Neste episódio da série de estudos do Velho Testamento, Haroldo Dutra Dias dá continuidade à análise do livro de Gênesis, focando no capítulo 4, que narra a história de Caim e Abel. O estudo aprofunda-se na simbologia desses textos antigos, buscando a essência espiritual por trás da letra, à luz da Doutrina Espírita.
O que é estudado neste episódio
- O simbolismo do Velho Testamento: É ressaltado que o Velho Testamento é um “monumento da ciência secreta do povo hebreu”, repleto de simbolismos que só podem ser compreendidos com a chave do Consolador prometido, evitando interpretações meramente sociológicas, políticas ou dogmáticas.
- A oferenda de Caim e Abel (Gênesis 4:1-16): A preferência divina pela oferenda de Abel (ovelhas) em detrimento da de Caim (frutos da terra) é analisada como um símbolo. Não se trata de desvalorizar a agricultura, mas de uma gradação espiritual. A oferenda de Abel, o sacrifício do animal, aponta para a simbologia da encarnação e do processo de purificação espiritual, enquanto a de Caim representa um estágio anterior de conexão com o material.
- A simbologia do sacrifício e do Cordeiro: A oferenda de Abel é conectada a outros textos bíblicos, como o sacrifício de Isaque e a Páscoa judaica, onde o cordeiro simboliza o sacrifício e a purificação, culminando na figura de Jesus como o “Cordeiro de Deus”.
- Jesus e a referência a Caim: É explorada a fala de Jesus no Evangelho de João, onde ele se refere ao “diabo” como “homicida desde o princípio”, interpretando-a como uma clara alusão a Caim.
- O significado de “Diabo” e “Satanás”: A palavra “Diabolos” (grego) ou “Satanás” (hebraico) é explicada não como uma entidade maligna, mas como o “adversário”, o “acusador”, aquele que testa e coloca à prova, essencial para o processo evolutivo.
- Caim como a encarnação da proposta da serpente: A história de Adão, Eva e a serpente é revisitada, com Caim sendo interpretado como a corporificação da proposta da serpente – a busca por ser “como Deus” através da desobediência e do egoísmo.
- A fecundação psíquica: É apresentada a ideia de “fecundação psíquica” (André Luiz) para explicar como ideias e influências externas podem “fecundar” nossa mente, gerando frutos, assim como a serpente “fecundou” Eva com sua proposta.
- Abel como semente do Cristo interior: Abel é visto como um esboço do Cristo interior, representando o esforço para o bem, que é assassinado por Caim, simbolizando o predomínio do mal sobre o bem na Terra.
- O “fruto de Caim”: As consequências das ações de Caim (egoísmo, orgulho, violência, indiferença ao próximo) são identificadas nos problemas sociais e morais da humanidade.
- A mentalidade oriental versus a mentalidade grega na interpretação bíblica: É feita uma importante ressalva sobre a abordagem dos textos bíblicos. A mentalidade oriental (hebraica) não é descritiva, mas evocativa, preocupada com sentimentos, sensações e a função dos objetos, em contraste com a lógica descritiva e objetiva da mentalidade grega.
Reflexões
- A compreensão dos textos sagrados exige uma visão além do literalismo, buscando o “espírito da letra” e o conteúdo espiritual atemporal que diz respeito à evolução do Espírito.
- O “diabo” ou “Satanás” na tradição hebraica não é uma personificação do mal absoluto, mas uma força que testa e prova, essencial para o amadurecimento e a aquisição de virtudes.
- A história de Caim e Abel é um arquétipo da luta entre o bem e o mal, o egoísmo e a fraternidade, cujas consequências se manifestam na sociedade humana e na jornada evolutiva individual.
Ler transcrição do episódio
Música Olá, amigos! Estamos aqui para a gravação de mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis, de Moisés, dando sequência àquela primeira introdução que fizemos ao capítulo 4 do livro Gênesis, que narra a história dos dois irmãos, a continuidade de um processo que nós já estamos avaliando e refletindo sobre ele, que é aquela história de Eva, Adão, a serpente e, agora, culminando nesses filhos de Eva e de Adão, Caim e Abel. Nós vamos começar comentando um aspecto muito importante, é que esses textos, como muito bem ressaltado por Emmanuel no livro O Consolador, são livros repletos de um profundo simbolismo.
Emmanuel chega a dizer, no livro O Caminho da Luz e no livro O Consolador, que o Velho Testamento é um monumento da ciência secreta do povo hebreu, em que somente os sábios e os iniciados da antiguidade poderiam interpretá-lo de maneira segura. Isso diz Emmanuel porque, sem a chave do Consolador prometido, fica muito difícil avaliarmos certos temas, certos assuntos que são tratados no livro Gênesis porque corremos o risco de dar um enfoque sociológico apenas, dar um enfoque político, um enfoque meramente religioso no sentido de organização religiosa, ritual religioso ou dogma religioso e perdemos aqueles elementos que dizem respeito à evolução espiritual, à realidade do Espírito imortal.
Por exemplo, aqui no texto fica descrito que o Senhor Deus se agrada da oferenda de Abel, que é a oferenda de ovelha, do sangue da ovelha, mais do que se agrada da oferenda de Caim, que são frutos da terra. Isso poderia, numa interpretação equivocada, distorcida, que extrapola o propósito do texto bíblico, isso poderia nos levar a dizer que cuidar de rebanhos é superior a ser um agricultor ou que a atividade da agricultura estivesse sendo menosprezada, desvalorizada pelo texto bíblico. É um absurdo que a nossa reflexão sob as luzes da doutrina espírita não pode permitir esse tipo de avaliação.
É claro que a agricultura é de uma nobreza espiritual imensa. Sem a agricultura, sem o trabalho do lavrador, nós não teríamos o pão à mesa. Da mesma maneira, o trabalho do pastor, principalmente na época em que as pessoas precisavam se agasalhar, dependiam dos produtos oriundos da do pelo da ovelha, inclusive se alimentavam da ovelha, era uma fonte de proteína muito importante para aquele povo nômade que vivia no deserto. Não se trata dessa avaliação puramente material. O que está em jogo aqui é um conjunto de símbolos, de simbologias muito profundas que vão aparecer em todo o Velho Testamento, principalmente no Livro Levítico.
Nós estudamos, tivemos a oportunidade de estudar o Livro Levítico e lá nos debruçamos com mais tempo sobre a questão do sacrifício dos animais, do que representava o sangue, da simbologia por trás do sacrifício de animal. O sacrifício de animal como uma figura, como um elemento didático, porque a humanidade estava na sua infância espiritual. Então, aqui o mundo superior lidava com crianças e oferecia a essas crianças recursos pedagógicos concretos, materiais, palpáveis, recursos esses que escondiam uma pedagogia abstrata e espiritual, que só mais adiante, nos séculos vindouros, poderia ser apreendida.
É o que Paulo fala, estava lançado um véu sobre o Velho Testamento. Com a vinda do Cristo, que inaugura a maioridade espiritual do orbe, esse véu é retirado e o sentido dos símbolos apontam para a figura do Cristo, que é o guia e modelo que sintetiza a revelação espiritual na sua pessoa, na sua conduta, na sua vida, nos seus ensinos. Toda a simbologia apontava para a figura do Messias, apontava para a figura do Cristo e utilizava elementos pedagógicos concretos para já começar a sensibilizar a mentalidade religiosa dos Espíritos encarnados naquele período.
Esse é o sentido. Então, o que que o texto já está apontando? Que nós temos uma gradação, o Caim que opera na Terra, faz o trabalho da Terra e aquele que já oferece o sangue, o sacrifício. Nós comentamos no nosso estudo do Levítico, se você tiver alguma dúvida, volta lá no estudo do Levítico, acompanha que esse assunto não tem como a gente retorná-lo aqui, porque ele é muito extenso e ele foi explicado, foi trabalhado no nosso estudo do Levítico. Mas, o sacrifício do animal aponta para a simbologia da encarnação, da encarnação do Espírito, porque o Espírito, na encarnação, ele consome o seu corpo físico, ele, literalmente, derrama sangue para que ocorra o processo de purificação espiritual, para que ocorra o processo de expiação espiritual, de purificação e de aprendizado, em que o Espírito se aproxima de um estado que o Velho Testamento vai chamar de santidade, mas que não tem nada a ver com o conceito religioso de santidade das igrejas.
É o conceito do Velho Testamento de santidade, que é proximidade de Deus. Quanto mais próximo de Deus, menos material é o Espírito. Nós aprendemos isso, também, em O Livro dos Espíritos, que os Espíritos, ao se desprenderem dos laços da matéria, ao adquirirem uma autonomia que os coloca acima das injunções da matéria, ele vai se aproximando cada vez mais do Criador de Deus. O processo de evolução é um processo, então, de desmaterialização, entre aspas, desmaterialização no sentido de estar cada vez menos sujeito, menos escravo da matéria.
Então, aqui, há uma oposição. Nós temos um Abel que já começou uma subida espiritual, já está nesse processo de oferecer o Cordeiro e que é interessante porque Abel já é uma pecinha do quebra-cabeça apontando para Jesus. O fato de ele oferecer o Cordeiro já é uma indicativa de um texto muito importante, que é quando Abraão leva seu filho Isaac para o monte para ser sacrificado e, em lugar de Isaac, o Senhor oferece um Cordeiro. Nós sabemos disso. Esse texto é muito importante, muito importante. Esses dois textos, a figura de Abel, esse texto de Isaac e, depois, Jesus sendo interpretado como aquele que sintetiza o Cordeiro da Páscoa, que é um outro elemento também, a Páscoa precisava ser sacrificado um Cordeiro, o sangue do Cordeiro era colocado na porta e o anjo da morte pulou as casas em que havia o sangue do Cordeiro.
Então, só morreram os primogênitos das casas em que não havia o sangue do Cordeiro. Então, olha como que se liga essa temática, embora ela pareça um pouco grosseira aos nossos olhos do século XXI. Ela está narrada, ela está construída na linguagem de 3.500 anos atrás, de 4.000 anos atrás. Então, é um texto construído para uma mentalidade antiga, mas, nem por isso, ele deixa de conter os seus aspectos imperecíveis, que é a luz espiritual que se desprende do texto, o conteúdo espiritual que é atemporal, porque diz respeito à evolução do Espírito.
E, é esse conteúdo, o espírito da letra que nós temos que resgatar. A letra é antiga, a letra é grosseira, está numa linguagem que pode chocar a nossa sensibilidade atual. Pode chocar, né? Porque eu acredito, também, que muitas coisas que nós fazemos hoje chocaria uma pessoa de 4.000 anos atrás. Tem certos comportamentos nossos, da nossa sociedade hoje, que chocaria um habitante do deserto de 4.000 anos atrás. Mas, paciência, não é? É preciso ultrapassar esses aspectos literários e Encontrar a essência por trás do texto.
E, a essência conecta Abel, aquele que oferece o cordeiro, oferece, como sacrifício, a expressão religiosa da época, era a oferenda, estudamos isso, também, no Levítico, oferenda de vegetais, de cereais e oferenda de animais. Então, Abel, aqui, já está um passo adiante, ele já está na oferenda mais substanciosa, a oferenda do sangue, o sangue do cordeiro. Esse sangue do cordeiro vai aparecer, novamente, na Páscoa, ele vai aparecer em Isaque, não é? E, depois, ele aparece sintetizado na figura do Cristo, que é entendido, que é visto como o cordeiro de Deus, quer dizer, aquele cordeiro que Deus ofereceu, em lugar de Isaque, para o sacrifício.
Alguém foi sacrificado. Então, tem essa simbologia profunda e Caim, ainda na oferenda do cereal, nas primícias, as primícias dos cereais, a primícia da colheita no chão, cultivando a terra. Essa gradação é importante, mas, há um elemento, aqui, que é muito importante. Tanto Caim quanto Abel estão em busca de conexão com Deus, se percebem desconectados, estão em um caminho de comunhão com Deus e elegem cada qual, de acordo com o seu nível de consciência, com o seu nível evolutivo, cada qual elege um meio, um instrumento para fazer essa comunhão divina.
Então, nós não temos que ver que o meio, o instrumento, ele tem aqui um papel secundário. Em ambos, havia o desejo de reconectar-se, o desejo de comunhão. Comunhão perdida, perdida por quem? Por seus pais, por seus pais. Aqui, é um tema importante, muito importante. Quando Jesus, no Evangelho de João, tem um diálogo com os fariseus, esse diálogo permeia o capítulo 8, 9, 10 do Evangelho de João, Jesus é comparado a Abraão. O núcleo da discussão desse diálogo está essa comparação se Jesus era ou não filho de Abraão. Ser filho de Abraão significa manter as tradições, estar inserido no grupo, seguir as normas do grupo, os padrões culturais do grupo fariseu.
E, Jesus tem uma fala assim, vós tendes por pai ao diabo e vos esforçais para realizar a sua vontade. Ele foi homicida desde o princípio. Essa é uma clara referência de Jesus a Caim, a esse texto que nós estamos estudando. Então, olha que interessante, no diálogo que João registra, nesse registro de João do diálogo de Jesus, Jesus teria feito uma referência a esse capítulo 4 do livro Gênesis. Aliás, Jesus faz inúmeras referências ao livro Gênesis, principalmente esses capítulos iniciais, do primeiro ao sexto, inúmeras referências.
A todo momento, Jesus faz um evoca esses textos do Gênesis. Mas, que história é essa? O diabo foi homicida desde o princípio, chamando Caim de diabo. Aqui, nós precisamos atentar para o significado da palavra. Diabolos é a tradução grega da palavra Satanás, que é o termo hebraico. A palavra Satanás, em hebraico, ela tem vários significados, vários. Mas, o principal núcleo deles é que o Satanás é o adversário, é a parte contrária. É o outro polo do debate, da briga, do litígio, do processo. Por isso, ele é visto como o acusador.
Então, nós temos o Satanás e o Sanegor, o defensor, que em grego, Sanegor vai ser traduzido por paracleto, o paracleto, o advogado, o que consola, o que defende, o que esclarece, o que corrige, o que educa, o paracleto. E, do outro lado, o diabolos, que é o que acusa, o que persegue, o que testa. Então, duas forças, o que coloca em prova. Nesse sentido, é bonito porque, ao contrário do que as religiões construíram em torno da figura do diabo ou do Satanás, o mal é visto como aquele elemento que testa o bem, que coloca o bem em prova, que prova se o bem é bem ou se ele é mal.
Então, ele é o vestibular, o diabo é o vestibular. Tem gente que vai gostar disso, né, dessa comparação aí, o diabo é o vestibular. Mas, ele é isso, ele testa, ele é o teste, a prova, se você está preparado para realmente ser chamado de justo. Então, não há justo que não passou pelo diabo, por Satanás. Essa é uma simbologia da tentação de Jesus. O Cristo é o justo, ele passa pelo diabo, por Satanás, tira nota máxima em tudo e aí é declarado justo e aí o diabo se afasta. Deixando para nós e ele não precisava passar por isso, não é?
Porque Jesus era superior ao examinador. Quem o examinou, quem fez a prova para testá-lo, sabia menos que ele, do que Jesus. Mas, por que ele passou por isso? Para nos deixar uma lição de que não há processo evolutivo sem teste. Você quer adquirir paciência. Então, o que você recebe? Pessoas que vão testar a sua paciência, na família, no relacionamento, no trabalho, no trânsito. Porque, sem esse teste, você não adquire paciência. E, assim, com todas as outras virtudes. Então, o diabo tem essa função de acusador. Isso está muito bem explicado no texto de Jó.
O Jó era visto como um justo e o diabo falou vamos ver se é justo mesmo. E, o diabo começa a propor uma olimpíada para o Jó. Ele tem que passar por testes muito difíceis. E, ele sai no final com toda dificuldade, mas ele sai de pé lá do outro lado. E, aí, então, ele é declarado justo e aí cessam todas as circunstâncias de teste e de prova. Esse é o sentido metafórico do termo diabo. Então, quando Jesus diz vós tenteis por Pai ao diabo e vos esforçais por realizar a sua vontade, ele foi omicida desde o início, Jesus estava dizendo o que?
Aquilo que nós já lemos no episódio anterior. A nossa civilização, a civilização terrena, os encarnados na Terra, são, ainda, inspirados por Caim. Caim é nosso Pai. Pai, não no sentido de Pai biológico, Pai no sentido de o inspirador, o fundador, nós imitamos Caim, que é filho de Adão, Adão e Eva. Ou seja, aquele projeto que começou com Adão e Eva, agora, se corporificou em Caim. Caim é a encarnação da proposta da serpente. Isso é importante entender isso, porque Jesus vai ser a encarnação do verbo divino, da palavra divina.
Deu para entender? Isso aqui é simbólico, cuidado, muito cuidado, respira, dá uma pausa no vídeo, toma uma água e respira, porque se você interpretar isso aqui ao pé da letra, você vai se perder. Se você interpretar isso aqui, literalmente, como eu estou falando, você vai se perder num labirinto. Cuidado, cuidado, respira, toma uma água, vamos extrair o Espírito da letra. Nada de literalismo, nada de Bíblia ao pé da letra, pelo amor de Deus. Então, vamos lá, vamos lá. A serpente, a proposta da serpente, que era Eva, come da árvore proibida.
Deus está com medo de você ficar maior do que Ele ou ficar igual a Ele. Come. Essa era a proposta. Essa proposta da serpente foi acolhida pela mulher. É. Então, o Honório gostava muito de um texto de André Luiz, que está no Evolução em Dois Mundos, que fala da fecundação psíquica. O que é isso? A mulher tem um útero, ovário, então ela lança óvulo e vem um espermatozoide externo, vem o espermatozoide, encontra com o óvulo e dá início ao processo da concepção. É uma concepção biológica, que vai dar origem a um outro corpo físico na mulher.
Essa é a física. Mas, nós também possuímos uma espécie de útero mental, o nosso campo mental. E, elementos de outras mentes penetram na nossa mente a nossa atmosfera psíquica, como chamava Kardec, e nos fecundam. É quando alguém diz assim ô fulano, por que você não faz o vestibular para a engenharia? Você fala, ah, eu não tinha pensado, ah, eu acho que você eu acho que você tem jeito para a engenharia, você gosta de matemática, você gosta dessa coisa de construção. Aí, a pessoa, você já está trabalhando aqui mesmo, na empresa, você já lida, por que você não faz o vestibular?
Olha a pessoa fecundando, aí a pessoa acolhe aquela ideia, começa a estudar e vai recebendo, aí acaba está lá na formatura, no dia da formatura, sai lá o convite bonito e ela escreve assim, queria agradecer ao meu chefe que insistiu para que eu fizesse engenharia, se não fosse o seu incentivo, eu não estaria aqui hoje. Fecundação psíquica. Qual que é o fruto agora? O diploma. O diploma de engenharia é o fruto daquela fecundação que ocorreu lá atrás. É a mesma ideia aqui. Deu para entender? Então, a serpente vem e fecunda Eva.
E, Adão, que é o marido, permitiu. Permitiu isso. Por isso que ele é responsabilizado. Percebe isso? Para de pensar Adão e Eva como marido e mulher. Adão e Eva está dentro de você. Pensa dentro de você. A sua razão tinha que ficar vigilante com o seu sentimento. Não permitir que o seu sentimento, que o seu campo emocional, seja fecundado por qualquer coisa. Mas, aí a razão, o discernimento, o bom senso, baixa aguada, o nosso coração aceita qualquer coisa, qualquer proposta, inclusive a proposta de afastar-se de Deus.
Por isso, qual que é a pena aqui da mulher? Que ela, aqui, está dizendo aqui, olha que interessante, multiplicarei as dores da tua gravidez, na dor darás à luz filhos, que filhos? Só filhos biológicos, será? Olha que interessante isso. Teu desejo te impelirá o teu marido e ele te dominará. Sim, porque Eva representa o sentimento insubmisso, o sentimento que não tem princípios, que não tem limites. É sobre esse domínio que o texto fala. O domínio do bom senso, da razoabilidade, da nossa razão, da nossa capacidade de discernir sobre a multidão de emoções que fervem dentro de nós.
É esse domínio aqui que o texto fala. Como isso não aconteceu, ela acolheu ou a proposta da serpente fecundou Eva e nasceu quem? Caim. Nasceu Caim. E o Caim é o primeiro homicida na história. Caim é aquele que vai encarnar, corporificar tudo que representa a serpente. E a serpente é o adversário, é o teste, é aquele que testa a serpente, é o diabo. Não é? Caim, então, é a serpente corporificada, é a encarnação da serpente. Nesse sentido. Entende? Nesse sentido simbólico. E o Cristo? E o Cristo? Lá adiante, lá adiante, nós vamos ver outro casal.
Outro casal. Novamente uma mulher, novamente uma mulher, não mais agora Eva, agora Miriam ou Maria, que, ao invés de ouvir a serpente que rasteja, ouve o anjo, escuta um anjo e a palavra de Deus, o verbo divino, trazido pelo anjo, é acolhido e se corporifica em quem? Em Jesus. Jesus é o verbo corporificado. Jesus é a proposta divina materializada. Ele concretiza a proposta divina. Se está muito simbólico, você tem um pouco de dificuldade com isso, vamos dizer isso em uma linguagem mais condizente com a nossa época, que é a linguagem que o Kardec utiliza.
Kardec diz assim, Jesus representa aquele que expressa a lei divina na sua mais alta pureza. Então, Jesus é a mais pura expressão da lei divina. Ele trabalhou lá o conjunto das leis morais, no livro dos espíritos, trabalhou a escala espírita, os patamares evolutivos dos seres e mostra que Jesus é um espírito da mais alta hierarquia e que, por isso, ele é a mais pura expressão da lei divina. Ele é o cumprimento integral da lei divina. Integral da lei divina. É isso. Corporifica. Então, o que o texto está trabalhando aqui é que Abel, Abel, já é uma semente, uma sementezinha do que virá a ser o Cristo, simbolicamente falando, porque nós não estamos falando do Cristo histórico, Jesus que encarnou.
Nós estamos falando do Cristo que vai nascer dentro de você. Já não sou eu quem vive, é o Cristo que vive em mim, o seu Cristo interior. Então, Abel já é o primeiro esboço, já é o esforço e o que vai acontecer? Esse Caim, que é a força que predomina na Terra, vai assassinar a primeira sementinha do bem, Abel. É o que nós assistimos. E, ao longo de centenas de milhares de anos na Terra, o que nós estamos assistindo? O predomínio do mal sobre o bem, ou seja, o mal assassinando o bem, o mal matando o bem, exterminando o bem, as florações do bem.
As coisas começam a funcionar, começam a se organizar, vem o mal e destrói tudo. Aí, tem que recomeçar do zero. É o Caim, é o padrão Caim, que é um padrão de inveja, de egoísmo, egoísmo e orgulho, que são os elementos principais. Egoísmo e orgulho que vão se expressar em inveja, raiva, indolência, violência, etc., etc. Que redundam, que acabam se concretizando em atos práticos. Por quê? Nós conhecemos a árvore pelo fruto, como é que eu avalio Caim? Como é que eu avalio Caim? Não é pela cor dos olhos, não é pela cor da pele, não é pelo nome, não.
Eu avalio Caim pelo fruto, pelo resultado da sua ação. E qual que é a ação de Caim? Homicídio. Qual que é o fruto? Morte, assassinato, violência. Esse é o fruto de Caim. Dá para ver o fruto de Caim aí, em todas as nossas instituições, nas sociedades humanas, nas guerras. Quando a gente assiste na televisão crianças sendo atingidas por armas químicas, pessoas morrendo de fome na miséria, desigualdade, esse é o fruto de Caim. O fruto de Caim é a morte do seu irmão. Por quê? Por quê? Porque o lema de Caim é assim, eu não sou responsável pelo meu irmão, eu não sou o aguardador do meu irmão.
Foi isso que ele respondeu. Meu irmão não é problema meu, mas é. Porque se todos pensarmos assim, o outro não é problema meu, nós construímos esse mundo que nós vivemos. E acho que já ficou claro que não está funcionando muito bem essa maneira de viver. Está ficando claro que nós necessitamos de um outro padrão que é o padrão eu cuido dos outros para que os outros cuidem de mim. Cada qual ajudando o outro para que possa ser ajudado. Você ajuda alguns e todos ajudam você. Olha aqui, se nós seguíssemos essa lógica, quantas pessoas você é capaz de ajudar?
Um número limitado. Agora, todos te ajudando. Imagina, todos te ajudando. Coisa bonita, não é? É uma outra lógica, não é a lógica de eu cuido só de mim, eu preocupo só comigo. E, aí, o outro problema dele que é a lógica do Caim. Eu não sou guardador do meu irmão, porque ele está perguntando do meu irmão para mim? E, aí, cria uma cultura de egoísmo e de orgulho na Terra. Essa é a cultura de Caim, esse é o fruto de Caim. E, isso redunda, inevitavelmente, inevitavelmente, a omissão de Caim, a maldade de Caim, o descompromisso de Caim, cria o mundo que nós vivemos, que é um mundo violento, violento, cruel, injusto.
Esse é o fruto de Caim. Aqui, nós, é claro, nós demos uma panorâmica, fizemos um voo, aí, bem ligeiro sobre sobre esse texto. Versículos 1 a 16 do capítulo 4 do livro Gênesis e, no próximo episódio, nós vamos adentrar nos detalhes da simbologia. Mas, é importante compreender a linha geral que conecta esses textos, aqui, com vários outros textos do Velho Testamento. Agora, para encerrar, eu queria dizer uma coisa. É preciso, no nosso estudo do livro Gênesis, não cometer um erro, um erro muito grave, muito grave, que pode atrapalhar completamente os seus estudos, completamente.
Nós, ocidentais, aqui no Brasil, América do Norte, América, de um modo geral, Europa, parte da África e mesmo o Oriente, a Ásia, muitas partes desses locais, nós temos uma influência muito profunda do pensamento grego. O que que significa isso? Que nós, mesmo que a gente não perceba, a gente raciocina muito de uma maneira lógica, que é assim, eu falo uma coisa, aí, na sequência, eu tenho que falar outra que tem ligação com isso que eu falei antes, aí, depois, eu falo outra que tem ligação com isso, eu falo outra que tem ligação com isso, então, eu sigo uma linha lógica.
Se você for fazer isso com o texto bíblico, você vai ficar doido, doido, doido, doido, porque o texto bíblico, ele não segue a lógica grega. O texto bíblico segue a mentalidade oriental e a mentalidade hebraica. Essa mentalidade oriental, ela não é descritiva, ela não descreve. Então, o que que é descrever? Eu digo assim, um carro, um carro, tem quatro rodas, um motor, cinco lugares, quatro portas, eu estou descrevendo. Essa mentalidade oriental aqui, se ela fosse falar do carro, se ela fosse falar do carro, ela não vai descrever o carro, ela vai dizer assim, planar nas asas de uma águia.
Planar nas asas de uma águia, o que isso tem a ver com o carro? É porque a sensação que você tem quando o carro está em alta velocidade. Nossa, uma sensação que eu tenho quando eu estou andando no carro. Isso não é falar do carro? Quer dizer que falar do carro é só descrever o carro? E os sentimentos, as sensações que você experimenta quando você está andando no carro? Quando você dirige o carro? E as coisas que você sente quando você toca o carro? Quando você cheira o carro? Perceberam? Então, a mentalidade oriental, ela não descreve, ela evoca os sentimentos que você tem quando entra em contato com um objeto.
Então, se você está lendo esse texto aqui, procura, o Cain descreve o quê? Não, para, para, para. O texto é uma profusão de depoimentos de sentimentos, de intuições, de sensações que se tem em contato com determinadas realidades. É isso. Então, eu não tenho que descrever Eva. Eva que é evocada, evocada. Ela é a mulher, é o sentimento, é a que dá a luz, é a que concebe, entende? Não é uma mulher que casou, que tinha um nome. Não, para. Não é isso. Eu olho para a mulher quem escreveu isso aqui? Olhava para a mulher e tudo que a mulher representava, tudo que ela evocava, ele pegava o sentimento e deixava a mulher e descrevia aqui o sentimento.
Então, é a mulher que dá a vida. Então, é ela que concebe. Então, no plano das ideias, a minha mente é uma mulher. Perceberam? Mas, o que tem mente com mulher? Gente, não é descrição. Entendeu? Não é descrição. É uma coisa perguntar, mas o que tem o carro com a águia? Tem o seguinte, você acelera o carro e parece que você está voando nas asas de uma águia. É a sensação, o sentimento. Então, essa cultura oriental, ela descreve a sensação, o sentimento, a experiência, ao passo que a cultura grega, não, ela é uma cultura objetiva, ela descreve a coisa, ela procura, objetividade, depois nós vamos aprender que objetividade absoluta não existe.
Toda a nossa observação está carregada de um subjetivismo. O que o texto oriental faz e o texto hebraico faz é carregar a mão nessa subjetividade. Então, tem um poema do Gilberto Gil que vai retratar isso. É que ele fala assim, quando o poeta fala em pote, cuidado, porque ele pode estar significando o incontível. Olha só, curioso, não é? Porque pote é a ideia de uma coisa limitada que você põe, mas o poeta pode usar a palavra pote para falar daquilo que contém o infinito. Então, sabe essa letra do Gilberto Gil, não é?
Aqui é um texto poético, ele evoca. Então, relaxa, não fica tão assim, porque a gente tem que ir evocando. E como é que a gente descobre esse sentimento? Você vai conectando. Nós vamos pegando outros textos e falar, ah, então é isso que ele quis dizer. É esse aspecto que ele está trazendo. E o texto hebreu, quando ele olha para um objeto, ele está mais preocupado com a função do que com a forma. Então, o grego vai descrever o carro como? Quatro rodas, não é? Falei aqui. Vai descrever a forma e a função. Para que serve o carro?
A mentalidade hebraica está mais preocupada com a funcionalidade, com o que faz, com a maneira, como age. Entende? Então, ela olha para o chifre do carneiro. Qual é a função do chifre do carneiro? Qual é a função? Função de disputar com o outro. Disputar. De ir para o embate. De mostrar força, mostrar poder. Então, a força do carneiro está onde? Na pata? Não, no chifre. Porque quando ele disputa, ele disputa chifre a chifre. Então, a força está no chifre. Então, o poeta hebreu olha para o chifre do carneiro e diz assim o Senhor é o meu chifre.
Mas, você fala, meu Deus, que coisa louca. Está descrevendo Deus como se fosse um chifre? Não. Ele não está descrevendo nada. Ele está dizendo que quando você olha para o chifre do carneiro, você sente, você sabe que a força do carneiro está no chifre. Então, existe uma força no universo que é o quê? Deus. E, a nossa força está em Deus. Então, Deus lembra a função, a funcionalidade do chifre do carneiro. Deu para entender? Se a gente não compreende isso, fica difícil interpretar o Velho Testamento. Por isso que ele é um repositório de símbolos profundos, difíceis de serem compreendidos.
Porque todo mundo se aproxima com uma visão, com uma mentalidade objetiva, querendo descrição. Então, nós não vamos aqui descrever Abel, descrever Caim, descrever não sei o quê. Nós vamos ver o que essas imagens estão evocando. Elas estão nos chamando para olhar para algo que é dentro, que é a nossa relação com a vida e com Deus. No próximo episódio, nós damos sequência no estudo de Caim e Abel. É com luta de Caim. Esse é o fruto. É o que ele fala. Um horrendo fruto. Augusto Ange é genial. Todo o mundo moderno, horrendo, em ruínas, deixa agora escapar um horrendo fruto.
Esse é o fruto.
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.
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