#003 – Estudo do Velho Testamento – Livro Salmos

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Neste terceiro episódio do estudo do Velho Testamento à luz da Doutrina Espírita, conduzido por Haroldo Dutra Dias, aprofundamo-nos no Livro dos Salmos. O estudo é uma oportunidade de mergulhar na riqueza do saltério, compreendendo sua estrutura, sua importância na tradição judaica e suas profundas conexões com os ensinamentos de Jesus e a visão espírita.

O que é estudado neste episódio

  • A relação pessoal com os Salmos: Haroldo compartilha sua jornada de aproximação com os Salmos, desde os primeiros contatos avulsos (Salmos 23, 22 e 1) até o aprofundamento motivado pela observação de Jesus citando-os na Última Ceia e na cruz, e respondendo ao diabo na tentação.
  • A influência de Pierre Lenhar: A importância do padre Pierre Lenhar, fundador do Instituto Rashi Boni e especialista em tradição judaica, é destacada. Sua máxima “lex orandi, lex credendi” (aquilo que a gente ora é aquilo que a gente crê) foi fundamental para Haroldo compreender a força dos Salmos como resumo da Torá e alicerce do monoteísmo judaico.
  • A estrutura em cinco blocos: Os Salmos são agrupados em cinco blocos principais, que se acredita remeterem aos cinco livros da Torá (Pentateuco). Cada bloco termina com uma frase característica (“Bendito seja o Senhor de Israel, de séculos em séculos, amém e amém”), indicando uma compilação posterior.
    • Bloco 1 (Salmos 1 ao 41): Exaltam o Criador, apresentando-o como o que estabelece as coisas, o que é de Deus e o que não é de Deus (Gênesis).
    • Bloco 2 (Salmos 42 ao 72): Mostram Deus como refúgio, fortaleza, proteção e consolador, que ajuda a carregar os fardos (Êxodo).
    • Bloco 3 (Salmos 73 ao 89): Apresentam Deus como Juiz, que julga, repreende e corrige (Deuteronômio).
    • Bloco 4 (Salmos 90 ao 106): São os salmos de louvor, tipicamente religiosos (Levítico).
    • Bloco 5 (Salmos 107 ao 150): Tratam da herança dos filhos, das gerações e das bênçãos para os justos (Números).
  • A tradição oral e a oração cantada: A discussão aborda a importância da tradição oral no judaísmo, onde os Salmos eram orações cantadas, facilitando a memorização e a vivência da fé. A Bíblia, para os hebreus, não era apenas um livro, mas uma manifestação viva da palavra de Deus.
  • A diferença entre texto e vivência: É enfatizada a pobreza de se limitar à leitura do texto bíblico em detrimento da experiência e da memória afetiva que os Salmos proporcionavam, como nas celebrações da Páscoa. Jesus, ao dizer “fazei isso em minha memória”, convida à vivência, não apenas à leitura.
  • O papel da arte e do sentimento: A arte, especialmente a música e a poesia, é vista como um meio de expressar e vivenciar o sentimento, que é a “coisa mais fina do mundo”, como diz Adélia Prado. Os Salmos são para serem vividos, sentidos e cantados, não apenas compreendidos intelectualmente.
  • A arte espírita como continuidade: A Doutrina Espírita, com suas preces, o Parnaso de Além-Túmulo e as músicas inspiradas em seus princípios, é apresentada como uma continuidade dessa tradição de expressar a fé e os ensinamentos através da arte e do sentimento, tal como Kardec imaginou para a arte espírita.
  • A revelação como missionários: É ressaltado que as revelações não são apenas livros, mas missionários que encarnam, vivem e deixam um legado, muitas vezes registrado por outros, como no caso de Moisés, que viveu a abertura do Mar Vermelho, não apenas a narrou.

Reflexões

  • Os Salmos são mais do que textos; são orações cantadas, vivências e expressões de fé que conectam o indivíduo a Deus através do sentimento e da memória afetiva.
  • A Doutrina Espírita, ao valorizar a arte e a vivência dos ensinamentos, pode dar continuidade à tradição dos Salmos, criando um “saltério espírita” que inspire e toque corações.
  • A verdadeira compreensão da fé não se limita ao intelecto, mas reside na capacidade de sentir, vivenciar e aplicar os ensinamentos no cotidiano, transformando-os em experiência e comunhão com o divino.

Ler transcrição do episódio

Me veio uma pergunta inusitada. Arouco, no trajeto do seu estudo, do seu interesse pelo estudo bíblico, quando é que surgiu e quando é a sua leitura de Salmos? Como é que surgiu, como é que foi pra você? Você se lembra a primeira vez que você leu, assim, estudando Salmos? E deixa eu perguntar, essa divisão em cinco tem relação com os livros do Antigo Testamento, né? Essa expressão do sentimento, né, porque eles pensavam também de frente da gente, né, da presença do aspecto da arte, que não tem a ver com a arte que a gente, com o uso que nós fazemos da música, né?

Olá, pessoal, sejam todos muito bem-vindos, olá, Aroldo, olá, Júlio, estamos reunidos aqui para mais um estudo de Salmos à luz da doutrina espírita. Olha que oportunidade maravilhosa que essa encarnação nos proporcionou, né? Estudar Salmos sobre a árvore desse evangelho, conversando sobre as revelações, né, conversando sobre a perspectiva das três revelações. Tudo bem com vocês, meninos? Tudo joia. E antes do Aroldo falar alguma coisa, me veio uma pergunta inusitada. Aroldo, no trajeto do seu estudo, né, do seu interesse pelo estudo bíblico, quando é que surgiu e quando é a sua leitura de Salmos?

Como é que surgiu, como é que foi para você? Você se lembra a primeira vez que você leu, assim, estudando Salmos? Júlio, engraçado, porque não foi uma coisa assim linear, né? Eu digo que o meu primeiro contato com Salmos foi muito avulso, né? O primeiro Salmo que eu aprendi na vida foi o 23. E, depois, eu aprendi um outro Salmo ali, o 22, Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Era uma coisa muito esparsa. Depois, eu tomei o contato com o Salmo 1, uma vez que eu estava lendo um comentário judaico, porque falava do homem justo, do ser humano justo e do ímpio, e que era um grande tema bíblico.

Então, foi, assim, sempre muito espaço, né? Eu comecei mesmo a interessar pelos Salmos e comecei a querer entender um pouco mais quando eu li algo a respeito do momento em que Jesus anuncia a crucificação, o momento em que ele convida os apóstolos para celebrar a Páscoa. E, na Páscoa, você tem uma tradição de uma leitura de Salmos específicos. E, naquele momento, Jesus celebra a chamada última ceia, que é uma Páscoa, é uma cerimônia de Páscoa. Ele recita os Salmos, em torno de 13 Salmos, mas, depois, ele continua recitando os Salmos, incluindo o grande Salmo 22, na cruz.

E, aí, aquilo me chamou a atenção. Falei, gente, por que Jesus está citando tanto Salmo, a partir deste momento ali, da última ceia até a crucificação? E, também, por que na tentação, no início, ele responde ao diabo com Salmos? Eu falei, tem alguma coisa aí, não é? E, aí, realmente, comecei a aprofundar um pouquinho mais, a estudar de uma maneira mais intensa os Salmos. E, o que consolidou essa minha impressão foi o encontro com o Pierre Lenhar. E, aí, o Pierre Lenhar me ensinou o lex orandi, lex credendi. Aquilo que a gente ora é aquilo que a gente crê.

E, aí, eu entendi a força dos Salmos. E, aí, quando você começa a estudar, você vai vendo isso. A primeira tradição é do Salmo como um resumo da Torá, porque, de fato, ele é a oração, o cântico, ele é o cântico de oração que resume toda a crença do povo hebreu. Ali está o alicerce do monoteísmo judaico. Mas, isso foi só o final, não é? O Pierre Lenhar foi o consolidador, não é? Não tinha essa visão, assim, não é? É uma notícia. Pessoal, quem é o Pierre? O padre Pierre Lenhar já desencarnou, não é? O padre Pierre Lenhar fundou o Instituto Hachis Boni, em Jerusalém, e ele foi considerado, dentro do catolicismo, dentro do cristianismo, um dos maiores especialistas em tradição judaica.

O Pierre Lenhar estudou com grandes talmudistas na Universidade de Jerusalém, aprendeu a fundo mesmo a metodologia de interpretação judaica, a metodologia do talmud, e escreveu… tem uma obra dele publicada pela Editora Paulo, que se chama A Torá Oral dos Fariseus, que é um clássico. E foi uma grande referência, uma grande referência numa ponte, num diálogo interreligioso entre o cristianismo e o judaísmo. Era uma pessoa muito respeitada, tanto na igreja quanto no judaísmo, principalmente no judaísmo. Por razões que a gente se conhece, o Vaticano fechou o Instituto Hachis Boni, então ele voltou para Paris, porque ele era francês, e ficou na instituição dele até os últimos dias.

Mas, é o grande estudioso, é o grande estudioso. A obra dele, A Torá Oral dos Fariseus, mostra o tamanho do Pierre Légnard. Eu tive a honra de almoçar com ele, almoçar com ele na cidade dele, em Paris. Ele me indicou os livros que eu precisava comprar em Jerusalém, os talmudes, a literatura judaica. Foi uma grande orientação. Nossa, esses encontros que são presentes, não é? Imersão, imersão. Definem rotas, não é? Hoje, então, no nosso estudo, nós nos propusemos a falar um pouco sobre a estrutura dos salmos, a gente conversar mais sobre esse compilado de orações, de súplicas, de lamentações e de louvores que se compilaram em um saltério, nesse livro de salmos, como nós temos hoje.

Exatamente. Exatamente, Eleonora. É importante aqui dizer que a gente não vai entrar na estrutura de cada salmo. A gente vai fazer isso à medida que a gente for estudando os salmos. O que nós vamos comentar um pouquinho é algo muito conhecido, não tem nenhum mistério nisso. Os salmos são agrupados em cinco blocos de salmos. Então, para quem está anotando, a gente chama de sessões principais. Então, o primeiro bloco é do salmo 1 ao 41. O segundo bloco é do salmo 42 ao 72. O terceiro bloco é do salmo 73 ao 89. O quarto bloco é do salmo 90 ao salmo 106.

E, o quinto bloco é do salmo 107 ao salmo 150. É importante que esses blocos terminam, o final de cada bloco termina com uma frase característica. Bendito seja o Senhor de Israel, de séculos em séculos, amém e amém. Então, o bloco tem uma finalização que parece ter sido uma compilação feita posterior. É importante dizer que esses blocos não definem a ordem que os salmos foram escritos. Não tem isso. Eu falo que isso aqui é igual ao livro de músicas da Mocidade da União Espírita Mineira, da Mocidade Precursor. Tanto de gente compôs música, cada um numa época, e depois alguém resolveu reunir aquilo num livrinho de música.

Então, não tem uma ordem histórica de composição dos salmos. Eu nem vejo muita importância nisso, para falar a verdade. Ficar tentando descobrir qual foi composto primeiro, até porque esses salmos são dinâmicos e a tradição, com certeza, foi acrescentando alguma coisa. A própria divisão em cinco blocos é algo muito posterior. Talvez nem Davi conhecesse isso. Eu acho que o Davi, se ele estivesse aqui assistindo esse estudo, ele falaria, nossa, é mesmo? Dividir em cinco blocos? Na minha época não tinha isso, não. Se fosse comparar com as pastas da Mocidade, a gente ia ter um negócio seguinte.

Esse daí não é meu, não. Nesse aqui, vocês trocaram um pouquinho a letra. Exatamente. Eu não fui eu que fiz isso, não. Estão atribuindo a mim aí, mas não fui eu que fiz isso. Não fui eu, não. Eu dei tudo isso, não é? E deixa eu perguntar, essa divisão em cinco tem relação com os livros do Antigo Testamento, não é? Exato. A gente acredita que a forma de reunir os salmos tenha sido feita com uma intenção muito clara de que esses blocos remetam, evoquem, lembrem os cinco livros da Torá. A gente vai ver aqui um pouquinho o conteúdo de cada bloco, do que que eles falam.

São blocos, realmente, que lembram um assunto, não é? Então, tem uma lógica, assim, na reunião. Essa lógica não é sempre seguida à risca, não, mas existe uma lógica nessa reunião em cinco blocos. Mas, por que cinco blocos? Ah, sem dúvida, sem dúvida, está evocando, está lembrando, não é, Leonora, os cinco livros da Torá. É uma uma réplica da Torá de Moisés, da Torá mosaica. Inclusive, eu li isso que você indicou, a gente lê a Bíblia do Peregrino e, na introdução, ele faz essa alusão, que essa divisão realmente pode ter essa sugestão de ser uma síntese da Torá, não é?

Exatamente. Exatamente. E, aí, é assim, não é? É uma coisa importante a gente entender isso. A gente tem salmos espalhados desde Êxodo, capítulo 15, até Juízes, capítulo 16. Era muito comum isso. As narrativas, são livros narrativos, não é? Êxodo até Juízes, que aí você passa por Samuel, Reis, você interrompia a narrativa com o Salmo. Então, isso criava um efeito, porque os judeus estudavam e estudam até hoje a Torá em porções, uma porção para cada semana do ano. Então, você divide a Torá em 52 porções. Então, ao que parece, esses salmos espalhados ali nos livros históricos, Êxodo, primeiro rei, segundo rei, Samuel, primeiro Samuel, segundo Samuel, Juízes, eles tinham uma função de marcar a narrativa, criar um suspense, uma parada na narrativa histórica para agradecer a Deus, para lembrar daquele fato histórico, para fazer um contato com Deus e continuar na narrativa.

Uma parada para a oração, o que não deixa de refletir o que acontece na vida da gente. Você está vivendo o dia a dia, o cotidiano, e, de repente, você para para fazer um contato com Deus, para reabastecer, para agradecer, para louvar, para lamentar, para choramingar e depois você volta para a sua jornada, volta para o seu cotidiano. Então, veja, essa maneira de narrar da Torá imita a vida, imita imita a vida. Um lítero musical, eu fiquei pensando, tem a palestra que o Haroldo explica, nos faz pensar e, daqui a pouco, entra uma música que nos conecta com Deus e a gente chora e se emociona e parece que tudo que foi dito toma um conteúdo, cai a ficha e a gente acaba entendendo melhor.

Verdade, meu amor. Essa expressão do sentimento, porque eles pensavam também de frente da gente, Haroldo, a presença do aspecto da arte que não tem a ver com a arte que a gente, com o uso que nós fazemos da música, é outro uso, é outra forma de olhar para isso. Não é um entretenimento porque a gente ainda liga muito para a música como entretenimento com emotividade apenas, mas não, é algo que tem a ver com fazer vibrar, não sei se tem a ver com a forma de se conectar. Aqui, Júlio, é até importante eu dizer isso, o salmo é uma oração cantada, mas não é uma música, simplesmente, é uma oração cantada.

E, aí, a gente vai perguntar, por que eu vou fazer uma oração cantando? Pela ideia da Torá oral. Então, os hebreus têm muito forte isso de que a Torá é a palavra, a Torá é uma manifestação viva. Deus falou com Moisés, Ele falou, Deus criou pela palavra. Então, eles não estão muito ligados a texto escrito em pergaminho. Isso é uma invenção de Gutenberg para frente, isso é uma invenção de nós, ocidentais. Essa importância que a gente dá para um texto escrito, a importância de um registro escrito, isso é do século XVI para frente.

Isso não faz parte, por exemplo, do mundo de Davi. Não faz parte, porque eles recebiam tudo isso de forma oral. Então, as pessoas sabiam o Salmo, porque elas nem sabiam ler nem escrever. Elas sabiam cantar a oração, orar cantando. E, porque a oração era cantada, fica dez vezes mais fácil você gravar. Como a gente grava letras de várias músicas, das músicas que a gente gosta, fica mais fácil você fica cantando, cantando. Então, tudo isso era memorizado. Eu acho que o mais difícil, para nós, a maior dificuldade para alguém hoje encarnado estudar a Bíblia é achar que Bíblia é um livro.

Eu acho isso o maior dos enganos. E, Esse engano gerou uma coisa tenebrosa, que é o dogma da sola escritura. Toda a verdade está escrita. Isso arrepia um hebreu, arrepia, porque tudo deles é tradição, é tradição passada. Você aprendia a orar com a sua mãe, com o seu pai. Você aprendia a orar com as pessoas que você ama. Eram pessoas que te amam, que te ensinavam moralmente a orar. Então, você memorizava aquilo com emoção, com afeto. Da mesma maneira que a gente lembra de uma avó, de um avô, de um pai, de uma mãe, de um tio, de uma tia brincando com a gente, eles lembravam dessas figuras ensinando a eles a memorizar um trecho da Torá, a cantar um salmo.

E, aí, nós transformamos tudo isso em texto. É um crime, é um crime achar que isso aqui é só texto, letras gravadas num material, seja papel, seja pegaminho, seja papiro. Não tem nada a ver com isso, nada a ver com isso. Então, você imagina nós vamos estudar salmos aqui, tem salmos aqui que são cantados na Páscoa. Então, quando você começava a cantar o salmo, a pessoa lembrava da Páscoa. Lembrava da família, da ceia com a família, do cordeiro na mesa, de todo mundo se reunindo, das velas de Shabat, das velas da Páscoa sendo acesas.

Você tinha uma memória afetiva. Olha o que Jesus diz na ceia, na última ceia. Fazer isso em minha memória. Fazer isso em minha memória. Ele não pediu para ler a passagem da última ceia. Ele pediu para a gente fazer. Para a gente fazer. E, a gente não faz, não é? A gente não faz. Não faz. Então, vamos perguntar na nossa vida aqui. Qual de nós aqui participou de uma ceia de Páscoa? Com a família toda? Cantando os salmos que têm que ser cantados na Páscoa? Qual de nós aqui viveu essa experiência? Infelizmente, a nossa experiência é a experiência de ficar lendo o texto.

É muito pobre. É muito pobre. Muito pobre. Eu já cometi esse agafe antes. Talvez… Dá para evitar. É a letra mata mesmo? É, exatamente. A letra mata. É, mas é uma tradição, não é? Na verdade, a gente já é fruto de uma mistura, não é? É um judaico cristão, não é? Então, já meio que deu uma misturada. Nós temos outras as tradições, mas realmente experienciar o que eles vivem aqui, a gente não teve essa experiência. Quando eu tive a oportunidade de chegar em Jerusalém, a primeira coisa que você chega lá é querer ir até o muro, não é?

E fui lá no final de um sábado, que é a hora que eles já cantaram em família, que já tiveram toda a celebração, e 11 horas da noite eles estão lá orando e cantando, e os jovens cantam e eles se abraçam com as roupas, e é uma fé que a gente quase sente como física mesmo. É muito… Não tem como explicar essa experiência dessa fé milenar, não é? Parece um… A sensação espiritual que eu tive foi de ondas, uma vibração, uma vibração e uma fé viva, sem explicação. Por que eu lembrei disso? Eu tentei imaginar o que seria a celebração de um Xabá, o que seria a celebração de uma Páscoa, um Pentecostes, essa força dessa fé que tem todos esses ritos e tem toda essa história oral de família.

Lembro muito de Emmanuel quando ele fala a responsabilidade desse povo com a fé, o monoteísmo, e eles carregaram essa lâmpada durante muitos milênios. Exatamente. Exatamente. E outra coisa, né, Leonardo, e ali você… ali você estava entre estranhos, né, você imagina você vivenciando isso com a família, né? É difícil, né? O que me chamou a atenção, Haroldo, é que você comentou que nos escritos deles que ficaram, apesar de a gente saber que a tradição é oral, mas na compilação dos Salmos, eles têm os tons que cantam mais alto, que cantam mais baixo, a hora que tem que parar, para nós não ficou, né, essa tradição, inclusive, nos nossos livros que chegaram até nós, né?

Eu olhei aqui algumas as tradições, as minhas não têm assim, nada de marcação, assim. Você fala do que? De música, mesmo, quando você mencionou que tem os tons mais altos, tem os tons mais baixos, tem a hora de parar, o refrão, né? Só na Bíblia Hebraica. Só na Bíblia Hebraica. Foi até interessante você ter falado nisso, porque a gente perdeu a tradição, né? Porque isso faz parte da tradição e a gente perdeu isso, a gente só pegou o texto. A gente achou que o texto era suficiente e desprezou a tradição do povo hebreu até hoje, né?

Vejo até no movimento Espírito Pessoal, mas estudar Velho Testamento, para que isso? Uma imagem que me veio aqui muito maluca, né? Quando você está assistindo um filme legendado e quando você está lendo as letrinhas lá, está tudo acontecendo na tela de imagem, muita coisa você está perdendo, né? Ah, exato! Está acontecendo um monte de coisa, você está lendo a legenda e daí as cenas, detalhes, coisas que passaram ali, muita coisa ficou batida, né? Excelente, Júlio, excelente. Por quê? Porque fica só com a letrinha lá e está tudo acontecendo, né?

Está tudo acontecendo. E me veio assim, né, que é bom a gente resgatar isso para entender onde que cabe isso. Porque tem gente que confunde o fato de a gente estar estudando aqui, tem gente que fala que a gente está judaizando, né, sei lá, o Espiritismo. Ah! Eles falam assim que a gente está… Ai meu Deus! Mas não é isso, a questão é que estas coisas nos fazem lembrar de coisas essenciais no viver o ensino. Porque quando se trata da questão oral, do ensinamento oral, você está passando para as outras pessoas, você está aprendendo com outras pessoas, você está relacionando e nós passamos a relacionar só com o livro.

Isso. Relacionar com as letras, com o livro e mais, a relação é uma relação de eu com o que eu penso. Eu sou de mim com o que eu penso. Não tem… Perdeu a troca, não é? Isso, Júlio. A gente já ouviu isso na nossa reunião a respeito dessa questão até mesmo no modelo que a gente tem hoje que é palestra. Ou seja, alguém falando e um tanto de gente ouvindo. Isso. E que você tem espaço para isso, mas deveria ter, que é o espaço do miudinho, que é o espaço da troca, que é o espaço da experiência que a gente tem que reforçar.

E mais, nós estamos… Eu te pergunto, Haroldo, você acredita? Porque isso é dinâmico, você mesmo disse que o processo lá é dinâmico, continua nascendo salmo, continua nascendo nascendo produção do aprendizado, produção da vida, da vivência. Nós estamos fazendo isso no Espiritismo? Dando sequência à lei? A gente está tendo a prática de dar sequência na construção da experiência ou a gente fica apenas citando as perguntas lá do Luís dos Espíritos? Olha, o Kardec fez isso ao compor as preces espíritas, então ali é um saltério espírita.

Eu enxergo o Parnaso de Alentum como um salmos, como um saltério e eu vejo a música feita, a música composta e escrita inspirada nos princípios da Doutrina Espírita como uma tentativa de prosseguir isso. Mas, veja, são iniciativas isoladas. Então, enquanto comunidade espírita, eu acho que a gente perdeu muito, perdeu muito, porque a idolatria ao livro. Eu queria comentar que o Julio e o João, eles se propuseram em grupo a ler o livro O Linha 200, e junto a essa leitura eles começaram a compor músicas, e com certeza músicas inspiradas.

Eu acho que tem salmos aí, tem salmos aí. Sim, exatamente. Você leu o texto e ampliou aquele texto de uma forma trazendo os conceitos da Doutrina Espírita e aquilo que eles sentem com o texto, principalmente. Tem uma coisa importante que é, por exemplo, a música O Irmão Oculto. Não é isso o título? Isso mesmo, O Filho Oculto. O Filho Oculto. Veja, é uma música, tem uma letra, mas que é interpretação. É interpretação da parábola do Filho Pródigo. Isso é salmo. Salmo é exatamente isso. O salmo tem essa força. Ele tem essa força de ele relê o texto, mas ele traz algo vivo, algo novo, uma visão nova, uma visão reveladora sobre o texto.

E, aí, tem uma coisa, gente, que eu acho que a gente perdeu isso. Enquanto comunidade espírita, nós perdemos isso. Tem um poema da Adélia Prado que chama Ensinamento. Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo coitado até essa hora no serviço pesado arrumou pão e café deixou o tacho no fogo com água quente não me falou de amor essa palavra de luxo não me falou nem amor essa palavra de luxo É isso, não é?

É isso. Então, assim, falar de amor, falar em amor, você já perdeu 99% do amor, não é? Porque amor é uma coisa para ser falada, amor é uma coisa para ser vivida, para ser experimentada. Os Salmos tocam nisso. Oração é uma coisa para ser discutida. Assim, eu vou falar uma coisa aqui, mas nós já estamos errados de estudar o Salmo, já estamos errados desde o início. Porque o Salmo é para você viver, para você experimentar, para você sentir, para você fazer. O que nós vamos fazer com o estudo de Salmo, aqui, é te dar, é nos dar um pouco mais de compreensão para que a gente possa correr e orar os Salmos.

Porque se a pessoa está achando que ela vai acompanhar o estudo de Salmos, agora sim eu fiz os estudos de Salmos, não entendeu nada. Nós estamos estudando o Salmo, aqui, para poder cantá-los, para poder orar com eles, para poder vivê-los. Porque 99,9% da essência de Salmo não pode ser captada pela inteligência. Não pode ser captada por comentário, por intelecto, por raciocínio, é sentimento. É sentimento. É igual quando você está assim e vem aquela música Aurora. Deus freia que agora em mim Eu ouvi Ouvi a voz de Deus ali, né?

Já não é só arco-íris e a comunhão. Nossa, me deu um trem aqui agora. É esse trem que a gente está em busca dele. A gente está em busca dele. É desse trem. Vamos sentir juntos, né? Pretendemos sentir juntos. Exatamente. A coisa mais sutil do mundo é o sentimento. É interessante, me veio o seguinte, você falando efetivamente a gente sim pratica no meio espírita e também em outras religiões pratica-se essa cultura. É importante saber o que está fazendo para tratar isso como tal. Entender a responsabilidade disso, a responsabilidade do que se produz no aspecto dessa linguagem que fala ao sentimento.

A gente tem aqui um excelente exemplo que é o Gladstone Lodge com o Tim essa dupla de compositores que tem composto obras que têm salvado vidas pelo sentimento. Você vê sim pessoas que não leem a Bíblia não estudam as vezes o Evangelho escutam as músicas deles e são tocadas profundamente por aquela mensagem condensada num sentimento. Exato. E é isso que é importante talvez nós artistas ficarmos atentos com aquilo que produzimos, com aquilo que estamos trabalhando com a importância do dom que trazemos nessa composição que no futuro certamente aqueles que virão após nós vão separar o trigo do joio e vão poder beber nessas fontes beber nessas fontes da doutrina no sentimento e quando a gente faz uma música já é o livro espremido assim e sai do caldinho vamos dizer assim Exatamente já é uma síntese maravilhosa é Daquilo que quando Aluísio escreveu o Morro Alto que é, não é um salmo?

Isso. Você pega o Morro Alto eu falava assim, gente, isso aqui já é o extrato da doutrina ou seja, um escritor músico compositor transformado e aquilo dando o mel que é do sentimento quando você vê o esperar, esperar quando você vê aquelas composições que traduzem centenas de versículos do Evangelho numa numa composição Exatamente que é o que você falou, que é o resumo da doutrina espírita vai ser e depois você podia resgatar pra nós Aruto, eu tô chamando você de Álvaro chamando meu cunhado Álvaro de Aruto, tô na tristeza mas é o seguinte É a idade, gente, é a idade É difícil até ouvir isso a questão que você podia resgatar porque Kardec talvez dê dicas disso quando ele fala da arte Ah, sim, com certeza O papel da arte Não é?

Com certeza, é o sentimento E que muita gente não Então, muita gente não entendeu você pega a obra de Johann Sebastian Bach e é uma obra feita para as missas Então, é uma música cristã Toda a engenhosidade toda a forma tudo o que ele faz é para ser usado no momento da adoração do culto da missa Então, olha que coisa linda Então, o que o Kardec imagina? Ele imagina o pentateuco da codificação e a vivência espírita sendo inspiração para uma nova arte uma arte que fale da imortalidade uma arte que fale da reencarnação uma arte que fale da evolução espiritual imagina ele está pensando pensando alto ele está pensando alto e a gente pensando estreito e a gente pensando estreito mas é isso a parte que nos toca a parte que as gerações vão construir ao longo do tempo Como os Salmos foram uma compilação de muitos anos e o Haroldo abriu nosso estudo dizendo que é como se fosse um livro de músicas da mocidade imagina porque ele foi composto em mil anos se for pegar desde Moisés até o exílio lá na Babilônia se a gente for pensar a doutrina espírita daqui a 100 anos a compilação das músicas que nem o Júlio disse o joio do trigo e aí alguém compila essas canções é a doutrina inteira aí alguém tem o start vamos fazer evangelho segundo espiritismo o livro dos espíritos a Gênesis vamos compilar também os cinco livros eu acho que vai ser um trabalho das gerações que virão é uma construção até porque esse conhecimento que a doutrina traz e que por hora nem todos compreendem no futuro seja pela própria evolução da ciência evolução dos aspectos de compreensão as revelações que surgirão muitas pessoas vão compreender esses processos e vão se dedicar a eles foi assim com o evangelho não foi aceito lá no início não não foi aceito aquelas mensagens e imagino não sei se na época também desses mais antigos dos profetas todos eles também devem ter enfrentado grandes dificuldades pra que sua obra fosse reconhecida pra que a sua obra fosse pautada pra estar ali no templo pra ser lida a gente fica pensando que Isaías sempre foi lido no templo lá não foi assim, né?

Eu imagino É, aí tem dois aspectos que a obra de Isaías é a vida dele porque o livro de Isaías é uma biografia esse é o primeiro ponto a gente confunde também isso, a primeira revelação a gente confunde com livros da bíblia hebraica é um grande equívoco a primeira revelação são os missionários que encarnaram Jesus faz referência a isso a parábola da vinha enviou os servos depois o senhor da vinha enviou o filho né Então as revelações não são livros as revelações são missionários que nascem vivem e deixam inclusive um livro e muitas vezes esse livro nem foi escrito por ele as vezes o livro que ele deixou é a biografia que alguém escreveu sobre ele é o que alguém entendeu, né?

Alguém registrou o que aquele missionário viveu esse é um ponto interessante quando a gente está lendo o Êxodo está lendo um livro não é alguém que foi para o escritório, pegou o notebook dele e escreveu um livro Moisés não foi para o escritório escrever um livro no notebook sabe por quê? Porque ele estava preso ele não estava narrando uma fuga, ele estava fugindo ele não estava narrando o mar vermelho sendo aberto ele estava atravessando o mar vermelho tem muita diferença, gente tem muita diferença você narrar alguma coisa que você está imaginando você narrar uma coisa que você viveu sim esse é um ponto e os salmos são isso os salmos é uma memória do que foi vivido é lembrar o que foi vivido fazer isso em minha memória então você está lembrando por exemplo, você pega ali o primeiro bloco salmo 1,41 a gente poderia resumir assim, em grosso modo são os salmos que exaltam o Criador que apresentam o Criador como Criador então eles vão falar o que é de Deus e o que não é de Deus o que foi criado por Deus e o que não foi criado por Deus desde o universo existente que foi criado até a lei moral o que é caminho de Deus e o que não é caminho de Deus então apresentam esse Deus que estabelece as coisas olha que bonito né Gênesis né exatamente depois a gente tem os salmos 42 a 72 eles podem ser resumidos em uma frase no salmo 46 Deus é o nosso refúgio então mostra o Deus consolador o Deus fortaleza o Deus protetor o Deus que nos ajuda a carregar os fardos a passar pelas provações pelos desafios interessante né que eu tenho remontado como êxodo é o êxodo é o Deus Pai não Deus que não faltará né é o Deus que não faltará é isso é o refúgio, fortaleza proteção é bonito né ai você pega o salmo 73 a 89 a gente tem Deus Juiz o que julga o que repreende aquele que corrige olha que interessante interessantíssimo né seria deuteronômio né Ai tem depois salmo 90 a 106 são os salmos de louvor que interessante são os salmos tipicamente religiosos não seria o Levítico né e depois os salmos olha que bonito isso salmos 107 a 150 eles são os salmos que tratam falam por exemplo que os filhos são a herança do Senhor são uma bênção para os justos então ele lembra muito o tema de números em que você está falando das gerações dos filhos das gerações que serão contadas olha que interessante tem uma lógica ai né ai que vontade de ler esses salmos todos já estamos todos querendo começá-los já chegou o fim ou tem mais 5 blocos são 5 blocos muito bacana e é legal agora também né já que existe essa proposta talvez até dá uma a gente se situar a respeito pelo menos em linhas gerais sobre esses livros né que são livros que alguns deles a gente não estudou né Levíticos Gênesis e Êxodo números que o Haroldo falou é Números e Deuteronômio Deuteronômio que são obras que a gente não conhece ainda bem não conhece eu achei que ele ia até falar Juízes não tem Juízes também Haroldo?

Não não ai já não é Torá né já está fora é está fora da Torá dos 5 né então são os outros escritos na verdade Juízes, Reis são são reputados como os profetas então você fala os profetas tem Reis Samuel os profetas porque o profeta não é só o profeta lá o médium né não é só o médium você tem todas as narrativas você tem profetas então quando você está estudando em Reis a história de Davi você tem o profeta Natan né Quando você está estudando Saúl você tem o profeta Samuel o primeiro e o segundo Samuel são profetas então esses livros todos são agrupados com profetas por isso Jesus falava a lei e os profetas a Torá e os profetas os cinco livros da Torá e os outros que são os profetas e os escritos os escritos são Esther, Ruth Sabedoria, Igreja são os escritos Salmos muito bom muito bom muita coisa para ler nossa Deus tem muita coisa tem muito o que conversar mas muito mais a proposta é a gente sentir né e vibrar com esses Salmos o Juiz eu acho que tem que chamar o João aqui porque a gente está esperando as composições de vocês né Aroldo aqui a gente vai pensar a gente vai tentar né vamos envolver muita gente nessa história aí cadê os artistas que vão nos levar né para chamar os salmistas né a luz da doutrina espírita vamos lá bate o papo com o Gladstone vai ser muito bom também né tem muito salmista escondido aí é Então eu vivei um pensamento quando vocês estavam falando que objetivo então assim para mim tem muito a ver com o autoconhecimento sabe e com memória acho que Salmos talvez cumpra um papel em nós de ativar memória sabe porque é como se fossem chaves como se fossem gatilhos é De lembranças para nós que já vivemos isso tudo né Então acho que eu entendo hoje o Salmos como algo muito importante para ativar a memória sabe pelo lado do sentimento pelo lado da poesia pelo lado desse texto que ele está escrito num formato e a gente tem que entender é como palavras existem milhares mas como você coloca como você monta como você estrutura é como se fosse uma cadeia de DNA né assim ali tem uma estrutura é um monumento uma peça né o Emmanuel fala né um monumento sagrado não é isso eu acho que Salmos são peças são esculturas né Para a gente entender apreciar e ativar a memória sabe e comunhão né Julio comunhão com Deus mas pela memória sabe Eleonora a gente tem que falar muito sobre isso nós temos que lembrar que Jesus fala guarda as minhas palavras não é isso ele fala guarda os meus ensinamentos e a gente é muito revocando essa lembrança exatamente eu acho que nós pecamos pelo esquecimento sabe das coisas bom vamos terminar o episódio de hoje com uma oração do Parnaso que lembra um Salmo para a gente poder sentir um pouco o que é é uma uma poesia do Parnaso ditada por José Silvério Horta José Silvério Horta que foi um Um padre né e Se chama oração Pai nosso que estás nos céus na luz dos sóis infinitos Pai de todos os aflitos neste mundo de escarcéus santificado Senhor seja o teu nome sublime que em todo universo exprime concórdia ternura e amor venha ao nosso coração o teu reino de bondade de paz e de claridade na estrada da redenção cumpra-se o teu mandamento que não vacila e nem erra no céu como em toda terra de luta e de sofrimento evita-nos todo o mal dá-nos o pão no caminho feito de luz no carinho do pão espiritual perdoa-nos meu Senhor os débitos tenebrosos de passados escabrosos de iniquidade e de dor auxilia-nos também nos sentimentos cristãos a amar nossos irmãos que vivem longe do bem com a proteção de Jesus livra nossa alma do erro neste mundo de desterro distante da vossa luz que a nossa ideal igreja seja o altar da caridade onde se faça a vontade do vosso amor assim seja Daí, eu entro no sol Ai, que lindo Muito lindo Muito lindo Muito bom É isso aí Obrigada, amigos Um abraço pra todos, até semana que vem Até semana que vem Beijo, pessoal Tchau

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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