Neste episódio da série de estudos do Velho Testamento à luz da Doutrina Espírita, Haroldo Dutra Dias aprofunda a análise do Livro Gênesis, focando no enigmático e desafiador capítulo 22, que narra o sacrifício de Isaque.
O que é estudado neste episódio
- A simbologia do jumento: É explorada a figura do jumento no Antigo Testamento, especialmente no capítulo 22 de Gênesis, e sua conexão com o Messias. A tradição judaica, ao longo dos séculos, associou o jumento à vinda messiânica, culminando na entrada de Jesus em Jerusalém montado neste animal, um símbolo de sua missão.
- Isaque e a prefiguração de Jesus: A narrativa do sacrifício de Isaque é analisada como um “mashal” completo, uma prefiguração da vida e sacrifício de Jesus. A subida de Isaque à montanha e sua não descida, em contraste com a ascensão de Jesus após o Gólgota, são pontos de profunda reflexão.
- O conceito de “Mashal”: É detalhado o significado da palavra hebraica “mashal”, que abrange enigma, provérbio, máxima, parábola, charada e símbolo. O capítulo 22 de Gênesis é apresentado como um “mashal” completo, com um forte caráter profético sobre a vinda e a vida do Messias.
- A importância do contexto cultural e literário: Haroldo Dutra Dias enfatiza a necessidade de compreender o Velho Testamento como literatura, poesia e uma expressão cultural de um povo de três mil anos atrás. Ele alerta contra interpretações literais ou anacrônicas, comparando a dificuldade de leitura a obras de Ariano Suassuna ou Guimarães Rosa sem o conhecimento da cultura brasileira.
- A inspiração espiritual nos textos bíblicos: É ressaltada a combinação de elementos humanos e espirituais na produção dos textos bíblicos. A inspiração de entidades evoluídas, muito à frente dos escritores da época, é apontada como um fator que torna esses textos desafiadores e ricos em significado, convidando a um estudo aprofundado da cultura e da literatura para extrair sua essência espiritual.
Reflexões
- A compreensão do Velho Testamento exige um mergulho profundo na cultura, tradições e linguagem da época em que foi escrito, evitando interpretações superficiais ou descontextualizadas.
- Os símbolos e narrativas do Antigo Testamento, como o sacrifício de Isaque e a figura do jumento, são prefigurações e “mashals” que ganham vida e significado pleno à luz do Novo Testamento e da missão de Jesus.
- A Doutrina Espírita oferece uma chave para desvendar a inspiração espiritual presente nos textos bíblicos, revelando a sabedoria e a orientação de entidades superiores que guiaram a humanidade ao longo da história.
Ler transcrição do episódio
A luz da doutrina espírita Olá, pessoal. Estamos aqui para mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis, A Luz da Doutrina Espírita. Nós comentávamos, no episódio anterior, essa chocante e desafiadora passagem que está no capítulo 22 do livro Gênesis, que trata do sacrifício de Isaac. E vimos lá uma série de elementos que o texto apresenta, o jumento que foi preparado por Abraão e que Abraão não montou nele. Então, ficou dois servos olhando para Abraão, ele cortando lenha, preparando o jumento, levando o jumento para passear, não montando o jumento.
Quando chega perto da montanha, coloca lenha nas costas do filho e o jumento fica parado. E, depois, desce da montanha apenas Abraão, cadê Isaac, cadê o jumento? E Abraão volta caminhando com os dois servos. O texto indica, porque, na interpretação, se o texto não especifica, é porque não aconteceu. Então, a gente brinca com essas omissões do texto e tínhamos falado do jumento, que é o jumento do Messias. Este jumento vai reaparecer na profecia de Zacarias e vai criar toda uma tradição a ponto dos sábios de Israel dizerem que se alguém sonhar com um jumento, é porque está sonhando com o Messias.
Então, a figura do jumento sempre associada a figura do Messias de Israel. E o jumento, que é o jumento que vai sobreviver e vai chegar lá no Novo Testamento. E é neste jumento que Jesus vai entrar em Jerusalém, simbolicamente falando, é claro. Simbolicamente falando, é este jumento que sumiu aqui da história. E temos uma coisa curiosa, que Isaac sobra para ser sacrificado, ele é o que simboliza o filho, mas ele não desce a montanha. Ele não desce a montanha. Uma outra indicação, que Jesus também sobe a montanha do Gólgota e não desce mais.
Não desce mais a montanha. Não há uma descida, há depois uma ascensão. Ele sobe mais ainda. Depois que ele se apresenta já na sua imortalidade, ele ascende para as esferas celestiais. Ele mesmo subiu a montanha, mas não desceu. Então, aqui Isaac indicando, claro que Isaac vai aparecer depois na história, lá no capítulo 24, Abraão, à beira da morte, vai providenciar uma esposa para Isaac, para que seja dada continuidade a descendência de Abraão, porque precisa vir o Jacó, precisa vir os doze filhos de Jacó, as doze tribos, precisa ser formado um povo, que é o povo Numa, de povo hebreu.
Então, a história precisa seguir seu curso. Precisa encontrar uma esposa para Isaac. Isaac volta a aparecer. É curioso que ele não tenha descido a montanha. Todas essas indicativas nos mostram algo. E, aqui, nós vamos fazer uma pausa, porque, no próximo episódio, nós vamos interpretar mais esses símbolos, vamos tentar aprofundar mais nessa simbologia, fazendo a conexão com o Novo Testamento, porque nós já estamos percebendo aqui como os textos do Novo Testamento ganham vida, ganham uma luz, quando nós fazemos essa conexão.
Então, aquilo que parecia simples, aquilo que parecia irrelevante, na narrativa do Novo Testamento, como, por exemplo, o jumento, Jesus subiu no jumento. Você pode falar que subiu no jumento. Dá na mesa. Não, não dá na mesa. Não dá na mesa. O jumento não é um símbolo ocasional. O jumento é um símbolo importante. Ele está na tradição judaica. Por conta desse capítulo 22 de Gênesis, a tradição judaica, ao longo de séculos, séculos e séculos, sempre ligou a figura do Messias ao jumento. Então, Jesus entrar em Jerusalém montado no jumento, enquanto ele foi aclamado, é que ele entrou como Messias.
Então, não tem nada aqui casual. Os símbolos são profundos e Jesus lida com essa memória do povo. Ele lida com essas tradições do povo. Ele resgata essas tradições do povo para ligá-las à sua missão, à sua tarefa. E, a gente precisa conhecer isso, conhecer essas tradições, para que a gente não faça uma leitura ingênua, uma leitura dominhoca, vamos dizer assim, do texto. Tem que estar acordado, tem que estar atento, prestando atenção nos detalhes. E, o Velho Testamento tem esse jeito, e é isso que nós vamos trabalhar aqui.
O Velho Testamento tem esse jeito enigmático de escrever. Então, vamos tentar explicar aqui. A meu ver, esse capítulo aqui, 22, do livro de Gênesis, ele, ao longo de toda essa narrativa, o que a gente vê aqui, capítulo 1, capítulo 2, da criação, todos esses textos, você ainda ainda está fazendo, você está tentando fazer uma conexão com o real. Até mesmo no texto de Noé, que já começa a flertar com com o miraculoso, com o mágico, imagina uma arca, o mundo sendo destruído, você já está flertando ali com o imaginário, com o surreal.
Mas, o texto tem uma linearidade, a história em si, que é desafiador. Todos os animais serem colocados em uma arca, essa arca ficar quarenta dias e quarenta noites, e aí você reconstruir a humanidade através dessa arca. Uma história bem curiosa, já Apresentando aí o caráter literário do Velho Testamento. Agora, esse capítulo 22, ele já começa a revelar outras facetas do caráter literário do povo hebreu. Nós já tínhamos visto isso na Criação, na Arca de Noé, na Tor de Babel, que era o caráter do Mágico, imagens grandiosas, imagens espetaculares.
Agora, nós vamos ver um outro caráter, do texto hebreu, que os especialistas vão categorizar o texto hebreu de machal. Machal é uma expressão em hebraico difícil de traduzir para o português. Por quê? Porque várias palavras em português significam o machal, mas nenhuma delas, sozinha, dá conta de todos os significados da palavra machal. Então, você precisa de muitas palavras em português para entender uma palavra em hebraico. Por exemplo, enigma é uma tradução para machal? É uma tradução. Se aplica? Se aplica. Enigma.
Mas, a palavra enigma dá conta de explicar todos os sentidos da palavra machal? Não. Nós vamos precisar de outras. Por exemplo, provérbio. Um provérbio. Uma frase proverbial. Uma máxima. É machal? É também. Você pode traduzir machal por provérbio ou por máxima. Nós temos máximas, inclusive, provérbios populares. Paulo que dá em Chico dá em Francisco. Nós temos essas máximas da sabedoria popular. Isso é um machal hebraico? É. Mas, provérbio, máxima, dá conta de todos os significados de machal? Não, não dá. Então, eu preciso, enigma, provérbio, máxima, eu preciso de mais palavras.
Parábola. Parábola é uma boa palavra, porque a parábola é uma história que tem um enredo, tem princípio, meio e fim, tem um roteiro, tem personagens, tem lugar, tem onde, tem como, tem quem. Mas, parábola pode traduzir machal? Pode muitas vezes traduzir, mas parábola dá conta de traduzir machal todos os significados? Não, porque precisa de outras palavras, enigma, máxima, provérbio. Então, machal é máximo, provérbio, parábolo, enigma, charada, charada, o que é o que é, símbolo, tudo isso é machal. Então, aqui, neste texto do capítulo 22 do livro de Gênesis, nós temos um machal completo, completo, porque o machal também, em alguns casos, ele assume até um outro caráter, que é o caráter de profecia.
Muitas profecias do Velho Testamento foram dadas na forma de machal ou na forma de parábolas, de símbolos, de enigmas. Machal. E, aqui, no capítulo 22, também nós temos este caráter profético no texto. O texto está profetizando sobre a vinda e sobre o caráter e a vida do Messias, do Cristo, do ungido. Não tem. Olha que complexo que é este machal no capítulo 22. É por isso que a pessoa não acostumada aos aspectos literários do Velho Testamento, ela abre isto aqui e vai ler que é um desastre. Não tem outra palavra. É um desastre.
Desastre. E, eu não estou dizendo que é um desastre porque a pessoa não tem formação intelectual. Pelo contrário. Na maioria das vezes, o desastre vem de pessoas com alta formação intelectual, mas que, por não conhecer as características literárias do Velho Testamento, pega isto aqui e vai interpretar ao pé da letra, vai interpretar como se fosse um texto histórico, vai interpretar como se fosse um texto sociológico, vai fazer uma interpretação puramente enviesada na ciência, que ele tem um título, ou em sociologia, ou em história, ou em ciência da religião.
Então, ele acha que este título dele dá condições de ele interpretar todo o texto. E, aí, a interpretação é desastrosa. Desastrosa. Por quê? Porque isto aqui é literatura. Isto aqui é literatura. Então, imagine, hoje, nós, aqui no Brasil, fomos contemporâneos de um grande literato nordestino, Ariano Suassuna. Ariano Suassuna, um grande escritor nordestino, um Homem extraordinário, um grande escritor. E, ao ler Ariano Suassuna, você precisa inteirar-se de aspectos da cultura nordestina. Mesmo que você seja brasileiro, se você é uma pessoa aqui do Sudeste, do Sul, do Norte, você não tem intimidade com a cultura nordestina, você vai ter dificuldade de entender Ariano Suassuna.
O mesmo ocorre com Guimarães Rosa. Se você não conhece da cultura mineira, que é outro grande literato, você não conhece do mineires, da vida mineira, dos atos dos mineiros, das lendas, do folclore mineiro, da cultura de Minas Gerais, você não vai conseguir compreender muita coisa que está em Guimarães Rosa. Isto aqui, agora, são contemporâneos, são autores que estão pertinho de nós. Uma pessoa pega um texto lá, O Alto da Compadecida, olha aí, O Alto da Compadecida, só o título já é nordestino, já tem toda uma coisa nordestina.
Não é o processo da Maria Santíssima, o processo aqui é o Alto, como a gente fala, os altos, os altos do processo, o Alto da Compadecida. Então, Maria de Nazaré é chamada de Compadecida. E, aí, você vê o Lampião daqui, e o Corajoso, e não sei quem, aquelas personagens que são personagens do sertão nordestino, falando como nordestinos, lidando com símbolos nordestinos. Então, agora, imagine que chega um historiador, só tem Ph.D. em História, e vai ler o texto do Aleandro Soassona, como se fosse um texto de História escrito por um doutor.
Parece um desastre! Um desastre! Um desastre total! Imagine alguém pegando Grandes Sertões Verejo, Grandes Sertões Verejo, de Guimarães Rosa, e uma pessoa Ph.D. em Gramática, portuguesa, vai, então, identificar os erros gramaticais de Grandes Sertões Verejo. Não é? Inverte o ordem com as coisas esquisitas na maneira de escrever Guimarães Rosa. Por quê? Porque a pessoa está acreditando que a literatura de Guimarães Rosa tem que se conformar aos padrões gramaticais. Quando a beleza da literatura dele, quando a riqueza do escrito de Guimarães Rosa está justamente em desobedecer a gramática, em desobedecer as regras de narrar, de contar.
Esta é a grandeza literária de Guimarães Rosa. Então, estou dando um exemplo aqui. Aqui. Agora, você imagine um francês, um alemão, aprende lá, faz um curso de um ano de português e você dá para ele o Óculo da Compadecida e Grandes Sertões Verejos. E aí? É só. Vai enlouquecer. Agora, alguém agora, estou falando de hoje, vai ter muita dificuldade. Por quê? Para que um francês que aprendeu português leia Ariano Soasson e Guimarães Rosa, ele, primeiro, vai ter que se integrar muito da cultura, vai ter que estudar muito a cultura para que ele consiga entender o texto.
É a mesma coisa aqui. Só que aqui tem outro elemento que vai complicar um milhão de vezes. Tem outro elemento aqui. Guarda o livro Grandes Sertões Verejos e guarda o livro O Alto Acompadecido. Guarda ele num cofre e daqui três mil anos, três mil anos, você dá para alguém ler. Daqui três mil anos, alguém vai ter que aprender uma língua arcaica, uma língua morta, o português que era falado no século XIX e no século XX. No século XX. Aí, a pessoa vai lá numa universidade, vai chegar lá com sua nave, nem sei como vai ser a universidade daqui três mil anos, e aí vai fazer um curso de língua morta, a língua que as pessoas que viveram no século XX falavam no Brasil.
E, aí, vai pegar o livro O Alto da Compadecida. Qual o grau de dificuldade que você acha que uma pessoa vai ter para ler este livro? Responda do fundo do seu coração. Do fundo do seu coração. Você acha que um físico, um matemático, um sociólogo, um psicólogo vai ajudar esta pessoa? Vai ajudar em nada. Nada. Nada. Esta pessoa vai aprender esta língua morta, que é o português do século XX, vai começar a ler ali no seu assunto, e não adianta professor de física, de matemática, de geologia, de história, não vai ajudá-la em nada a entender o texto.
Ela vai precisar de ajuda de alguém que seja um especialista, um estudioso da cultura do povo brasileiro do século XX, mais especificamente da cultura do povo nordestino no século XX. Ou, no caso de Guimarães Rosa, da cultura do povo de Minas Gerais no século XX, para poder entender Guimarães Rosa. É a mesma coisa aqui. É a mesma coisa. Esta língua aqui, este hebraico aqui, é um hebraico morto. O hebraico que se fala hoje em Israel, o hebraico moderno, não é este hebraico aqui. Então, esta língua aqui tem três mil anos.
Esta cultura aqui tem três mil anos. Não é a nossa cultura. Quem escreveu isto aqui foi o Ariano Suassuna deles. Quem escreveu isto aqui foi o Guimarães Rosa deles, que produziu isto aqui. Então, sim, nós não abrimos a mente. Não adianta. Você vir aqui com tratado de geografia, tratado de geologia, tratado de sociologia, tratado de história, tratado de matemática, tratado de física, para interpretar o capítulo 22 de Gênesis. Eu sinto muito de dizer isto. Sinto muito. Então, o curso que eu fiz em Direito, a minha profissão, não me ajuda em nada.
O que ajuda aqui? O conhecimento da língua, o conhecimento da cultura, das tradições, do folclore desse povo, na época em que este texto foi produzido. É isto que vai ajudar. Ponto final. É simples assim, para que a gente evite fantasias na interpretação do texto. É por isto que, diga-se de passagem, este estudo nosso aqui do Gênesis é Uma entradinha, uma pitada de sal, um iniciozinho para despertar as pessoas a pesquisarem, a estudarem, a buscarem esta tradição, esta cultura, os elementos, para decifrar o texto. O que é que nós não temos todas as respostas?
Nós não temos o estudo completo, mas já estamos começando, porque precisa começar, precisa estimular, precisa incentivar todos a fazerem o mesmo. É importante dizer isto aqui. Mas, eu sou doutor em História. O seu doutorado em História não vai te ajudar aqui, a menos que o seu doutorado em História seja em Cultura Hebraica de três mil anos atrás, na época em que este texto foi produzido. Aí, vai lhe ajudar. Aí, vai lhe ajudar. Mas, se não for, não vai. Ah, mas eu sou formado em Matemática, Associocio Lógico. É, mas não vai ajudar.
Matemática aqui não vai te ajudar a resolver isto. Da mesma maneira que, daqui a três mil anos, a Matemática não vai te ajudar a entender o texto de Maranhos Rosa. Daqui a três mil anos, a Geologia, a Geografia, a História, a Sociologia não vão te ajudar a entender o texto de Ariano de Sassouna, a menos que seja em Sociologia Cultural. É um estudo da cultura. E, aí, sim, é muito específico. É um texto que está distante de nós. É preciso, então, entender que quem escreveu este texto aqui não é uma pessoa do século XX, nem do século XXI.
Não é um contemporâneo nosso. Quem escreveu isto aqui não é um contemporâneo nosso. Não é um vizinho. É um ser humano. Por isso, tem conexão conosco. É gente como a gente, mas não é o vizinho. Está distante, três mil anos, de nós. Fala uma outra língua, viveu num outro lugar, num outro tempo histórico, numa outra sociedade, numa outra cultura, outros costumes, outras práticas, outras crenças, outros valores. Nós precisamos, então, ficar atentos a isto. Para quê? Para que a nossa interpretação não seja um desastre, não seja uma interpretação desconectada da realidade do texto.
Isto é importante. A gente está batendo isto aqui, está frisando. É por isso que, a todo momento aqui, nós estamos sempre buscando, nesta interpretação, os elementos da tradição cultural do povo, com o que isto foi lido ao longo dos séculos. Então, este texto foi produzido em uma determinada época, aproximadamente em torno de dois mil anos a.C. Foi produzido nessa época. Depois, cem anos depois, como é que ele foi lido? Duzentos anos depois, como é que ele era lido? Trezentos, quatrocentos anos depois, quinhentos anos depois, mil anos depois, como é que este texto era lido?
É isto. Como é que o povo foi lendo isto aqui ao longo da sua história? O que foi se acumulando? Quais as crenças este texto foi gerando ao longo do tempo? Que tipo de expectativas este texto foi gerando ao longo do tempo? E por que os autores do Novo Testamento, que eram contemporâneos de Jesus, mencionaram este texto, se inspiraram neste texto, se citaram elementos deste texto? Por exemplo, ao dizer que Jesus é o Cordeiro de Deus. Quer dizer, citando este texto em que Deus provê, providencia o Cordeiro, e citando o texto da Páscoa, em que o Cordeiro salva a vida dos primogênios, quando Israel é libertado da escravidão do Egito.
Por que eles citaram estes dois textos? Por que estes textos faziam parte da vida, da cultura, da tradição deles? Por que ligaram estes símbolos aqui a Jesus e a vida de Jesus? Então, são estas perguntas que a gente precisa se desvencilhar da nossa cultura, dos nossos preconceitos, do nosso modo de pensar e mergulhar no modo de pensar deles, na maneira como eles pensavam, como eles entendiam. Então, precisa voltar para que a gente faça o quê? Uma interpretação historicamente informada. Interpretação historicamente informada.
Ou, uma interpretação que tem um basamento histórico, cultural e literário. Porque a literatura tem suas regras, a literatura tem suas artilhões, a literatura tem seus expedientes, a literatura de todos os tempos, de todos os povos, tem suas características, tem sua mágica, seus malabarismos, e isto aqui é literatura. É literatura. Literatura do Oriente, o antigo. Guarda características com várias outras literaturas da época. Tem seus expedientes, expedientes que são universais, porque a literatura tem expedientes que são universais.
Narração, narrador, personagem, cena, enredo, estrutura. Então, até hoje, o teatro que a gente faz, a novela, segue essas leis, essas mesmas leis, até hoje. E não sei se vai mudar, porque imagina, você escreveu uma coisa que não tem personagem, não tem enredo, como é que faz? Não tem ápice, não tem atenção, relaxamento, são expedientes literários, nós precisamos conhecê-los, porque isto aqui é literatura. É literatura que evoca cultura, tradição, folclore, crenças, fé, espiritualidade, sentimentos, valores. Então, tudo isto está aqui, envolvido neste texto.
E, mais um elemento, e mais um elemento, que isto aqui eu estou citando os elementos humanos, mas tem os elementos espirituais, que é a inspiração espiritual, inspiração de entidades evoluídas que estavam muito à frente das pessoas que produziam isto aqui. Estavam em um patamar evolutivo muito maior e que inspiraram quem escreveu isto aqui. Então, isto aqui é uma combinação de elemento humano de quem escreveu, em uma maior percentual, e um pequeno percentual de uma inspiração espiritual tão elevada, mais elevada do que nós que somos lendo hoje, do que nós leitores de hoje.
Os Espíritos que inspiraram estes textos aqui eram, na época, muito mais evoluídos do que nós que lemos hoje somos. Mas, é muito mais, muito mais evoluídos. Então, visualizavam, naquela época, o que nem hoje nós damos conta de visualizar. Então, o texto é desafiador, porque ele tem elementos humanos historicamente condicionados, mas ele tem um elemento espiritual que é desafiador para nós, hoje, que é um desafio para mim, para você, porque foi inspirado por entidades muito superiores. É nessa mistura, é nessa parceria do espiritual com o humano que se formaram estes textos e é por esta razão, porque vale a pena interpretá-los, vale a pena aprender as características da cultura e da literatura, para que a gente consiga extrair a inspiração superior que está guardada nestes textos.
Essa é, não deixa de ser, a motivação desta nossa série de estudos, especialmente esta aqui, do livro Gênesis. Então, no próximo episódio, nós vamos fazer aqui uma pausa para explicar isso, porque é muito importante e o texto é chocante, senão as pessoas iam ficar tão chocadas e não iam conseguir avançar no texto. Então, eu precisava falar sobre isso. No próximo episódio, a gente já começa a examinar alguns profundos símbolos que aparecem nessa passagem. O jumento, o cordeiro, o holocausto, o sacrifício, a figura de Abraão, a figura de Isaac.
Vamos, então, seguindo aí no nosso estudo. Até o próximo episódio. Quem vai ocupar o lugar de Isaac, do filho, é Jesus. Só que, nessa história, não haverá substituição. Deus entregará seu filho e ele será sacrificado. Ele será entregue ao holocausto.
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.

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