Neste episódio do estudo do Velho Testamento, Haroldo Dutra Dias aprofunda a análise do livro de Gênesis, focando na sua estrutura literária e nos significados simbólicos das narrativas iniciais. O estudo é apresentado como uma “segunda peça” dentro da grande obra do Gênesis, utilizando a metáfora do teatro para desvendar as complexidades do texto.
O que é estudado neste episódio
- Estrutura do Gênesis: Haroldo retoma a divisão do livro em dez “Toledot” (gerações), destacando a primeira geração (“dos céus e da terra”) como a montagem do cenário para o drama da evolução humana. Ele explica que Gênesis 1:1 a 2:4 (primeira parte) oferece uma visão panorâmica, como um “flash” inicial.
- A Segunda Geração – Adão e Eva: A partir de Gênesis 2:4 (segunda parte), inicia-se a segunda geração, focada em Adão e Eva. Haroldo ressalta a mudança de perspectiva narrativa: se no capítulo 1 o olhar é “de cima para baixo” (Deus criando), no capítulo 2 o foco se desloca para a “perspectiva do olhar humano”, com Deus ao lado do ser humano em sua jornada de aperfeiçoamento.
- Unidade Literária do Gênesis: É abordada a ideia de que, apesar de ter sido construído por diferentes grupos ao longo do tempo, o texto de Gênesis possui uma profunda unidade literária, comparável a um “artesanato” ou uma “toalha bordada”, onde as partes se integram harmoniosamente.
- Estrutura em Três Atos da Geração de Adão: Haroldo detalha a estrutura da narrativa de Adão e Eva em três blocos, cada um iniciando com um cenário, seguido de um poema e uma conclusão:
- Primeiro Ato (Gênesis 2:4-25): Começa com a criação do homem e do jardim, culminando no poema sobre a união de Adão e Eva (“osso de meus ossos, carne de minha carne”).
- Segundo Ato (Gênesis 3:1-24): Inicia com a tentação da serpente, descrevendo a desobediência e suas consequências, e encerra com o poema das maldições e a expulsão do Éden.
- Terceiro Ato (Gênesis 4:1-26): Aborda a história de Caim e Abel, e o nascimento de Sete, finalizando com o poema de Lameque.
- O Significado de Éden e Paraíso: A palavra hebraica “Éden” (exuberante, delícias) e sua tradução para “Paraíso” na Septuaginta são exploradas. O Jardim do Éden é apresentado como um “banquete” de abundância e beleza, um lugar de comunhão com Deus.
- A Árvore do Conhecimento e a Árvore da Vida: A localização e o significado dessas árvores são analisados, com destaque para a interpretação de que a escolha de onde colocar a “árvore do conhecimento” no jardim reflete a diferença entre desejo e consciência.
- O Drama da Desobediência e suas Consequências: A quebra do pacto de fidelidade (emunah/fides) por Adão e Eva é o ponto de partida para uma progressão exponencial do mal, que afasta o ser humano de Deus e do jardim.
- Conexão com o Novo Testamento: Haroldo estabelece paralelos entre as narrativas de Gênesis e os ensinamentos de Jesus, como a conversa com o ladrão na cruz (o retorno ao Paraíso) e a lição para Marta e Maria (a escolha entre o acessório e o principal).
- Simbolismo de “Adão”: O nome “Adão” é relacionado a “adamah” (terra vermelha/argila), significando “o terrestre”, aquele formado do pó da terra.
Reflexões
- O afastamento de Deus, iniciado por um pequeno gesto de desobediência, gera uma progressão exponencial do mal, culminando em um ponto onde o ser humano não consegue mais retornar por si mesmo, necessitando da intervenção divina.
- A narrativa do Jardim do Éden e a escolha entre a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal simbolizam a eterna luta entre o desejo e a consciência, e a tendência humana de eleger o acessório como prioridade, afastando-se do que é essencial.
- O texto de Gênesis, quando compreendido em sua profundidade e simbolismo, ilumina os ensinamentos de Jesus no Evangelho, revelando uma continuidade e um diálogo constante entre as escrituras, onde a promessa de retorno ao “Paraíso” é central.
Ler transcrição do episódio
Música Então, hoje nós estamos muito alegres com a visita do Sr. Manoel aqui na nossa reunião, porque todos sabem que nós temos um vínculo muito grande, uma dívida de gratidão com aquelas pessoas que representam a nossa base espírita, com as quais a gente aprendeu a ser espírita de verdade. Dentre elas, o Sr. Manoel Alves, Honório Abreu, Arnaldo Rocha, Elião Zalho, Damasceno Sobral, Martins Peralva, Dona Neném Eloto, são pessoas que ficam no nosso coração, na nossa memória. E o Sr. Manoel, que hoje representa todos eles, é o porta-voz de todos eles.
Inclusive, todos já se encontram no plano espiritual, mas tem certeza que não estão distantes de nós, estão sempre nos acolhendo e auxiliando. Hoje, nós entramos com mais detalhe nessa, chamaríamos de segunda peça do livro Gênesis. Apenas retomando, para a gente poder pegar o fio do raciocínio, o livro Gênesis de Moisés é chamado de Gênesis por causa de uma palavra em hebraico chamada Toledote. Toledote, na realidade, significa gerações, ou aquilo que é gerado, o que foi gerado. E o livro de Gênesis é dividido em dez partes, segundo a crítica literária, que são as dez gerações.
Então, a primeira geração é a geração dos céus e da terra. O capítulo 1, versículo 1, até capítulo 2, versículo 4, primeira parte, vai descrever essa grande geração dos céus e da terra. Como aqui será narrado um grande drama, que é o drama da evolução espiritual, o drama da evolução humana, a primeira coisa numa peça teatral, numa grande peça teatral, é o cenário. Então, capítulo 1, versículo 1, até capítulo 2, versículo 4, primeira parte, nós temos a montagem do cenário, o palco em que se desdobrará o drama humano.
Mas, essa narrativa, esse primeiro bloco, ou a primeira geração, ela, de certo modo, é uma visão panorâmica. Comentamos isso aqui também, como se fosse aquele primeiro flash panorâmico. E, depois, o texto vai retomando, com as demais gerações, o desenvolvimento da história. Então, aqui nós estamos tentando dizer da estrutura de Gênesis, usando essa metáfora do teatro. Nós poderíamos, por exemplo, utilizar a metáfora da música. A música também, nas grandes composições, ela parte de um motivo, de um tema, que é uma melodia pequena, e esse tema vai sendo reelaborado, tratado, desenvolvido em várias partes.
E, aí, você tem uma sonata, você tem uma sinfonia, as peças que são desenvolvimentos daquele tema. Aqui, também, ocorre a mesma coisa. Acontece que, quando chega em Gênesis 2, versículo 4, segunda parte, inicia a segunda geração, ou a segunda Toledote, em hebraico, que é Adão e Eva. Então, se a primeira era os céus e a terra, agora entra na Gênesis das personagens. Então, são figuras metafóricas, são símbolos das personagens que vão compor esse drama que vai de Gênesis ao Apocalipse. Agora, olha que interessante. No capítulo 1, versículo 1, o texto inicia da seguinte modo.
No princípio, criou o Deus, os céus e a terra. Os céus e a terra. Importante a ordem, porque é como se, nessa narrativa, que Deus estivesse com a Câmara. Então, é o olhar de céus e terra. Agora, olha como que começa o capítulo 2, versículo 4. No tempo em que, aí vem o nome, que são quatro consoantes, não tem como pronunciar. Alguns chamam de Yavé, Jeová, mas isso aí é porque no texto só tem as consoantes. Então, o povo hebreu, por exemplo, eles substituem. Ao invés de pronunciar o nome, porque o nome foi escrito para não ser pronunciado, eles chamam de Senhor.
E vem Deus, Elohim. No tempo em que o Senhor Deus fez a terra e os céus, mudou a perspectiva. Então, antes a Câmara estava pegando de cima para baixo, agora ela vai começar a captar de baixo para cima. A perspectiva do olhar humano. A perspectiva do ser humano em desenvolvimento. Então, é agora Deus ao lado do ser humano e Ele empreendendo, a criatura empreendendo a sua jornada de aperfeiçoamento. Então, essa mudança de foco não pode passar despercebida de nós. É o ponto que a gente queria destacar. Vou falar rapidinho de uma coisa aqui, porque teve um tempo do estudo bíblico em que teve uma abordagem muito cientificista, muito intelectualóide do texto.
Então, eles ficavam dividindo, tentando encontrar quais foram os autores, os escritores que contribuíram para a obra. Porque é claro que essa obra aqui, esse livro Gênesis, ele não nasceu de uma vez só. Ele veio um núcleo, depois veio um outro grupo e trabalhou um pouco mais, e um outro grupo trabalhou um pouco mais, como no caso dos Evangelhos. Essa dúvida é muito comum. O Evangelho de Mateus que nós temos hoje não foi o primeiro que Mateus escreveu. Ele escreveu, no início, os ditos do Senhor, que era uma coisa mais resumida.
Então, ao longo dos anos, ele mesmo deve ter ampliado, acrescentado, corrigido. Muito comum isso. E, até mesmo depois da sua desencarnação, grupos podem ter acrescentado alguma coisa, criado uma estrutura, mas sempre respeitando aquele núcleo. Contribuíam, mas sem alterar a essência. Aqui, também aconteceu a mesma coisa. Então, a gente consegue perceber isso pela linguagem, pela abordagem. Só que esse estudo que se fazia antigamente ficava dividindo o texto. Ah, não! Esse aqui foi um grupo sacerdotal que escreveu. Esse aqui foi um grupo mais antigo.
Essa ideia está superada. Está superada. Por quê? Porque o texto tem uma unidade literária tão grande que ele lembra uma toalha bordada ou um pano de prato ou uma blusa feita de tricô. As partes estão tão bem integradas, elas estão tão bem harmonizadas umas com as outras que revelam um artesanato. Um artesanato. Eu vou citar aqui, só para a gente ter uma ideia, o que é esse grau de artesanato, de cuidado. Parece uma peça de porcelana mesmo que foi moldada, depois pintada, trabalhada. É um texto muito cuidadoso. E a gente perceber essa estrutura do texto ajuda na hora de interpretar.
Ajuda. Como numa toalha. Você vê, ah, aqui tem esse bordado, aqui tem esse outro, olha, está formando uma figura. É importante ter essa visão global. Então, eu vou dar, dessa parte agora que nós vamos começar a estudar, uma estrutura bastante interessante. Olha só. Que nós já tínhamos trabalhado. Essa geração aqui, o tema da geração de Adão, ela tem três atos. É como se fosse uma peça de teatro com três grandes blocos. Uma trilogia. Essa partezinha que nós estamos estudando. A primeira vai do capítulo 2, versículo 4, até o versículo 25.
É um bloco. O segundo bloco vai do capítulo 3, versículo 1, até o 24. E o terceiro bloco vai do capítulo 4, versículo 1, até o versículo 26. Agora, olha que interessante para a gente perceber, que bonito isso. Como que isso é bonito? Cada bloco desse, ele abre com um cenário, com uma cena, mas ele se encerra com um poema. Cada bloco desse. Um pequeno poema. E, depois do poema, uma conclusão. Então, vamos lá. O primeiro ato, capítulo 2, versículo 4. Olha como é que começa com a cena. No tempo em que o Senhor Deus fez a terra e os céus, não havia ainda nenhum arbusto dos campos sobre a terra, e nenhuma erva dos campos tinha ainda crescido, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para cultivar o solo.
Entretanto, um manancial subiu da terra e regava toda a superfície do solo. Então, o Senhor Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente, uma alma vivente. O Senhor Deus plantou um jardim em Éden, no Oriente, e aí colocou o homem que modelara. É um cenário. Então, o primeiro bloco encerra, começa com o cenário que nós descrevemos. Vem o poema que é este aqui. Então, o homem, o Ix, exclamou, Esta, sim, é osso de meus ossos, é carne de minha carne.
Ela será chamada mulher, Ixá, porque foi tirada do Ix, do homem. Ixá, Ix. Ix, Ixá. É um joguinho, um poema. E, aí, vem a conclusão, depois do poeminha. Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe e se une a sua mulher, e ele se torna uma só carne. Ora, os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam. Então, é um jeito muito poético de narrar. A Ixá, a mulher, é tirada da carne. Olha que interessante! E, por isso, eles têm que se unir para formar uma só carne, porque ela é um pedaço da carne que foi tirada.
Então, ele está sem um pedaço. Ele precisa e, aí, forma uma só carne. Então, tem essa poesia. Encerra com o poema. Agora, vamos ver o terceiro bloco. A mesma estrutura. Começa com um cenário. Descreve um cenário. Capítulo 3, versículo 1. A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher, montou lá o pau. Como que encerra? Olha que interessante! Encerra com o poema do versículo 14. Então, o Senhor Deus disse à serpente, porque fizesses isso, és maldita entre todos os animais domésticos e todas as feras selvagens.
Caminharás sobre teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida. Porém, a hostilidade entre ti e a mulher, entre a tua linhagem e a linhagem da mulher, entre a tua geração e a geração da mulher. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar. À mulher ele disse, multiplicarei as dores de tuas gravidezes. Na dor darás à luz filhos. Teu desejo te impeleirá o teu marido e ele te dominará. Ao homem ele disse, porque escutaste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira de comer, maldito é o solo por causa de ti.
Com o sofrimento dele, te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos e comerás a erva dos campos. Com o suor de teu rosto, comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado, pois tu és pó e ao pó tornarás. Acaba o poema. Aí vem a conclusão. O homem chamou sua mulher, Eva, e vida, o nome que ele deu para ela é vida, ela chama vida, por ser a mãe de todos os viventes. Olha que interessante. O Senhor Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele e os vestiu. Depois disse o Senhor Deus, se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida e coma e viva para sempre.
E o Senhor Deus expulsou-o do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. Ele baniu o homem e colocou diante do jardim de Éden os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida. Jardim de Éden. Porque, daqui a pouco eu entro nisso. Então, a mesma estrutura. Agora, terceiro bloco que a gente vai ver que tem a mesma estrutura. Capítulo 4, começa. O homem conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Cain. Aí, começa a descrever uma cena. E, aí, adivinha? Tem que ter um poeminha, né?
Qual que é o poeminha? Poeminha de Lameque. Lameque disse às suas mulheres, Ada e Selá, ouvi minha voz. Mulheres de Lameque, escutai minha palavra. Eu matei um homem por uma ferida. Uma criança por uma contusão. É que Cain é vingado sete vezes, mas Lameque setenta vezes sete. E, aí, termina com a conclusão. Adão conheceu sua mulher. Ela deu à luz um filho. Ele pôs o nome de Sete, porque disse a ela, Deus me concedeu outra descendência no lugar de Abel, que Cain matou. Também a Sete nasceu um filho e ele deu o nome de Enoche, que foi o primeiro a invocar o nome do Senhor.
E, aí, encerra o bloco. O drama. Porque, aí, o capítulo 5 já é outro bloco, já é outra geração. Todos os grandes espaços começam com a geração. Como que começa o 5? Eis o livro das gerações de Adão. É um artesanato. Isso aqui é uma obra de arte. Então, aproveitando, aí, esse fôlego, um trabalho bonito aqui do Bruce Waltke, que é um comentário dele de gênero. As interpretações dele eu acho um pouco fracas, mas na parte em que ele dá a estrutura literária é bastante interessante. Mas, vamos voltar para o nosso primeiro bloco, porque nós estamos aqui, Sr.
Manuel, começando esse primeiro bloco aqui. Tem a introdução lá, que é aquela primeira parte dos dias da criação e aqui começa o primeiro bloco, que é uma história importantíssima. Primeira coisa que nós vamos dizer aqui sobre o cenário. Uma criação ampla, mas Deus, o Senhor Deus, constrói um jardim, uma estrutura cercada, porque a ideia de jardim aqui é algo que está cercado, que está delimitado. O jardim. E éden. Éden é uma expressão que significa exuberante, delícias, maravilhoso. Então, um jardim de éden. Não é o jardim do éden.
É um jardim de delícias, um jardim de exuberâncias, um jardim de belezas, de frutos, de abundância. Éden significa isso. Agora, aqui tem uma coisa bonita. A expressão em hebraico para jardim, ela é traduzida. Olha que interessante isso. Vou pegar isso aqui. Esse é um ponto fundamental para a gente aqui. Quando foram fazer a tradução da Bíblia hebraica para o grego, porque o povo hebreu ficou um tempo sob o domínio de Alexandre o Magno, Alexandre o Grande. Isso foi mais ou menos 200 a.C. Então, com aquele contato com o povo grego, o povo hebreu sentiu a necessidade de fazer uma tradução para o grego.
E diz a lenda que chamaram, então, 70 sábios para fazer a tradução do Velho Testamento para o grego, do hebraico para o grego. É a chamada versão dos 70, Septuaginta. E, aí, como que eles traduziram jardim? Paraíso. Daí, vem a palavra paraíso ou paradise. Paraíso é jardim. Paraíso do Éden ou jardim de Éden. Paraíso de Éden ou jardim de Éden. O que nos faz pensar na conversa que Jesus teve com o ladrão porque se arrependeu? Eu te digo, hoje, porque o texto não está em vírgula. Então, você tem que tomar uma decisão. Onde você põe o hoje?
Porque o hoje é um advérbio. E, aqui, tem dois verbos, portanto, duas orações. Aí, você tem que tomar uma decisão. Onde você vai colocar o advérbio? Porque o texto, ele não tem separação de palavras nem de letras. É uma letra após a outra. E, no grego, você pode jogar as palavras para cima, deixar cair e colocar em qualquer ordem. Porque o que indica se é sujeito, se é predicado, é a terminação. Então, você pode dizer assim, eu te digo hoje, estarás comigo no paraíso. Ou, eu te digo, estarás hoje comigo no paraíso.
Então, tem isso aí. Mas, o paraíso, o paraíso é o jardim. É esse jardim aqui. É o retorno ao jardim. Porque tudo, e aqui está o drama, nós temos uma situação no jardim, o ser humano quebra o pacto de fidelidade, de, a palavra fidelidade em hebraico é emunah, que é a mesma palavra de fé. Em latim é fides, significa fé e fidelidade. Há um compromisso, vai comer desta aqui, mas desta árvore não comerás. E, o compromisso é quebrado. Então, um pacto de fidelidade foi quebrado, um pacto da fé e toda uma história se desenrola por conta do afastamento voluntário do ser humano de Deus.
E, por conta do afastamento de Deus, o ser humano sai do jardim com a promessa de voltar ao jardim. Então, a conversa de Jesus com o ladrão arrependido é uma retomada deste texto que nós vamos começar a estudar agora. Porque o drama aí de Adão e Eva, que vai culminar, nós vamos perceber aqui, um erro que começa pequeno. Mas, gente, uma coisa tão pequena. E, este é um outro sentido bonito também do texto. A partir do momento que rompeu-se a relação com o Criador, através de um pequeno gesto, o mal começa a assumir uma progressão exponencial.
O mal vai só se agravando, só se agravando, só se agravando. Essa é a história da narrativa bíblica. E, quanto mais o mal se agrava, mais o ser humano vai entrando na violência, no crime, na maldade, na truculência, num afastamento cada vez maior de Deus. Então, este ladrão na cruz que se arrepende é o símbolo, então, talvez deste auge do afastamento de Deus e deste desejo de regressar ao seio do Pai, a uma situação de comunhão com Deus que, metaforicamente, representa a volta ao Jardim de Éden ou a volta, se quiserem em grego, ao Paraíso.
Está bonito, não é, senhor? É uma coisa bonita. A gente percebe que é uma narrativa grandiosa, é um drama para lá de Shakespeareano, isso que nós estamos estudando aqui. Muito bem desenhado, muito bem articulado, com muitos trocadilhos, com muita ironia. O texto bíblico tem uma ironia espiritual. Ele tem uma… A gente vai ver aqui, por exemplo, a questão da serpente, ela diz que ela é a mais astuta, arum. E aí, olha que interessante aqui, quando ela é amaldiçoada, você usa um trocadilho aruã. É mesmo radical. Não é brincando com as palavras.
O astuto fica amaldito. Olha que interessante. Tem todo um jogo aqui. Nós vamos ver isso com calma, vamos ver isso com bastante, bastante, bastante calma. O que que acontece aqui, nesse texto. Outra questão que a gente queria chamar bastante atenção aqui, nós já tínhamos falado sobre isso, é um jogo de palavras. Adamar é terra. Damar é vermelho. Adamar é a terra vermelha. Daí, a tradução aqui ter optado por argila. É um barro. Adam é o que saiu do barro. Então, é o terrestre. Isso é bonito também. Adam é o ser humano, mas o ser humano, o terrestre, o terreno, melhor dizendo.
Não é o extraterreno. E nós não estamos aqui falando de ufologia, não, pelo amor de Deus. É o terreno, o terrestre, aquele que é formado dos fluidos da terra. Ele é modelado, modelou o homem com pó, e é bonito isso também, com pó, com a parte mais fina da terra. Olha que interessante isso. Com o manancial que subia da terra para regar. Então, esse jardim, ele era cheio de árvores. Bastante interessante. E olha que mais bonito aqui. O Senhor Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, bonitas de ver e gostosas de comer, o que dá a ideia de um banquete.
O Jardim de Éden é um banquete. Isso é muito importante, porque várias parábolas de Jesus vão falar de um banquete. Inclusive, o Salmo que a gente adora recitar, que é o Salmo 23. O Senhor é meu pastor, Ele não me faltará, Ele me faz deitar em pastos verdejantes. Olha aí o tema do Hélio. E Ele termina, estranho, não é? Prepara um banquete diante dos meus inimigos, meu caro se transborda. Está retomando esse tema do banquete aqui. A gente pode lembrar da festa nupcial de Jesus, que é um banquete de casamento. Então, tudo isso está sendo retomado.
Então, as árvores eram as árvores eram formosas de ver e boas de comer. E a árvore da vida no meio do jardim? Vírgula. E a árvore do conhecimento do bem e do mal? Onde estava a árvore do conhecimento do bem e do mal? A árvore da vida estava no meio do jardim, mas a árvore do conhecimento não fala onde ela estava. Na conversa da serpente com Eva, ela pergunta assim, qual foi a ordem que Deus te deu? Ah, porque eu não comi a árvore que está no meio do jardim. A árvore do conhecimento do bem e do mal. Mas, não foi dito isso, que a árvore do conhecimento do bem e do mal estava no meio do jardim.
Bastou isso para que os sábios hebreus comentassem o seguinte. Essa é a diferença entre desejo e consciência. O desejo faz a gente colocar as árvores no meio do jardim, a que a gente quer. A consciência faz com que a gente identifique qual é a verdadeira árvore que está no centro. Então, o desejo elege e coloca. A consciência descobre. Não é que não está claro. O texto diz assim, a árvore da vida no meio do jardim. Então, ele criou, fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer. A árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.
Não, não é a mesma, é outra. A árvore da vida, onde que ela está? No meio do jardim. E, criou a árvore do conhecimento do bem e do mal. Onde que ela está? Aí, você que vai colocar. Aí, a criatura que vai eleger a árvore. Onde ele vai colocá-la? Então, a diferença entre desejo e consciência. Então, bonito isso porque o desejo centraliza e faz com que coisas que não são centrais se tornem centrais. Coisas que não são importantes se tornem importantes. Elas não são importantes. Agora, olha aqui. Quando Jesus vai a Betânia e entra na casa de Marta e Maria, Maria fica quietinha na frente de Jesus, para tudo e Marta começa a arrumar a casa.
Jesus entrou na casa dela e ela está preocupada em varrer a casa. Como nós estamos distanciados de Marta, a gente consegue, hoje, dois mil anos, olhar para a Marta e falar, tadinha da Marta. Ela não entendeu a visita que ela recebeu. Não é? Ela não entendeu. Jesus entrou na casa dela e ela está preocupada em varrer uma casa. Essa casa nem existe mais. E, a varrida que ela deu, no dia seguinte ela precisou varrer de novo e Jesus não voltou lá mais. Então, Maria colocou Jesus no centro e Marta colocou a varreção da casa.
Aí, o que ela percebeu? Não tem mais. Ela ainda acha ruim com Maria, briga com ela. Não! Ainda põe Jesus no meio. Chama Jesus e fala, eu queria que você falasse com Maria. Não é possível! Eu vou arrumar essa casa sozinha? E, ela fica sentada só conversando? Ainda queria que Jesus endossasse. Aí, Jesus vira para ela e diz assim, Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é a exceção? Uma coisa que tem me chamado a atenção são as referências indiretas que toda hora Jesus faz ao texto de Gênesis.
Quando perguntaram para ele sobre o divórcio, ele falou que no princípio não era assim, fazendo referência ao texto de Gênesis. Aqui, também com Marta. Com o ladrão, a mesma coisa. Fez referência ao jardim. Está vendo que interessante isso? E, aqui, ele fala com Marta isso. Olha, está cheio de árvore formosa e bonita no jardim, mas qual está no centro? A que está no centro é a árvore da vida, mas você pode eleger outras que estão periféricas, que não são centrais, que não são prioridades e torná-las prioridade por um equívoco do desejo ou por uma ilusão da consciência.
Você acha que está consciente, mas não está consciente. Por exemplo, Frederico Figner achava que era o Espírita que estava consciente, que estava bem. Aí, desencarnou e viu que não estava bem. Então, ele estava consciente ou ele estava na ilusão da consciência? Estava na ilusão. A situação real dele não era a que ele pensava que era. Então, aqui, Jesus fez esse… Porque, quando Jesus fala, Ele não está só resolvendo aquela situação da Marta varrendo a casa. Jesus está aproveitando aquele quadro para dar uma lição imortal, imperecível.
Qual que é a lição imperecível? Marta, você está tomando o acessório pelo principal. Você está focando no que é para o lado secundário e esquecendo o que é primordial. Uma só coisa. E, aí, você está se afadigando, está ansiosa. E, foi o que Eva fez. Por que isso é importante? Só para a gente concluir. Foi o que Adão e Eva fizeram. Foi o que Adão e Eva fizeram. Você tem uma árvore no meio do jardim, que é a árvore da vida, e Centenas de árvores à sua disposição, menos uma. Você quer essa uma. Tem um problema de conexão, de consciência.
Não é? E, aí, o drama vai se desenrolar. Você ia falar, antes de a gente encerrar aqui? Guilherme, eu penso assim, seguindo a estrutura que o texto está mostrando. Eu repeti a pergunta. Então, o Guilherme está falando sobre seria essa opção de comer a árvore do conhecimento do bem e do mal, essa árvore de colocar o que é acessório no lugar do que é principal, seria, por exemplo, a questão dos exilados de Capela? Voltando para a estrutura do texto, isso, aí, já é a consequência da consequência da consequência da consequência da consequência.
Por quê? O texto na uma progressão. Essa progressão começou com um átomo, com um átomo, com um elemento. Qual foi o elemento? O Criador estabeleceu toda uma estrutura para um relacionamento íntimo e próximo. Isso aqui é bonito. Vamos voltar lá. Criou os céus e a terra, o sol, a estrela. Mas, para se relacionar com o homem, ele construiu um jardim, um jardim para Deus é um cercadinho, é uma ilha, uma pequena ilha. Então, significa que o Senhor Deus, absoluto e onipotente, se diminui para poder relacionar conosco. É como se Deus graduasse a sua grandeza para que nós possamos sentir o amor e a presença dEle.
Então, Ele se gradua, constrói um pequeno jardim, mas um jardim que para Ele é uma minúscula, mas para nós é uma grandiosidade de abundância, de beleza. De abundância e de beleza. E, aí, nesse relacionamento, Ele provê tudo e pede uma só coisa. Então, Ele estabeleceu aí uma condicionante de fidelidade. Qual é a condicionante de fidelidade? Eu vou conduzir, eu vou dirigir. Eu sou o motorista. Aí, o ser humano tentado, testado, porque aqui é o teste, o teste da fidelidade. O teste da fidelidade é um teste de autonomia.
Por que Ele diz você não comer? Não, come! Ele não quer que você seja igual a Ele. Você pode ser igual a Deus. Quem vai dirigir é você. Nossa, não é que você está certo. Eu vou conversar com o meu marido. O negócio é esse, nós temos que conduzir isso e aquilo. Nós que vamos dirigir. E, aí, simbolicamente, o que o texto diz? Você quer dirigir? Então, agora você sai do jardim. É o filho pródigo. É o filho pródigo. Você sai do jardim, toma a sua parte, agora você vai dirigir. Mas, nesse ato de afastamento, que é um ato que ele nasce lá no íntimo da consciência.
Então, quer dizer, quando você, na sua intimidade, num ápice de segundo, se afasta de Deus, você começa a tomar uma progressão de decisões que podem culminar até no teu exílio da Terra. Podem. Essa é a beleza do texto. O mal é uma progressão. Quer dizer, essa progressão, e é interessante, porque ela começa sob o controle do ser humano, mas chega uma hora que sai do controle dele. O mal toma uma proporção que, aí, ele não tem mais controle sobre ele. Por que é bonito isso? Porque a história da vinda do Cristo, com a queda de Adão e Eva, a Terra também sofre uma queda.
Porque saiu do estatuto do jardim de Éden e foi para uma terra que é inferior. Ela dá espinho, você tem que comer com o suor do rosto. Então, não é só o ser humano que tem que ser regenerado, não. A Terra também tem que ser redimida. Por isso que Apocalipse vai falar de uma nova Terra, de uma nova criação. Novos céus e nova Terra. A regeneração da Terra também. Que há a grande volta. Quer dizer, o mal chega num ponto tão culminante que, agora, se não houver uma intervenção divina, o homem não consegue mais fazer o caminho de retorno.
Ele precisa ser buscado. É outro grande tema das parábolas de Jesus. É o pastor que sai para buscar a ovelha. Ou seja, ele não dá mais conta de voltar. Nós vamos desenvolver isso com mais calma, porque são grandes temas, mas a gente vai percebendo como o Evangelho está conectado, está dialogando com esse texto a todo momento. E como que o texto do Evangelho ganha uma luz quando a gente compreende essa base aqui. A gente fala, nossa, então é isso. Então, a gente entende que um exílio é um auge do exponencial. Quer dizer, chegou num ponto que saiu totalmente fora.
O homem será que a gente já passou do tempo? Ele é a fonte de luz e nós somos raios. Se a fonte apagar, o raio apaga. Então, quem garante a nossa imortalidade é a eternidade de Deus.
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.
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