Neste episódio do estudo do Velho Testamento à luz da Doutrina Espírita, Haroldo Dutra Dias aprofunda a análise das genealogias bíblicas, focando no capítulo 5 do livro de Gênesis e fazendo um paralelo com a genealogia de Jesus apresentada no capítulo 1 do Evangelho de Mateus. O estudo visa desvendar o propósito e a profundidade dessas listas de nomes, que vão muito além de um simples registro histórico-biológico.
O que é estudado neste episódio
- A importância das genealogias no pensamento hebraico: Haroldo Dutra Dias explica que as genealogias bíblicas não são meros registros, mas estruturas literárias com propósitos teológicos e sociopastorais, que buscam definir a relação da personagem principal com o passado e com os planos divinos.
- Paralelo entre Gênesis 5 e Mateus 1: É explorada a continuidade entre o Velho e o Novo Testamento, mostrando que Jesus não veio para romper com o passado, mas para aprimorar e completar a revelação anterior, resgatando sua essência e trazendo profundas modificações.
- A seletividade e parcialidade de Mateus: A genealogia de Jesus em Mateus é analisada como um texto seletivo e parcial, onde o evangelista escolhe nomes específicos para construir uma narrativa teológica que culmina em Jesus, interpretando o passado a partir da perspectiva do Cristo.
- A inclusão nos planos divinos: A genealogia de Jesus revela a natureza inclusiva dos propósitos de Deus, que abrange não apenas judeus, mas também gentios; não apenas homens, mas mulheres; não apenas os poderosos, mas os oprimidos; e não apenas os virtuosos, mas também aqueles que cometeram erros.
- A concretização dos planos divinos apesar das adversidades: É enfatizado que os planos de Deus se concretizam mesmo diante das fragilidades, iniquidades e resistências humanas. Cada nome na genealogia representa um estágio, um degrau na evolução espiritual, demonstrando que o caminho até Jesus foi marcado por lutas e superações.
Reflexões
- A inovação e o progresso não significam romper com o passado, mas sim resgatar sua essência e atualizá-la para o presente, honrando as raízes e construindo sobre elas.
- Os projetos espirituais, por terem raízes no mundo superior, se concretizam apesar das dificuldades e resistências, revelando a glória de Deus e não a dos homens.
- A genealogia de Jesus, com sua diversidade de personagens e experiências, ilustra que a evolução é um processo inclusivo, onde todos progridem, mesmo que em ritmos diferentes, e que os propósitos divinos abraçam e redimem todas as quedas.
Ler transcrição do episódio
A Luz da Doutrina Espírita Estamos aqui em mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis – A Luz da Doutrina Espírita. No episódio anterior, nós comentávamos sobre a genealogia. Porque aqui, no início do capítulo 5 do livro Gênesis, nós teremos uma lista genealógica. Os patriarcas anteriores ao Dilúvio. Começa ali com Adão, na sua descendência, até chegar em Noé. Já fazendo uma introdução, um prelúdio ao que virá com a história do Dilúvio. E para que a gente entenda essa maneira de narrar, essa estrutura literária do livro Gênesis, nós comentamos aqui a importância das genealogias.
A ponto de o próprio livro Gênesis, de Moisés, poder ser dividido em dez grandes partes, que são dez genealogias. Comentamos isso aqui. Hoje, nós gostaríamos de fazer um paralelo entre esse texto, o capítulo 5 de Gênesis, com o capítulo 1 do Evangelho de Mateus, que trata da genealogia de Jesus. E aqui nós vamos explorar alguns elementos dessa genealogia com dois objetivos. O primeiro deles, ressaltar a importância que a genealogia tem no pensamento do povo hebreu. O que se pretende? Qual é a agenda do escritor bíblico quando elabora uma lista genealógica?
Nós precisamos entender isso. Qual é o propósito do redator bíblico quando ele elabora uma lista? E, segundo, por que essa lista, essa estrutura literária da genealogia, volta com toda a força no Evangelho? E, com isso, nós demonstramos aqui essa continuidade entre o Novo Testamento e o Velho Testamento. Não há solução de continuidade entre o Evangelho e o Velho Testamento. O que há é aprimoramento, o que há é um processo de completude, de cumprimento, mas não de abrogação, como já havia dito Jesus e que é o capítulo 1 do Evangelho segundo o Espiritismo.
Não vim destruir a lei. Na nossa tradução, editada pela FEB, nós elaboramos uma nota, que eu vou ler aqui, ler os parágrafos e ir fazendo alguns pequenos comentários, ressaltando o que nós queríamos dizer quando escrevemos isso. Então, aqui na nota de número 1, porque o livro Evangelho de Mateus começa com o seguinte texto, capítulo 1, versículo 1, Livro da Genealogia de Jesus Cristo. Aí a gente começa escrevendo. As genealogias do mundo antigo pretendiam muito mais do que simplesmente repassar informação histórico-biológica.
Então, esse é o primeiro ponto. Nós não podemos reduzir uma lista genealógica à história, à estar contando uma história, ou a um relato biológico de quem é filho de quem. Fulano é filho de Ciclano, que é filho de Beltrano. É mais do que isso. O que está em jogo é algo além da história e além da biologia. Então, o objetivo aqui não é simplesmente traçar uma árvore de descendência e nem apenas resgatar a informação histórica por si mesmo. A função primordial da genealogia era definir a relação da personagem principal com o passado.
Olha que interessante! Então, no caso aqui da genealogia de Jesus, qual é a personagem principal? Jesus, não há dúvida. E, ao elaborar uma lista genealógica, o que o redator bíblico quer, no caso Levi? Quer vincular Jesus ao passado. Isso é importante, porque a relação de Jesus com o passado, com a primeira revelação… E, quando a gente diz primeira revelação, precisa tomar cuidado para não resumir primeira revelação só em Moisés. Primeira revelação não é só Moisés. Por isso que aparece esse tanto de nome aqui na genealogia de Jesus.
Todas essas pessoas aqui compõem a primeira revelação. São Espíritos que encarnaram com missões específicas, alguns profetas, alguns redigiram livros, outros compuseram poder, deram estrutura, deram ocasião para que os missionários pudessem atuar, ou seja, todos participaram. Então, primeira revelação é um conjunto de centenas de missionários que concretizaram a revelação. Sendo que Moisés é a síntese. Moisés é aquele que personifica esse processo. Por ter redigido, por ter estruturado, por ter estabelecido leis, por ter atuado como um legislador, um condutor, um líder do povo.
Então, essa é a sensibilidade que nós precisamos ter ao ler esse texto. Quando eu quero vincular Jesus ao passado, eu estou querendo vincular como? Eu estou querendo dizer que Jesus não tem nada a ver com o passado? Então, esquece o passado, queima todos os livros, esquece a primeira revelação, Jesus começa do zero, uma linguagem absolutamente nova, Ele não faz referência a nenhuma primeira revelação. É isso? Não é isso. Ele mesmo disse que não é. Está lá no sermão da morte. Ele disse que não é. Isso. Então, como que é essa relação?
É uma relação em que Ele se coloca como alguém que dá continuidade a um fluxo, dá continuidade, prossegue em um movimento. Agora, prossegue como? Imitando ipsis literis tudo o que foi feito? Não. Não. Não. Ele prossegue fazendo pequenas mudanças? Também não. Então, Ele prossegue resgatando a essência, resgatando os alicerces, mas trazendo profundas mudanças. Então, é importante para a gente isso, porque nós temos uma ilusão de que, para eu trazer algo novo, eu tenho que romper. Isso é um exagero. Isso é um exagero total.
A gente se recorda aqui de que Beethoven, no final da sua vida, que coisa curiosa, Beethoven com a sua grandeza musical, com toda a sua originalidade, no final da sua vida, ele se volta para a obra de Bach, Johann Sebastian Bach, e diz que ali estava o que ele julgava que era o principal. Olha que interessante isso. Então, embora ele tenha trazido todas as inovações, embora ele tenha aberto caminhos inusitados, ele se volta para o passado e reconhece no passado o seu papel de semente, o seu papel de raiz, o seu papel de base.
Então, inovar, trazer progresso, não significa romper. Aliás, o progresso efetivo, ele sempre respeita, honra e aproveita o que o passado tem de melhor. O progresso tolo, ingênuo, sem base é aquele que despreza o passado. Então, é importante a gente entender isso. Agora, aproveitar o passado não é simplesmente repetir, não é ser uma cópia. Então, Jesus vem trazer algo original, vem na postura, no olhar, na maneira como lida, nem sempre no conteúdo. Então, ele retoma determinados conteúdos, mas o olhar de Jesus, a maneira como ele posiciona esse conteúdo é completamente diferente, completamente diferente.
Até porque a sociedade judaica da época havia transformado regrinhas de proceder em elemento prioritário e Jesus não aceitava transformar regras, aspectos acessórios em prioritário. Ele entendia que os princípios, sobretudo o princípio da fidelidade e da comunhão com Deus e o princípio do amor ao próximo deveriam orientar todas as regras. Eram as regras que estavam subordinadas ao amor a Deus e ao amor ao próximo. Então, a própria maneira de Jesus olhar para o passado já era inovadora. A maneira como ele lidava com o que já existia.
É como alguém que chega em casa e o que sobrou? Ah, um arroz de ontem, um feijão. E aí ele pega e faz um prato totalmente novo com as sobras do dia anterior. E, às vezes, faz um mexido maravilhoso ou um outro prato espetacular de sobras de refeições de dias anteriores. Então, isso é interessante. A criatividade não está em romper com o passado. Nós precisamos entender. A criatividade, muitas vezes, está em atualizar o passado para o momento presente, resgatar a essência e traduzi-la para o tempo presente. Então, o objetivo da genealogia era esse, mostrar, definir a relação aqui da personagem principal, que é Jesus, com o passado, no intuito de destacar sua importância para o presente.
Por quê? Se ele não tivesse nenhum vinco com o passado, aquela sociedade ia desconfiar da relevância de Jesus para o presente. Claro. Eles tinham dez mandamentos. Se você dissesse que Jesus vinha romper totalmente com o passado, então ele vinha romper com os dez mandamentos? Quer dizer que nós deveríamos abandonar o amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo, como a si mesmo? Porque amar a Deus sobre todas as coisas está lá em Esau. Ao próximo, como a si mesmo, está em Levítico. Quer dizer que nós deveríamos abandonar com isso?
Claro que não. Claro que não. Então, aqui, nós precisamos ser precisos precisamos exercer discernimento, bom senso. Às vezes, a gente ouve muitas pessoas repetindo coisas aí como se fosse papagaio, sem refletir, sem refletir no que está dizendo. Então, aqui, Mateus está vinculando a pessoa de Jesus com o passado. Mas, olha que vínculo sutil que ele vai estabelecer. Vamos continuar. Na versão de Mateus, a história bíblica é novamente narrada e interpretada de uma perspectiva ou agenda que revela seletividade e parcialidade.
Seletivo e parcial. Significa que Mateus não vai citar toda a descendência de Jesus. Não. Ele vai cortar alguns nomes. Isso é ser seletivo. Ele selecionou alguns nomes. Olha que interessante. E ele foi parcial. Por que parcial? Porque, em alguns casos, o nome que ele cortou era um nome que, na época histórica em que aquela pessoa viveu, era o mais importante do que o que ele selecionou. Ou seja, Mateus tinha um critério. Um critério. Ele volta ao passado, mas volta com discernimento. Volta de uma maneira reflexiva.
Por quê? Porque entende Jesus como como um momento de plenitude. Então, é como se ele olhasse agora para o passado a partir de Jesus. A partir do que é Jesus, do que fez Jesus, do que trouxe Jesus. Então, desse olhar, dessa perspectiva, ele se volta para o passado e seleciona personagens. A cadeia de eventos, personagens e cenários são apresentados dentro de uma estrutura, forma de expressão, apresentação de conteúdo, ponto de vista, que refletem um propósito teológico. Então, há uma ideia religiosa nessa seleção dele.
Tem uma função sociopastoral, quer dizer, ele quer ensinar alguma coisa para a comunidade cristã e uma contribuição do narrador à compreensão da história bíblica presente e futura. Então, ele quer dar uma contribuição de qual a visão dele da história bíblica. Então, isso aqui é muito importante. Quando a gente se refere à história bíblica, nós poderíamos colocar isso em uma linguagem espírita como história da revelação. História da revelação. Quem fez isso muito bem é o primeiro Espírito a dar mensagem no Evangelho segundo o Espiritismo.
É o capítulo I do Evangelho segundo o Espiritismo. Está lá a instrução dos Espíritos, a primeira mensagem que está lá e o Espírito assina, sim, um Espírito israelita. A gente sabe quem é esse Espírito, está na Revista Espírita, era uma comunidade judaica que Kardec conhecia, havia médium nessa família e era o Espírito familiar, o guia espiritual daquela família judaica quem dita essa mensagem. E o que ele traça ali? Ele traça uma história da revelação. E, nessa história, ele diz assim, Moisés iniciou a obra, Jesus deu continuidade, o Espiritismo a concluirá.
Olha que interessante. Então, de uma perspectiva histórica, como é que você faz um corte? Como que faz um corte? Por que Kardec escreveria o primeiro capítulo do Evangelho segundo o Espiritismo não vim destruir a lei? E diria assim, da mesma maneira como Jesus não veio destruir a lei mosaica, o Espiritismo não vem destruir a revelação de Jesus. O que significa isso? Significa que tem uma história, significa que tem um fluxo, que tem um processo. Agora, isso quer dizer que eu vou voltar agora para o estudo do Velho Testamento e vou me vestir como Abraão se vestia?
Isso quer dizer que eu vou agora me alimentar e comer a mesma comida que os patriarcas bíblicos comiam? Então, olha que coisa curiosa. Então, agora eu vou passar a viver em tendas, vestir túnicas, me alimentar do que eles alimentam, começar a falar e usar palavras que eles usavam. É isso? Não é isso. Não é isso. Então, não é voltar ao passado para ficar preso nele, porque não é uma história, não é um fluxo. Se é um fluxo, significa que o rio correu, significa que as coisas fluíram. Todos os missionários que vieram na primeira revelação e o mundo avançou e aí vieram os missionários do Evangelho e o mundo avançou, e aí veio o Espiritismo e o mundo avançou e continua avançando.
E continua avançando. E nós chegamos lá no Evangelho com o Espiritismo, no capítulo C de Perfeitos, tem um item lá, o homem no mundo, que diz que nós temos que viver segundo a nossa época. Então, o ser humano de hoje, da nossa época, ele se veste de uma maneira diferente, ele usa o Uber, ele tem o WhatsApp, ele vive como as pessoas do seu tempo. Então, nós não vamos cair nesse fetiche de querer reproduzir o passado arquitetonicamente, os costumes. Há muitas seitas que fazem isso, querem ressuscitar o passado enquanto exterior.
Não é essa a proposta. E, aliás, muitos não compreendem o nosso estudo do Gênesis, porque acham que nós estamos propondo isso, voltar ao passado para viver, para cultuar. Não entendeu. Não entendeu. Nós estamos aqui estudando para entender a história, a linha de continuidade, porque senão você chega na mensagem que abre o Evangelho segundo o Espiritismo, os Espíritos do Senhor, que são as virtudes do céu, e você não entende a linguagem que está ali. Não entende. No livro A Gênese, de Kardec, ele abordou vários temas do Velho Testamento, fez leituras.
Então, Mateus também. Ele volta aqui ao passado, ele cita nomes, ele articula esses nomes, mas ele está com os pés no presente, e o presente dele era Jesus. Isso é que é bonito. Eu não preciso atacar o passado para ser atual, para ser moderno, para ser contemporâneo. Eu não tenho que jogar pedra, desprezar o passado para ser contemporâneo. Por outro lado, eu não preciso repetir o passado, viver como no passado, para honrá-lo. Honrar o passado é reconhecer a utilidade que ele teve e guardar a essência do que é bom, do passado.
Não a forma. A forma muda. A forma se altera. Então, nós vamos perceber que no Espiritismo, muitas vezes, os Espíritos estão dizendo o que já estava nas cartas de Paulo, o que está nos Evangelhos, mas estão dizendo em uma nova linguagem para tornar mais compreensível. Eles mesmos dizem, na questão 627, convém agora dizer as coisas de modo claro, sem alegoria? Isso significa dizer outra coisa? Não. Dizer a mesma coisa, mas com outras palavras. Agora, você não pode, simplesmente porque mudou as palavras, dizer que está falando uma novidade.
Não está falando novidade. Está resgatando o ensino passado, mas em uma outra forma, em uma outra linguagem, em uma outra moldura, porque os tempos são outros. Na época de Moisés, a humanidade estava na infância. Com Jesus, ela já tinha 18 anos. Quando veio o Espiritismo, a humanidade está madura, 35, 40 anos de idade. É claro, eu não converso com uma pessoa de 35 anos de idade como eu converso com uma criança de 10. Mas, quem está conversando? Quem sempre conversou com a humanidade foram os Espíritos, que a dirigem, a começar pelo guia e governador espiritual do orbe.
E isso é que é importante a gente alcançar esse discernimento, alcançar esse discernimento, essa moderação, esse raciocínio sólido, seguro, sem pieguismo, sem apego, mas sem radicalismo, sem irracionalidade. Estamos estudando com leveza, com fé raciocinada, com clareza. Essa é a nossa proposta do estudo do livro Gênesis. A genealogia coloca a origem de Jesus e, por consequência, de seus seguidores no centro dos planos de Deus. Então, o que Mateus está querendo dizer é que Jesus não é um acidente, porque, embora ele viesse e chocasse por falar do amor, da bondade, quando as pessoas só acreditavam na violência e no ódio, na época de Jesus as pessoas tinham a fé absoluta na espada, na violência.
E Jesus vem falar da tolerância, do perdão, da caridade. Isso era chocante. O que Mateus está querendo dizer é que essa vinda de Jesus está nos planos do Criador. Não é um acidente. É algo planejado. Se é planejado, está na continuidade, como o Consolador. A vinda do Espiritismo está nos planos. Foi anunciada. O evento foi planejado. Aconteceu no tempo que tinha que acontecer e da forma como tinha que acontecer. É esse o sentido. Você mostra a continuidade, o fluxo, o programa, um programa espiritual que foi sendo implementado no tempo e da maneira que era possível, considerando o livre-arbítrio, das criaturas e as circunstâncias da evolução do orbe.
Olha que bonito isso. Cada nome mencionado evoca estágios desse plano, demonstrando que as promessas divinas, a vontade soberana do Altíssimo, se sobrepõem às fragilidades e iniquidades humanas. Por que fragilidades e iniquidades humanas? Porque se você pegar os nomes que estão aqui na Genealogia de Jesus, vão ver que tem gente aqui de muito mau caráter. Tem personagens aqui que são modelos de queda espiritual. Durante suas vidas fizeram bobagem uma atrás da outra. E por que elas estão na lista? É o caso que nós vamos estudar em Gênesis aqui.
Nós tivemos Caim que assassinou o irmão, mas ele está na lista genealógica. Por quê? Para mostrar que os planos do Criador se concretizaram, apesar de. Apesar de. E essa é uma lição. Sobretudo quando a gente começa a discutir que no Brasil o coração do mundo parta do Evangelho. Porque as pessoas acreditam que os projetos do mundo espiritual dependem 100% do encarnado. Será? Será mesmo? Será mesmo? Então, Deus não é o Todo-Poderoso. Então, se nós nos voltamos para o estudo da história bíblica, nós vamos ver que os planos divinos se concretizam, apesar de tragédias praticadas e cometidas por quem tinha o dever de cuidar da revelação.
Está aqui. Os nomes estão aqui. Então, cada nome aqui é um estágio, é um degrau. Esse nome não é uma pessoa. É um degrau. É um tempo. É uma época. Foi um movimento humano de ascensão. Como os nomes aqui, que nós vamos ver no capítulo 5, que está na origem, que é isto aqui. Porque, na verdade, o que Mateus fez aqui foi resumir todas as genealogias que estão no Velho Testamento, culminando em Jesus. Então, o que isso aqui chama a atenção? Se você está olhando para o nome e está impressionado. Nossa, mas fulano viveu 300 anos.
Você está pensando em uma pessoa? Realmente é isso? Será que é isso? Um ser humano que viveu 300 anos? Será? Então, nós vamos pensar assim. Pensa hoje em Cuba, na ilha comunista Cuba. E eu te pergunto, quantos anos viveu Fidel Castro? Pensa bem para responder. Porque você acha que ele ainda morreu? Que ele já morreu, quer dizer? Você acha que ele já morreu? Será que em Cuba Fidel Castro já morreu? Eu tenho minhas dúvidas. Tenho minhas dúvidas. É por isso que a história fala assim, a era Vargas. Dá até uma redação do Enem.
A era Vargas. Você não está pensando no Getúlio Vargas, porque nós não sabemos quando ele nasceu e quando ele se suicidou, ou seja, quando ele morreu. Nós sabemos. Mas, é isso? Você acha que a era Vargas acabou quando ele morreu? Será? O século de Napoleão. É isso. Nós já sabemos essas coisas. É só aplicar aqui ao texto bíblico. Essas personagens aqui são eras, são períodos de evolução sociológica de um grupo. Esses períodos de evolução comunitária representam degraus para se chegar à culminância que é Jesus. Então, diversas experiências, incluindo experiências de queda profunda, de queda profunda, porque alguns aspectos da bondade, da caridade de Jesus só podem ser compreendidos se nós examinarmos a queda dos seus ancestrais.
O que isso significa? Significa que o Cristo veio redimir inclusive as quedas. Esse é o sentido. Os propósitos de Deus que envolvem a formação de um povo são amplos e inclusivos. Olha que interessante! A formação de um povo, a promessa que foi feita lá a Abraão, universal e inclusivo. Não entra só o que fez coisa certa. Vai excluir quem errou? Quem errou não vai ter mais oportunidade? É assim que é a evolução espiritual? Claro que não. Claro que não. Basta ir lá nas questões do Livro dos Espíritos que nós vamos ver quando Kardec pergunta sobre a escala espírita, se os Espíritos permanecem na escala.
Ele fala, não, não. Todos vão progredir. O que equivale a dizer? Todos, todos se tornarão Espíritos, puros. Ponto final. O que varia é o tempo. Uns vão mais rápido, outros vão mais lento. Mas todos vão. Então, os planos divinos da evolução são inclusivos. Inclusão. Esse é um problema sério. E engraçado porque, hoje, a constelação familiar eleva isso aqui a um princípio, o princípio da inclusão. Tudo aquilo que é excluído volta como sintoma. Infelizmente, esse é um grande problema hoje. Nas famílias, nas comunidades, incluindo no movimento espírita.
Porque nós criamos um movimento exclusivo. Nós queremos excluir pessoas. Queremos banir pessoas. Quando a proposta divina é uma proposta inclusiva. Não é uma proposta de aplaudir equívoco. Mas como é que se corrige equívoco? Expulsando? Banindo? Essa é a proposta de Jesus? Para se corrigir o erro? Nos parece que não. Então, nós vamos ver aqui que as personagens que são colocadas aqui, personagens de estarrecer, por exemplo, Caim, lá na genealogia de Lucas vai ser colocado. Por que Caim entra na genealogia aqui? Não é de estarrecer?
É, mas tem que incluí-lo. Tem que incluir. Tem que incluir. Porque se você fizer um exame do seu passado espiritual, você vai ver que várias vezes você preencheu esse papel psicológico chamado Caim. E o que nós vamos fazer? Tem que integrar. Esse aspecto da nossa personalidade tem que ser integrado. Essa sombra tem que ser reconhecida, porque senão ela não será iluminada. Então, tem um aspecto inclusivo aqui. Por que que é inclusivo? Olha que interessante. Porque ela ultrapassa o território judaico, Israel e Judá. E cita, por exemplo, personagens que são pagãos.
Ur dos caldeus, Babilônia. Então, não fica só em Israel. Interessante isso, né? Porque essa é uma característica básica do Evangelho, que Paulo reforçou. O Evangelho era para todos, inclusive para os gentios. Então, é curioso você ter gentio na genealogia de Jesus. Não é curioso? Pois é. Olha o aspecto de inclusão. Olha que coisa interessante. Uma sociedade patriarcal, na genealogia de Jesus, tem mulheres. Poderia ter citado só os homens. Você pega as genealogias do Velho Testamento, só tem homem. Aqui, na de Jesus, tem mulher.
Então, tem homem e tem mulher. Olha que interessante. Tem pagãos e judeus, tem gigantes da tradição, Abraão, Davi, e anônimos, esquecidos, poderosos e oprimidos. Então, não é uma genealogia que passa só pelo rei, só pelo poder. Tem prostituta aqui. É interessante isso. A genealogia de Jesus já dá o tom do Evangelho. Não é só para judeu, é para gentil. Não é só para homem, é também para mulher. Não é só para o poderoso, é para o oprimido. Não é só para quem é bom, é para o mal. Não é só para quem acerta, é para quem erra.
E coloca todo mundo. E Jesus é a síntese que vai redimir tudo. Acolher e redimir tudo. A gente percebe que essa seleção aqui foi tolinha? Será que o Mateus Xerife foi pegando o nome assim, colocando? Não. Não foi. Foi meticulosamente pensada. Aqui, não é à toa que a genealogia está no primeiro capítulo do Evangelho de Mateus. Ela resume o Evangelho. Ela dá o tom do Evangelho. Ela dá o tom do Evangelho. Muito interessante isso aqui. As personagens não são selecionadas como modelos de fidelidade e virtude. Não tem só gente boa aqui.
Viço que a maioria conhece é a fidelidade e a infidelidade. A virtude e o vício. Então, as pessoas que estão aqui são mesclas. Mas a evolução é alguma coisa diferente disso? A evolução é um salto que você sai da ignorância e da simplicidade para a pureza? Assim, num salto? Então, a escala espírita. Eu tenho três ordens, os Espíritos imperfeitos, os Espíritos bons e os Espíritos puros. Quer dizer que eu saio da simplicidade e da ignorância e pulo já para o Espírito puro? Eu não passo pela escala dos imperfeitos? Não é assim, não é?
No entanto, os propósitos divinos, embora ameaçados pelo mal, e pela inconstância do ser humano, não são frustrados. Importância deste estudo aqui do Gênesis, importância deste estudo aqui da genealogia, para a gente pensar, inclusive, a própria missão do Brasil. No entanto, os propósitos divinos, embora ameaçados pelo mal e pela inconstância do ser humano, não são frustrados. O que o Mateus está querendo dizer? Por que escrevemos isso aqui? Porque você vai analisar alguns descendentes de Jesus, vai chegar alguns e vai falar assim, meu Deus, acabou a história bíblica, fez tanta bobagem que agora acabou.
E aí veio uma superação e chegou em Jesus. Então, apesar de todos os percalços aqui, chegou em Jesus. Chegou. Apesar de todos os desafios. Isso é para tirar da nossa mente um padrão mental, que é assim, a missão espiritual. A missão espiritual, então abre-se um caminho florido, aí coloca um tapete assim de pétalas de rosas, Alice no País das Maravilhas vai conduzindo na frente, o céu fica cor-de-rosa e o missionário vem caminhando sem nenhuma dificuldade. É isso? Isso é cumprir missão espiritual? Então, por que João Russo foi queimado?
Por que Simão Pedro foi crucificado de cabeça para baixo? Por que Paulo foi degolado? Por que Estevão foi apedrejado? Então, como é que é isso? Como é que é mesmo o cumprimento de uma missão espiritual na perspectiva bíblica? Na perspectiva bíblica é assim. Você está olhando do lado de cá, do lado do encarnado, você acha que acabou e que é o fim. Mas, do olhar espiritual, do olhar de Deus, aquele processo será superado e de onde você menos espera vem uma mudança que altera todo o quadro. Então, é isso que a genealogia revela.
É isso que a genealogia revela. Mas, se você ler atentamente o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, você vai ver que é uma tragédia após a outra. Desde o início do livro até o final é um problema atrás do outro. Ismael vence um problema, vem um maior. Ele vence, vem um maior, vem um maior, vem um maior, vem um maior. Então, é tropeço atrás de tropeço. Tropeço atrás de tropeço. Vamos pegar o livro. Podemos até mapear todas as dificuldades. Tudo aquilo que foi planejado não pôde ser executado de uma maneira tranquila.
Por exemplo, Jesus planejou que a nação brasileira se formaria através de três vertentes. Do índio, que era o habitante do local. Por quê? Porque não tem que ser inclusivo? Tem que ser inclusivo. Então, nós não poderíamos expulsar o índio. No processo de utilização do Brasil para ser o coração do mundo, o habitante nativo tinha que participar do banquete. Existe banquete do Evangelho expulsando os outros? Então, o índio tinha que participar. Participaria o português, que era a nação mais pobre da Europa, mais trabalhadora, ao menos na época.
E participariam também os negros. O que acontece? Começa a matar índio, explorar sexualmente os índios e outros tipos de exploração. Transforma os negros em escravos. O português para de querer trabalhar porque vê aqui ouro, quer só ganhar dinheiro. E aí? Já começa. Tinha um plano divino e imensas dificuldades para executar. Essa é a história bíblica. Se você ler cada nome dessa aqui, da genealogia de Jesus, cada nome desse aqui é uma dificuldade que teve que ser superada para chegar em Jesus. Então, isso aqui não é um tapete de rosas até chegar a Jesus.
Não! É um campo minado cheio de bomba. E mesmo assim, chegou em Jesus. E mesmo assim, chegou em Jesus. Por quê? Paulo responde. Porque temos essa verdade em vaso de barro para que a glória seja de Deus e não dos homens. Esse é o ponto. Esse é o ponto. Então, quando um trabalho, quando um projeto tem raízes no mundo espiritual superior, ele se concretiza, não obstante todas as explosões, todos os obstáculos, todas as dificuldades. Só existe cumprimento de missão onde tudo dá certinho no nosso imaginário. Nenhuma missão espiritual é cumprida nesse clima.
Nenhuma. Nenhuma. É o que revela a genealogia. Então, Jesus, filho de Abraão, filho de Davi, é o Messias, que foi incumbido, foi comissionado para concretizar as promessas divinas em um mundo no qual a elite e os poderosos, olha isso aqui, em um mundo no qual a elite e os poderosos teimam em resistir aos propósitos de Deus. Que é outra coisa que a genealogia de Jesus revela. Todos os poderosos, todos aqueles que comandaram, se colocaram contrários aos propósitos divinos. Raramente você tem alguém no poder, alguém com riqueza, alguém com poder, ajudando o projeto espiritual.
Na maioria esmagadora, eles se colocam como adversários dos propósitos divinos. Então, nós devemos esperar outra coisa? Hoje, para o projeto espiritual do Brasil, os seguidores do Cristo vivem num mundo abençoado, no qual Deus opera incessantemente, mas num mundo conturbado, já que os propósitos divinos nem sempre são acolhidos. Então, abençoado, mas conturbado. Por quê? Porque é uma luta de resistência. Então, essa genealogia foi escrita para dizer assim, cristão, tenha fé. A resistência é grande mesmo. Herodes manda matar os meninos.
É só resistência. Então, nós vamos esperar o quê? O que nós vamos esperar para hoje? Para hoje tem o que? Para hoje tem o que Abraão teve. Para hoje, na missão do Brasil, tem o que teve para Davi, para Abraão, para todas as personagens aqui. Resistência dos poderosos, perseguição, tudo conspirando contra o projeto espiritual. É assim que os projetos espirituais se concretizam. Eles se realizam nesse clima, nesse clima conturbado que vai selecionando pessoas. Então, aqueles que estão alinhados com o propósito divino, eles se sentem abençoados, porque estão nessa sintonia, mas conturbados, porque vivem a resistência, vivem o ataque, vivem a perseguição, vivem a dificuldade.
Interessante isso. É uma declaração mesmo. A comunidade cristã é marginalizada por estruturas políticas, culturais, sociais e religiosas. Quer ver? O templo judaico, a sinagoga, o império romano, aceitaram Jesus? Não. Estão marginalizados. Mas a sua identidade é forjada e fortalecida na crença de que vivem segundo os propósitos do Deus de Israel. Olha, só isso aqui que é genealogia. Você precisa dizer alguma coisa? Ah, precisa estudar genealogia? Olha, é bom. É bom. É bom porque nós eliminaríamos esse discurso sobre missão espiritual, essa visão.
Em resumo, o que o texto da genealogia está dizendo? O que esperar? O que esperar da classe política que domina? Perseguição, incompreensão e resistência ao projeto espiritual. O que esperar da elite econômica? Marginalização daqueles que estão cumprindo sua missão. É isso. Até que o mundo seja regenerado e o bem assuma as posições de comando. Mas isso é mundo o quê? Mundo regenerado. O mundo regenerado é um mundo em que o poder será ocupado por homens de bem. Os recursos estarão nas mãos dos caridosos. O poderio econômico estará nas mãos dos benevolentes, dos evangelizados.
Aí é mundo regenerado. Até lá, quem está no poder? César e Herodes. César e Herodes. Qual o susto? Por que nós estamos assustados? Por que a surpresa? Você está abrindo o jornal e agora está surpreendido com o quê? O quê? Quando Mateus abriu o jornal dele, estava lá na primeira página Herodes, César. Qual é a surpresa? Não tem surpresa. Ah, mas a pobreza, mas a exploração, e o que tinha na Galiléia? O que tinha na Galiléia? Escravidão, exploração, marginalização do pobre, uma elite pequena se apropriando de tudo e a multidão sem nada.
Mudou o quê? Mudou nada. Mudou nada. Talvez, numericamente, nós temos que concordar, porque a população mundial na época era bem menor. Então, as coisas se intensificaram do ponto de vista numérico. E a violência assumiu caracteres mais tecnológicos. Então, hoje você não mata com espada, você mata com fuzil. Mas morre do mesmo jeito. É este o quadro. E é neste quadro que os planos divinos foram se concretizando. É neste quadro. Bom, terminamos por aqui. Hoje foi um episódio mais duro, mas não é culpa minha, é culpa da genealogia.
Genealogia é isso. Está mostrando aqui a ostra e o grão de areia que precisaram se juntar para chegar na pérola chamada Jesus Cristo. Isso é que é genealogia. Essa pérola que é o Cristo se forma na adversidade, na perseguição, na luta, na oposição, na marginalização. É No encontro com esses obstáculos que se revela a luz espiritual, a luz do mundo que é Jesus. Isso é genealogia. Em que cada nome aqui é um estágio, é uma época, é um passo dessa construção resistida. Mas, se você gosta de futebol, não tem sabor uma taça vencer um campeonato sem ter enfrentado um adversário à altura.
Afinal de contas, você não quer entrar em campo só os onze do seu time. Precisa de, no mínimo, mais onze adversários. Até o próximo episódio. Legendas pela comunidade Amara.org
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.
Respostas