Neste episódio, Haroldo Dutra Dias aprofunda o estudo do livro de Isaías, destacando as denúncias proféticas contra as injustiças e desigualdades da nação hebraica. O estudo aborda a transição do povo hebreu de uma comunidade nômade para uma nação estabelecida, com reis e estruturas sociais, e os desafios de implementar valores religiosos na vida cotidiana.
O que é estudado neste episódio
- O desafio da unificação e a identidade hebraica: A formação de uma nação a partir de doze tribos distintas, a construção de uma identidade comum e a transição de um povo nômade para uma sociedade estabelecida na terra de Canaã.
- Períodos de prosperidade e a divisão interna: A análise dos reinados de Davi e Salomão, marcados por prosperidade política e econômica, e a subsequente divisão do povo hebreu em dois reinos (Israel ao norte e Judá ao sul), que levou ao enfraquecimento e à exacerbação do egoísmo.
- A crise social e o questionamento da fé: Como as desigualdades sociais e a perplexidade diante da disparidade entre a crença religiosa e a realidade social levaram ao questionamento do monoteísmo e das instituições religiosas.
- A atuação de Isaías e a tradição oral: A compreensão da mensagem de Isaías em um contexto de caos social e a explicação de como o livro de Isaías, apesar de atribuído a um único profeta, reflete uma tradição oral que foi se desenvolvendo e sendo registrada ao longo do tempo, com a contribuição de seguidores e a atualização com fatos históricos.
- A primeira parte de Isaías: A mensagem dura do profeta aos reis de seu tempo, alertando sobre a confiança em alianças políticas e impérios em vez de em Deus, e as consequências da desobediência a essa advertência.
- A segunda e terceira partes de Isaías: A revelação de Isaías como o “profeta da ternura, da consolação e da promessa”, que introduz a ideia de um Deus consolador e imanente (Emmanuel – Deus conosco), que não apenas aplica a lei, mas também ampara e sustenta.
- O “pequeno evangelho” de Isaías: A visão profética do Messias como um “servo sofredor” e um “templo vivo de Deus”, que traria a paz, a igualdade e a justiça verdadeiras, e que inspirou a leitura cristã da vinda de Jesus.
Reflexões
- A história do povo hebreu, com seus ciclos de união, prosperidade, divisão e crise, oferece lições perenes sobre a importância da unidade e da fé em Deus, em contraste com a confiança exclusiva em estruturas e alianças humanas.
- A mensagem de Isaías transcende seu tempo, alertando sobre os perigos do egoísmo e da busca por interesses individuais em detrimento do bem-estar coletivo, e a necessidade de uma espiritualidade que se reflita em ações justas e compassivas na sociedade.
- A figura do Messias, como um “Deus conosco”, revela a misericórdia divina que acompanha a justiça, oferecendo consolo e amparo mesmo diante das consequências das escolhas humanas, e a promessa de um caminho para a verdadeira paz e harmonia.
Ler transcrição do episódio
Olá, pessoal! Bem-vindos a mais um episódio do nosso estudo do livro de Isaías. Para você que tem acompanhado a sequência do nosso estudo, no episódio anterior, nós comentávamos sobre as denúncias feitas por Isaías, as injustiças, desigualdades e problemas que a nação hebraica encontrava naquele seu momento histórico, naquele momento em que apossou-se da terra e tinham reis, um governo, uma autonomia política, econômica e tinham a sua frente o desafio, a gente sabe, o desafio de implementar a crença e os valores religiosos na vida social, na vida cotidiana.
Então aqui a gente gostaria de comentar dois aspectos, um primeiro reforçando aquilo que nós já trabalhamos no primeiro episódio e o outro avançando um pouco sobre uma temática que é muito peculiar de Isaías. Então, dois momentos aqui do livro de Isaías. O primeiro diz respeito a esse desafio específico. Enquanto o povo era um povo de peregrinos no deserto, a vivência social, a vivência comunitária era outra. Era um povo que fugia de um império, de uma potência dominadora e construía a sua identidade, especialmente a sua identidade religiosa, construía a sua identidade comunitária, essa noção de uma nação, a noção de um povo de Israel e não apenas a noção de tribos isoladas, eram doze tribos, cada uma com a sua característica, com a sua etnia, com a sua cultura e nesse processo de peregrinação no deserto eles são conduzidos a uma união, a uma unificação.
Eles precisam construir uma identidade que não seja apenas a identidade de uma das doze tribos, mas uma identidade total de todas as tribos. E aí surge essa ideia, esse sentimento e esse conceito de um povo, um povo formado de doze tribos, assim como nós temos um Brasil formado de vinte e sete estados, cada estado com a sua cultura, com as suas características, lá eram doze, então nós podemos imaginar a tribo como um estado só metaforicamente, apenas como uma imagem para que a gente consiga compreender. É claro que não é bem assim, tecnicamente não é bem assim, mas para que a gente possa compreender essa imagem ajuda muito.
Então, eles precisavam unificar a sua visão, eles não tinham uma terra onde se localizar, não tinham um local que eles pudessem cultivar, não tinham condições de criar uma estrutura política, econômica, social, era um povo nômade. Então, esse período da história do povo hebreu é muito peculiar e guarda as características dessa situação do povo. Tão logo o povo atinge a terra dita prometida, a terra de Canaã, e começa a chamar essa terra de terra de Israel, de território de Israel, do povo hebreu, nós temos dois reinados de muita pujança, de muito sucesso do ponto de vista político e econômico, que é o reinado de Davi e o reinado de Salomão, seu filho, em que o povo experimenta uma prosperidade, prosperidade política, porque nós temos dois reis sábios, profundamente religiosos, embora seres humanos falíveis, que cometeram diversos erros, mas bem intencionados no sentido de construir essa nação, no sentido de preservar o monoteísmo, de preservar as práticas religiosas do povo.
Então, o povo experimenta aquela unidade, experimenta aquela tranquilidade relativa, claro, para a época, é sempre uma tranquilidade relativa, as nações, a paz entre as nações é sempre um valor relativo, porque depende de interesses internacionais, de outras potências, de outros impérios, etc, etc, que não vem ao caso aqui. Nesse período de prosperidade, o povo começa a construir uma nova identidade, uma identidade de um povo que tem terra, que tem rei, que tem estruturas institucionais, que começa a construir um templo para poder fazer os seus cultos, imitando as demais nações, sedimenta a sua tradição religiosa através de sacerdotes oficializados, de um culto oficializado.
Então, nós temos todas essas questões que envolvem uma comunidade, uma nação e um povo. Isso é sociologia pura, não é o nosso objetivo aqui ficar fazendo essa análise sociológica. Nosso foco aqui é no aspecto religioso e, sobretudo, no aspecto espiritual. Mas o que vai acontecer? Vai acontecer que depois desse grande período de prosperidade e de relativa paz, acontece uma divisão interna no povo hebreu. Então sempre assim, sempre as comunidades, a casa espírita, as instituições, elas sempre se enfraquecem por um racho interno.
É sempre por questões internas que elas se dividem e, portanto, se enfraquecem. E esse enfraquecimento que parte de dentro acaba atraindo elementos que vão esfacelar a unidade por completo. Mas é sempre de dentro que começa. Então, essa lição histórica nós precisamos guardar com muita atenção. Então o racho é interno e aí se divide. Aquele sentimento, então, de unidade se perde porque dez tribos que se localizavam no norte e que têm como centro de liderança a Samaria se separam das duas tribos do sul que têm como liderança a comunidade de Jerusalém.
Então, essa divisão fragiliza politicamente, economicamente e religiosamente o povo hebreu. Então o povo fica fragilizado. E, num momento histórico em que vigorava, tal como hoje, o imperialismo. Então, impérios se formavam e eles se formavam com essa volúpia, com essa fome, com essa ganância de conquistar, conquistar território, conquistar, conquistar, fazer escravos, fazer despósitos de guerra, porque eles invadiam, levavam as mulheres e as crianças como escravas, sexuais, escravas do lar e os homens como mão de obra trabalhadora e todo o patrimônio ali virava espólio de guerra.
E aí os impérios se enriqueciam da espoliação. O que não é diferente da história das nações modernas, das nações atuais. Não é muito diferente. Mas com essa fragilidade a gente passa a ter um rei do norte e um rei do sul. Então, um rei das dez tribos do norte e um rei das duas tribos do sul. E agora fragilizado num momento em que a prosperidade não está lá a grandes coisas e diante de todas as ameaças externas, dividido, a nação dividida, o que que começa a acontecer? Uma exacerbação do egoísmo e do orgulho individuais.
Então, do ponto de vista espiritual, a primeira coisa que acontece em momentos de crise social é o aumento do egoísmo. Então, as pessoas se tornam mais egoístas, elas começam a querer buscar apenas o seu bem-estar e não se importando muito com o bem-estar alheio. É quase que um instinto de sobrevivência bem primário, bem primitivo, herdado lá dos estágios primitivos da nossa evolução espiritual. Então, isso tudo vem à tona e os seres humanos passam a se comportar não muito diferente dos animais selvagens. É isso que acontece.
E aí, quando você olha para a sociedade, você começa a enxergar o quê? Rupturas. Rupturas. Então, uma divisão muito grande, o empobrecimento de certa camada da sociedade, muito sofrimento, muita pobreza e o disparate. Então, enquanto alguns estão muito bem, outros estão muito mal. E esse disparate na vida social, esse descompasso entre a crença religiosa e o disparate da vida comunitária, gera uma perplexidade nas pessoas. Como é que eu posso falar de Deus, de bondade, de justiça, de um Deus justo, se eu olho para a sociedade e não consigo enxergar naquele povo que se diz o povo escolhido, naquele povo que se diz o povo eleito para levar a mensagem divina, se esse povo não consegue nem ele mesmo viver em união, nem ele mesmo consegue viver segundo mínimos parâmetros de justiça.
Então, isso é uma perplexidade. Então, o que acontece? Muitos membros do povo hebreu começam a questionar o monoteísmo, começam a questionar a religiosidade, começam a questionar a espiritualidade de Israel. Então, vejam como o processo foi ocorrendo. Primeiro, a desunião enfraqueceu, aí você entra em um declínio, porque, é claro, está desunido, isso gera injustiças e desigualdades sociais profundas, não estou falando de desigualdades naturais, não é? Nem todo mundo é o maior pianista do mundo. Tem pessoa que vai estudar piano ali e vai ser um pianista bem singelo, bem simples, e outros, pela experiência reencarnatória acumulada, então nós não estamos falando de um patamar de igualdade absoluta, porque isso é utopia.
Mas, quando essa desigualdade começa a afetar a dignidade humana, então, pessoas começam a perder a dignidade humana por conta dessa desigualdade exagerada, desse disparate exagerado, que é um problema que nós vivemos no mundo hoje, mas que a história se repete. Então, esse é um grande desafio que nós vivemos no mundo hoje, quer dizer, um disparate, uma coisa assim que é quase assustadora tamanha a diferença, a desigualdade. E, isso leva as pessoas a quê? A questionarem a fé, a questionarem a sua própria fé e a fé dos outros, os fundamentos da religiosidade e da espiritualidade.
As pessoas começam a questionar as instituições religiosas e as suas lideranças, os seus representantes, começam a questionar o culto. Então, é nesse quadro, é nessa situação que vem Isaías. Então, ele pega esse caos, esse caos. Então, no primeiro momento, e aqui nós abrimos um parênteses, Isaías, nós temos três momentos, por quê? O pensamento, na época, ele não se transmitia de forma escrita, nós precisamos entender isso. Quer dizer, não havia editoras, jornais, internet. O conhecimento era transmitido de forma oral.
Então, surgia um profeta, ele formava uma escola de seguidores, uma pequena comunidade e, ali, ele transmitia seus valores e sua oralidade. Então, ao contrário do que escrevem muitas introduções de Bíblia de Jerusalém, de várias outras, que têm essa visão muito de livro, de redação de livro, eu entendo que o Isaías passou para a sua comunidade todos os valores e crenças que estão presentes no livro inteiro. Passou isso oral. E, aí, ele redigiu uma parte, que é o que eles consideram a primeira parte de Isaías, que vai até o capítulo 39.
Depois, ele desencara, ele morre, e a comunidade prossegue, prossegue redigindo, consolidando no tempo, resgatando aqueles ensinos orais do profeta e acrescentando dados históricos atuais à redação. Então, Isaías morreu, a comunidade continuou com aquele conjunto de ensinamentos. Muitos desses ensinamentos não estão presentes na primeira parte do livro de Isaías, porque o profeta transmitiu isso oralmente. Ele transmitiu essas visões e esses valores, mas transmitiu de uma forma abstrata, de uma forma ampla, e ao longo do tempo, depois da morte do profeta, à medida que o povo foi vivendo experiências históricas, concretas, ele foi se recordando daqueles ensinos do profeta, ele resgata esses ensinos, essa comunidade resgata e acrescenta dados históricos que não são dados históricos da época do profeta.
Aí, vem os teóricos e dizem assim, ah, então nós temos três livros de Isaías. O primeiro, que foi escrito mesmo por um profeta, o segundo, do capítulo 40 até os 50 e pouco, que é de uma outra pessoa, e o terceiro, que são outros autores. Mas, não entendem que é uma tradição oral que vai se atualizando, uma tradição oral que vai sendo transmitida e que vão sendo agregados fatos históricos que confirmam aquela visão que o profeta teve lá atrás, entende? Então, por exemplo, você tem uma fala muito grande de Isaías sobre o Messias na segunda e terceira parte do livro.
Aí, você vai acreditar que não, que o profeta Isaías não teve visão nenhuma do Messias? Que foram só os redatores posteriores que tiveram a visão de que veriam o Messias? Não faz sentido. Não faz sentido você pensar que Isaías tinha essa visão plena da vinda do Messias, deve ter falado muito sobre isso, essa tradição oral ficou marcada, e, à medida que os fatos foram ocorrendo, um século, dois séculos, três séculos, as pessoas falaram, nossa, Isaías tinha razão. Tinha razão. Que coisa! Como a gente faz hoje? A gente pega uma fala do Chico lá de 1950, hoje nós estamos em 2019, a gente resgata essa fala, e acrescenta um fato histórico atual, que o Chico nem tinha conhecimento, mas a visão ele tinha.
A visão panorâmica foi dada, percebem? Então, nós podemos falar de uma tradição profética, de um ensino oral que foi sendo incrementado, ok? Então, nessa primeira parte de Isaías, o que ele vai tentar fazer? O que ele faz diretamente? E essa parte fica registrada. Ele vai dizer, ele vai atuar junto aos reis do seu tempo, no sentido de que eles deveriam resgatar a confiança em Deus e evitarem depositar a confiança em reis e impérios que estavam prometendo proteção. É bem parecido com o que nós estamos vivendo, né? Bem parecido.
Bem parecido. Então, Isaías fala, olha, confia em Deus, confia em Deus. E o rei fala, essa mensagem de confia em Deus, isso é uma coisa abstrata, isso é coisa de religioso, é coisa desse espiritualista, desse profeta Isaías, e fez aliança com a Assíria, fez uma aliança política. O que aconteceu? O que acontece com todas as alianças políticas do mundo, desde que o mundo é mundo? O que acontece? Elas são quebradas, elas são quebradas por interesse econômico, político. A Assíria quebra a aliança, ela já estava ali próximo, quer dizer, com a aliança, ela entrou, ela começou a entrar no território, a olhar como é que funciona, de repente, ela pega e domina tudo, faz todo mundo escravo.
E Isaías havia divertido disso. Cuidado, cuidado, quer dizer, concentra aqui, vamos cuidar do povo, vamos pensar na comunidade, para de ficar preocupado com isso. Mas, não, o rei, e aí, se cumpriu. Então, a primeira parte do livro de Isaías é isso, é essa fala do profeta, que é uma fala dura, uma fala dura, porque a tendência das pessoas é querer confiar em algo palpável. E o que é palpável? O palpável é a próxima eleição, quem que vai governar, entende? É uma lei específica, é um movimento, é esse o concreto. Mas, dá para confiar 100% nesse concreto?
Dá para confiar, se isso tudo é um conjunto de interesses, de milhões de interesses, que é um caldeirão fervente, que você não sabe o que vai dar a isso. Então, a fala de Isaías é uma fala dura, muito dura e muito desafiadora, muito desafiadora. Porque é mais ou menos a fala que o Estêvão fez para o pai. Ô pai, não vai lá procurar, reclamar da terra, não faz isso. A gente tem o sítio aqui, nós estamos plantando, a gente está em paz, ninguém está vendo, vamos ficar sossegados aqui, nós somos amigos da vizinhança, a gente ajuda os servos do sujeito aí, que é o preposto de César, aqui em Corinto, vamos ficar na obscuridade.
Pai, o senhor já está na velhice, não faça isso. Não, eu tenho que recuperar, eu tenho que… Foi lá, perdeu tudo e aconteceu tudo aquilo que está lá no livro de Paulo Estevão. Então, é muito similar isso, é muito similar, porque foi exatamente o que os reis fizeram. Os reis de Israel fizeram exatamente o que Iorredeb, pai do Estevão, fez. Eles fizeram exatamente isso. E aí, o que aconteceu? Perderam tudo, tudo, tudo. Perderam a terra, o povo foi levado escravo para a Babilônia, perderam tudo, tudo. Então, é uma reflexão muito profunda.
E, olha, que também não é desculpa falar que Isaías se isolou, não se envolvia com o político. Não! Ele ia lá no rei, se envolvia, ele estava presente, ele só não era iludido, acreditando que reis, que políticas, que eram capazes de resolver esse problema, que é um problema de formação do ser humano. Quer dizer, um ser humano egoísta, orgulhoso e mal intencionado não vai gerar uma comunidade justa. É claro que não! Um ser humano com valores deturpados vai gerar uma comunidade deturpada. Essa é a primeira parte do livro de Isaías.
Agora, há uma segunda parte, um segundo ensino, um segundo momento do ensino de Isaías, que é o que eu queria frisar nesse episódio. Então, nesse episódio, eu queria chamar bastante atenção para essa segunda parte, esgotando aí a primeira. E, essa segunda parte do seu ensino estão presentes nos livros 2 e 3, que os teóricos dividem. Primeiro, Isaías. Segundo, terceiro, Isaías. Estão presentes nos livros 2 e 3. E são as partes que Jesus cita no Novo Testamento. Então, é muito curioso isso, né? Porque, por exemplo, Jesus não cita muito a primeira parte de Isaías, que todo mundo fala que foi a única parte que ele escreveu.
Não é incoerente isso? Então, nós temos que pensar nas coisas que a gente fala para não cair nessas ciladas. Então, a segunda e a terceira parte de Isaías foram escritas por Isaías, foram escritas por Isaías? Não. Foram escritas no tempo de Isaías? Não. Mas, qual o vínculo da segunda parte e da terceira parte do livro de Isaías com Isaías? É o vínculo oral, o vínculo da tradição oral. Isaías falou por muitos anos certas coisas, falou para a comunidade, a comunidade guardou, passou aquele ensino de pai para filho e depois de 200, 300 anos, as pessoas se lembraram e falaram, é, Isaías tinha razão.
Isaías tinha razão. E aí, quando as pessoas se convencem disso, é, realmente, Isaías tinha razão. Aí que elas vão beber mesmo na tradição oral, aí que elas vão e resgatam toda a tradição oral daquele profeta, daquele líder, daquela pessoa. Entendem? Então, num outro momento histórico, 100, 200 anos depois da morte de Isaías, o povo foi lá e resgatou a tradição oral do profeta. E qual é essa tradição oral? É aqui uma parte maravilhosa, maravilhosa. Isaías é o profeta da ternura, da consolação e da promessa. Da ternura, da consolação e da promessa.
Na primeira parte, ele é o profeta comum, que é o profeta que emite juízos. Olha, é o profeta da lei de causa e efeito. Fala, gente, tem causa e efeito, tem lei de ação e reação, todos os profetas trabalham nessa linha. Elias, Jeremias, todos. Todos são profetas que se levantam para acordar o povo de que a lei divina é uma lei de responsabilização e que ela estabelece consequências para a vida individual e para a vida das nações, para a vida coletiva, para a vida da comunidade. Só que, nessa segunda parte da mensagem de Isaías, ele traz com muita força um tema que é pouco explorado nos outros profetas.
Ele começa a falar no Deus que consola, o Deus consolador, o consolador prometido, que é Deus. Não confunda, hein? Não estou falando de 1857, não. Estou falando de 600 anos antes de Cristo. Alto lá. Peça atenção. Ele vai falar de um Deus que consola. Que consola quando? Quando a pessoa, ou a comunidade, ou o povo inteiro, faz a maior bobagem da sua vida, sofre as consequências, sente a dor do topo e se abre para Deus, e aí Deus vem e consola. Então, não é só lei de retribuição, de causa e efeito, lei de justiça. É também misericórdia, é também consolação.
Deus não apenas aplica a lei, Ele também sustenta aquele que tem que prestar conta perante a lei. Percebe isso? Então, não é que Deus anula a lei. A lei é a lei de consequência. Você plantou o limão, vai colher limão. Mas, na colheita do limão, Deus te sustenta, te consola, te ajuda, te auxilia, te ampara, te inspira. Olha que interessante. Então, nessa ideia do Deus consolador, Isaías começa a falar da transcendência de Deus, que Deus transcende todos os reis da Terra, todas as políticas da Terra, toda a situação econômica da Terra, todas as situações.
Deus transcende isso tudo. Parece que Isaías precisa voltar. Isaías está precisando voltar para falar para a gente, principalmente para a gente espírita, para nós espíritas. Volta, Isaías, volta. Volta para explicar certas coisas. Então, ele vai dizer que Deus transcende, porque Deus é o Todo-Poderoso. É mais ou menos aquela mensagem que está no livro de Boa Nova. Jesus fala com Levi. Levi, quem governa o mundo é Deus. Quem governa o mundo é Deus. Você pega o ser humano mais poderoso, que é presidente ou primeiro-ministro da nação mais poderosa, e ele pode morrer em cinco segundos e alterar todo o quadro.
Não pode? Pode, é um ser humano. Ele é um ser humano. Ou, de uma hora para a outra, o quadro muda, muda tudo, altera tudo. Então, a primeira mensagem dele é há um Deus transcendente. Mas, aí, ele vem trazer uma coisa que é muito típico de Isaías. Aí, começa a marca de Isaías. Ele fala assim, olha, Deus é transcendente, mas, Ele não é Todo-Poderoso? Então, eu vou contar uma novidade para vocês, diz Isaías. Esse Deus, Ele é também imanente. Ele vem até nós. Ele é Emmanuel. Ele é Deus conosco. E Ele vai mandar um Messias para provar que Ele, Deus, está conosco.
Porque esse Messias será o cumprimento da profecia de Isaías que Natan fez para Isaías, da raiz de Gessé, um descendente de Davi, que seria um ser, um templo vivo de Deus, onde Deus faria morada e, através do Messias, Deus habitaria no meio de nós. Isso é grandioso, porque aí ele abre um tema, ele abre algo assim completamente inovador na profecia, que é o Deus conosco. Então, Deus não é só o ser absoluto e transcendente que está aplicando a lei. Não! Ele aplica a lei, mas Ele vem amparar os seus filhos que estão sendo corrigidos.
Ele vem amparar os seus filhos que estão sendo redimidos, que estão sendo corrigidos. E a vinda do Messias é exatamente esse ser, o Messias, será um templo vivo de Deus. Deus habita nele e, habitando nele, esse Messias vindo, Deus habita entre nós. Olha que grandioso isso! E, aí, ele começa a falar do servo sofredor, que esse Messias não seria compreendido, que nem todo Israel seria mantido, mas apenas uma parte, um resto. Então, ele começa a introduzir temas que é onde a tradição cristã identificou no profeta Isaías uma espécie de pequeno evangelho dentro do Velho Testamento.
E, é exatamente isso. O profeta Isaías é um pequeno evangelho dentro do Velho Testamento, porque é como se fosse um evangelista falando. Você lê essa parte, e, olha, foi escrito muito depois da morte. Então, ele deixou isso como ensino oral, percebe? Ele deixou isso como uma tradição oral. Na época, eu penso eu, aqui eu estou chutando, minha opinião pessoal. Eu acho que era um tema tão assim, tão estranho, que os contemporâneos dele não devem ter dado muita atenção para isso, percebe? E, depois que os anos foram passando e que as coisas foram se cumprindo, o pessoal falou, nossa, não tem aquela tradição lá do Isaías?
Aqueles seguidores de Isaías não falam isso? Não tem isso? Não tem até hoje seguidor de Buda? Já não passou mais de dois mil anos? A mesma coisa. Então, cem, duzentos anos depois, não tem um seguidor de Isaías? É, tem um pessoal aí que mantém a tradição de Isaías. E, eles não falam? Eu não estou achando que eles têm razão. Isso, agora, faz mais sentido. Ou seja, o que Isaías ensinou só fez sentido cem, duzentos anos depois. E, aí, o povo fala, então, nós vamos redigir isso, vamos escrever isso? Pede lá, aí a comunidade deve ter dito, olha, agora o pessoal está com interesse, agora tem público para ouvir isso.
Então, vamos registrar isso aqui, vamos escrever e atualizar com fatos históricos atuais, para reforçar a mensagem de Isaías, que, na época, era muito abstrata. Percebem? É isso, é isso. Então, um profeta que só foi totalmente compreendido duzentos anos depois, trezentos anos depois, não foi totalmente compreendido no seu tempo. E, a mensagem é muito grandiosa mesmo. Então, nós poderíamos dizer que Isaías é o primeiro evangelista. O primeiro evangelista não é Mateus. Nem Márcio, nem Lúcio. O primeiro evangelista, nem João, né, o primeiro evangelista é Isaías.
Ele é o primeiro, porque as coisas que ele fala, os servos sofredores, as descrições que ele faz da crucificação, nós vamos ver tudo isso aqui. Fica calma aí, calma, calma, nós estamos só começando, estamos nos primeiros episódios, sossega, vamos acompanhando aqui, porque precisa acompanhar o raciocínio, depois vai lá na frente, aí a pessoa fica com dúvida da base. Então, primeiro, a gente tem que aprender as sílabas, depois, aprender frases mais complexas. Então, vamos com calma. Dentro do livro de Isaías, não é que é a concretização escrita da tradição oral de Isaías?
Nós temos o primeiro evangelho com riqueza de detalhes, a ponto de Jesus, o próprio Jesus, na sinagoga em Cafarnaum, abrir o rolo de Isaías e ler e falar assim, hoje, essa profecia se cumpriu. Isso que está aqui, sou idiota, sou eu. De tão forte que era o oráculo, as profecias, a inspiração desse indivíduo, desse profeta, Isaías. Percebem, gente? Então, é muito interessante. É muito, muito puljante a mensagem dele. Então, nós temos essa primeira parte em que ele fala, cuidado, vocês estão muito ligados em política, economia, cuidado, vocês estão confiando demais.
Falou com o rei, falou com a casa, você está confiando demais em rei humano, você está confiando demais, cuidado com essa aliança. Aliança com o Egito, aliança com a Síria, cuidado, cuidado com isso. E, foi dito e feito, foi dito e feito, abriu tudo, eles entraram, daqui a pouco, invadiram, tomaram conta de tudo e levou o povo inteiro escravo. E, parece que a gente não aprende essas lições históricas. Eu digo nós, religiosos. Nós que temos uma noção de religiosidade e espiritualidade. Parece que a gente não aprende essas lições, não aprende.
Então, essa frase aí é dura, ela é dura, ela é radical. Ela fala, cuidado, eu prefiro confiar em Deus do que confiar no imperador da Síria, e o imperador era poderoso. Agora, qual que é a Síria hoje? Quais são os impérios poderosos hoje? Você vai depositar confiança neles ou em Deus? É uma mensagem radical, não é? É uma mensagem que, se a gente fala isso aí e a pessoa escuta, vai achar que nós somos fanáticos, não é? Mas, não é verdade? Não é? Dá uma olhada no mundo aí, o que está acontecendo. Dá uma olhada nos líderes mundiais, nas coisas que estão acontecendo.
Pensa nisso. Pensa se essa primeira parte de Isaías não se aplica totalmente ao que nós estamos vivendo hoje, 2019, agora. Dá para pensar. E, aí, na segunda e terceira parte, ele vai construir o seu micro-Evangelho, o seu primeiro Evangelho, que vai inspirar toda a leitura que a comunidade cristã faz do Messias e identificar Jesus como esse Messias. Esse, sim, que vai trazer a paz verdadeira, a igualdade verdadeira, a justiça verdadeira, as relações de amor verdadeiras entre as pessoas, o amor a Deus verdadeiro, o verdadeiro culto a Deus.
Então, um ser humano que ia mostrar o que Deus espera de nós. Porque a visão do Messias é que o Messias viria nos ensinar o que Deus espera de nós, o que Deus espera de nós como marido, como mulher, como companheiro, como companheiro, como cidadão, como empreendedor, como filho, como filha, como religioso. O que Deus espera de nós? Então, vem o Messias para dar uma aula prática, dar um curso intensivo de três anos, prático, só aula prática, com algumas falas e alguns ensinos. Essa é a visão poderosíssima do profeta Isaías e que a gente precisa ficar atento.
Então, assim a gente deu essa divisão e essa fala sobre o livro, sobre as partes, que muitos têm dúvida. No episódio seguinte, a gente dá sequência no estudo dessas partes. Te vejo no próximo episódio.
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.

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