Neste episódio do estudo do Velho Testamento, Haroldo Dutra Dias aprofunda-se no livro de Isaías, conhecido como “O Evangelho dentro do Velho Testamento”. O estudo visa proporcionar um panorama da estrutura e essência da mensagem profética, com um olhar especial sobre a experiência religiosa hebraica e suas implicações para a compreensão do Novo Testamento.
O que é estudado neste episódio
- Contexto Histórico e Político de Isaías: O profeta Isaías atua em um período de divisão do reino de Israel, com as dez tribos do norte centradas em Samaria e as duas tribos do sul (Judá e Benjamim) em Jerusalém. Os reis de Judá, como Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, enfrentam conflitos internos e externos, especialmente contra o reino do norte (Efraim) e a Síria.
- A Infidelidade do Povo: Isaías constata a ingratidão e infidelidade do povo hebreu aos princípios divinos. Ele observa que, apesar de professarem a fé em Deus, a maneira como vivem — suas instituições políticas, a distribuição de riquezas e a justiça social — está divorciada de suas convicções religiosas.
- A Metáfora da “Prostituta”: No capítulo 1, versículo 21, Isaías questiona: “Como se transformou em prostituta a cidade fiel?”. Haroldo Dutra Dias explica que a palavra “prostituta” aqui é uma metáfora para a infidelidade espiritual e moral, e não para a sexualidade. Jerusalém é considerada “prostituta” por ter abandonado a fidelidade a Deus e às leis morais, adorando outros “baals” (senhores/maridos) como o poder, a riqueza e a vaidade.
- Crítica Social e Corrupção: O profeta denuncia a injustiça social, a corrupção (“tua prata transformou-se em escória”, “teus príncipes rebeldes, companheiros de ladrões, todos são ávidos por subornos e correm atrás de presentes”) e a negligência para com os mais vulneráveis, como órfãos e viúvas.
- A Lei de Causa e Efeito (Expiação): A linguagem “vingativa” do Velho Testamento, como “vingar-me-ei de meus inimigos”, é interpretada como a lei de retorno ou de causa e efeito, indicando que o povo está contraindo um “karma coletivo” e débitos individuais que resultarão em um “resgate doloroso”.
- Religiosidade Exterior vs. Interior: Isaías critica a religiosidade superficial e exteriorizada do povo, que louva a Deus “da boca para fora”, sem que o coração esteja verdadeiramente voltado para Ele. A religião não está impactando positivamente a qualidade de vida espiritual e as relações sociais.
- O Foco Comunitário da Primeira Revelação: A primeira revelação, no Velho Testamento, é predominantemente comunitária, direcionada ao povo de Israel como um todo, simbolizando a humanidade. Somente com Jesus o foco se desloca para o indivíduo, visando a formação de uma nova comunidade a partir da transformação interior de cada pessoa.
- A Providência Divina e a Vida Cotidiana: Antecipando o próximo episódio, Haroldo Dutra Dias menciona a importância da Providência Divina, conforme explicado por Allan Kardec em “A Gênese”. Deus se preocupa com os detalhes da vida humana, atuando na prevenção e orientação, e não apenas intervindo para “apagar incêndios” causados por nossas más escolhas. A recusa do rei Acaz em buscar a orientação divina para resolver problemas políticos, preferindo a “política” à fé, é um exemplo da desconexão entre a fé e a vida prática, cujas consequências são desastrosas.
Reflexões
- A verdadeira fé se manifesta na prática cotidiana e na coerência entre o que se acredita e como se vive. A infidelidade a Deus se revela na injustiça social e na corrupção, que desvirtuam os princípios morais.
- A lei de causa e efeito atua tanto individual quanto coletivamente, e as consequências de nossas escolhas, sejam elas de fé ou de ação, são inevitáveis.
- A Providência Divina está presente em todos os detalhes da nossa vida, orientando-nos para evitar sofrimentos desnecessários e promover uma vida mais reta e em harmonia com as leis divinas.
Ler transcrição do episódio
Música de encerramento Olá, meus amigos, bem-vindos a mais um episódio do nosso estudo do livro Isaías, o profeta do Velho Testamento, o livro que é conhecido como O Evangelho dentro do Velho Testamento, em função das promessas que ele faz da vinda do Messias e também em razão do enfoque deste livro que tem um olhar muito especial sobre a experiência religiosa como um todo. Hoje, nós vamos começar, então, a examinar alguns trechos do livro. É claro que, nesta série, nós não temos condições de examinar detalhadamente todos os capítulos do livro e nem é essa a nossa intenção.
Com este projeto do estudo do livro Isaías, nós temos a ideia de fazer um voo panorâmico, como fizemos com os outros livros do Velho Testamento, para que nós possamos aprender a estrutura, a essência da mensagem, o que está por trás da escrita, o pensamento hebraico a respeito da experiência religiosa, para que, quando nós vamos ler o Novo Testamento, nós tenhamos consciência dessas peculiaridades, dessas características do monoteísmo hebraico, que é o monoteísmo cristão. Não há nenhuma dúvida quanto a isso, não é mesmo?
Então, eu vou chamar a atenção aqui para um ponto que já está logo no no iniciozinho do capítulo 1 do livro de Isaías, no versículo 21. Capítulo 1, versículo 21. Vamos ouvir isto aqui. Depois de uma introdução em que o profeta faz uma constatação da ingratidão, da infidelidade do povo hebreu aos parâmetros que foram oferecidos a este povo através da revelação divina, ele faz um apanhado da história do povo, do comportamento do povo e conclui da infidelidade, que este povo não se manteve fiel na relação com Deus, na experiência religiosa.
E é preciso também a gente reforçar que o profeta Isaías, o próprio livro diz, visão que teve Isaías, filho de Amós, Amós aqui não é o profeta, está bom? O profeta é o outro Amós, a respeito de Judá e de Jerusalém, nos dias de Osías, Joatão, Acás e Ezequias. Então, estes são os reis aí da vida, do período em que esteve vivo Isaías. Então, os reis Osías, Joatão, Acás e Ezequias, reis de Judá. Então, é importante a gente entender aqui que o profeta Isaías está num contexto sociopolítico de divisão da nação de Israel.
Então, a separação, o movimento separatista já havia ocorrido, as dez tribos do norte se reuniram em torno de Samaria e as duas tribos do sul, sob a liderança da tribo de Judá, estavam ali no entorno da vida política, religiosa e social de Jerusalém. Então, são reis de Judá. Ou seja, estes dois reis aqui estão com estas duas tribos do sul e a promessa profética é de que o Messias viria da tribo de Judá. Então, aqui nós estamos numa promessa da vinda de um Messias lá atrás, que ecoa muito ainda fraca e a experiência da vida prática mostrando um povo que está dividido e que está em luta contra si mesmo.
Então, os reis de Judá aqui estão enfrentando um grande problema, um grande problema, que é a guerra entre Judá, as duas tribos do sul, Benjamin e Judá, mas Benjamin está absorvida pela tribo de Judá, contra a Síria e Efraim, que representa o reino do norte. Então, o reino do norte se uniu à Síria e eles estão numa luta interna, numa divisão interna. Então, este é um ponto que a gente precisa refletir. Havia um projeto espiritual para este povo, mas a divisão interna do próprio povo fragiliza o projeto. Então, esta é uma grande lição para todo o trabalho espiritual, para toda a programação espiritual, para tudo que é feito.
Divisão interna que fragiliza e, às vezes, inviabiliza o projeto espiritual. Então, aqui, Isaías está em meio a esta constatação. E o que ele faz quando ele olha para as tribos do norte? Olha, mas não é olhar para a filosofia das tribos do norte, para o discurso, para o que eles falam. O profeta está olhando uma coisa muito simples, como eles vivem. É muito simples isto. Como que eu avalio a sua crença? Eu olho como você vive. Como é que você vive no dia-a-dia? Observando como você vive no dia-a-dia, eu consigo tirar conclusões sobre a sua fé, sobre o seu equilíbrio, sobre a sua evolução espiritual, sobre o quanto você absorveu a mensagem que você mesmo acredita, que você mesmo divulga.
Então, o profeta está olhando aqui. Como é que eles estão vivendo? Então, quando ele olha para as tribos do norte, que são, entre aspas, as causadoras da divisão, e ele olha para o estilo de vida de Judá, ele não vê diferença. Então, ele percebe que a maneira de viver é uma maneira totalmente divorciada das convicções religiosas. Então, a prática, o cotidiano, a maneira como esse povo organiza a sua sociedade, organiza as suas instituições políticas, a maneira como ele faz o gerenciamento das riquezas e dos bens, a distribuição dessas riquezas na comunidade, tudo isso revela um modo de vida absolutamente divorciado dos princípios religiosos que esse povo recebeu ao longo dos séculos.
Essa é a constatação. Então, é um povo que acredita em Deus, louva o Todo-Poderoso, mas vive como se não existisse Deus, vive de uma maneira que não justifica a sua crença religiosa. Quer dizer, não há diferença. Esse é o ponto, esse é como se fosse um fio condutor que está passando por todo o livro de Isaías. Essa cisão, essa ruptura entre a experiência religiosa que eu aprovo intelectualmente, que eu acredito, que eu defendo e a minha vida cotidiana que não expressa essa crença, que não reflete essa crença. Então, esse é o primeiro ponto.
E, aí, ele vai aqui constatar isso, ele constata isso e diz assim, existe um povo infiel, existe um povo que não estabeleceu um relacionamento com Deus, ou esse relacionamento não se expressa na vida cotidiana desse povo. Então, qual que é a conclusão do profeta? Esse povo não tem diferença de nenhum outro povo da Terra. Essa é a conclusão lógica. Qual que é a diferença do povo hebreu para qualquer povo da Terra e povo que nem conhece a revelação divina? Essa é uma reflexão interessante, não é? Que nós precisamos fazer.
Eu vou fazer na primeira pessoa e você faça aí a sua reflexão, porque isso é individual, é pessoal, cada um tem que fazer a sua reflexão. Se eu olho hoje para a minha vida, para o meu cotidiano, para o meu estilo de vida, para a maneira concreta como eu me relaciono com as pessoas, existe alguma diferença entre eu, que digo acreditar nos Espíritos, acreditar na revelação espiritual, acreditar em uma série de valores, existe diferença entre a minha vida e a vida de quem nem conhece nada disso? Existe diferença? Porque, se não existe, então, e aí?
Esse é um paradoxo, é uma incongruência, é um desafio que vai exigir uma solução, porque isso gera uma tensão, uma tensão interna entre o que eu conheço e o que eu vivo e uma tensão nas minhas relações e na comunidade, porque eu falo algo, eu prego algo, eu divulgo algo, eu acredito em algo, mas a minha vida não difere em nada de quem não acredita em nada disso, de quem sequer aceita isso. Então, essa é a constatação do profeta Isaías. E como é que ele vai dizer isso? Olha só, ele vai dizer isso já logo aqui no capítulo 1.
Ele já dá o tom da crítica, que é profunda, é uma crítica, ele não está criticando alguém de fora, porque ele também é um membro do povo hebreu, percebe? Então, é uma crítica de quem está dentro, de quem está envolvido. Então, é realmente uma crítica inspirada Isaías está inspirado pelas potências superiores e está fazendo essa avaliação necessária e dolorosa. Então, tem o trecho aqui, que é a partir do versículo 21, que deram o nome de Lamentações sobre Jerusalém. Como se transformou em prostituta a cidade fiel? Lembrando que toda vez que os profetas do Velho Testamento usam a palavra prostituta, eles não estão se referindo à sexualidade, à experiência ou atividade sexual.
Aqui, Jerusalém, a cidade que concentra as esperanças, porque ela é a capital de Judá, é onde está o rei de Judá. Judá é a tribo que tem a promessa de que o Messias virá de Judá, virá da casa de Davi, virá de Judá. Então, como que Jerusalém se tornou uma prostituta? Percebe? Então, a gente está diante de uma metáfora, porque, claro, uma cidade não tem relação sexual, gente. Consegue entender isso? Por que a gente não pode interpretar ao pé da letra? Uma cidade tem relação sexual? Não! Quem tem relações sexuais são as pessoas.
E, aqui, o adjetivo está sendo atribuído a uma cidade inteira, dizendo que ela é prostituta. Por que ela é prostituta? Porque ela perdeu a sua fidelidade. Fidelidade. Então, de onde que vem isso? Será que isso é uma metáfora gratuita? Ah, vou olhar assim, a prostituta, eu não gosto de prostituta, eu tenho um preconceito com prostituta, então, tudo que for ruim, nós vamos chamar de prostituta. Não! Não! O uso da palavra prostituta tem uma origem, tem uma nuances aqui que nós precisamos descobrir. E, do outro lado também, do outro lado também, a palavra para a jovem, para a jovem virgem, a jovem pronta para se casar, quer dizer, a jovem que está com todos os elementos para se tornar uma esposa fiel.
Não é? Alma. Alma. A jovem em idade de se casar, portanto, fértil, pronta para entrar numa relação conjugal e com todos os elementos para se tornar uma esposa fiel. Então, o elemento que distingue aqui a alma, a jovem esposa da prostituta é a fidelidade. É isso. E por que isso? Olha que interessante. Existe uma palavra que é baal. Baal pode ser traduzido por senhor ou por marido. Senhor ou marido. E, muitas vezes, na profecia do Velho Testamento, Deus é chamado de o senhor, o marido. Percebem? Então, se eu tenho fidelidade a Deus, fidelidade aos princípios, fidelidade à lei divina, à lei moral dada por Deus ou às leis morais dadas por Deus, se eu sou fiel a essas leis, eu sou uma esposa fiel.
Se eu não tenho fidelidade a essas leis morais, eu sou, o que é o sinônimo de infiel? Prostituta. Então, o que o profeta está dizendo aqui? Vamos traduzir isso para o século XXI, traduzir agora, para 2019. Ele está dizendo isso, olha, Jerusalém, essa comunidade, não segue as leis morais dadas por Deus no processo da primeira revelação. Não segue. Se não segue, essa comunidade é infiel a Deus, ela não tem fidelidade aos princípios morais. Então, é uma prostituta. Adorar outros deuses, a idolatria, porque a idolatria é mais do que ter outros deuses.
Cada Deus que você tem, cada Baal, é um marido, é um Senhor. E, esse Senhor, ele exige fidelidade, ele exige dedicação e ele exige exclusividade. Então, se você adora muitos outros deuses, por exemplo, o Deus da riqueza, esse Deus exige fidelidade, ele exige entrega e ele tem princípios que precisam ser seguidos e ele exige sacrifício. Você precisa sacrificar a esse Deus. Por isso que Jesus diz ninguém pode servir a dois senhores, porque amará um e odiará o outro, ou odiará a um e amará o outro. Então, o que que Jerusalém, quais são os maridos agora de Jerusalém?
Poder, riqueza, esses são os deuses, o Deus do poder, o Deus da riqueza, o Deus da vaidade, do exclusivismo, eles se achavam os melhores da terra, ninguém presta, só eles são exclusivos, são os melhores. Então, eles estão adorando outros deuses, não ao Deus de Abraão, Isaac e Jacob. Então, é esse o sentido simbólico. Então, ele pergunta aqui, como se transformou em prostituta a cidade fiel? Quer dizer, como que isso foi acontecer? E, aí, ele fala, Sião, porque Sião é o monte onde estava o templo, onde o templo estava erguido, não é?
Por isso, essa metáfora aí de Sião, Sião, Jerusalém, são metáforas para dizerem da revelação divina e da lei moral, ok? Então, é só para tornar concreto uma ideia abstrata. Sião, onde prevalecia o direito, onde habitava a justiça, mas, agora, povoada de assassinos. Então, ele está dizendo, que prostituição é essa? Não é sexual, percebe? Qual que é a prostituição? Não há direito, não há justiça em Jerusalém, só tem assassinos. E, ele continua, tua prata transformou-se em escória, tua bebida foi misturada com água, teus príncipes rebeldes, companheiros de ladrões, todos são ávidos por subornos e correm atrás de presentes.
É a típica corrupção. É a lava-jato aqui de Judá. Não fazem justiça ao órfão, a causa da viúva não os atinge. Por isso mesmo, oráculo do Senhor, dos exércitos, o forte de Israel, ai de ti, eu me divertirei à custa de meus adversários, vingar-me-ei de meus inimigos, voltarei a minha mão contra ti. Olha só. Aí, é claro que isso aqui está dito de acordo com a cultura, de uma maneira forte, porque, se não fosse dito assim, as pessoas daquela época não iam entender. Isso aqui, gente, é um texto que tem mais de dois mil anos, ele tem dois mil e setecentos anos.
Nós não podemos imaginar que esse texto aqui vai ser escrito com a mentalidade de hoje, do século XXI, que as pessoas têm respeito pelo animal, pelo pet. Vamos com calma. Nós evoluímos dois mil e setecentos anos. Isso aqui está em uma linguagem, assim, forte, vingativa. Por quê? O que está mostrando aqui? O aspecto da lei de retorno, o aspecto da lei de causa e efeito. Toda vez que o Velho Testamento usa essa linguagem vingativa, ele está se referindo à expiação, ao resgate expiatório. Então, ele está dizendo assim, o povo de Jerusalém está contraindo um karma coletivo e os indivíduos estão contraindo um débito individual.
Então, haverá um resgate doloroso. Por que doloroso? Porque eles não se culvam, ele vai falar aqui, eles não se culvam na sua revolta, na sua teimosia. Então, quais são os elementos da infidelidade aqui? Olha aqui. Injustiça social. Os que estão no poder têm tudo. Olha isso, olha para o mundo. Olha hoje para o mundo que a gente tem uma ideia. Não importa o regime, se é de esquerda, se é de direita, se é de centro, se é de… não importa, não importa. Os poderosos sempre estão com privilégios e a multidão está sempre na necessidade, sempre, sempre.
Não importa a orientação, não importa. Quer dizer, os desamparados, aqueles que não têm força para empreender, que tu fala, vamos empreender, vamos empreender. Mas, e o doente? E o que não tem força? E o que não tem capacidade? Como é que faz? Deixa ele à margem? Então, aqui, o órfão e a viúva, o órfão no sentido da criancinha, órfã. Como é que ela vai trabalhar? Como é que uma criancinha órfã vai abrir um negócio para prosperar? Não é? Como é que a viúva, que era extremamente desamparada naquela sociedade? Então, aqui é um grito, falando assim, gente, que vida é essa que vocês estão levando?
Não é uma sociedade solidária. Então, a lei de sociedade, a lei de justiça, amor e caridade, não estava sendo praticada pelo povo de Jerusalém. Embora eles confiassem em Deus, acreditassem em Deus, mas não havia prática na comunidade. Então, essa é a detecção do profeta Israel, ele detectou que o povo é infiel, portanto, Jerusalém é uma prostituta. Porque aí fica fácil de dizer, ao invés de ficar complicando o povo, a comunidade. Não, Jerusalém se tornou prostituta. Resume tudo. Resume tudo isso que eu estou falando aqui há vários minutos.
Jerusalém se tornou uma prostituta. Não tem mais fidelidade às leis morais de Deus. Esse é o sentido do texto. Não é? Então, olha que importante. Toda vez que nós faltamos com a justiça nas nossas relações, na nossa vida, nós estamos nos afastando de Deus. Não é? Porque Deus, como Criador de todas as criaturas, Ele exige equidade e justiça entre todos. Exige equidade e justiça. Se houver exploração, se houver um prejudicando o outro ou dilapidando o outro, ou do ponto de vista da comunidade, se não houver solidariedade, então, a experiência religiosa não está tendo efeito prático.
Ela é só teórica. Ela é só uma religião exterior. E isso aqui vai ser dito também. Essa é outra denúncia de Israel, de Isaías. Isaías vai dizer assim, ah, vocês estão fazendo culto aí, vocês estão rezando, lendo a Torá, estão fazendo isso tudo, tudo da boca para fora. Esse culto aí, essa religiosidade, essa religião aí, é só da boca para fora. Isso não vem do coração. Isso aí não é sincero. Isso aí não está convertendo ninguém. Não está modificando. Isso não está melhorando a qualidade de vida espiritual de ninguém.
E essa é uma reflexão que nós precisamos fazer. Por isso, nós estamos estudando Isaías. Nós temos que pensar isso, né? Será que a minha religião, a minha religiosidade está trazendo mudanças na qualidade da minha vida espiritual, na qualidade da minha vida, das minhas relações? Está trazendo? Está impactando? É uma pergunta importante aqui do profeta Isaías. E eu queria, então, falar um outro elemento aqui, que é uma grande dúvida. É uma grande dúvida. Toda a primeira revelação, nós vamos entender isso aqui muito bem.
Toda a primeira revelação, ela está embasada num conceito de religiosidade comunitária. Então, se a gente lê o texto dos profetas, lê o Velho Testamento, eles estão sempre falando do povo de Israel, estão falando do povo, da nação hebraica, das doze tribos. Ele não fala de indivíduos. Ele só fala de indivíduos quando esses indivíduos têm uma função dentro da comunidade, quando eles exercem uma liderança, seja como rei, como profeta. Então, aqui, Isaías procura o rei Acás e adverte, orienta o rei Acás. Por quê? Porque ele conduz o Judá, ele conduz o povo.
Se ele não estivesse conduzindo o povo, ele, indivíduo, não está em foco. Ele não está em foco. E, assim, com todos os profetas, é o povo, é sempre o povo. Ao contrário, por exemplo, se você pegar o Budismo, Buda, Buda fala para o indivíduo. Ele não está se referindo a uma comunidade, a um povo. Ele está se dirigindo ao indivíduo, à individualidade, à pessoa. Então, toda a espiritualidade budista está centrada no indivíduo, na pessoa. Eu só estou dando um exemplo, tá, gente? As duas são complementares, são importantes.
Aqui, a experiência, ela é do povo. Então, toda hora a gente vai ver se referindo ao povo. É por isso que Emmanuel, de uma maneira muito perspicaz e muito sutil, pegando lá o ensinamento do Estêvão, ele vai dizer assim, lá no livro Consolador, quando nas profecias nós escutarmos o nome Israel, devemos entender que Israel significa a humanidade inteira. É esse o sentido, não é? Então, o texto, a primeira revelação se centrou aqui numa comunidade, porque essa comunidade simbolizava o quê? O primeiro broto. Então, imagina uma plantação, uma vinha, uma planta, semeou.
Aí, surgiu o primeiro broto. Esse primeiro broto que vai crescer primeiro é o povo hebreu. Por isso que ele é cuidado e a revelação é mandada e profetas encarnam no povo e você tem centenas, centenas de missionários encarnando nesse povo, por quê? É a primeira plantinha que cresceu da vinha. Depois, outras vão crescer. Vão crescer, nessa perspectiva aqui, da religiosidade monoteísta. Correto? Porque nós temos outras revelações de espiritualidade, lá com Buda, Confúcio, Lao Tse. Não tem problema, mas aí são outras matérias.
É como se fosse física, geografia, história, português, inglês, espanhol. São outras matérias. A matéria aqui, a matéria aqui da Bíblia é monoteísmo, religiosidade, conexão, comunhão com o Deus único. Esse é o tema central da mensagem bíblica. Esse é o tema central. Riquíssimo, cheio de nuances, cheio de elementos maravilhosos. Isso aqui é um curso completo, mas de quê? De comunhão com Deus, de relação com Deus, de religiosidade monoteísta. Ok? É isso. Então, aqui está pegando o povo. Só que, a experiência vai tão traumática que, quando chega o Messias, quando chega Jesus, o que Ele faz?
Não se refere mais agora a povos, a nações. Agora, Jesus chega e fala para o indivíduo, para o indivíduo. Então, o trabalho agora é no coração de cada pessoa. Então, muda o enfoque. E, a partir do indivíduo, que é Ele, do primeiro indivíduo, que é Ele, do novo homem, do novo Adão, do guia e modelo da humanidade, ou seja, o novo padrão do ser humano vai se formar uma nova comunidade. Então, antes partia da comunidade, não deu certo. Tentou socialmente, não deu certo. Não deu certo. De fora para dentro não deu certo.
Então, agora vai ser de dentro para fora. A partir de um indivíduo, esses indivíduos convertidos, transformados, renovados, vão se unir e formar uma nova comunidade. Essa era a proposta de Jesus. Só para a gente entender essa dinâmica aqui. Por isso que Israel está se referindo. Ele não fala assim para o indivíduo. Ah, é o fulano de tal. Não, ele fala Jerusalém, Israel. Não, Israel não, porque aqui estava dividido. Antes era Israel, porque estavam as doze tribos. Agora, não é mais. Agora, dez são lá separadas e duas aqui.
Agora, é Jerusalém. Os outros profetas depois vão falar o quê? Jerusalém e Samaria. Jerusalém e Samaria. Joel, por exemplo. Então, está se referindo à comunidade, à experiência comunitária, que, de fato, é uma experiência mais concreta, mais objetiva. É uma experiência mais visível. Eu consigo chegar e falar assim, Belo Horizonte. Eu avalio hoje Belo Horizonte. Eu olho as condições do trânsito, a urbanização, os comportamentos coletivos. Aí, você dá uma nota para a cidade, porque não dá uma nota boa. Não dá para dar uma nota boa.
Então, a gente revela, porque é o resultado. Você pega todos os indivíduos, tira um denominador comum e fala, Bom, e aí? Como é que eles vivem? Olha aí como é que eles vivem. Olha aí como é que eles vivem. Então, aí você se pergunta, mas, escuta, mas, eles não são espíritas? Mas, eles não são cristãos? Não tem tantas igrejas aí na cidade? Não tem tantos grupos espíritas aí? E, eles vivem assim? E, o trânsito deles é desse jeito? E, tanta pobreza, tanta construção assim irregular? Essa decadência urbanística, é assim que eles vivem?
É assim que eles vivem. Mas, e os que estão no poder, e os que têm a riqueza, que são administradores, o que estão fazendo? Estão vivendo só para si mesmos. Mas, eles não são cristãos? Percebem? É isso aqui. Esse é o grito de Zaias. Então, Zaias está perguntando, o que esse tanto de igreja, tanto de grupo espírita, o que que isso está transformando pelo horizonte? Posso supor, ou o Rio de Janeiro, São Paulo, o que que está transformando? Na prática, qual que é o resultado disso? E, aí, a conclusão dele é triste, não é?
Porque ele vai fazer aquele oráculo, ele se polvo, me louva da boca para fora. Mas, o seu coração não está em mim. É isso. Então, o coração como o símbolo do desejo, do afeto, do que eu quero, não está em Deus. Está em outras coisas. Está buscando outras, outras coisas, e não esses elementos. Então, essa é a grande constatação de Zaias. Só para a gente entender esses simbolismos. Todo o Velho Testamento tem isso. Ele está se dirigindo a um povo para simbolizar a humanidade, mas ele fala da experiência coletiva, ele não está preocupado tanto com o indivíduo.
É interessante, porque é uma maneira de você avaliar, entende? A gente olha assim, poxa, quantos cristãos tem no mundo? Ah, tem sei quantos milhões, centenas de milhões. Como é que eles vivem? Como é que é a cidade deles? Como é que é a sociedade deles? Olha, a verdadeira é igual a do outro lado, aqui não. Percebe? Então, você chega em uma comunidade e fala assim, não, aqui a gente não acredita em Jesus, não. Nosso negócio aqui é olho por olho, dentro por dentro. Não tem esse negócio de perdão, não. Nossa, que absurdo!
Mas, aí você vai ver, como é que é a cidade deles? É igualzinha dos cristãos. Então, os cristãos estão vivendo igual a quem não é cristão, a quem não acredita nesses valores. Não é que não é cristão no sentido de que quem não é cristão é pior, gente. Não é isso que eu estou dizendo, pelo amor de Deus. Não é? Eu estou falando assim, que a gente divulga, fala dos princípios que Jesus nos ensinou, mas e as nossas cidades, e a nossa comunidade, e as nossas famílias, e os nossos grupos? O que é que tem de diferente? É a pergunta de Jesus no Sermão do Monte.
Que fazeis de especial? Que fazeis de especial? Essa é a pergunta de Zaias. Que fazeis de especial? Essa pergunta fica soando, e é com ela, com essa pergunta, que eu quero encaminhar aqui para o final deste episódio. No episódio seguinte, eu vou só adiantar aqui, já dar uma préviazinha, para todo mundo se preparar. No episódio seguinte, eu quero falar sobre uma coisa muito importante, tão importante, que Kardec precisou escrever um texto no livro A Gênese, parte 3, capítulo Deus, item Providência Divina. Kardec precisou esclarecer este ponto, porque os espíritas da sua época não estavam entendendo isto.
Há uma mentira que se espalha, de que Deus não se preocupa com os detalhes da nossa vida corporal. Deus é Deus, Ele vai ficar preocupado se eu estou com uma infecção renal e estou lá no hospital? Não, Deus está preocupado com coisas maiores, Ele não está preocupado com isso. E, Kardec vai escrever este texto, A Providência Divina, e vai dizer assim, isso é um tremendo equívoco, é um tremendo equívoco, isso é um movimento para querer afastar Deus da nossa vida. Porque, se eu estou aqui, neste nível evolutivo, se eu estou vivendo estas experiências, o meu encontro com Deus, a minha experiência de Deus, vai se dar neste cotidiano aqui, não em uma coisa transcendental.
Vai ser aqui. Então, Isaías, eu vou falar isso no próximo episódio, vai procurar o rei Acas, porque o rei Acas está vivendo um dilema, um problema. E, ele vai falar, olha, usa os seus conhecimentos religiosos para resolver isso, usa a sua fé para resolver isso. E, o rei Acas vai dizer assim, deixa a fé para lá, o negócio aqui é política, deixa Deus lá, o negócio aqui é política, eu vou resolver com a política. Você já sabe o final da história, você já sabe o final da história, não precisa dizer, a história está aí.
Jerusalém vai ser devastada, todo mundo vai ser levado escravo, escravo para a Babilônia. Então, é assim, a gente fica, não, não, Deus não vai preocupar se eu estou bebendo água, mas, na hora que você está lá internado, com o negócio no rim, Deus me ajuda. Quer dizer que Deus só apaga incêndio? Deus não participa da prevenção? Claro que não! Então, Kardec vai explicar lá sobre o fluido cósmico, sobre a providência divina e mostrar que Deus está sempre atuando na prevenção, Ele está sempre nos orientando, nos amparando, nos conduzindo, nos avisando das coisas, guiando o nosso caminho, para quê?
Para que a gente viva com mais retidão e evite sofrimentos desnecessários, já bastam os inevitáveis, que são as vicissitudes da vida corporal, são inevitáveis, nascer, morrer, envelhecer, adoecer, já basta as provas e expiações, são vicissitudes inevitáveis, já basta elas, para que criar outras? Então, a providência divina está sempre conosco, através do fluido cósmico, está aqui, perpassando, está aqui, o Criador onisciente, orientando a nossa vida. Mas, aí, a gente quer afastar Ele na hora de decidir, depois que decide errado, vem a consequência, e, aí, a gente invoca e pede a Ele para resolver, para apagar o incêndio que nós criamos.
Então, essa é uma mensagem forte, também, aqui, do início do livro do profeta Isaías, que Ele vai avisar a Cassi, olha, Deus está mandando te dizer, na linguagem simbólica, olha, você está sendo orientado, olha o que você vai fazer, olha o que você vai fazer, não, não, Deus é lá para a igreja, para o templo, isso é coisa de sacerdote, lá de rezar, o negócio aqui é política e economia, deixa que eu resolvo do meu jeito. E, aí, a gente já sabe qual vai ser o desfecho dessa história e o que que isso vai redundar. Mas, aí, no próximo episódio.
Até lá! Legendas pela comunidade Amara.org
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.

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