#095 – Estudo do Velho Testamento – Livro Gênesis

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Neste episódio do estudo do livro de Gênesis à luz da Doutrina Espírita, Haroldo Dutra Dias aprofunda-se no capítulo 22, conhecido como “A Aqedá de Isaque” ou “O Sacrifício de Isaque”. Este texto, de grande simbolismo e complexidade, é crucial para a compreensão das conexões entre o Velho e o Novo Testamento.

O que é estudado neste episódio

  • Gênesis 22:1-19 – A Prova de Abraão: A narrativa central do sacrifício de Isaque, onde Deus pede a Abraão que ofereça seu filho em holocausto. A intervenção divina impede o sacrifício, e um cordeiro é provido em seu lugar.
  • Contexto Histórico e Cultural: A prática de sacrifícios de animais e, em tempos mais remotos, de seres humanos, como parte das religiões antigas, e como essa prática primitiva choca a sensibilidade moderna, mas era comum na época.
  • Evolução Espiritual da Humanidade: A reflexão sobre o progresso da sensibilidade espiritual humana, que abandonou práticas bárbaras como o sacrifício humano, contrastando com debates contemporâneos como o aborto.
  • A Essência Espiritual do Texto: A importância de buscar o “espírito da letra”, ou seja, o ensinamento espiritual subjacente, em vez de se prender à literalidade de passagens que podem ser chocantes ou difíceis de compreender.
  • Abraão como Tipo de Pai: A figura de Abraão oferecendo seu filho ao sacrifício como uma prefiguração de Deus oferecendo Jesus.
  • O Cordeiro e o Novo Testamento: A substituição de Isaque por um cordeiro como um símbolo que se repete e se cumpre em Jesus, o “Cordeiro de Deus”, que não é substituído, mas se oferece em sacrifício.
  • Símbolos Recorrentes: A análise de símbolos como o fogo, o arbusto espinhento (onde o cordeiro fica preso) e a coroa de espinhos de Jesus, mostrando a interconexão das narrativas bíblicas.
  • A Conexão Velho-Novo Testamento: A ideia de que o Velho Testamento aponta para Jesus, e que o Novo Testamento revela o sentido pleno das profecias e símbolos do Velho Testamento, como Jesus afirma: “Eu não vim destruir a Lei, mas cumpri-la”.
  • Enigmas no Texto: A análise de detalhes curiosos na narrativa, como Abraão selando o jumento e rachando a lenha, e a ausência de Isaque no retorno, que servem como “charadas” ou “parábolas” que se conectam a eventos futuros, como a entrada de Jesus em Jerusalém montado em um jumento.

Reflexões

  • A Doutrina Espírita nos convida a uma leitura profunda e simbólica das escrituras, buscando o ensinamento moral e espiritual que transcende a literalidade dos textos antigos.
  • A evolução da humanidade, tanto moral quanto espiritual, é um processo contínuo, que nos permite compreender como práticas do passado, outrora aceitáveis, hoje são consideradas bárbaras, e como essa evolução se reflete na compreensão do divino.
  • A figura de Jesus como o “Cordeiro de Deus” é o cumprimento de uma série de símbolos e prefigurações presentes no Velho Testamento, revelando a unidade e a coerência do plano divino através das eras.

Ler transcrição do episódio

Olá, amigos! Estamos aqui para mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis à luz da doutrina espírita. E, hoje, nós avançamos um pouco na história de Abraão para um ponto que é muito importante, que é muito difícil de ser compreendido e que revela as dificuldades da interpretação do Antigo Testamento e as implicações que o Antigo Testamento tem na própria história do Novo Testamento. O texto de hoje é o capítulo 22 do livro Gênesis, conhecido pelos hebreus como Aqedá de Isaac, ou o sacrifício de Isaac, aquele texto em que, na linguagem extremamente simbólica do Velho Testamento, Abraão recebe a ordem de sacrificar o seu filho.

Esse sacrifício é impedido e um cordeiro é oferecido no lugar de Isaac. Vamos ler o texto, porque realmente merece, e aqui tem uns detalhes muito importantes. Então, diz assim, “Depois destes acontecimentos, sucedeu que Deus pôs a Abraão à prova e lhe disse “Eis-me aqui, Deus disse, toma teu filho, teu único, que amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei.” Abraão se levantou cedo, selou seu jumento e tomou consigo dois de seus servos e seu filho Isaac.

Ele rachou a lenha do holocausto e se pôs a caminho para o lugar que Deus lhe havia indicado. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o lugar. Abraão disse a seus servos, “Permanecei aqui com o jumento, eu e o menino iremos até lá, adoraremos e voltaremos a vós.” Abraão tomou a lenha do holocausto e a colocou sobre seu filho Isaac, tendo ele mesmo tomado nas mãos o fogo e o cutelo, e foram-se os dois juntos. Isaac dirigiu-se a seu pai Abraão e disse, “Meu pai.” Ele respondeu, “Sim, meu filho.” “Eis o fogo e a lenha, ” retomou ele, “mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Abraão respondeu, “É Deus quem proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho.” E foram-se os dois juntos.

Quando chegaram ao local que Deus lhes indicara, Abraão construiu o altar, dispôs a lenha, depois amarrou seu filho Isaac e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e apanhou o cutelo para emolar seu filho, mas o anjo do Senhor o chamou do céu e disse, “Abraão, Abraão?” Ele respondeu, “Eis-me aqui.” O anjo disse, “Não estendas a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, agora sei que temes a Deus. Tu não me recusastes o teu filho, teu único.” Abraão ergueu os olhos e viu um cordeiro preso pelos chifres em um arbusto.

Abraão foi pegar o cordeiro e o ofereceu em holocausto, no lugar de seu filho. A este lugar, Abraão deu o nome de “o Senhor proverá” ou “o Senhor vai prover”. De sorte que se diz hoje, “sobe a montanha e o Senhor proverá”. O anjo do Senhor chamou uma segunda vez Abraão do céu dizendo, “Juro por mim mesmo, palavra do Senhor, porque me fizeste isso, porque não me recusaste o teu filho, teu único, eu te acumularei de bênçãos e te darei uma posteridade tão numerosa quanto as estrelas do céu e quanto a areia que está na praia do mar e tua posteridade conquistará a porta de seus inimigos, por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu não me desobedeceste.” Abraão voltou aos seus servos e, juntos, puseram-se a caminho para Bersabeia.

Abraão residiu em Bersabeia. Está aí um texto bem delicado, bem difícil. Primeiro, nós vamos levantar alguns aspectos externos ao texto ou históricos, contextuais ao texto. A primeira coisa que a gente descobre aqui é que Abraão, possivelmente, já conhecia o sistema de sacrifícios, porque todas as religiões do Oriente, as religiões da Antiguidade baseavam-se em sacrifícios de animais. Então, animais eram oferecidos aos deuses e, aqui no caso, como Abraão está inaugurando o monoteísmo, vai ser oferecido um sacrifício ao Deus único, ao Deus de Israel.

Então, já era conhecido, tanto que menciona-se aqui a lenha, o altar – o altar é uma coisa bem improvisada mesmo que se constrói, não tem nada a ver com o altar – feito ali na montanha, coloca a lenha, amarra o animal, põe fogo e mola ele com uma faca bem fina, porque é o sangue que tem que ser oferecido e esse é o holocausto, uma oferenda que é queimada, ela é imolada e queimada, oferecida a Deus. Então, é uma prática, se bem nós formos examinar sociologicamente, uma prática primitiva, brutal, que fere a nossa sensibilidade hoje do século XXI, a nossa sensibilidade espiritual, religiosa, psíquica, fica um pouco chocada com esse tipo de prática adorativa, mas, nós temos que entender que essa é uma prática de 3.000 anos atrás.

Então, é uma prática que atende a uma mentalidade, a uma época do desenvolvimento da humanidade, praticada por quase a totalidade dos povos. Então, a gente vê, por isso aqui, como a humanidade tem progredido espiritualmente, não obstante todas as dificuldades, todas as barbáries, violências, escravidão em todos os níveis, exploração que ainda existe, aos poucos, a nossa sensibilidade espiritual vai aumentando, vai se tornando mais refinada e, por essa razão, a gente percebe que essa é uma prática que ficou na história da humanidade, nos seus primórdios, podemos dizer na infância espiritual da humanidade, fazendo aqui uma avaliação espiritual, não apenas do ponto de vista histórico ou sociológico, mas de uma perspectiva espiritual.

A humanidade evoluiu espiritualmente, saiu dessa infância espiritual. Outro elemento que nos chama a atenção aqui é que, nessa época, nesses tempos recuados da história, havia o sacrifício não apenas de animal, mas o sacrifício de pessoas humanas. Mulheres eram sacrificadas, crianças eram sacrificadas, famílias levavam seus filhos, bebês, crianças, para serem sacrificadas, queimadas, dadas em um altar a um Deus. Isto choca a nossa sensibilidade? Choca, mas também, embora a humanidade tenha evoluído, tenha progredido, a gente percebe ainda, às vezes, umas tentativas de retorno, como, por exemplo, agora, no Brasil, essa tentativa de entender-se, como válido, como lícito, como ético, o aborto de uma criança de 12 semanas no útero materno, quando todo o corpo já está formado, todos os órgãos, já é uma criança, e você assassiná-la dentro do útero da mãe, e, ainda, advogando-se que isto deva ser custeado pelo Estado, quando, no nosso imposto, os nossos tão parcos, já tão difíceis recursos da saúde, serem utilizados para assassinar bebês no útero materno, e não para outras políticas públicas, como, por exemplo, a educação sexual e políticas de prevenção.

Então, a gente se assusta com certas coisas aqui, mas temos, também, essas coisas inexplicáveis, hoje, em pleno século XXI, no Brasil. Então, era prática. Isto que Abraão está fazendo aqui, evidentemente, está chocando a sensibilidade dele, mas, isto era feito na comunidade em que ele vivia, de maneira natural. De maneira natural. Muitos povos praticavam esta barbárie, inclusive, do sacrifício de crianças. Mas, nós não podemos nos ater, aqui, a esta vestimenta temporária da ideia, porque esta prática, este elemento que foi escolhido aqui, é uma vestimenta temporária de um ensino espiritual ou de algo que está sendo transmitido.

A vestimenta envelhece e fica, mas, o ensino, a essência, ela é eterna, ela é imperecível e ela permanece. Buscando, então, extrair o espírito da letra, porque a letra mata, a letra choca, a letra desta passagem aqui é chocante, ela provoca uma repugnância em nós. Muitas pessoas, às vezes, se afastam do Velho Testamento ou atacam o Velho Testamento em função deste tipo de texto, porque estão focando apenas na vestimenta e não pegam a essência. Então, vamos, agora, para o texto, para a literatura. É muito curioso o fato de que Abraão, aqui, figura como um tipo do pai que vai oferecer o seu filho ao sacrifício.

Então, esta tipologia ou esta imagem de um pai oferecendo o seu filho para ser sacrificado é uma imagem que choca. Deus intervém e oferece, no lugar, um cordeiro. Isaac é substituído pelo cordeiro. Então, este é um ponto interessante para a gente pensar. Por quê? O Novo Testamento vai retomar esta história. E, vai reconfigurar os elementos desta história. No Novo Testamento, Abraão, quem vai ocupar o lugar de Abraão, é o próprio Deus. Quem vai ocupar o lugar de Isaac, do filho, é Jesus. Só que, nesta história, não haverá substituição.

Deus entregará o seu filho e ele será sacrificado. Ele será entregue ao holocausto, ao martírio, à cruz. Então, não haverá um cordeiro que substituirá Jesus. Ele será o cordeiro. Então, é importante que a gente tenha isto em mente, porque ficará difícil compreender os aspectos simbólicos do Novo Testamento se nós não estudarmos esta passagem. Esta passagem, aqui, revela a importância do estudo do Velho Testamento para a compreensão do Novo Testamento. É por isto que os evangelistas vão chamar Jesus de o cordeiro de Deus.

Por que o cordeiro de Deus? Onde é que aparece esta história do cordeiro de Deus? Aqui, no capítulo 22 de Gênesis, quando Isaac foi substituído por um cordeiro, um cordeiro que Deus ofereceu. Deus trouxe o cordeiro. E, Abraão fala, porque ele está caminhando com o filho e o filho ia ser sacrificado. O filho fala, é até tragicômico, porque o filho fala – olha, pai, eu estou carregando a lenha, você está com o fogo e com a faca, com o cutelo, cadê o cordeiro? Então, Abraão não disse para ele – o cordeiro é você, meu filho, você que é o cordeiro, você que vai ser sacrificado.

Abraão não diz isso. A sensibilidade de pai não deu conta de dizer isso. Então, ele diz assim, o cordeiro Deus vai prover, Deus vai providenciar, a providência divina vai arranjar um cordeiro. E, de fato, no momento ali, o anjo do Senhor – é interessante isso, também, porque aqui, já a gente percebe um intermediário, é um mensageiro de Deus, Abraão não conversa com Deus, é um intermediário e o intermediário transmite para Abraão a ordem de que ele não sacrificasse o seu filho, porque um cordeiro havia sido providenciado para o holocausto.

E, aí, o cordeiro está preso pelo chifre em um arbusto, que é uma árvore espinhenta. Interessante isso, não é? Muitos símbolos aí, porque o chifre do cordeiro é a força, é o poder dele. Então, o poder dele estava preso no espinho. É Aqui que a gente percebe como é que os símbolos já começam a quase querer sair para fora do livro. A gente percebe que os símbolos já estão querendo pular. Aí, a coroa de espinhos de Jesus, o poder que está aqui nesta região, o seu poder e uma coroa de espinhos, a coroa de espinhos simbolizando este arbusto.

Nós vamos ver que quando Moisés, lá na frente, sobe ao Sinai, a montanha começa a pegar fogo, então, surge um fogo, olha aí o fogo de novo. Aqui, ele vai subir na montanha para pôr fogo, o holocausto. Então, de novo, o símbolo do fogo. Então, Moisés sobe na montanha, Deus, como uma chama, como um fogo, se manifesta em um arbusto, em um espinheiro. Olha que interessante! O cordeiro, aqui, é preso em um espinheiro, Deus se manifesta em um espinheiro e a coroa de espinhos de Jesus. O espinho, o espinho simbolizando a dificuldade, a opressão, a injustiça, todas as questões do espinho.

Tanto que os sábios de Israel vão comentar este texto dizendo assim por que Deus, como uma chama divina, se manifesta em um espinheiro? Por que Ele não escolheu uma flor, uma planta ou uma pedra? Por que um espinho? E, aí, o Rashi e outros sábios vão comentar assim por que o povo estava escravo, estava oprimido e Deus quis ser solidário ao povo, então, se manifestou em um espinheiro. Aqui, Abraão está no sofrimento, está na angústia de ter que oferecer o seu próprio filho e, aí, o cordeiro aparece no espinho, no espinheiro.

E, depois, nós vamos ver a coroa de espinhos de Jesus. Os símbolos são profundos, os textos estão ligados. Aqui, nós já começamos a perceber uma característica, também, do Velho Testamento, que Paulo vai pisar forte nisto, vai frisar muito isto, que é o Velho Testamento apontando para a figura de Jesus. O Velho Testamento, como uma seta, trazendo símbolos, aparentemente, desconexos, é como se o Velho Testamento fosse, assim, peças de quebra-cabeça que fossem jogadas ao vento. E, aí, chega o Jesus e estas peças são todas reunidas, a figura é montada e, aí, você entende toda a história.

É isto que Paulo vai dizer na Carta aos Hebreus. Então, as pecinhas são todas reunidas, são unificadas e montam um quadro e, aí, você compreende não só Jesus, não apenas a história do Novo Testamento, mas, também, a história de todo o Velho Testamento. Tudo se aclara, tudo ganha um sentido, tudo é unificado na pessoa de Jesus, na pessoa do Messias. Do Messias Então, é uma ideia interessante, também. Então, aqui, eu estou só levantando os pontos. O Cordeiro, Jesus é o Cordeiro de Deus. Por que o Cordeiro de Deus? Porque é o Cordeiro que Deus ofereceu, só que com um detalhe.

Aqui, na história da Aquedade de Isaac, o Cordeiro que Deus ofereceu é diferente de Isaac, o filho de Abraão. No Novo Testamento, o Cordeiro que Deus oferece é o seu próprio filho, amado. É o filho que o respeita, que o entende, que segue as suas leis, é o filho que o representa na Terra. Ele oferece o seu próprio filho em sacrifício. Então, o que não foi permitido, a experiência que não foi permitida para Abraão viver e Isaac viver, Jesus vive e Deus vive essa experiência na cruz. É um elemento profundo, aqui. O Cordeiro volta a aparecer, quer dizer, entre esse Cordeiro que aparece aqui na Aquedade de Isaac, ou no sacrifício de Isaac, e o Cordeiro de Jesus, nós temos um outro evento, que é o Cordeiro, que é qual evento?

A noite da Páscoa, o Cordeiro da Páscoa. Então, nós já comentamos, Deus se manifesta no monte, no arbusto, no espinheiro, o fogo no espinho, no alto da montanha do Monte Sinai e anuncia que vai libertar o povo. Então, Deus se manifesta no espinho, na dor, no sofrimento, para libertar. E, lá no Egito, é o Cordeiro que vai salvar os primogênitos novamente. Novamente, o primogênito de Israel será poupado por um Cordeiro. Então, aqui, o Cordeiro salvou a vida de Isaac, que é o filho oficial, o primogênito legítimo que já tinha o Ismael, mas ele era filho com uma escrava.

Aqui, é o filho com a esposa, que tem uma diferença na legislação do Antigo Testamento. Então, ele é o primogênito legal. Ele é poupado. O Cordeiro entra no lugar. Lá no Egito, quando o povo é libertado, os primogênitos hebreus são novamente poupados. Então, novos Isaacs são poupados, mas, um Cordeiro perece. E, no Novo Testamento, novamente, alguém é poupado. Agora, a humanidade é poupada, mas, o Cordeiro é oferecido e, desta vez, o Cordeiro é o primogênito de Deus. É um simbolismo. Nós estamos usando, aqui, um alto simbolismo.

Talvez, você tenha ficado até um pouco sem fôlego, pare um pouquinho, tome uma água, relaxa, vamos com calma, porque é muito símbolo, é muita simbologia. E, aqui, nós temos que ter, também, um espírito lúdico. Não pode ficar tendo que entender o símbolo, como ele se encaixa. Você tem que gostar de quebra-cabeça, de um jogo, para você conseguir, senão, você fica muito tenso e não consegue interpretar o texto. Então, estamos vendo aqui fogo, holocausto, sacrifício, um filho sendo oferecido, o filho é o Cordeiro. As coisas estão se ensaiando para se cumprirem em Jesus.

Por isso que o Novo Testamento vai dizer, e Jesus também diz, Eu não vim destruir a Torá. Eu não vim destruir o que está aqui. Eu vim cumprir. Agora, dá para entender. É como se Jesus dissesse assim, Eu não vim destruir o capítulo 22 de Gênesis, que fala de Abraão oferecendo seu filho Isaac e Isaac sendo poupado por um Cordeiro que Deus ofereceu. Eu não vim destruir isso. Eu vim cumprir. Eu sou esse Cordeiro e vou ser santificado. Eu vou cumprir isso. É forte! Porque, às vezes, nós, espíritas, interpretamos assim que Jesus vai cumprir, Ele vai adotar a lei moral, vai fazer um comportamento.

Não! É mais profunda ainda. É mais profunda ainda. Cumprir é cumprir mesmo. Cumprimento. E, aí, nós vamos perceber que essas histórias – é como diz Paulo – estavam lançadas uma sombra sobre o Velho Testamento que impedia que ele fosse compreendido. Mas, tão logo chega Jesus, essa sombra se dissipa e, aí, nós entendemos para onde o Velho Testamento estava apontando, para onde ele estava indicando, o que ele estava querendo explicar. É profundo aqui, bem profundo. Vamos, então, porque ainda não vamos entrar na interpretação mesmo, isso aqui vai demorar um pouco, vamos com calma, vamos devagar.

Agora, nós temos o texto. Ele tem algumas coisas curiosas, alguns enigmas, enigmas no texto. E, esses enigmas nos ajudam a interpretar o texto. Ajudam a interpretar. Então, se a gente identifica esses enigmas, você começa a entender que isso aqui é literatura e que quem escreveu sabia o que estava escrevendo. Estava lidando com uma forma típica de escrever, que é uma forma paradólica, de parábola, de charada, de enigma, tipo o que é o que é. Não é aquele o que é o que é o velho desgastado, o que é o que é que cai em pé e corre deitado, brincava isso na escola, é a chuva.

Aqui, o texto é feito com esse espírito. Então, vamos lá. Olha que coisa curiosa. Abraão recebe a ordem, então, de oferecer Isaac num monte que seria indicado a ele. Tudo indica que isso foi um sonho, porque o texto diz assim, Abraão se levantou cedo. Então, ele teve essa visão e se levantou, acordou e se levantou. Só que, aqui, começa uma coisa interessante. Ele se levantou cedo e selou o seu jumento. Selar o jumento é preparar um jumento, colocar uma cela, preparar direitinho. Por que ser o jumento? Para ele, não dá, não é?

O jumento é um ancião, é um senhor. Mas, aí, vem a pergunta, Abraão tem tantos servos, por que ele preparou o jumento? Ele preparou, por que não deu a ordem para os servos prepararem o jumento? Não, ele preparou. Ele selou o jumento, tomou consigo dois de seus servos e o seu filho Isaac. Então, dois servos e o filho. Ele rachou a lenha. Então, Abraão foi lá e rachou a lenha. Por que ele não mandou os servos? Os dois servos ficaram parados. E, o Abraão, velhinho, preparou o jumento e contou a lenha. E, os servos olhando, não está estranho?

E, aqui, está interessante. A lenha do holocausto, rachou a lenha do holocausto e se pôs a caminho para o lugar que Deus havia indicado. Se pôs a caminho. Não falou que ele montou o jumento? Esta coisa pôs. Se pôs a caminho. A ideia é que ele foi caminhando. E, caminhou. Mas, e o jumento? Então, vamos lá. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, disse aos seus servos. Abraão disse aos seus servos. Permanecei aqui com o jumento. Eu e o menino iremos até lá. Adoraremos e voltaremos a vós. Então, ficou o jumento, preparado, selado, os dois servos.

E, agora, Abraão vai. É curioso isto também. E, sobe o período mais duro, talvez, da viagem, que é a subida do monte, a pé, com o filho. Abraão carregando o fogo e a faca e pôs a lenha nas costas do filho. E, o jumento? E, o jumento? O jumento ficou lá descansando e o Isaac, que ia ser sacrificado, ainda carregando a lenha. Muito curioso isto! Bom, aí, a história, todo mundo já sabe o que vai acontecer, não é? Ele chega lá, prepara tudo e amarra o Isaac. Aí, o Isaac percebe que ele é o cordeiro. O cordeiro é ele. Aí, quando Abraão vai sacrificar, ele é impedido pelo anjo.

Surge um cordeiro amarrado no arbusto. Aí, Abraão sacrifica. E, o que você espera? Que Abraão desça com o Isaac. Não é isso? É o Isaac. Oh, meu filho, vamos descer. Que coisa boa! Desça com o Isaac, cansado. Monte no jumento e volte para casa. Não é? Não. Não foi isso que aconteceu. Abraão voltou aos seus servos. E, o Isaac? Cadê o Isaac? E, juntos, Abraão e os servos puseram-se a caminho para perceber. E, o jumento? É engraçado, não é? É engraçado, mas o texto é. Cadê o jumento? Bom, esse jumento deu pano para lenha, pano para manga, estou misturando, ou fogo para lenha.

Esse jumento ficou na tradição do povo hebreu. E, ele vai reaparecer em Zacarias, dizendo que esse jumento, que ficou preparado, ficou lá na montanha. Qual é o nome da montanha? Deus proverá. Deus proverá. Então, o jumento ficou lá, preparado para o Messias. Então, quando o Messias voltasse, ele viria num jumento. Qual o jumento? É engraçado, não é? O jumento de Abraão, porque Abraão preparou o jumento, mas não montou nele, levou o jumento e voltou e deixou o jumento lá. E, não é que o Novo Testamento vai retomar essa jumentice?

Jesus está caminhando para Jerusalém, para a sua crucificação. E, ele fala, lancei e comei essa Páscoa convosco, vai lá numa casa, tem um jumento, jumentinho, jumenta, a mãe, vai estar preparado, está o jumentinho, que eu vou entrar em Jerusalém, e Jesus entra em Jerusalém montado em um jumentinho. Então, tem uma coisa curiosa, Jesus chega com a Páscoa e fala assim, vai lá, vai ter um jumento lá preparado. A gente lê isso no Novo Testamento e você passa por cima do jumento, só que tem um jumento, e tem um jumento parado há dois mil anos, tem um jumento empacado num monte chamado Deus vai prover.

Deus vai providenciar. E, aí, vem Jesus e diz, não, o jumento está preparado, vai lá que a casa está pronta, está tudo providenciado. E, eles entram, fazem a ceia, e Jesus entra em Jerusalém no jumento. No jumento. E, aí, nós podemos se embora o caminho e dizer, no jumento que Abraão preparou, por isso que Abraão não mandou Sérgio preparar, por isso que ele preparou o jumento, porque aquele ali era o jumento do Messias. Olha como é que os símbolos são interessantes, são muito interessantes. Então, até esses enigmas, no próximo episódio, nós vamos começar a examinar mais de perto essa simbologia toda.

Até o próximo episódio. Como de resto, todas as mudanças que ele fez na vida dele e na vida dela. Então, os anjos, os mensageiros, a pessoa pensa logo em asas, não tem nada disso, né? Eram homens barbados andando, peregrinos no deserto. Então, a nossa imagem de anjo é bem…

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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