é que goza a plenitude das suas faculdades. Sendo Deus a essência divina, por excelência, unicamente os Espíritos que atingiram o mais alto grau de desmaterialização o podem perceber em todo o seu esplendor. Somente os Espíritos que se desmaterializaram quase que completamente podem ver Deus em todo o seu esplendor.
Pelo fato de não o verem, não se segue que os Espíritos imperfeitos estejam mais distantes deles que os outros. Não estão mais distantes. Ninguém está distante de Deus. A questão não é de distância, é a questão de percepção. Nós estamos tão próximos de Deus quanto os Cristos. A questão é que eles percebem mais, nós percebemos menos. Esses Espíritos, como os demais, como todos os seres da natureza, se encontram mergulhados no fluido divino, do mesmo modo que nós o estamos na luz. Os cegos também estão mergulhados na luz e, contudo, não a veem.
As imperfeições são véus que ocultam Deus à visão dos Espíritos inferiores. Quando o nevoeiro se dissipar, vê o luão resplandecer. Para isso, não lhes é preciso subir nem procurá-lo nas profundezas do infinito. Desimpedida a visão espiritual das imperfeições morais que o obscureciam, eles o verão de todo lugar onde se achem, mesmo da Terra, porque Deus está em toda parte. O Espírito só se depura com o tempo, sendo as diversas encarnações o alambique, em cujo fundo deixa de cada vez algumas impurezas. Algumas impurezas.
Com o abandonar o seu invólucro corpóreo, os Espíritos não se despojam instantaneamente de suas imperfeições. Razão porque, depois da morte, não veem a Deus mais do que não o viam quando vivos, mas, à medida que se depuram, têm dele uma intuição mais clara. Não o veem, mas compreendem-no melhor. A luz é menos difusa. Quando, pois, alguns Espíritos dizem que Deus lhes proíbe respondam a uma dada pergunta, não é que Deus lhes apareça ou dirija a palavra para lhes ordenar ou proibir isto ou aquilo. Não. Eles, porém, os sentem, recebem os efluvios do seu pensamento, como nos sucede com relação aos Espíritos que nos envolvem em seus fluidos, embora não os vejamos.
Nenhum homem, consequentemente, pode ver a Deus com os olhos da carne. Se esta graça fosse concedida a alguns, só o seria no estado de êxtase, quando a alma se acha tão desprendida dos laços da matéria que torna possível o fato durante a encarnação. Tal privilégio, aliás, exclusivamente pertenceria a almas de eleição, encarnadas em missão e não almas em expiação. Mas, como os Espíritos da mais elevada categoria refugem de ofuscante brilho, pode dar-se que Espíritos menos elevados, encarnados ou desencarnados, maravilhados com o esplendor de que aqueles se mostram cercados, supõem estar vendo o próprio Deus.
É como quem vê o ministro e o toma pelo seu soberano. Sob que aparência se apresenta Deus aos que se tornaram dignos de vê-lo? Será sob uma forma qualquer? Sob uma figura humana? Ou com um foco resplandente de luz? A linguagem humana é impotente para dizê-lo, porque não existe para nós nenhum ponto de comparação capaz de nos facultar uma ideia de tal coisa. Somos quais cegos de nascença a quem procurassem inutilmente fazer compreendessem o brilho do sol? Não dá para explicar. A nossa linguagem é limitada pelas nossas necessidades e pelos círculos das nossas ideias.
A dos selvagens não poderia descrever as maravilhas da civilização. A dos povos mais civilizados é extremamente pobre para descrever os esplendores dos céus. A nossa inteligência é muito restrita para os compreender e a nossa vista, por muito fraca, ficaria deslumbrada. Então, está aí o texto de Kardec, que a gente queria deixar para reflexão, que abre para todos nós, Espíritos, para todos nós, religiosos, uma nova perspectiva sobre Deus. E qual a implicação que tem isso? A implicação é que não é que Deus está aqui, não.
É eu que estou nele. Então, Ele está aqui agora, está vendo, está ouvindo, está percebendo, sabe o que eu estou pensando. A gente percebe assim, quão recalcitrante a gente é de querer voltar as costas para Deus. Não tem jeito de fugir dEle. Então, eu vou fugir de Deus, vou sair daqui e vou para lá. Ele está tão aqui quanto lá. Fugir para onde? Vai fugir para onde? Isso vai mudar a nossa relação com Deus, porque não tem mais alto, baixo. Existe o que? Deus está no céu. Mas, que céu? No céu da vibração. Porque não é um céu-lugar.
É um céu-elevação. Então, se eu estou tomado aqui de ódio, aí eu estou me afastando de Deus mesmo. Eu estou fugindo dEle. Por quê? Porque eu estou emitindo, estou vibrando uma coisa, estou envolvido em um tipo de sentimento que não condiz com Deus. Então, na verdade, é como se eu fosse um marreco que você mergulha no lago, você mergulha o marreco e ele não olha. Porque a pena dEle é impermeável a água. Então, quando a gente está com ódio, com medo, com todos os sentimentos contrários ao amor e à sabedoria, a gente se impermeabiliza e para de sentir Deus.
Deus continua agindo na gente, isso para Ele não afeta nada. Nós não temos poder nenhum de fugir da influência de Deus. Nenhum. Mas, isso nos prejudica, porque, como diz aquele poema do Chico, não há infortúnio maior do que perder a fé e continuar vivendo. Perder a fé e continuar vivendo.
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.
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