Neste episódio do estudo do Velho Testamento à luz do Espiritismo, Haroldo Dutra Dias faz uma pausa na sequência narrativa do Gênesis para aprofundar-se em dois temas cruciais: a justificação e a circuncisão. Ele explora como esses conceitos, fundamentais na formação do povo hebreu e na canalização de recursos espirituais, podem ser compreendidos sob uma perspectiva mais ampla, integrando a evolução espiritual e a imortalidade da alma.
O que é estudado neste episódio
- Crítica Literária e Contexto Histórico: Haroldo Dutra Dias reitera a importância de abordar os textos bíblicos como literatura, produzida por uma comunidade em um determinado tempo e lugar. Ele enfatiza que, embora a linguagem e o contexto cultural da época (sociedade patriarcal, nômades, pastoreio) sejam distintos dos nossos, as mensagens essenciais transcendem tempo e espaço, abordando emoções e experiências humanas universais.
- A Promessa a Abraão e a Fé (Confiança): O estudo se aprofunda no capítulo 15 de Gênesis, onde Deus faz uma promessa “quase impossível” a Abraão, já idoso e sem herdeiro da esposa oficial. A palavra hebraica “emunah” (confiança), traduzida como fé, é central. Abraão não apenas acredita, mas age radicalmente com base nessa confiança, deixando sua família e sua terra, assumindo riscos enormes.
- O Riso de Sara e o Nome de Isaque: A narrativa destaca a reação de Sara, que riu da promessa de ter um filho na velhice, expressando sua desconfiança. Em um toque de humor literário, o filho recebe o nome de Isaque, que significa “riso” ou “risada”, simbolizando que a promessa improvável se cumpriu.
- A Fé como Ato de Confiança e Comprometimento: Haroldo Dutra Dias diferencia a fé de uma emoção passageira, definindo-a como um “ato supremo de confiança”. Ele usa a analogia da galinha e do porco para ilustrar a diferença entre “estar envolvido” (acreditar) e “estar comprometido” (confiar plenamente, a ponto de mudar a vida e assumir riscos sem garantias).
- Justificação pela Fé: O estudo explora a interpretação de Paulo de Tarso (Carta aos Romanos, capítulo 4) sobre a justificação de Abraão. Abraão foi declarado justo não por suas obras ou por ser patriarca, mas por sua confiança em Deus. A justificação é um ato de confiança que antecede e motiva as boas obras.
- A Circuncisão como Marca Sociológica: A circuncisão é apresentada como uma marca sociológica, um instrumento para a formação de uma comunidade em torno da fé de Abraão, e não como uma finalidade em si. Ela serviu para diferenciar o grupo e canalizar recursos espirituais, mas não garantia a justiça individual.
- Transposição para o Espiritismo: O estudo faz um paralelo com a realidade espírita, alertando contra a ideia de que a simples participação em uma comunidade ou prática religiosa garante a evolução espiritual. A verdadeira justiça e evolução vêm da confiança e do comprometimento individual com os princípios morais, que se manifestam em atos concretos de transformação.
- A Fé de Jesus: Haroldo Dutra Dias eleva a discussão ao patamar de Jesus, que propôs um nível ainda mais alto de confiança, como amar o inimigo e não retribuir o mal com o mal, sem garantias imediatas, exigindo um relacionamento com Deus mais visceral e profundo.
Reflexões
- A verdadeira fé não é uma emoção passageira, mas um ato de confiança radical que impulsiona a transformação e o comprometimento com os princípios divinos, mesmo diante do improvável e sem garantias imediatas.
- A participação em uma comunidade religiosa, seja ela judaica, cristã ou espírita, é um meio para fortalecer o indivíduo, mas não uma garantia de justiça ou evolução espiritual. A justificação vem da confiança e da coerência entre a fé e as ações.
- A vida na Terra, com suas limitações e o véu do esquecimento, é o terreno fértil para o exercício da confiança em Deus e nas leis divinas, permitindo ao Espírito desenvolver uma fé inabalável, como a de Kardec e dos Espíritos Puros.
Ler transcrição do episódio
Olá, amigos! Estamos aqui para mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis, do Velho Testamento, Gênesis de Moisés, a Luz do Espiritismo. Hoje, nós vamos fazer uma pausa naquela sequência de raciocínios que a gente vem construindo ao longo dos episódios para tratar de dois temas muito importantes sobre os quais já foram escritos rios de tinta sobre esses dois temas, que é o tema da justificação e o tema da circuncisão, que, de certo modo, está ligado à formação de um povo, à eleição de um povo e à canalização de recursos espirituais para esse povo.
Então, nós precisamos compreender isso aqui dessa perspectiva mais ampla, espiritual, trazendo conceitos como evolução espiritual, imortalidade da alma, para que a gente possa equacionar e entender como pensavam os redatores que produziram esse texto, quais as categorias que eles estavam utilizando e o que eles pretendiam transmitir, comunicar com o texto. Lembrando, aqui, que isso nós temos repetido desde o início do estudo, que a abordagem que nós fazemos aqui se assenta, se alicerça nos estudos de crítica literária.
Então, nós entendemos que a abstração feita da inspiração espiritual ou inspiração divina, os livros bíblicos são literatura. Ora, se são literatura, eles foram produzidos por uma comunidade, dentro de uma comunidade, seja por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos, numa determinada época, esse texto não nasce pronto, ele nasce, ele cresce, vai recebendo material que se agrega ao texto original, até que ele se consolida, ele se forma completamente e, de certo modo, ele é o retrato de uma cultura, de um povo, em um determinado momento histórico.
Então, isso nós precisamos ter em conta. É muito importante levar isso em conta. É por esta razão que o primeiro tema que nós vamos abordar aqui, que é o tema justificação, ele precisa ser compreendido segundo as imagens do mundo da época. O texto, aqui, apresenta um patriarca, porque as sociedades eram patriarcais, apresenta uma família nômade, que vivia, se deslocava no deserto em torno de um patriarca, como até hoje acontece em muitos locais da Arábia Saudita, ou regiões inspiradas por esta cultura, em que há um laço muito forte de identificação de famílias ou tribos e as pessoas que nascem são sempre conectadas aos seus ancestrais, às suas raízes tribais, às suas origens.
Então, nós precisamos compreender isso aqui, também. Então, é lógico que aqui vai falar de pastores, de criação de pequenos rebanhos, de um comércio que mantém aquele grupo familiar ou aquela tribo que se desloca, de tendas, ou seja, todo um universo cultural que não é mais o nosso, ao menos o nosso aqui do Brasil ou da civilização ocidental, não é o nosso. As nossas referências culturais são outras, a estrutura da família hoje é outra, a maneira como nós nos identificamos, nos posicionamos em uma família ou em uma comunidade não é a maneira que está retratada aqui no texto.
Então, nós não podemos ter essa ingenuidade de ler um texto desse, produzido há mais de 3.000 anos atrás, e querer que este texto fale a nossa linguagem ou que este texto utilize as nossas categorias culturais e intelectuais, para que ele possa se expressar. Agora, é um texto produzido por seres humanos e nós, seres humanos, independentemente da época histórica ou do lugar geográfico em que vivemos, temos traços que são comuns, que dizem respeito à nossa humanidade. Então, a dor, a frustração, a alegria, o prazer são elementos humanos que ultrapassam aí categorias de tempo e de espaço.
Então, o texto quer transmitir uma mensagem que não fique circunscrita ao seu ambiente histórico e cultural. Então, aqui, nós temos que ter o cuidado de não desconsiderar estes aspectos culturais, históricos e geográficos, mas, ao mesmo tempo, não ficarmos apenas presos a estes elementos, porque, aí, nós não vamos conseguir extrair do texto uma mensagem que seja relevante para os nossos dias atuais, para a nossa cultura, para o nosso tempo e para o lugar em que vivemos. Então, feitas estas observações, a gente vai percebendo, aqui, que, no capítulo 15 de Gênesis, há uma dinâmica do texto, é como se fosse um roteiro cinematográfico, e todo o roteiro, toda a dinâmica, gira em torno de uma promessa quase impossível feita ao patriarca, ao Abraão, que é o chefe, aqui, deste grupo familiar, desta tribo, deste agrupamento, que não tem só família direta dele, esposas, porque o patriarca podia ter várias esposas.
Então, não são apenas as esposas, os filhos, os servos, as escravas, os empregados, mas outros agregados também, familiares ou não, outros grupos. Então, você tem um conjunto de pessoas centralizadas nesta figura de poder econômica, religiosa, que é o patriarca Abraão. Acontece que, aqui, Abraão já está muito velho, sua mulher também, e, como todo patriarca, naquela sociedade, naquele tempo, ele precisa deixar um herdeiro homem, um herdeiro oficial, um herdeiro que tenha nascido da esposa oficial e não das outras esposas ou das escravas com quem ele teve filho.
Então, a esposa oficial, aquela que tenha um conjunto de privilégios maiores do que as outras esposas, não deu à luz. Há um filho, filho do sexo masculino. E, tudo parecia correr, segundo as expectativas daquele grupo, de que este fato, a cada dia, se tornava um fato cada vez mais impossível de se concretizar. Então, nós precisamos entender isto. A questão, aqui, não é ficar discutindo se se podia, biologicamente, ou não ter um filho. Não é isto que está em questão. O que nós precisamos entender é que, naquele tempo, para aquela sociedade, com os conhecimentos que eles tinham na época, era impossível mesmo.
Na óptica deles, na visão deles, no horizonte deles, era um fato, no mínimo, improvável. Se não impossível, no mínimo, improvável. E, é muito relevante, extremamente relevante, na linguagem toda simbólica do Velho Testamento – porque nós não vamos imaginar, aqui, que Deus apareceu e conversou com Abraão, porque nós já temos maturidade intelectual para entender que isto é uma metáfora –, mas, nesta relação que ele estabelece com a divindade, com Deus, é feita uma promessa baseada no improvável ou no impossível. Olha que coisa interessante!
E, Abraão precisa tomar decisões e ele precisa se conduzir com base no improvável, numa promessa improvável, se não impossível. E, nós vamos perceber que, ao longo da narrativa, ele mesmo, Abraão, embora tenha confiado – e a palavra aqui é confiar, a palavra confiar, em hebraico, é a palavra emunar, esta palavra é traduzida para o grego por pistis e traduzida para o latim, para o português, como fé, fides, latim fides, português fé. Então, só aí, nós já temos uma dimensão, também, do quanto esta palavra foi sendo modificada ao longo do tempo, quanto esta palavra perdeu do seu sentido original.
Então, o emunar é confiança. A ideia aqui é de que Deus fez uma promessa improvável, quase impossível ou impossível, mas, mesmo assim, contrariando todas as expectativas de um ser humano médio, comum, Ele confiou. E, não apenas uma confiança – e é isto que Paulo de Tarso vai destacar no capítulo 4 da sua carta aos Romanos, ele vai frisar isto – não é apenas uma confiança de que confia em Deus e vai ficar aqui, aguardando, então, Deus cumprir a sua promessa. É muito mais do que isto. Abraão toma decisões fortíssimas, decisões radicais na sua vida a partir desta confiança.
Então, a ideia é de que a fé, a confiança em Deus, nos leva a decisões radicais na nossa vida. No caso de Abraão, por exemplo, ele tomou uma decisão improvável de ser tomada. Ele se afastou do seu núcleo familiar – pai, mãe, tios, tias – da sua tribo, na caldeia e veio com o seu grupo para uma terra que ele não conhecia, para uma vida em que ele perdeu a sua origem. Ele desvinculou-se da sua origem, um fato que é tremendamente grave na sociedade daquele tempo, tremendamente arriscado. Nós vamos ver, aqui, ao longo dos capítulos que narram a história de Abraão, que ele correu muito perigo, realmente.
Não era só uma imaginação de querido, ele correu muito perigo por estar desvinculado dos seus laços familiares, da sua tribo, da sua história, dos seus ascendentes familiares. Então, este rompimento que ele faz, baseado na confiança, baseado em uma promessa, em uma confiança em Deus, é, de fato, algo extremamente ousado. E, nós poderíamos transpor isto aos nossos dias. Que tipo de conduta seria uma conduta altamente arrojada da nossa parte, ferindo várias expectativas da nossa sociedade de hoje que pudessem representar este gesto de confiança de Abraão?
Pense nisto, na sua vida particular. Que gesto seria este? Então, aqui, nós começamos a captar o espírito da coisa. Os elementos culturais, históricos, narrativos são uma vestimenta. É como se fosse o cenário e O mariquim, as roupas ali, a parte exterior. Mas, e a história? E a moral da história? O que está sendo dito? Qual é a pretensão da mensagem? A mensagem a ser transmitida aqui é de que houve uma confiança plena. Ele confiou. Confiou em circunstâncias improváveis. Confiou sem nenhuma garantia. Ele acreditou no altamente arriscado, com alto índice, com risco muito grande.
Este é o ponto em que a gente precisa, não é uma confiança qualquer. E, ele muda de vida, ele alicerça a sua vida com base nesta confiança. Então, ele constrói uma nova vida. E, evidentemente, o texto tem o ápice do texto, que, então, todo mundo já deve estar imaginando. Depois que ele faz estas mudanças todas, que ele toma a decisão, que ele age com base na confiança, então, a promessa se cumpre. A promessa se cumpre e ele recebe, então, um filho da esposa oficial. A esposa titubeou, a esposa não confiou, a esposa duvidou.
Então, no momento em que eles recebem dois mensageiros, mensageiro é chamado de anjo, o anjo é um mensageiro, é um carteiro, é alguém que transmite uma mensagem, quando os dois mensageiros chegam lá para dizer que havia chegado o momento de se cumprir a promessa, a esposa de Abraão, Sarah, ouvindo a conversa do marido com os dois mensageiros de Deus, ela solta uma boa risada. Então, naquele momento ali, ela expressa a sua desconfiança, o seu lado humano de achar que tudo aquilo era uma grande loucura. Não só o fato do seu marido ter acreditado naquela promessa e estar levando aquilo adiante, estar levando aquilo a sério, como, de resto, todas as mudanças que ele fez na vida dele e na vida dela.
Então, os anjos, os mensageiros, falam anjo porque a pessoa pensa logo em asa, não tem nada disso, eram homens barbados andando, peregrinos, no deserto. Então, a nossa imagem de anjo é bem distorcida, não tem nada a ver aqui com o Velho Testamento, ao menos os textos do Velho Testamento dessa época. Depois, em alguns textos proféticos, a gente vai ter alguns elementos que se aproximam com a iconografia dos anjos atuais. Mas, esses dois peregrinos, mensageiros, anjos, notando que Sarah estava rindo e, aí, vem o elemento humorístico, por isso que isto aqui é um texto literário, por isso que isto aqui é literatura.
Então, tem uma pitadinha de humor aqui. O engraçado é que eles veem ela rindo e falam assim, ah, você está rindo? Você está rindo da promessa de Deus? Você está rindo do seu marido que confiou? Você está rindo de nós dois, que somos os mensageiros, que estamos dando a notícia? Então, vamos fazer o seguinte, queremos lhe dizer que não apenas o seu filho irá nascer, você vai ficar grávida e o seu filho vai nascer, e nós já escolhemos o nome dele, que vai ser Rizada. Seu filho vai se chamar Riso, Rizada. Uma coisa pitoresca, Itzhak, ou Isaac, é Rizada em hebraico, é Riso, é o deboche, é o Riso.
Coitado do filho, deve ter sofrido bullying na escola com este nome, Rizada ou Riso, para ficar gravado que a promessa improvável, senão impossível, se cumpriu. É gostoso, é um texto até engraçado e lida com estas emoções fortes, a emoção da esposa, a emoção do marido, a emoção da comunidade, tem muita energia emocional, circulando no texto. E, esta pitadinha de humor torna o texto bem gostoso para a época, para quem estava lendo. Tem a dimensão humana da literatura. E, por trás disso, há uma mensagem muito especial, que é a confiança de Abraão é uma confiança sem garantia.
Ele não tinha garantias para confiar. Ele confiou. E, aguardou. E, tomou decisões, mudou radicalmente a sua vida, assumiu riscos enormes para confiar. Então, a ideia aqui é de que a fé não é um sentimento que você tem quando você está em um parque, em um dia de sol, e, aí, você tem uma inspiração e fala – nossa, eu estou com muita fé. Não é isso. A fé não é aquela lágrima que cai dos seus olhos quando você assiste um filme bonito. Não é isso. Ela não é uma emoção passageira. A fé é um ato supremo de confiança. É confiar quando nada, quando nenhum elemento do real, do horizonte da pessoa, daquilo que ela consegue enxergar, indica sequer a mínima probabilidade de que vai acontecer algo que se espera, que se deseja.
Este é o sentido de fé. É uma confiança. Uma confiança. Portanto, quando nós – vamos fazer uma transposição aqui – às vezes, as pessoas imaginam que nós temos uma prova absoluta hoje, agora, aqui, na carne, de que eu vou desencarnar e vou ficar como Espírito Santo no mundo que eu estou. Uma prova absoluta, uma garantia absoluta, mas não tem. Não tem. Eu estou encarnado aqui e o meu horizonte é limitado. Eu consigo perceber a matéria, eu tenho indícios filosóficos experimentais, eu posso ver um experimento, eu posso assistir a uma materialização.
É claro. Mas, não posso levar isto como absoluto, como uma garantia absoluta. Construir uma moral cristã, construir uma moral cristã espírita, comportar-se de acordo com esta moral, fazer escolhas, mudar a sua vida, tomar decisões com base neste parâmetro, perder aqui no mundo, acreditando que se está ganhando espiritualmente, é um ato de confiança, como o que Abraão teve. Não é isto que o texto está dizendo. É um ato de confiança. Não apenas uma confiança, entende? Mas, eu confio que depois da morte existe vida. Mas, não é isto.
Não é este o ponto. O ponto aqui é você confiar que, seguindo a moral cristã, você teve um grande prejuízo aqui na Terra, mas que, espiritualmente, isto será um lucro espiritual para você, que você foi profundamente ofendido, machucado e ferido, mas, espiritualmente, isto foi um ganho, de que aquela experiência mais dolorosa que você está vivendo agora na carne será um dia abençoada por você em espírito. Qual é a garantia absoluta que você tem disso? A garantia não há. Isto nos leva para o terreno da confiança. Você confia.
Você confia, toma decisões, se comporta, muda a sua vida e, só depois, você vai assistir à concretização da promessa. Mas, eu acredito na vida após a morte. Há uma promessa de que a Terra será um mundo regenerado. E, então, o que a gente faz? Você olha e assiste ao jornal. Qual a garantia absoluta que você tem disso? Nós confiamos. Nós temos uma confiança. É claro que é uma confiança raciocinada, uma confiança madura, não é uma confiança boba, tola, ingênua. É uma confiança alicerçada, mas, é uma confiança. A gente confia que esta promessa vai se concretizar.
Então, é isto, esse texto aqui está falando disso. E, aí, vem a pergunta, será que você tem a fé de Abraão? Será que você tem esta confiança? Será que você estabeleceu esta relação com Deus? Já estabeleceu esta relação? A ponto de ter esta confiança? De que há uma condução divina na sua vida e de que os seus mais sublimes, mais puros anseios vão se realizar. Olha como é que o texto cresce, como é que a pergunta cresce do texto. E, é disso que o Paulo vai dizer quando ele fala do tema justificação. Desde os momentos mais remotos da tradição judaica, a ideia de que há uma grande promessa de um mundo vindouro, um mundo regenerado, seja físico, e um mundo vindouro, quer dizer, uma vida futura, uma vida futura após a morte, que é o termo que Kardec usa, vida futura.
E, a promessa era de que estariam plenos, realizados e felizes na vida futura os justos, porque os injustos padeceriam a consequência dos seus atos de injustiça. Esta é a ideia que percorre toda a literatura bíblica de Gênesis ao Apocalipse. De Gênesis ao Apocalipse. E, aí, surge a pergunta como, o que fazer para ser considerado justo? O que distingue o justo do injusto? O ser humano de bem ou o ser humano de mal? O ser humano do mal. O que distingue ambos? O que tem o que ser e fazer para ser declarado justo? E, a palavra justificação, aqui, remete ao tribunal, ao julgamento.
Então, há um acusador que vai apontar todos os seus atos, tudo o que você fez, tudo o que você pensou, tudo o que você falou, tudo o que você como você se comportou, suas intenções, que estavam por trás. Às vezes, você fala uma coisa bonita, mas, a sua intenção era mesquinha. Então, as intenções também são levadas em conta. Há uma defesa, há um defensor, o acusador é o sanegor ou, classicamente, é Satanás, é o adversário, é ele que acusa, é ele que contabiliza tudo de errado que você está fazendo, exteriormente e interiormente, na linguagem figurada.
Há um defensor, que é o paracleto e há um julgamento. O juiz, é óbvio, é Deus. E, aí, há uma declaração. A questão, aqui, é que Paulo, no capítulo 4 da Carta aos Romanos, examinando brilhantemente, com todo o seu talento de ex-doutor da lei, e de hermeneuta, de intérprete gigantesco, discípulo de Gamaliel, vai chegar à conclusão que o requisito principal é fé. Então, o primeiro requisito para você ser uma pessoa justa não é fazer coisas boas. Isto é uma consequência. O primeiro elemento que define o justo é a confiança dele em Deus.
Esta capacidade que ele tem de se entregar a Deus, de agir confiando que a promessa vai se realizar. Por quê? Porque, aqui, você não recebe primeiro para depois trabalhar. Aqui, você trabalha para depois receber. Então, você trabalha confiando que vai ter o salário. Confiando que o salário vai vir no final. E, não o contrário, recebe o salário para depois trabalhar. Esta é a grande questão aqui. Então, Paulo vai dizer que Abraão foi declarado justo. Isto está dito aqui. Abraão confiou – o melhor verbo aqui, em vez de acreditou, é a tradição da Bíblia de Jerusalém – Abraão creu em Deus, acreditou.
Não é acreditou. A raiz é emunar. Abraão confiou em Deus. Confiou plenamente a ponto de mudar 100% a sua vida, a ponto de comprometer 100% a sua vida. Comprometer é a brincadeira que a gente fala. Acreditar é estar envolvido com algo. Confiar é estar comprometido. Então, a gente brinca. Qual é a diferença entre estar envolvido e estar comprometido? Você vai nos Estados Unidos e pede um café da manhã. Vêm ovos fritos com bacon. A galinha está envolvida. Agora, o porco está comprometido. A galinha doou os ovos. Ela está envolvida no processo.
Agora, o porco deu a vida. O porco está comprometido. Então, acreditar é como a galinha que bota os ovos. Você está envolvido. Tem um envolvimento melhor do que não acreditar. Agora, estar comprometido é dar a vida toda, é entregar a própria vida, não no sentido de morrer, entregar a própria vida no sentido de conduzir a integralidade da sua vida em acordo com a promessa, em conformidade com a promessa. Então, aqui é comprometimento. No comprometimento, você começa perdendo. Você começa perdendo. Então, quem confia começa perdendo.
Perdendo garantia, perdendo segurança, perdendo o passado, porque, agora, ele tem que se dirigir ao futuro. Então, toda zona de conforto tem que ser abandonada e ele ingressa em uma zona instável e de risco. Confia que uma condução o levará à concretização daquilo que é aspirado, que é desejado, que é intuído. Então, é profundo. Abraão confiou em Deus e este ato de confiança foi contabilizado com justiça. Este é o grandioso ato do encarnado. É por isto que o encarnado, via de regra, não vê o Espírito, não vê o mundo espiritual, não lembra das suas encarnações passadas.
Não tem nada disso. Ele vem totalmente limitar, por quê? Porque aqui é onde se exerce o ato de confiança. Se você lembrasse de tudo que já viveu, lembrasse do mundo espiritual, estivesse vendo aqui, aí, não é confiança. Aí, é certeza. Aí, é certeza. E, a grande virtude a ser desenvolvida é confiar confiar. Por quê? Porque, não importa se você é um Espírito superior, não precisa nem mais encarnar. Em algum, sempre, não importa o ponto que você esteja na evolução, haverá um desconhecido para você, porque só Deus é o Senhor do Absoluto.
Só não há desconhecido para Deus. Para qualquer criatura, não importa o patamar evolutivo em que ela esteja, há sempre um desconhecido, há sempre uma insegurança, algo que ele não visualiza. E, isso vai exigir o quê? Um ato de confiança. É por isso que o Espírito superior, o Espírito puro, é um Espírito que tem uma confiança gigantesca, mais robusta que o diamante, uma confiança inabalável. É bonito porque, por exemplo, São Luís, quando dita uma mensagem para Allan Kardec, que estava elaborando o Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec estava em uma cidade de praia na França, à borda do mar, e São Luís diz assim Nós sabemos que a tua fé é como o muro de aço, se referindo ao Kardec, porque, em uma encarnação anterior, como em Anrus, ele morreu queimado e manteve a sua confiança.
Mesmo ali, na fogueira, sendo queimado, qual garantia ele tinha? Mas, manteve a confiança. Então, os Espíritos sabiam. Ele já havia provado que a sua fé, que a sua confiança era inabalável, era o muro de aço. Então, São Luís reafirma que a sua fé é como o muro de aço, inabalável, inabalável, era uma confiança inabalável. Por isso, ele recebe esta grandiosa missão da codificação do Espiritismo por conta desta confiança inabalável, não obstante todos os obstáculos, todas as dificuldades. Ele confiou, foi lá e fez e acabou.
É bonito isto! Muito bonito! Esta é a ideia da justificação. E, agora, por fim, vem a ideia da circuncisão. A ideia da circuncisão – e é isto que o Paulo vai trabalhar muito e isto provoca uma certa polêmica até hoje. Esta ideia do Paulo é muito arrojada, é desconfortável até hoje. O Paulo vai dizer assim, Ora, Abraão foi declarado justo pelo simples fato de confiar. Ele não tinha nem formado o povo hebreu. Ele não foi declarado justo porque ele foi o patriarca do povo hebreu. Ele não foi declarado justo porque ele formou uma nação.
Ele não foi declarado justo porque ele iniciou o processo de formação do povo escolhido, do povo hebreu. Não! Ele foi declarado justo porque ele confiou. A partir do momento em que ele confiou, então, era mais ou menos assim, eu tenho a humanidade, um confiou, então, vamos formar uma comunidade em torno daquele que confiou. O ato da circuncisão é um ato sociológico. É Deus, a espiritualidade superior, a partir do resultado de um indivíduo. Agora, nós não temos como trabalhar com a humanidade toda ao mesmo tempo. Por quê?
Por causa da questão evolutiva. Nem todos estavam no mesmo patamar. Então, vamos fazer o seguinte, vamos reunir uma comunidade mais ou menos afim que esteja em um patamar, ao menos para receber. Vamos reunir em torno de Abraão, disso que Abraão está construindo, e vamos enviar centenas de missionários para construir um processo da primeira revelação. Aí, sim, você constrói a comunidade hebraica, estabelece a circuncisão, que é uma marca sociológica. É uma marca humana. É uma marca humana. Aí, você estabelece símbolos nacionais, práticas nacionais, práticas que são culturais, históricas, datadas, que são instrumento e não finalidade.
Por que Paulo está dizendo isso? Porque, quando Jesus chega, então, na nação hebraica, aqueles elementos que definiam raça, nacionalidade, cultura, se tornaram finalidade. Então, pelo simples fato da pessoa ser hebreu ou ser judeu, ele já era justo. Não. Então, houve uma inversão. E, é isso que Paulo vai chamar a atenção. Aí, você deve estar se perguntando se isso é válido apenas para o judeu, para o hebreu. Não. Nós podemos trazer esse raciocínio para nós, espíritas. Então, você, primeiro, constrói uma confiança e constrói um conhecimento sólido do Espiritismo, que só é adquirido com estudo, diz Kardec, com estudo sistemático, lento e sério.
Então, você constrói esse conhecimento, constrói uma confiança na vida futura, nas leis morais, nas promessas que aguardam o justo. E, você, então, o que faz? Procura um grupo espírita, procura uma prática espírita, onde você encontrará pessoas que estão também procurando esse mesmo propósito, que estão falando a mesma linguagem, que estão compartilhando os mesmos textos. Com qual propósito? Para que você possa se sentir integrado em um grupo e possa, com a ajuda, inclusive, da comunidade, fortalecer o seu processo individual.
Agora, o problema é quando a gente inverte. Quando eu acredito que, pelo simples fato de eu participar de um grupo espírita e estar envolvido em uma comunidade, eu já tenho garantida a qualidade da minha evolução espiritual. Já está garantido. E, aí, você começa a praticar desatinos, começa a ter comportamentos absolutamente contrários às leis morais, absolutamente contrários à caridade e acreditando que você está assegurado. É a mesma coisa que aconteceu com o povo hebreu e que o Paulo denunciou, que o Paulo apontou.
É um problema grave, não é? Não é pelo fato de você estar numa religião, ter uma prática ritualística, uma prática religiosa, estar numa comunidade, ter um linguajar que está assegurada a sua qualidade de justo. Não! Não está! Não está! Você precisa demonstrar isso através de atos concretos de confiança na sua vida, inclusive, mudança de vida. Então, este é o elemento chave, primordial, a diferença em justificação e circuncisão. Esta é a ideia. Esta é a ideia que a gente precisa trabalhar aqui, quando está ligando estes dois temas.
E, o Paulo foi lá em Abraão e tirou todas as consequências da história de Abraão para que a gente pudesse ter uma noção do que estava sendo proposto com a figura de Jesus, porque Jesus vinha propor um patamar ainda mais alto de confiança. O patamar de confiança que Jesus propunha era ainda superior ao de Abraão, porque, por exemplo, Jesus conclama a mal inimigo. Você imagina alguém que está prejudicando você, alguém que está falando mal de você, alguém que está te calumniando, alguém que está te dando prejuízo, alguém que está agindo contra você e você é chamado a respeitar esta pessoa como filho de Deus, a não guardar ódio dela, a não retribuir o mal com o mal, a perdoar e a proteger-se, evidentemente, a tomar precauções, a ser prudente, mas, a não guardar rancor.
É um patamar de confiança superlativamente maior do que o de Abraão. Mas, qual é a garantia que eu vou ter disso? Não tem garantia. Olha como é que é complexo. Primeiro, você trabalha, depois, ganha um salário. Primeiro, você age. Então, são questões desafiadoras, mas muito bonitas, muito filosóficas, que vão começar a tratar de como é esta relação com Deus que a mensagem bíblica quer transmitir. Não é uma relação – ah, eu vou dobrar o joelho, oh Deus Todo-Poderoso. Isto é muito simples. Isto é muito fácil, na verdade.
Também, pegar uma espada e sair agredindo as pessoas, discriminando, fazendo maldade com as pessoas, porque elas não têm a sua fé, não são da sua religião. Isto também é muito fácil. Não é isto. Não é este tipo de relacionamento que Deus quer construir conosco. É um relacionamento mais visceral, mais profundo, mais frutuoso, que gera frutos mais substanciosos. Por isto, é difícil. Isto é religiosidade. Este é o aspecto religioso. O aspecto religioso implica o quê? Sentimento e relacionamento com Deus. Este aspecto é desafiador.
É profundamente desafiador. Então, ficamos aqui neste episódio. No próximo episódio, nós damos sequência à narrativa de Abraão, com temas muito interessantes que vão surgir aqui desta narrativa. Realmente, Abraão é um patriarca, dele surgem vários temas, vários motivos, que serão desenvolvidos por outros personagens e por outras histórias. Até o próximo episódio! Porque Deus exige todo o meu potencial. Nesta relação, Ele exige todo o meu potencial. Como Ele dá tudo. Deus, quando age, toda a ação divina tem a marca de 100% de inteligência.
É a inteligência suprema.
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.

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