#002 – Estudo do Velho Testamento – Livro Isaías

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Neste segundo episódio do estudo do Velho Testamento, Haroldo Dutra Dias aprofunda a compreensão do papel do profeta, não como um mero transmissor, mas como um ser humano encarnado, sensível às dores e injustiças do mundo. O foco recai sobre o Livro de Isaías, um dos profetas maiores, cuja mensagem ecoa até os dias atuais.

O que é estudado neste episódio

  • A natureza da inspiração profética: Haroldo Dutra Dias reitera que o profeta não é um “microfone” passivo, mas um indivíduo que sente, se angustia, se indigna com a perversão religiosa e a opressão dos poderosos. Sua comoção e empatia pela dor humana são o canal para a inspiração superior.
  • O conceito de encarnação na mensagem bíblica: É enfatizado que a revelação bíblica não é uma mensagem abstrata, mas profundamente conectada à vida concreta e cotidiana dos seres humanos, com suas fragilidades e pressões sociais, econômicas e políticas. A mensagem de Isaías é “pé no chão”, comprometida com os problemas de seu tempo.
  • A autoria do Livro de Isaías: É explicado que o livro não foi escrito apenas por Isaías, mas é herdeiro de uma tradição oral e foi perpetuado pela comunidade que o rodeava, abrangendo tanto o período de sua encarnação quanto um período posterior. O livro é dividido em três partes pelos estudiosos, refletindo essa construção coletiva.
  • A ancestralidade profética de Isaías: Isaías é apresentado como herdeiro de Amós (seu pai) e Oséias, dando continuidade a uma tradição revelativa. A menção de “Isaías, filho de Amós” no início do livro ressalta essa conexão e a continuidade da missão.
  • O tema central de Isaías: a idolatria e a apostasia: O grande tema do livro é a idolatria, entendida como o abandono do monoteísmo e da adoração ao Deus único, e a apostasia, que é o afastamento das exigências éticas e morais que essa adoração implica.
  • A metáfora da prostituição para a idolatria: Os profetas, incluindo Isaías, utilizam a metáfora da prostituição para descrever a idolatria. Isso se deve à adoração de deuses pagãos (como a deusa da fertilidade e o deus do poder/virilidade, simbolizado pelo leão) que representavam valores contrários aos do Deus único, levando à opressão, desigualdade e injustiça social.
  • A relação entre idolatria, orgulho e egoísmo: A idolatria é apresentada como a raiz do orgulho e do egoísmo, que, por sua vez, geram a opressão e a desigualdade na sociedade. A crença de que “você se torna aquilo que você adora” é central, e a adoração a Deus implica a eliminação do orgulho e do egoísmo, promovendo o reconhecimento do valor do outro e a justiça.
  • A denúncia das injustiças sociais: Isaías denuncia a incoerência entre a religiosidade dos governantes e a miséria do povo, apontando que a idolatria leva à exploração e ao abuso do mais fraco.
  • A expectativa do Messias: Isaías é o profeta que mais fala do Messias, apresentando-o como aquele que abandonará o orgulho e o egoísmo, retomando a verdadeira adoração a Deus e a comunhão com Ele.

Reflexões

  • A mensagem profética, e em particular a de Isaías, não é uma abstração espiritual, mas um chamado à vivência concreta dos princípios divinos, combatendo as injustiças e a opressão que surgem da idolatria e do egoísmo humano.
  • A idolatria, em suas diversas formas (incluindo a adoração a valores como poder e riqueza), está intrinsecamente ligada ao orgulho e ao egoísmo, que são as raízes dos problemas sociais como a desigualdade e a opressão.
  • A verdadeira adoração a Deus implica um compromisso com o próximo, com a justiça e com a eliminação do orgulho e do egoísmo, refletindo-se em uma sociedade mais equitativa e fraterna.

Ler transcrição do episódio

No episódio anterior, nós fizemos uma introdução ligeira, explicando o que é um profeta, qual a natureza da sua atividade, como que ele se apropria da inspiração espiritual na sua vida particular, como que ele reflete na sua conduta, na sua prática, essa inspiração superior, e como ele é reconhecido pela comunidade onde ele surge, como alguém que, de fato, está sob o amparo, sob as bênçãos da espiritualidade superior. Falamos, então, de um mecanismo muito sutil e muito amoroso de inspiração do profeta, que não o utiliza como se ele fosse um singelo microfone.

O profeta é um ser humano, ele sente angústia, ele sente tristeza, ele se sente inseguro, ele se sente deslocado, ele é tocado, comovido pela injustiça, ele observa o ambiente, as estruturas do ambiente em que ele vive, e se choca com essas estruturas, ele fica indignado com a perversão dos religiosos, daqueles que possuem a missão, a tarefa de preservar a revelação, de preservar a chama espiritual, e ele denuncia esse desvio, ele denuncia a opressão feita, sobretudo por reis, governadores, que têm conhecimento da revelação espiritual, mas que não se comportam adequadamente, como se tivesse esse conhecimento.

Então, o profeta é alguém no mundo, vivendo no mundo, sujeito ao mundo, o profeta está encarnado. Esse é um conceito que nós vamos trabalhar aqui, ao longo desse episódio também, que é o conceito da encarnação, porque nós temos uma tendência de retirar da mensagem bíblica todos os aspectos conjunturais, quer dizer, todo o ambiente histórico, toda a vivência dos missionários que tinham a função de transmitir aquele conhecimento, e imaginamos uma mensagem puramente espiritual sem nenhuma conexão com o mundo material, sem nenhuma conexão com a sociedade, com a comunidade, sem nenhuma conexão com a história.

Então, isso fica uma mensagem ingênua, uma mensagem deslocada, uma mensagem que não comunica, porque, na verdade, as pessoas estão aí, elas estão vivendo, elas estão integradas, estão sofrendo os efeitos da fragilidade humana. Estar encarnado é uma experiência total da fragilidade, das pressões mais variadas, pressões do organismo físico, pressões da sociedade, pressões da economia, pressões da política, todos esses elementos se juntam e acabam produzindo, em um grau maior ou menor, uma certa angústia em quem está vivendo, uma certa preocupação, muitas vezes uma tristeza, que pode até se encaminhar para uma depressão.

E, dependendo da intensidade da experiência vivida pela pessoa, ela pode ficar tão marcada por essa fragilidade, experiência, por exemplo, do assassinato, da morte, do abandono afetivo, da perda, do revés, tanto financeiro quanto social, todas essas experiências concretas de estar encarnado, de estar vivo, fazem parte da experiência do profeta. Então, ele é alguém que se comove e, ao se comover, ele cria sintonia. Ao se comover com os seres humanos, na condição em que esses seres humanos estão vivendo, essa comoção é que provoca a sintonia.

E, é através dessa comoção, dessa emoção, que o Joshua Herschel chama de pathos, dessa capacidade de se importar, dessa empatia, dessa capacidade de se comover pela dor do outro e dessa capacidade de ser tocado, de ser incomodado pela injustiça, é através desses sentimentos que a inspiração superior toma o profeta. E, aí, ele fala, ele denuncia, e, aí, ele aponta caminhos, ele traz conceitos renovadores, ele traz práticas renovadoras a partir da experiência da injustiça, da fragilidade, da opressão, dos males que assolam a humanidade inteira.

Por essa conexão, a conexão da empatia, a conexão da compaixão, do compadecer-se, é que ele é inspirado. É importante a gente dizer isso, porque, se nós vamos estudar o profeta Isaías, nós vamos ver que esse é um profeta muito intenso. Esse é um profeta que vai transmitir-nos uma compaixão muito grande pelos injustiçados, pelos excluídos, pela torpeza, pela maldade, pelo desvio do seu povo que possuía a missão e a tarefa de manter a chama do monoteísmo aceso, mas, não simplesmente um monoteísmo de eu acredito no Deus único.

Um monoteísmo que se traduz num estilo de vida monoteísta e num estilo de vida que reflita a adoração ao Deus único. Então, esse Deus único possui exigências, ele possui uma pauta moral e ética e a vivência desse povo deve refletir essa pauta moral e essa pauta ética do Deus único. Isso é a vivência do monoteísmo. Não é simplesmente eu acredito no Deus único. Isso é muito fácil. O difícil é você viver na vida cotidiana expressando essa crença monoteísta. E, aí, o que vai acontecer? Nós estamos aqui num período que é de 730 a 680, que é mais ou menos o período histórico do livro de Isaías e os estudiosos, é importante se diga isso também, Isaías não é apenas um profeta que escreveu do primeiro ao último capítulo.

Isaías é herdeiro de uma tradição oral e essa tradição oral vai se perpetuar mesmo após a morte de Isaías. O profeta age na sociedade, ele fala e as pessoas que estão ao redor, a comunidade que acompanha o profeta, ela registra a vida daquele missionário. Então, o livro do profeta Isaías é um registro da vida do profeta e do eco, das repercussões da vida desse profeta, mesmo depois dele ter morrido. Então, o livro abarca tanto o período histórico em que o profeta estava encarnado, quanto um período histórico posterior, a ponto dos estudiosos dividirem o livro do profeta Isaías em três partes.

Até o capítulo 40, mais ou menos, seria o profeta Isaías mesmo, diretamente supervisionando a escrita e depois os demais capítulos, que são capítulos inspirados na sua mensagem, na sua história e que foram escritos, foram preservados pela comunidade que se criou em torno do profeta Isaías e pela tradição oral que ele deixou. Então, a gente percebe que as questões não são tão simples assim. Não é como hoje que alguém senta aqui, escreve um livro, manda para a editora e ele escrever o livro do princípio ao fim. Nem hoje é tão simples assim.

Nós temos aí os ghost writers, os escritores fantasmas, uma pessoa contrata alguém para escrever para ela. Então, nem assim nós podemos dizer que realmente foi aquela pessoa que escreveu o livro. Mesmo na sociedade hoje, as coisas não são tão simples assim. E alguém, quando escreve, pega um texto dali, uma tradição daqui. Então, não podemos dizer também que aquele autor é 100% original, que tudo que ele escreveu, ele criou e não existe aquilo. Isso também é uma fantasia. Nós não podemos transportar essa fantasia para esses livros históricos, antigos, como é o caso aqui do livro de Isaías.

Temos que ter essa visão mais madura. Então, quando nós mencionamos essa palavra encarnado ou encarnação, que vai ser utilizada muito para a gente compreender Jesus e o verbo se fescar, ela não tem apenas o sentido de ter um corpo físico, de estar encarnado no sentido espírita da expressão. Quando nós dizemos que a revelação está encarnada, é que ela foi transmitida para a vida concreta e cotidiana dos seres humanos. Ela não é uma mensagem que não tem nenhuma conexão com a vida humana, que é tão abstrata, que é tão superior que ela perdeu todas as conexões com a vida humana.

Não é isso. Isso não tem o menor sentido. A mensagem, a revelação, o livro do profeta Isaías é um livro absolutamente comprometido com o seu tempo, com os problemas do seu tempo, com as injustiças do seu tempo e do seu local geográfico, com as contradições religiosas do seu tempo, com todos os elementos da vida cotidiana daquela comunidade. E, exatamente por ser tão concreta, a mensagem se perpetua até hoje, porque ela é tão humana, ela toca em questões humanas tão relevantes, tão profundas, que se perpetua, porque nós também compartilhamos.

As questões não mudaram. Elas mudam na aparência, na forma, mas, no fundo, elas permanecem a mesma e nós vamos ver aqui. Nós vamos ver isso. Então, sem abstrações, pueris, sem misticismos tolos, sem uma espiritualidade vã que não tem conexão nenhuma com a prática, com a vida cotidiana, não. Essa mensagem aqui é uma mensagem em pé no chão. É uma mensagem para ser vivida, experimentada, enquanto ser humano, na condição humana, enquanto estamos na condição humana. Já dá para perceber que o livro de Isaías, como, de resto, todos os profetas, e, aqui, Isaías é filho de Amós.

Então, antes dele, nós temos aí dois profetas, Oséias e Amós, dois grandes profetas, que o livrinho deles é pequenininho e, às vezes, a gente tem uma tendência em menosprezar esses profetas que têm os livros pequenos, acreditando que eles são menores. E, damos uma ênfase muito grande nos profetas que têm livros grandes, Jeremias, Isaías, Ezequiel, mas são grandes profetas. Oséias e Amós antecedem Isaías e estavam no mesmo trabalho. Então, de certo modo, nós podemos dizer que o profeta Isaías é herdeiro do seu pai, Amós, e é herdeiro de Oséias.

Ele recebe essa tradição profética, ele se movimenta nesse ambiente cultural dos seus ancestrais e leva adiante a mensagem, a luz, a chama dos seus antecessores. É importante isso, tanto que ele começa o livro dizendo Isaías, filho de Amós. É interessante, é quase que uma constelação familiar. Ele fazendo referência ao seu antecessor, ao seu pai, à sua herança. É importante isso, da mesma maneira que o Evangelho de Mateus começa com a genealogia de Jesus, fazendo referência à ancestralidade de Jesus, para mostrar que essa história está continuando.

Ela não é uma história absolutamente nova, que ninguém entende, não. Ela está dando continuidade a um processo revelativo, a um processo de revelação, em que um missionário vai entregando ao outro a tarefa de continuar. Foi assim desde o Velho Testamento, do Novo e até hoje. Centenas de missionários entregando à futura geração o trabalho feito e a geração nova dando continuidade ao trabalho. É assim há 3.000 anos. Nós precisamos entender isso. Então, antes de Isaías, temos Amós e Oséias. E o gênero literário, o estilo literário é o mesmo.

As expressões, os conceitos, as grandes ideias, ou como nós frisamos aqui no estudo de Gênesis, se você acompanhou, os grandes temas, que são como os motivos da música. Os motivos que os compositores de música utilizam para desenvolver uma sinfonia, uma peça, uma suíte, uma peça completa, a partir de um motivo que pode ser dois compassos, cinco notas, dez notas, doze notas. Então, aquele é um motivo que vai sendo desenvolvido. Aqui, também. Aqui, nós temos um motivo. Qual é o grande tema, então? Qual é o grande motivo?

Quais são as notas principais? Se você lembra do Spielberg, Contatos Imediatos do Segundo Grau, você vai lembrar lá do Pararê, Rorô. Olha, cinco notinhas, definindo aí tudo. Depois, a música é toda criada nessas cinco notinhas. Parabéns, aí, ao John Williams. Então, da mesma maneira, o livro do profeta Isaías. Então, qual que é o tema aqui principal? O tema principal aqui é a idolatria. Idolatria, ou, se você preferir, um termo mais complicado, grego, apostasia. Apostasia, que é o abandono. Apostasia é o abandono do monoteísmo, o abandono da adoração ao Deus único.

Não é um abandono, simplesmente, não estou indo na igreja. Não é tão simples assim. Não estou indo na sinagoga, não estou indo no ambiente onde há a prática religiosa, onde existe a prática religiosa. Não é tão simples assim. É um abandono em que a vida cotidiana, a vivência, a maneira de viver começa, aos poucos, a se afastar das exigências éticas e morais do monoteísmo para se aproximar de outras exigências éticas e morais, de outras promessas. Então, olha que interessante. Esse afastar-se tem a ver também com a idolatria, porque se eu rejeito a adoração ao Deus único, eu, necessariamente, passo a adorar algo diferente.

Porque ficar sem adorar, ninguém fica. Todos os seres humanos adoram, porque a lei de adoração é uma lei universal. Ela está inscrita no nosso psiquismo. Nenhum psiquismo, nenhuma criatura de Deus vive sem adorar, sem manifestar esses mecanismos da lei de adoração. Agora, nós podemos adorar a Deus, ao Deus único, com todas as suas exigências, com todas as suas promessas, com todos os compromissos morais e éticos que essa adoração implica, ou podemos adorar outras coisas, ou, dizendo na linguagem bíblica, adorar outros deuses, outras potências.

Então, a mensagem central aqui, de Isaías, e ele vive em um contexto imperialista, o império aqui é o império assírio, a Assíria, cuja capital, Nímeve, está ali no norte do Iraque, perto do rio Tigre. Então, esse é o grande império, o grande primeiro império bíblico, e ele é quase uma metáfora, porque toda mensagem profética vai fazer menção a esse império. Então, o que era antes o Egito, com a sua potência, com o seu império, agora é a Assíria, ali no norte do Iraque, no rio Tigre. E é esse império que está expandindo, expandindo, e chegou ao território do povo hebreu, que é Israel, o território ali do povo hebreu, que é o mesmo de hoje.

Então, essa expansão imperialista chega ali, mas ela não chega apenas como uma expansão política e econômica, ela chega também, sobretudo, como uma expansão cultural. Então, é uma cultura que chega e se apossa da mentalidade dos hebreus. E aí, os hebreus, então, começam a se afastar, enquanto o povo dá adoração ao Deus único, portanto, apostasia, que é o afastamento, e idolatria, porque começam a serem adorados outros deuses, outros deuses. E, aqui, como a mensagem é concreta, a mensagem é bem concreta, os profetas vão utilizar uma metáfora para falar da idolatria, uma grande metáfora.

Por isso, nós precisamos entender aqui esse aspecto da adoração, porque uma pessoa desavisada, e, assim, chega-se até meio engraçado, uma pessoa desavisada que chega aqui, abre o profeta e começa a ler Isaías, ela fica com uma visão muito simplória. Puxa vida, um grande profeta está falando aqui só de idolatria, adorar, então tá, então tá bom, eu adoro a Deus, resolveu o problema. Então, as coisas ficam parecendo muito bobas. Alguém viver e sofrer tanto como Isaías sofreu, alguém passar tantas dificuldades para simplesmente falar, você tem que adorar a Deus, como se adorar a Deus fosse, então tá bom, eu adoro a Deus, eu sou monoteísta agora, eu me converti, estou aqui orando.

Parece muito bobo, muito infantil, só que é muito mais profundo do que isso, muito mais profundo. Nós precisamos tocar numa certeza que o profeta tem, Isaías tinha essa certeza, certeza, porque ele herdou essa certeza dos profetas que o antecederam. Que certeza é essa? Você se torna aquilo que você adora. Ou, se você preferir, eu vou traduzir isso na linguagem do Evangelho. Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Aquilo que nós damos valor, aquilo que nós valorizamos, nós emprestamos valor, nós nos tornamos aquilo.

O nosso sentimento, o nosso pensamento, a nossa conduta, o nosso estilo de vida, o nosso comportamento, ele passa a expressar as características daquilo que nós adoramos, daquilo que está polarizando o nosso desejo central, o nosso desejo mais profundo, ou o conjunto dos nossos desejos, da nossa vontade, dos nossos anseios, dos nossos sonhos. Essa é a grande questão. Por quê? Se você adora a Deus, você se torna divino. Porque você se torna aquilo que você adora. E, aí, a promessa do Salmo se cumpre. Vós sois deuses.

Então, se você adora a Deus, você passa a viver nos padrões do Criador, nos padrões de Deus. Correto? E, para simplificar isso, senão fica muito filosófico, vamos resumir. Quais são os padrões de Deus? Os padrões de Deus são ausência de orgulho e ausência de egoísmo. Então, o padrão moral e ético de Deus, quem adora a Deus, abandona o orgulho e abandona o egoísmo. Abandona o orgulho, ele começa a valorizar o outro. Quer dizer, o outro tem valor. O outro tem valor pelo simples fato dele ser humano, pelo simples fato da sua condição humana.

Quando eu desvalorizo o outro, e, é claro, esse valor que eu tiro do outro, eu coloco em mim. Isso é o orgulho. Então, eu começo a acreditar que eu tenho um valor diferenciado, que o meu valor é superior ao do outro. É óbvio que isso é incompatível com o Deus único, porque, se Deus criou todos os seres, como é que uns podem ter mais valor do que outros? Estão percebendo? É quase uma consequência. Um mais um, dois. Se há um Deus único, se ele criou todos os seres à sua imagem e semelhança, então, se eu retiro o valor do outro, eu tenho que retirar a adoração a Deus, porque é incompatível.

Então, se eu retiro aqui a adoração a Deus, Deus deixa de ocupar uma posição central, essa exigência moral de ausência de orgulho e de ausência de egoísmo, cessam. Então, se eu retiro Deus dessa posição central, está valendo o orgulho, está valendo o egoísmo, passa a vigorar, não há nenhum problema. Quando Deus volta para o centro das cogitações humanas, é o famoso amar a Deus sobre todas as coisas, isso traz uma exigência de fidelidade, de relacionamento com Deus e, portanto, de eliminar o orgulho, porque aí eu preciso reconhecer o valor do outro.

Todos têm o mesmo valor que eu tenho, todos têm o mesmo valor, ninguém tem valor, mais valor. Nem o Espírito Superior, que é puro, não tem mais valor do que eu, porque eu também vou me tornar puro, um Espírito puro. Na essência, ele não tem mais valor do que eu. Ele tem mais responsabilidades, ele tem mais direitos, porque ele conquistou os direitos, ele conquistou através do trabalho, do esforço dele, mas não porque ele é mais importante do que eu, porque eu vou chegar lá também, eu também vou chegar lá. Então, isso acaba com o orgulho, acaba com o orgulho.

E o egoísmo? O egoísmo é aquela grande questão. Olha, se eu estiver bem, não me importa o outro. Aí, você cria todo um sistema econômico, um sistema político, um sistema social, em que, se está bom para mim, o outro não me importa. Olha que interessante aqui. A gente precisa ser sensível a isso. Idolatria está sempre de baixos braços dados com a opressão e com a desigualdade. Sempre. A idolatria está de braços dados. Onde há idolatria, há opressão do mais forte sobre o mais fraco. Não importa que tipo de fraqueza, sempre terá opressão do mais forte sobre o mais fraco.

E, onde há idolatria, há um sistema de desigualdade profundo. Um profundo e opressor sistema de desigualdade. Então, desigualdade no sentido de miséria mesmo, da miséria. Porque não é a questão de que de todos serem iguais, todos terem a mesma coisa. Nunca foi isso. Mas, a ideia aqui de alguns terem muito mais do que precisam, enquanto outros têm nada. Ou, enquanto a maioria tem nada, pouquíssimos têm muito mais. Muito, muito, muito, muito mais. Essa é a grande questão. E, aí, Isaías vai denunciar isso. É claro, que, ao denunciar a idolatria, ele puxa isso tudo.

Ele vai denunciar a opressão. E, qual que é a metáfora usada, então, para a idolatria, para a opressão, para essa desigualdade? Porque o que vai acontecer aqui na prática? Vamos falar aqui para ficar mais prático. Mais prático aqui é o seguinte, você vai olhar para o povo, na época de Isaías, e o povo está passando fome, não tem onde morar, está ficando doente, e os governantes, que são religiosos, estão lá na opulência. É simples. Então, Isaías chega e fala assim, mas, olha, como é que esse rei aqui, religioso, que dissegui a tradição de Moisés, a tradição do monoteísmo, pode permitir que o seu povo viva nessas condições?

Como é que esse governante, que vai lá, ora, vai ao templo, segue todos os rituais religiosos, permite que o seu próprio povo viva na miséria, nessa opressão? Como é que isso é possível? É incoerente, totalmente incoerente, absolutamente incoerente. E, aí, Isaías vai denunciar isso. Vai apontar para essas chagas. E, ele, utilizando o vocabulário dos seus antecessores, Amós, seu pai, e Oséias, todos vão chamar a idolatria, a idolatria, no Velho Testamento, era chamada de prostituição. Prostituição. Gente, o que que tem a ver prostituição com idolatria?

Porque nós estamos falando aqui de lei de adoração, adorar ao Deus único, a questão do orgulho, do egoísmo, o que que chama, o que que gera, gera na vida individual, gera na vida comunitária, gera na sociedade. Mas, o que que isso tem a ver com prostituição? Muito bem. Prostituição feminina. Então, muitos homens procurando a prostituta. Como que é vista a prostituta ali no tempo do Oriente? Então, aquela mulher bonita, com corpo atrativo, grandes seios, com exuberância feminina, que indica o quê? Fertilidade, beleza, imponência feminina.

E a prostituição masculina. Então, você tem da mesma maneira aquele homem forte, viril, poderoso, inteligente e aí atrai as mulheres que vão ser atraídas por isso. Então, temos aqui os dois símbolos, do homem forte, da virilidade e, aqui, da mulher exuberante, da fertilidade. E aí, você começa a examinar os deuses pagãos, especialmente os deuses cultuados na Síria, que é o império que vai dominar Israel, que vai dominar as doze tribos, as doze tribos, tanto as dez tribos do norte quanto as duas tribos do sul, posteriormente.

Qual que é o símbolo? Quais são os deuses? Primeiro, a deusa da fertilidade, que é uma mulher com seios maravilhosos, exuberantes, seios de fora. A deusa da fertilidade é uma mulher nua, maravilhosa, que é adorada. Aí, você leva oferendas para ela, leva sacrifícios para a deusa da fertilidade, para quê? Para ter boa colheita, prosperidade nos seus negócios agrários, agrícolas, prosperidade na criação dos seus rebanhos, a deusa da fertilidade. Então, os profetas usam o símbolo que procurar essa deusa da fertilidade, orar para ela, pedir para ela, é como deitar-se com ela, é como tocar os seios dela, é como usufruir daquela beleza corporal dela, ou seja, é prostituir-se, é prostituir-se.

Da mesma maneira, quais são os outros deuses também da Síria? Um homem com a cabeça do leão, o leão, o símbolo da cabeça do leão, que representa o quê? Poder, virilidade, é o rei leão, é o rei leão da Síria. Essa história de rei leão vem lá da Síria. E, aí, isso atrai o quê? Então, o universo feminino olha para essa virilidade, para esse poder, e esse poder passa a encarnar quem? O imperador, aqui, no caso, Tiglath, Pileser, ou todos os imperadores da Síria, porque eles vão se apresentar como? Como homens viris, poderosos, déspotas, que agem do jeito que eles querem, fazem o que eles querem, têm centenas de mulheres e vão ser adorados como um deus.

E, aí, o que acontece com as tribos de Israel? Para obterem favores econômicos, para obterem favores políticos, para se preservarem os velhos e velhos acordos e conchavos da política e da economia. Nenhuma novidade, nenhuma novidade. Para obterem isso, o que eles fazem? Cedem, cedem nos seus princípios, cedem nos seus valores, cedem, abandonam a adoração a Deus, abandonam as exigências de não ser egoísta, de não ser orgulhoso, de cuidar de todos, as exigências da revelação. Ou, se quiser uma linguagem mais bíblica, as exigências do pacto, as exigências da aliança com Deus.

Porque o pacto, a aliança com Deus, tem suas exigências e essas exigências têm que se concretizar no nível social, econômico e político. Então, a idolatria é nesse sentido. A partir do momento que você começa a cultuar a deusa da fertilidade, o Deus do poder, do dinheiro, da política, o que acontece? O povo, os governantes, começam a se afastar da revelação e a vida social das tribos começa a refletir injustiça, opressão, expoliação, abuso do mais fraco, etc, etc, etc. Por quê? Porque cada um pensando nas suas necessidades, cada um pensando em atender as suas necessidades.

Isso é muito curioso. É muito interessante. A pessoa pensa em justiça, justiça social, assim. Está faltando para mim, então, eu tenho que tomar de alguém para eu receber. Mas, ninguém pensa em justiça social assim. Está sobrando de mim, então, eu vou diminuir o meu para doar. É tão engraçado isso, não é? Vocês já viram alguma bandeira, algum movimento assim? Não, justiça social. E qual é a proposta de vocês? Nós vamos tirar da gente para dar para quem não tem nada. Alguém já viu isso? Nunca. Quais são os movimentos de justiça social?

É o quê? Não, vamos tomar de alguém. Mas, você já tem. Não, porque o outro tem muito. Eu quero tomar. Mas, tem alguém que não tem nada. Então, vamos tomar do outro, mas, vamos tirar do seu? Não, não, tirar do meu, não, porque eu preciso receber. Entendem? Então, os movimentos todos políticos, de justiça, é sempre tomar de quem tem mais. Tomar de quem tem mais, então, é uma guerra. Tomar de quem tem mais. Nunca é tirar o que eu tenho, diminuir o que eu tenho para dar. Nunca é. Porque, se fosse, se fosse, se na Terra tivesse havido algum movimento político-social nesse sentido, teria resolvido.

Imagina um movimento político-social, que as pessoas se reúnem e falam não, vamos tirar um pouco de mim para dar para quem não tem nada resolver o problema. Mas, não é isso, né? Então, aí é a idolatria. Aí, as pessoas caem nessas fantasias, nessas promessas de homens, de seres humanos, acreditando que seres humanos repletos de orgulho e de egoísmo vão implantar na Terra um regime político e econômico que vai resolver o problema da injustiça e da opressão. Que fantasia! Que fantasia! Porque, para resolver isso, tem que extirpar o orgulho e o egoísmo.

Mas, como é que extirpa o orgulho e o egoísmo se você adora a deusa da fertilidade? Não é? Então, e esses deuses vão mudando de nome, né? Hoje, o leão não é mais o leão da síria, né? Hoje, o grande deus adorado é empreendedorismo. Ele vai mudando de nome. Mas, é sempre isso, virilidade, eu me dar bem, eu vencer, que significa eu ganhar dinheiro, mesmo que tenha um mar de miséria. Mesmo que tenha um mar de miséria, com todas as incoerências que a gente está vendo aí no mundo, né? Os grandes problemas de migração, todos esses problemas, é isso que Isaías denunciava.

Ele estava falando, pessoal, o que vocês estão adorando? Que deuses são esses que vocês estão adorando? A deusa da fertilidade está aí, ela só mudou de marca, né? Ela só mudou de marca e montou clínicas de estética. Estou brincando, gente, não tenho nenhum problema com isso, né? Estou falando assim, virou uma coisa tão obsessiva que a gente está vendo que é o quê? É isso que Isaías denunciava. Então, essa é uma prostituição. A prostituição é quando você olha para esse símbolo dessas deusas femininas e desses deuses masculinos.

E, os profetas usam a linguagem, às vezes, e os tradutores vão lá e tiram essa linguagem, mas, se você pegar o original no hebraico, a linguagem é quase pornográfica. Para descrever a idolatria, os profetas falam nas genitálias, eles falam nos órgãos sexuais, eles falam no gestual sexual, na prática sexual, abertamente, assim, para chocar mesmo, para denunciar, porque eles sabem que, ao lado da idolatria, há opressão, opressão do mais forte em cima do mais fraco. Há uma sociedade sinistra, sinistra, uma sociedade estruturada no abuso, na exploração.

É importante. E, eles não acreditam em solução humana para isso. Isso é importante. Não vai ser alguém que vai chegar, mais um governante que vai trazer, eles não caem nessa ilusão. O profeta não cai nessa balela. Vai chegar um governante aqui que vai resolver. Não vai. Por quê? Por que que não vai? É aqui a grande dúvida. Por que que não vai? Porque ele está cheio de idolatria. A intimidade dele está cheia de idolatria. E, a idolatria é o quê? Primeiro, o efeito da idolatria? O orgulho e o egoísmo. Então, como alguém que está manchado do orgulho e do egoísmo vai trazer uma solução econômica, social, pura?

Não vai trazer. Não vai trazer. Então, a questão aqui é o livro de Isaías não é um livro sobre política, sobre economia, não é só sobre isso. Nós não podemos ser ingênuos. Ele também não é um livro abstrato, um livro que está falando só de uma espiritualidade, que é uma espiritualidade que não enxerga injustiça, que não enxerga opressão, uma espiritualidade que não se compromete com o mundo em que vive. Isso não. Então, é importante a gente entender esse desdobramento. Então, vamos lá. Idolatria, prostituição, opressão.

Essa é a tríade. Essas são as três notas do livro de Isaías. Idolatria, prostituição, opressão. Então, ele olha para a sociedade em que ele vive e fala, meu Deus, é igual a nossa aí, é igual a nossa sociedade mundial. Você olha e fala, meu Deus, quanta injustiça, quanta opressão, quanta espoliação, quantos problemas. Só que ele vai nas causas. Qual que é a causa disso? A causa disso é o orgulho e o egoísmo do ser humano. Então, não adianta você achar que a solução vai vir de alguém que está com o problema. Como é que alguém que está infectado com o vírus, está com febre de 40 graus, vai ser o médico que vai tratar dos outros doentes?

E essa é a expectativa que nós temos. Que um doente vai assumir o poder e vai nos curar. O profeta denuncia isso. A origem disso é o orgulho e o egoísmo. O orgulho e o egoísmo vêm de onde? Vêm da idolatria e da prostituição. Porque, se regressar para a verdadeira adoração ao Deus único, haverá de novo um compromisso com o pacto, com a aliança, que é a relação da criatura com o Criador, e o egoísmo e o orgulho vão ser atacados na sua causa, na sua origem. Então, é isso que trata a grande temática do livro de Isaías e ele vai desenvolver isso.

Ele vai falar, então, do rei, ele vai falar da Síria, ele vai falar de lei de causa e efeito, ele vai falar de carma coletiva, claro que ele não vai usar essa expressão, dos débitos coletivos, como que as nações resgatam seus débitos, como que os impérios resgatam seus débitos, como que esses tiranos vão resgatar, no sentido de uma justiça divina, que, às vezes, é ingenuamente interpretada como Deus vingativo. Não tem nada a ver, é uma metáfora isso, é uma metáfora. Aqui, no texto, não na prática, porque os religiosos, depois, levaram essa metáfora a sério e começaram a imaginar um Deus vingativo, e agir de maneira vingativa.

Mas, é outra história. O texto não é isso. O texto fala de uma justiça divina, de uma justiça. E, como Isaías compreende que a causa, a causa do problema é o orgulho e o egoísmo, ele vai apontar para quem? Para o Messias. Então, Isaías é o profeta que mais fala do Messias. Mas, ele vai apresentar um Messias desagradável. Desagradável. Porque é um Messias que vai abandonar o orgulho, o egoísmo e vai retomar a verdadeira adoração a Deus, a verdadeira comunhão com Deus. Então, este é o tema geral. No próximo episódio, a gente continua desenvolvendo esse motivo, essas notinhas musicais, que vão se desdobrar de uma maneira surpreendente.

Até o próximo episódio!

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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