#068 – Estudo do Velho Testamento – Livro Gênesis

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Neste episódio, Haroldo Dutra Dias dá continuidade ao estudo do livro de Gênesis, de Moisés, à luz do Espiritismo. O foco é aprofundar a compreensão dos símbolos presentes no texto, utilizando a técnica do Midrash, que consiste em buscar e escavar os significados através da análise de diversos textos e contextos culturais.

O que é estudado neste episódio

  • A importância do Velho Testamento: É ressaltada a necessidade de compreender as raízes do Novo Testamento, pois muitas expressões, palavras e símbolos utilizados por Jesus foram retirados do Velho Testamento.
  • O texto bíblico como “artesanato”: Os textos do Velho Testamento são apresentados como monumentos da ciência secreta do povo hebreu, construídos com orações e palavras que se entrelaçam, formando figuras e símbolos.
  • A oferenda de Caim e Abel (Gênesis 4:4): A narrativa da oferenda de Caim (primícias da colheita) e Abel (primogênito do rebanho miúdo e sua gordura) é analisada. A “preferência” divina pela oferenda de Abel é interpretada simbolicamente como a primazia da oferenda excelente, e não como uma preferência pessoal de Deus.
  • O símbolo do Cordeiro: O cordeiro é identificado como um símbolo denso e central, que aparece de forma sutil no texto de Gênesis 4, mas se desdobra em diversas passagens bíblicas.
  • A técnica do Midrash:
    • Conhecer o ambiente cultural: É fundamental entender a cultura onde o texto foi produzido para interpretar corretamente as palavras e símbolos (ex: “gado miúdo” refere-se a ovelhas).
    • Examinar o máximo de textos possíveis: Para compreender um símbolo, é preciso buscar suas ocorrências em diferentes partes da Bíblia, sem se limitar a um único capítulo.
    • A ausência de “antes” e “depois” na análise simbólica: Para o Midrash, a ordem cronológica dos textos não é relevante; o importante é a conexão dos símbolos em uma análise sistêmica.
  • O Cordeiro em outras passagens:
    • Êxodo (Páscoa): O cordeiro sacrificado na primeira Páscoa, sem mancha, sem defeito, com ossos intactos, e seu sangue usado para marcar as casas.
    • A Quedá de Isaque: O cordeiro que é sacrificado no lugar de Isaque, o primogênito de Abraão.
    • A Última Ceia: A celebração da Páscoa por Jesus e seus apóstolos.
    • Novo Testamento: Jesus é referido como “o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”.
  • A “engrenagem do mal” e a herança de Caim: A inveja e o ciúme de Caim, que o levaram a matar Abel, são vistos como o início de uma progressão exponencial do mal, que se manifesta na genealogia de Caim e em sua descendência violenta.
  • O diálogo de Jesus com os fariseus (João 8 e 9): A fala de Jesus “Vós tendes por pai ao diabo e vos esforçais para fazer a vontade dele. Ele foi homicida desde o princípio” é interpretada como uma conexão com Caim, o ancestral da violência e do ódio, e Jesus como o “novo Abel” que seria assassinado.

Reflexões

  • A compreensão dos símbolos do Velho Testamento é crucial para desvendar a profundidade dos ensinamentos de Jesus no Novo Testamento.
  • A história de Caim e Abel simboliza a luta interior entre o “Caim” (violência, ódio, ciúme) e o “Abel” (mansidão, paz, amor), e a importância de alimentar o lado que desejamos que prevaleça em nós.
  • O estudo aprofundado das escrituras, com a técnica do Midrash, revela a interconexão e a riqueza de significados que permeiam toda a Bíblia, transcendendo a mera leitura histórica.

Ler transcrição do episódio

Nosso estudo do livro Gênesis, de Moisés à Luz do Espiritismo, do Consolador Prometido Olá amigos, estamos aqui para mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis, de Moisés à Luz do Espiritismo, do Consolador Prometido. No episódio anterior, nós comentamos, em linhas gerais, alguns símbolos que se destacam deste capítulo 4 do livro de Gênesis. Lembrando que aqui nós fazemos um voo panorâmico sobre os temas, porque não é permitido um aprofundamento maior em cada versículo, não é a nossa intenção fazer este aprofundamento.

Estes episódios são um estímulo para que todos possam estudar mais aprofundadamente os temas do Velho Testamento e fazer a conexão com o Novo Testamento. É muito importante a gente compreender as raízes do Novo Testamento e algumas expressões, algumas palavras de Jesus, algumas metáforas, símbolos, mesmo, por ele utilizados, que foram retirados do Velho Testamento. E, falando em símbolos, nós comentávamos que este texto é um artesanato. É preciso compreender isto. Cada cultura, cada comunidade se destaca por um tipo de habilidade.

Então, é comum nós visitarmos o Nordeste Brasileiro e encontrarmos aqueles atores populares, os artistas populares, melhor dizendo, os repentistas, aqueles que compõem cordéis, que conseguem, no improviso, assim, de relâmpago, rimar palavras, contar histórias, compor textos que se encaixam, que transmitem uma mensagem, seja ela de humor, seja ela de sabedoria, não importa, eles conseguem criar porque aquilo está entranhado na cultura. E, nós precisamos reconhecer que o povo hebreu, ao menos, aqui, no início da sua formação, quando estes textos nasceram, quando eles foram gerados, eram um povo de pastores e agricultores, mas, possuíam uma habilidade ímpar, sem igual, de construir textos.

É muito importante que a gente diga isto. Se os egípcios se destacaram pela construção das pirâmides, se os babilônios se destacaram pelas suas cidades, pela sua organização, os gregos, também, pela polis, a cidade grega, construções, os hebreus concentraram toda a sua inteligência, todo o seu talento, sua criatividade, nos textos. Portanto, os textos do Velho Testamento são, na expressão extraordinária do bem feitor Emmanuel, monumentos da ciência secreta do povo hebreu. É assim que Emmanuel vai se referir a estes textos no livro A Caminho da Luz.

Monumentos, construções. Para a gente sair desta metáfora de construção civil, de edifícios, de casas, de cidades, vamos tentar trazer para algo mais palpável. Imagine que você faça aquele passeio dos sonhos, das suas férias, vai para uma praia no Nordeste e lá se encanta com uma toalha feita por uma mulher rendeira. Compra a toalha e traz para cá, coloca na sua mesa, fica linda e você fica observando os detalhes daquele artesanato, daquela obra de arte. E você percebe que, é claro, a toalha é feita de fios, isso mesmo, fios.

Da mesma maneira, este texto é um texto construído de orações, frases, orações. Orações que, como os fios, se entrelaçam. E, essas orações, por sua vez, compostas de palavras. Eles reúnem palavras e vão tecendo o texto. É óbvio que naqueles pontos em que os fios se encontram, você forma figuras, uma flor, um animal, um outro objeto, e a toalha vai assumindo contornos, ela vai ganhando uma beleza, neste momento em que os fios se encontram. Aqui, também, a mesma coisa. Quando as orações e as palavras se misturam, quando a narrativa é Construída, alguns símbolos se destacam.

Estes símbolos que se destacam, eles vão aparecer ao longo de vários textos do Velho Testamento, vários textos. E, hoje, em especial, porque é um símbolo muito denso, profundamente denso, extremamente denso, nós vamos nos concentrar no Cordeiro. Há uma parte, nesta narrativa, que, ao leitor desatento, parece sem propósito, sem sentido ou Injusto, que é o fato de Caim, um lavrador, trazer as primícias da sua colheita. Quer dizer, as primícias, aquilo que vem primeiro, porque quando você tem uma plantação de milho, por exemplo, alguns vêm antes.

A lavoura não dá toda de uma vez. Algumas espigas surgem ali, extemporâneas, mais apressadinhas, vamos dizer assim. Estas apressadinhas têm o nome de primícias. Então, Caim traz estas primícias, uma forma antiga, uma forma ali do Oriente. Vários povos ali do entorno, Babilônia, perto da região onde hoje é o Irã, a Mesopotâmia, já possuíam a tradição de dedicar aos seus deuses oferendas. E estas oferendas, muitas vezes, consistiam nas primícias da colheita de grãos, da colheita do que estava se plantando. Então, Caim vem aqui e oferece as suas primícias.

Abel, que era um pastor, pastor de Rebanho miúdo, o rebanho miúdo, a gente vai entender que são as ovelhas e os cabritos, e oferece, então, o primogênito, o cordeiro macho, mais velho, que nasceu primeiro, com a sua gordura para o sacrifício. E, na linguagem profundamente simbólica do Velho Testamento, Deus se agrada mais da oferenda de Abel que da oferenda de Caim. O que leva Caim a ficar com ciúme, com inveja e a matar o seu irmão. Primeiro elemento que nós precisamos tomar cuidado, tomar muito cuidado, toda referência que o texto faz a Deus, é extremamente simbólica.

Então, não seja ingênuo de imaginar que Deus é um ser humano, que ele tem raiva, que ele tem preferências, que ele escolhe, não faça isso, porque esta é uma armadilha. Não é isto que o texto quer que se faça. Por trás, por trás desta maneira de dizer, o texto, na verdade, está fixando um valor, um valor, qual é o valor? O valor aqui é a primazia do cordeiro, a primazia da oferenda, a oferenda melhor, a mais excelente. Então, aqui, se você quiser, em uma linguagem mais contemporânea, o que está acontecendo aqui é um padrão de qualidade, está selecionado o excelente e deixando o bom ou o ótimo para trás.

Não que a oferenda da primícia seja ruim, não é isto, mas ela não é excelente. A oferenda excelente é a oferenda do cordeiro. E, isto nos leva a uma pergunta simples, direta e objetiva. Por quê? Por quê? Por que a oferenda do cordeiro? E, aqui, nós vamos nos inteirar de uma técnica de interpretação dos textos do Velho Testamento, uma técnica preservada pelos sábios do povo hebreu e que Saulo de Tarso aprendeu aos pés de Gamaliel, que, por sua vez, aprendeu do seu avô Iléu. Uma grande técnica de interpretação do texto bíblico.

Em que consiste esta técnica? Esta técnica se chama midrash. Midrash é o infinitivo do verbo darash, que é o verbo buscar, escavar, procurar. Então, detetive, ou, se você gosta de seriado, CSI Miami. Só que, aqui, vai ser CSI BH, não vai ser Miami, BH. Então, vamos lá, tem que buscar. Como que eu busco? Eu estou expondo a técnica aqui para a gente ver que não tem nada de místico, nada de esotérico. Os elementos da técnica são elementos imprescindíveis. Como é que eu busco algo sobre o cordeiro se eu tenho apenas o capítulo 4?

Como é que você faz? O cordeiro mal, mal aparece aqui. A palavra sequer é citada. A palavra não é citada. O que é citado aqui no versículo 4, do capítulo 4, é que Abel ofereceu do primogênito do rebanho de gado miúdo e da gordura. Aí, você tem que saber o que é o gado miúdo e o que é o gado graúdo. O animal graúdo, o miúdo é ovelha. Ovelha. Não tem outro caminho. Isso é um dado cultural. Então, você tem que conhecer da cultura para você entender a palavra. Então, é o primeiro elemento da técnica. Tem que conhecer a cultura para entender a palavra.

Porque eu não posso interpretar a palavra fora da cultura. Então, esta aqui é uma palavra em hebraico. Eu não posso interpretar esta palavra hebraica na cultura chinesa. Percebe? Por que eu não uso a cultura chinesa para interpretar o Velho Testamento? Porque ela não é uma cultura que vai auxiliar aqui, neste ponto específico. Os aspectos gerais da cultura chinesa podem auxiliar em alguma coisa. Não estamos aqui desmerecendo a cultura. Não é isso? Nós estamos dizendo que temos que mergulhar na cultura onde o texto nasceu.

Parece lógico isso? Claro que sim! Você não vai ler Shakespeare estudando a cultura do Pantanal brasileiro. Não adianta você ir lá para o Pantanal conviver com as pessoas, com a cultura, para entender Shakespeare. Parece óbvio isso, não é? Por que não é óbvio quando as pessoas vão estudar a Bíblia? Por conta de interesses outros, que não vem aqui ao caso, que acabaram mascarando, ocultando, acabaram despistando nosso olhar para o elemento essencial. Por isso, o nome da técnica é busca, procura, na cultura. Se eu me intero nos elementos culturais, se eu me aprofundo na cultura do povo hebreu, eu sei que esse gado miúdo é O rebanho de ovelhas e o primogênito aqui do rebanho de ovelhas é o cordeiro.

Não está aqui. Você vê que até o símbolo está escondido. Então, eu achei o símbolo. Mas, se você tem apenas o capítulo 4 do livro de Gênesis, o que você vai fazer para investigar? Você, agora, é um investigador de símbolos bíblicos. Acaba de ser promovido. E, eu só te dou o capítulo 4 do livro de Gênesis. O que você faz? Você senta, faz uma prece e chora. Por quê? Você não vai encontrar nada. Então, segundo elemento da técnica, quanto mais textos você examinar, mais chances de encontrar o sentido do texto. Percebeu?

Isso é importante. Então, vamos lá. Respira, toma uma água. Primeiro elemento da técnica midrash. Conheça o ambiente cultural onde o texto foi produzido, porque nem sempre você vai encontrar a palavrinha dando a dica. Como um bom investigador, você vai ter que procurar por pistas. Não tem a palavra cordeiro aqui no texto. Tem a palavra primogênito do rebanho miúdo. Primogênito do rebanho miúdo, culturalmente nós sabemos, na pinta, é o cordeiro. É o passo 1. Se não conhecer os elementos da cultura, aí você está perdido.

Aí você está perdido. Segundo, precisa examinar o máximo de textos possíveis. É por esta razão que a pessoa abre a passagem da última ceia e vai estudar aquela passagem. E, digamos que ela só tenha esta passagem. E, ela acha estranho Jesus ter chamado os apóstolos, antes da crucificação, para ceiar, para comer com eles uma refeição. E, é estranho porque ela não sabe porque aquela bebida, o vinho, o que está comendo, o que ele está distribuindo, o que se está celebrando ali, ele não sabe. Então, o que que faz? Segundo, primeiro passo, aprofundar-se no ambiente cultural onde o texto foi produzido.

Este texto foi produzido em Israel. O Novo Testamento, os Evangelhos, foram produzidos por pessoas da cultura hebraica. Que ceia eles estavam fazendo? A ceia da Páscoa. Se você quiser saber mais sobre isto, vai ter que investigar sobre a cultura, sobre o estado dos costumes daquele povo, na época em que Jesus esteve entre eles. Parece razoável isto? Bastante razoável. Passo 2. Apenas com o texto da última ceia, você não sai do lugar. Não sai do lugar, é fato. Você vai precisar de mais textos. Então, eu vou te auxiliar.

Texto da última ceia, e aí eu te dou o texto de Êxodo, quando ocorreu a primeira Páscoa. E, aí, você vai encontrar o cordeiro que foi sacrificado, primogênito. Opa! Primogênito. Não era qualquer cordeiro. Não bastava chegar no rebanho e falar é aquele cordeiro. Não! Tem que ser qual que é o cordeiro que nasceu primeiro. Mais velho, pega o cordeiro. Não pode ter mancha, não pode ter defeito, nenhuma deficiência. Os ossos dele não podem ser quebrados. Eu tomo esse cordeiro e é ele o sangue não pode ser comido. Não pode.

A lã, claro, você não come, você sabe disso, isso aí não precisa dizer. Você não come a lã. Tira a lã. Separa a gordura, porque a gordura é queimada. Era uma parte importante do sacrifício. O sangue é extraído. O sangue foi usado para marcar as casas. O anjo da morte pulou. Então, tem todo um contexto. Aí, a história começa a fazer sentido. Agora, você que é um investigador, já tem algumas pistas. O cordeiro aparece em Abel, aparece no Êxodo e aparece na última ceia. Às vezes, aparece em mais lugares. O cordeiro aparece em um texto importantíssimo chamado Aquedade de Isaac.

Todo mundo conhece esse texto. Na linguagem simbólica do Velho Testamento, Deus pede para Abraão sacrificar seu filho mais velho, Isaac, o primogênito. Isaac é levado para o sacrifício e, quando Abraão vai sacrificá-lo, eis que Deus fala não faça isso. Eu queria testar sua fé. Está aqui algo que será sacrificado no lugar de Isaac. No lugar de Isaac. Vamos substituir. Não será Isaac. Mas, quem será o cordeiro? E, eis que lá estava preso para ser sacrificado um cordeiro. Curiosa essa história. Então, eu tenho aqui o cordeiro de Isaac, tem o cordeiro da Páscoa, tem o cordeiro que Abel ofereceu e a oferta agradou a Deus mais do que a oferta de Caim.

Temos o cordeiro da última ceia e temos os textos do Novo Testamento que vão dizer assim, se referindo a Jesus, eis o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Vamos aí as pistas. E, agora, nós vamos ter que reunir isso. É disso que nós estamos falando. O Midrash, então, é essa técnica que permite que você identifique um elemento, no caso, aqui, o cordeiro. Este é o elemento que nós estamos investigando. Lembra? O cordeiro. Nós estamos em busca do significado da palavra cordeiro. E, para isto, o que nós fizemos?

Sem nenhum tipo de preconceito, de prevenção, nós selecionamos o máximo de textos possíveis daqui da Bíblia, do Velho e do Novo Testamento, para a nossa investigação do sentido do símbolo cordeiro. Assim? Tem outras passagens aqui, mas nós vamos nos contentar com esta, porque senão você vai podendo pegar, porque o Midrash é isto, você vai pegando tudo. Você pode ser detalhista e, hoje, nós temos ferramentas para isto. Não, eu quero pegar todas as ocorrências de cordeiro na Bíblia, do início ao fim. Ótimo! Isso é fantástico!

Fantástico! Você tem, hoje, os computadores, os mecanismos de pesquisa poderosos, você faz isto na hora. O Hilel fazia isto, porque ele sabia tudo de cor. Ele já fazia isto mais rápido do que você com o computador, porque ele já sabia de cor todo o texto, todos os textos. Então, se você falava um símbolo, eles iam citando para você todas as ocorrências, sabiam de memória. Mas, o sentido aqui é qual? É que eu tenho que investigar, investigar, reunir. É como se você olhasse para a toalha de renda e falasse assim, olha, ali aparece uma flor, aqui aparece a mesma flor, aqui também, aqui também, ali também, aqui também.

É uma técnica. Vamos usar uma outra metáfora, agora. Uma outra metáfora. Na composição do período clássico, do período romântico, agora estamos falando de música, existe algo que é chamado de tema. Em linhas gerais, de um modo grosseiro, o tema é uma melodia completa. Ela tem um princípio, meio e fim. Ela tem uma cadência completa. Então, ela é uma estrutura musical completa, pequena, bem pequena, e essa estrutura é o bloco, é o tijolo que vai construir toda a obra. Seja ela uma sonata, uma sinfonia, uma suíte, não importa.

Então, quinta sinfonia de Beethoven, tem um tema, famosíssimo, que é o tan-tan-tan-tan tan-tan-tan-tan Esse é o tema. Esse é o tijolo. A partir desse tijolo, Beethoven vai compor toda a nona sinfonia. Como que ele vai fazer isso? Ele vai pegar esse tema e vai torcer ele. Ele vai mudando, vai fazendo variações e mudanças e dialogando com o tema e aí ele compõe toda uma sinfonia. Mas, a base da sinfonia são essas notas, é esse tema, que é completo, não é? Tan-tan-tan-tan Tan-tan-tan-tan Está completo. Você acrescentaria uma nota nesse tema?

Então, a técnica aqui, do midrash, é que a gente seja capaz de buscar temas. Essas pequenas estruturas que dão sentido ao todo. Que dão sentido ao todo. Então, nós encontramos nós encontramos o cordeiro aqui. Você imagina que, se, na fase anterior, o elemento da discórdia foi a serpente, aqui, agora, o elemento da discórdia é o cordeiro. Não é? Porque, graças ao cordeiro oferecido por Abel, Caim inflamou-se de ciúme e de inveja, matou seu irmão e começou a colocar em movimento a roda, o mecanismo, a engrenagem do mal.

Aqui é o primeiro elemento da engrenagem. Tudo mais que vai acontecer na Bíblia é uma progressão exponencial do mal. Exponencial por quê? Porque ela não é aritmética. Não é assim, um mais um mais um, não. Ela é dois, quatro, oito, dezesseis, vai se multiplicando ao quadrado. Exponencial. O crescimento é enorme até abranger toda a terra. O ato de inveja, ciúme, violência e ódio de Caim espalhou-se por toda a terra, exterior e interior. Porque essa marca de Caim está dentro de mim, está dentro de você. E o maior desafio da evolução, hoje, em plena transição planetária, é Calar a voz do Caim que existe dentro de mim para que o Abel possa falar.

Eis o desafio. O desafio que pessoas como Gandhi reforçou. Eliminar todas as raízes de violência, de ódio, de rancor, de mágoa, de inveja, de ciúme que possam existir dentro de nós. Porque essas raízes alimentam o nosso Caim interior. Então, o texto tem esse símbolo aqui e o Cordeiro ele permeia essa história. Dois irmãos. Isso me lembra aquela história que é uma parábola do índio americano. Foi visitado e no meio da conversa, da entrevista, o índio solta uma uma pérola. Ele diz assim Há dois cães dentro de mim e eles estão em luta.

Um é manso, dócio, amigo, alegre, carinhoso. O outro é raivoso, violento, malvado, perverso e eles estão em luta. E a pessoa ficou tão intrigada com essa imagem utilizada pelo índio que perguntou e qual deles vai vencer? O cão carinhoso, manso, pacífico ou o violento, invejoso, ciumento, raivoso? Qual vai vencer? Caim ou Abel? E o índio respondeu Aquele que eu alimentar. Aquele cão que eu der alimento para ele. Qual você vai alimentar? Essa é a história. Dois irmãos dentro de nós, dentro de mim, dentro de você, qual nós vamos alimentar?

Acontece que há milhares de anos, ao longo de uma fieira de encarnações, nós temos alimentado Caim. Esse é o lado que nós temos privilegiado, esse é o lado que nós temos incentivado, que nós temos reproduzido. Aqui, a palavra reproduzido é importantíssima, importantíssima, porque o que vai acontecer aqui? Logo, Caim mata Abel, ele sai, ele foge, a fuga, a fuga, descumpriu o dever próximo passo, fuga, ele foge, se torna um errante. E, o que ele vai fazer? Reproduzir-se, multiplicar-se. Então, eu terei uma geração de Caim.

Claro, são filhos, netos, bisnetos, vão receber outros nomes, mas é a mesma coisa. A gente vai ver que o filho de Caim será um assassino. O neto de Caim será um assassino. O bisneto de Caim será um assassino. E, isso vai se multiplicar. O ódio, a violência e o assassinato vão se multiplicar. Essa é a herança de Caim. Essa é a genealogia de Caim. É a sua gênesis e seu legado, sua origem e seu legado. Caim é o pai, é o patriarca da violência, do ódio, do ciúme, do homicídio. Esse é Caim, na linguagem simbólica do Velho Testamento.

Então, percebe que é muito sutil como que as coisas se encaixam. Por isso, Jesus, no capítulo 8, 9 do Evangelho de João, quando ele conversa com os fariseus, Jesus tem uns diálogos assim que se você não está treinado no CSI Miami, você não entende. Se você não fez essas investigações, você não entende. Lá, eles discutiam se Jesus era filho de Abraão, se não era filho de Abraão, porque ser filho de Abraão significa seguir as tradições do povo hebreu, cumprir os preceitos da tradição do povo hebreu, etc. Ser um bom judeu, um praticante, isso é que estava em jogo.

Jesus, então, começa a conversar com eles e eles falam mas nós temos por pai a Abraão. Jesus diz a eles vós tendes por pai ao diabo e vos esforçais para fazer a vontade dele. Ele foi homicida desde o princípio. É um texto lindo, porque Jesus aqui faz uma conexão digna de um Cristo dizendo não, não, o ancestral de vocês é Caim. Essa violência que vocês tem dentro de vocês vem de Caim. Esse ciúme, essa inveja que vocês estão manifestando contra mim vem de lá e vocês vão me assassinar como Caim assassinou Abel. Porque eu sou o novo Abel.

Eu sou o novo que irá ser assassinado para que o velho mantenha estruturas arcaicas, ultrapassadas, violentas, truculentas, perversas. É um texto profundo. Como é que você entende esse diálogo de Jesus com os fariseus se você não mergulhou aqui, se você não juntou essas pecinhas, se você não investigou, percebe? Então, isto diz um pouco da pergunta que sempre nos faz. Mas, por que vocês estão estudando o gênesis de Moisés no ser? Por que vocês estão estudando o Velho Testamento? Eu tenho uma pergunta melhor. E, por que não estudar?

Diante de uma fala dessa de Jesus, diante lá da ceia, diante da expressão cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, como não estudar? Como não comparar todos os textos? Então, vamos ultrapassar este ponto e entender o terceiro princípio. Não há antes nem depois no texto bíblico para a técnica do midrash. Deixa eu explicar isto aqui. É claro que eu posso fazer uma leitura histórica da Bíblia. Se eu fizer uma leitura histórica, o que eu vou fazer? Eu vou descobrir. Não, este texto aqui, parte do livro de Gênesis, esta parte aqui, é mais antiga, porque tem um hebraico mais arcaico.

E, as outras partes que compuseram aqui, são partes mais novas do que esta parte mais antiga, porque o hebraico utilizado nelas é um hebraico um pouquinho mais adiante no tempo do que este. E, aí, eu vou fazendo um trabalho historiográfico. Eu vou conseguindo distinguir que os textos não foram compostos todos de uma vez, que era composto um núcleo, depois vinha e dava uma aperfeiçoada, dava um toque. Isto é uma visão histórica importantíssima de ser feita, mas, não para esta técnica do midrash. Porque, se você quiser entender sobre o Cordeiro aqui, não adianta eu te falar qual texto veio antes e qual veio depois.

Qual a importância disso? Nenhuma! Nenhuma! Porque, nesta investigação, está fazendo uma análise sistêmica do símbolo. Então, não existe antes nem depois. Então, eu pego o Cordeiro que está em Êxodo, pego o Cordeiro que está no capítulo 4 de Gênesis e pego o Cordeiro que está lá no Evangelho de João e junto todos. Só que, o Evangelho de João, para o livro de Gênesis, nós temos quase 3.000 anos de tempo transcorrido. Sim, mas, qual o problema? Qual o problema? Você pega uma peça de Villa-Lobos, nosso grande compositor, em que ele faz uma referência no Prelúdio 3, por exemplo, de uma peça de Johann Sebastian Bach mais de 200 anos antes dele.

Qual o problema? Qual o problema? Não há antes nem depois. Por isso, nós selecionamos os textos, vamos estudando o sentido desses textos, como que os símbolos se conectam e, A partir do quadro que se monta, a gente vai descobrindo o significado. Agora, olha que bonito! Se você entendeu o significado de Cordeiro, isso serve para o capítulo 4 de Gênesis, isso serve para o Êxodo, isso serve para a passagem de Isaac e isso serve para a Última Ceia de Jesus. Porque, uma vez interpretado o símbolo, você consegue interpretar todas essas passagens no que diz respeito ao símbolo Cordeiro.

Não é interessante? Então, você deve estar aí, morrendo de curiosidade. Meu Deus, então diz, o que significa esse Cordeiro? O que a gente pode concluir sobre esse Cordeiro? Mas, aí, esse assunto é para o próximo episódio. Um abraço e até lá! Legendas pela comunidade Amara.org

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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