#072 – Estudo do Velho Testamento – Livro Gênesis

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Neste episódio da série de estudos do Velho Testamento, conduzida por Haroldo Dutra Dias, mergulhamos no final do capítulo 4 do livro de Gênesis, explorando a intrigante questão das genealogias bíblicas e seu profundo significado à luz da Doutrina Espírita.

O que é estudado neste episódio

  • A Estrutura do Livro de Gênesis: Haroldo Dutra Dias destaca que a estrutura de Gênesis não se baseia em capítulos e versículos (divisões que surgiram apenas no século XVII), mas sim em dez grandes genealogias. A primeira delas, a “genealogia da natureza” (Gênesis 1 e parte de Gênesis 2), descreve a criação dos céus e da terra, estabelecendo o palco para a segunda genealogia, a de Adão e Eva.
  • A Genealogia de Caim (Gênesis 4:17-24): O estudo se aprofunda na descendência de Caim, o primeiro assassino. É apresentada como uma “genealogia psicológica” que simboliza a origem da vingança, da violência desproporcional e do egoísmo. Caim, ao se afastar de Deus e fundar a primeira cidade, inicia um ciclo de maldade que se manifesta em seus descendentes, como Lameque, que multiplica a vingança.
  • A Lei do Talião e a Vingança: Haroldo Dutra Dias explica que a lei do “olho por olho, dente por dente” (Talião), embora pareça dura, representou um progresso na legislação humana da época, pois buscava limitar a vingança desproporcional que caracterizava a descendência de Caim.
  • A Genealogia de Sete (Gênesis 4:25-26): Em contraste com a linhagem de Caim, o texto bíblico apresenta a descendência de Sete, filho de Adão e Eva, como uma nova esperança. Esta genealogia, que culminará em Jesus, representa a opção pelo bem e a misericórdia divina que sempre oferece uma nova chance.
  • Perdão vs. Vingança: A discussão sobre a vingança de Caim e Lameque é contrastada com o ensinamento de Jesus sobre o perdão (“setenta vezes sete”), mostrando a superação da lei humana pela lei divina do amor incondicional.

Reflexões

  • A análise das genealogias em Gênesis revela que a Bíblia, especialmente em seus primeiros livros, busca explicar não apenas a origem do mundo, mas, fundamentalmente, a origem e a progressão do mal na humanidade, desde a “semente” inicial até suas manifestações mais complexas.
  • A distinção entre a lei humana (com suas limitações e progressos graduais, como a lei do Talião) e a lei divina (baseada no amor e no perdão incondicional) é um ponto crucial, ressaltando que a justiça divina é infinitamente superior e não se confunde com a vingança.
  • A escolha da humanidade entre a “psicologia de Caim” (violência, egoísmo, vingança) e o “modelo de Jesus” (amor, perdão, redenção) é um tema central, indicando que a aceitação plena dos ensinamentos de Cristo ainda é um desafio coletivo.

Ler transcrição do episódio

Obrigado por assistir o vídeo até o fim. Olá Pessoal Estamos aqui para mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis de Moisés. Nós tínhamos finalizado esta primeira metade do capítulo 4 do livro Gênesis e hoje nós caminhamos para o final do capítulo 4 que descreve a descendência de Caim. E é exatamente este o tema da nossa reflexão de hoje Descendência Por que o livro de Gênesis tem esta predileção como outros livros também, Êxodo, Números, aliás o próprio nome indica Números, uma contagem de gerações. Por que os livros do Velho Testamento tem esta predileção por descendência, por genealogia?

E por que o Evangelho de Mateus ou de Levi se inicia por uma genealogia? O que está por trás deste interesse do escritor bíblico pelas genealogias? Este é um ponto interessante para a nossa reflexão porque ele nos remete à estrutura da obra. A estrutura do livro Gênesis, já comentamos isto aqui, não podemos confundir capítulos, versículos e títulos com a estrutura. Estes títulos, se você pegar a sua Bíblia, vai perceber que os capítulos estão separados, os blocos de versículos nos capítulos estão separados por títulos.

Isto tem um nome técnico, um nome grego que se chama Perícope. Perícope, então, é um pedaço, um trecho, como se fosse um mini capítulo, um item dentro de um capítulo. Mas, esta divisão, ela só surgiu ou só se estabilizou, se estabeleceu, encontrava pequenas divisões antes em manuscritos, mas ela se estabelece, ela se concretiza somente no século XVII, após a invenção da imprensa. Antes de Gutenberg, isto não era um procedimento comum. Então, toda esta divisão é do século XVII em diante. Na época de Jesus, em períodos anteriores, não há divisão.

Não há divisão em capítulos, não há divisão em versículos, não há título de nada, mas não nos enganemos. Isto não significa que não há estrutura. É como você ouvir uma música clássica. Nós sabemos que a música clássica também apresenta estas divisões estruturais. Então, você ouve uma sonata, uma sonata tem partes, uma suíte, uma sinfonia, ela é dividida em partes e, embora a partitura seja contínua, ou mesmo que ela fosse contínua, você identificaria estas partes por elementos estruturais da música em si. Aqui, também, no livro de Gênesis, ocorre a mesma coisa.

O livro é dividido por genealogias. Isto mesmo. Nós poderíamos dividir todo o livro de Gênesis, quase cinquenta capítulos, mais de cinquenta capítulos. O livro de Gênesis, precisamente, cinquenta capítulos, são cinquenta capítulos, poderíamos dividir em dez genealogias. Esta é uma macroestrutura do livro de Gênesis. Por que isto? Qual é a primeira genealogia? Você deve estar se perguntando. Vou dar um exemplo, aqui, desta divisão em genealogias, antes de falar qual é a primeira delas. Se você pular lá para o capítulo cinco do livro de Gênesis, ele começa assim, Eis o livro da descendência de Adão.

Descendência, aqui, é genealogia. Aliás, uma tradução que seria melhor, aqui, seria genealogia. O texto, vamos pegar o texto, aqui, no hebraico, tem uma expressão muito importante, é o Toledot. É Sefer Toledot, o livro das gerações. Toledot é gerações. O livro das gerações, que, depois, traduzido para o grego, vira o livro das genealogias. É um histórico das genealogias. Então, a gente percebe que o capítulo cinco começa com a genealogia. Mas, é curioso que, no final do capítulo quatro, nós temos, também, uma genealogia.

E, é o que nós vamos estudar, hoje. A partir do versículo dezessete do capítulo quatro, até o versículo vinte e quatro, nós temos a genealogia de Caim. E, depois, temos os versículos vinte e cinco e vinte e seis, que mostram a continuidade da genealogia de Adão e Eva. Por quê? Adão e Eva geraram Abel, Caim, mais velho, Abel, o Caim mata Abel, mas, depois, Adão e Eva geram um outro filho, chamado Sete. O Sete. E, o Sete, por sua vez, terá a sua genealogia. Então, aqui, é como se nós tivéssemos Adão e Eva, os grandes patriarcas, eles geram Caim, que tem a sua genealogia, e Sete, do outro lado, que vai continuar a sua genealogia.

Por quê? Porque Abel foi assassinado, então, a sua descendência foi interrompida. Este é um ponto importante. Matar alguém é destruir uma semente. Você corta o processo de continuidade que aquele ser traz ao encarnar. Agora, vamos tentar entender este universo de genealogias. O mundo antigo era repleto de mitologias sobre a origem, a origem da Terra, a origem dos céus, das estrelas, em suma, a origem de tudo aquilo que o ser humano poderia observar com seus olhos, tudo o que ele podia ver, as montanhas, o ar, as águas, o fogo, etc., as estrelas, o sol, a lua, e assim por diante.

Nessas tradições, os elementos da natureza eram vistos como uma família. Então, na mitologia grega, por exemplo, você tem Uranós gaia a Terra, aí tem os filhos e aí os filhos de Uranós cortam o falo do pai e aí cai na água, no mar, então é uma família e você vai explicando, também por um processo de genealogia, a origem das coisas. A preocupação aqui é remontar as causas, quem veio primeiro e o que gerou o que. O livro de Gênesis, então, é Um esforço da cultura hebraica, dos detentores da primeira revelação, daquele povo que foi escolhido para ser o guardião da primeira revelação.

Então, é um esforço deles para construir, também, uma mitologia, entre aspas, entre aspas, só que, agora, vinculando tudo a um único Deus. Então, não tenho mais uma pluralidade de deuses, uma multidão de deuses, uma família de deuses. Agora, eu tenho um Deus e sua família. Então, a primeira genealogia, que são o capítulo 1 e parte do capítulo 2 de Gênesis, trata da genealogia da natureza. Céus e terra, no princípio criou Deus, os céus e a terra. Céus e terra, como na mitologia grega. E, tinha as águas, que não falam quando foram criadas.

Também, na mitologia grega, você tem o mar. Então, é interessante. Só que, aqui, é como se fosse uma releitura, como se a tradição hebraica relesse esses mitos do entorno, mitos da Mesopotâmia, do Oriente, próximo do Egito, fizesse uma releitura de todos esses mitos, a partir do monoteísmo. A partir do monoteísmo. Então, a primeira genealogia, então, das dez, é a dos céus e da terra, das coisas, onde o palco é montado com uma sequência em seis dias, sendo que Deus, o Criador, que agora há um Criador incriado, um Criador que não foi criado, isso é interessante, que dá origem a tudo, ele, então, dispõe todos os elementos da natureza para se iniciar a segunda genealogia, que é a de Adão e Évora.

Então, o homem, sua mulher e os três filhos. Então, a primeira família do Gênesis e a segunda genealogia. Nós vamos perceber isso aqui. Depois, nós vamos entrar em uma terceira narrativa genealógica, que ainda está ligada a Adão e Évora, então, está ainda dentro da segunda, que é a descrição da genealogia de Caim e da genealogia de Sete. Então, você vai explicando as origens, como se você fosse remontando as causas. Mas, olha que interessante aqui, quando eu apresento um livro de gerações, as descendências, a família, bisavô, avô, pai, neto, bisneto, tataraneto, quando eu apresento isso, eu dou as características desse grupo familiar.

Qual é o dom dessa família? Olha que interessante isso. Então, aqui, por exemplo, a genealogia que nós vamos entrar agora no finalzinho do capítulo 4, Versículos 17 e em diante, concentra-se em Caim. Caim, que é o primeiro assassino, olha que interessante, o primeiro assassino, aquele que matou o seu irmão, ele era um agricultor, era agricultor, Caim instaura, instaura, com a sua conduta, na sua família, o regime do olho por olho, dente por dente, quer dizer, não é nem olho por olho, dente por dente, que é importante entender isso aqui, olho por olho, dente por dente, é lá na frente.

A descendência de Caim estabelece a vingança de sangue, vingança de sangue. Olha que interessante isso. O grande patriarca, que é Caim, mata o irmão e essa mancha espiritual, é como se essa marca espiritual fosse compartilhada por todos os seus descendentes. Todos os seus descendentes têm uma afinidade com esse homicídio perpetrado por Caim. Então, é uma família violenta, é uma família que vinga através do sangue. E como é que era a vingança? A vingança era assim, alguém me machucava, eu ia lá e matava a família inteira.

Como isso? Se alguém me machucava, eu ia lá e matava o pai, a mãe, os filhos, noras, gêmeos, matava todo mundo. Quer dizer, era desproporcional. É uma violência sem medida, desproporcional, porque ela não visava apenas compensação. Se é que há, imagina, alguém mata um membro da sua família, tem compensação? E qual compensação? Ela era desproporcional. Então, eu matava um membro da família, eu ia lá e matava vinte, trinta pessoas que não tinham nenhuma relação com o fato, porque as características da família eram compartilhadas.

As famílias viviam juntas, geralmente, em uma mesma tenda ali ou em uma mesma pequena aldeia. Eles compartilhavam, era um grupo familiar muito unido, com relações de cumplicidade, com uma mistura de personalidades. Não havia esse sentido de individualidade, de liberdade que nós temos no século XXI. Isso é uma característica do nosso tempo. Nesta época aqui, não há isso. Neste tempo aqui, nós não temos isso. As pessoas são todas como se fossem um amálgama, mescladas, misturadas. Elas formam um todo e elas se comportam mais como grupo do que como indivíduos.

É interessante perceber isso. Esta característica do mundo primitivo, destes primeiros momentos aqui da civilização humana. E, Isto está claro quando Caim, na fala de Caim, quando ele diz assim Aquele que me encontrar me matará. Aquele que me encontrar me matará. Mas, aí, Deus diz assim, aquele que matar Caim será vingado sete vezes. Olha só, quer dizer, temos que tomar um cuidado aqui de não achar que isto é uma ordem que vem de Deus, que fica parecendo isto. É como se Deus estivesse determinando. Olha só, tomar muito cuidado com isto.

O Senhor lhe respondeu, quem matar Caim será vingado sete vezes. Isto não é uma proposição de Deus. Isto não é uma ordem do Criador. Isto é uma descrição da característica psicológica da família de Caim. Quer dizer, Caim introduziria na Terra a vingança de sangue desproporcional. Quer dizer, ele formaria um grupo, se alguém matasse Caim, a família dele iria matar sete. Olha que desproporção. É um crescimento exponencial. Então, para evitar isto, na sequência, Deus diz assim, Deus colocou, diz não, fez, né, colocou um sinal sobre Caim a fim de que não fosse morto por quem o encontrasse.

Então, Deus marcou Caim com um sinal para que não desse início o processo de vingança. Por quê? Porque, se desse início o processo de vingança, ele seria desproporcional. Deu para entender? Então, primeiro, Deus descreve, ó, Nós estamos no mundo primitivo. É um psiquismo primitivo. Se For aplicar causa e efeito aqui, matou, tem que morrer, eles não conseguem ainda. Então, se alguém mata Caim, ele resgata o homicídio, mas aí a família vai lá e vai matar mais sete. E, aí, sete resgates. Percebeu? Então, nós estamos numa situação aqui complexa.

Por isso, é posto um sinal em Caim para que não dê início um processo de resgate, como ele desejaria. Ah, eu matei, agora eu vou morrer. Então, é colocado um sinal para que não aconteça isso. O resgate dele se dê de outro modo que não sendo assassinado. Isso é muito importante, porque nós vamos perceber que lá na frente também não há ordem de Deus para olho por olho, dente por dente. Isso não é revelação divina. Não é. Isso é norma, é lei humana e lei benéfica. Benéfica. É como nós examinarmos a lei Áurea. Você imagina que coisa!

Foi preciso uma lei para proibir a escravidão. É quase o negócio precisaria dessa lei. A escravidão não está na lei divina. Então, na lei divina, não tem. Não precisa de uma lei para libertar escravos, porque na lei divina não se permite a escravidão. Não pode haver escravidão na lei divina. Então, na lei divina, não há vingança. Na lei que o Criador estabeleceu, não há espaço para vingança. A vingança é uma criação humana e ela surge como? Ela surge desproporcional. Ela surge sem limite. Sem limite. Querem ver? Então, aqui, Caim disse isso.

Ah, quem me encontrar vai me matar. Porque ele está pensando como? Vingança. Matei meu irmão, agora alguém tem que vingar meu irmão. Alguém tem que vingar. E, é curioso, porque muitos de nós, espíritas, faz uma interpretação de lei de causa e efeito como se fosse lei de vingança. Precisa tomar cuidado com isso. Tomar muito cuidado. Lei de ação e reação significa, significa que quando eu gero um mal, eu sofro uma consequência desse mal que se expressa em três elementos. Arrependimento, reparação, arrependimento porque é um processo interior, um processo de renovação íntima que pode ocorrer, pode não ocorrer, pode ocorrer, pode não ocorrer.

Se ocorrer, melhor. É uma benção. Porque isso significa que eu não vou cometer o erro de novo. Eu não vou repetir o erro, mas, às vezes, não ocorre. Eu tenho um arrependimento superficial e, aí, volto a cometer o erro. E, aí, cometo vinte, trinta encarnações, vou cometendo o mesmo erro. Eu vou repetindo o erro e, aí, o que vai acontecendo? As consequências vão ficando cada vez mais complexas, cada vez mais intrigadas. Então, arrependimento é um processo de renovação. Eu aprendi com o erro, eu cometi o erro, mas, eu aprendi com ele.

Então, é um processo interior de auto-educação. Agora, não pode ficar só na esfera íntima. Ah, então, eu aprendi e o mal que eu causei. O mal tem que ser reparado. Reparado não significa vingança, não significa vingança. Então, imaginemos no passado sombrio, eu assassinei, matei alguém, tirei a vida. Agora, eu vou ser morto? É isso que é lei de causa e efeito? Não! Pode significar receber como filho aquele a quem eu matei. Por quê? Eu tirei a vida e, agora, eu dou a vida. Eu tirei todas as possibilidades, todo o futuro que aquela pessoa tinha, agora, eu recebo como filho e dou tudo para ele e, pela lei divina, eu tenho que restituir tudo o que eu tirei.

Reparação. Então, lei de causa e efeito é lei de reparação, não de vingança, porque a vingança, ela perpetua o mal. Onde tem um criminoso, alguém tem que assumir o papel do criminoso e está como se fosse uma tocha vai passando de um sempre eu tenho que ter um criminoso para pegar a tocha do criminoso anterior. Imagina se a lei divina iria estabelecer isso. Então, não é isso. Então, Caim tem uma agora, a estrutura psíquica de Caim é a estrutura do mal. O Caim simboliza aqui a mentalidade do mal, a mentalidade da vingança, a mentalidade do assassinato, do homicídio, da violência, do egoísmo, do orgulho.

Então, ele só entende isso. Ele só entende isso. Matei, agora eu morro. E, aí, Deus adverte você está enganado, Caim. Quem dera se fosse você matou e só você morre. Porque o sistema que você vai instaurar é tão primitivo que é assim, você mata, alguém te mata e aí matam sete para te vingar. Aí, quatorze depois, é uma progressão, uma progressão. Não é bem assim? É sete, setenta vezes sete. Sete, setenta vezes sete. Uma progressão. Havia uma violência feroz, feroz, desproporcional. Essa é a lei humana. Então, o Criador diz, olha aí, olha o que vocês estão instaurando.

Por isso que lá na frente, a legislação humana vai estabelecer olho por olho, dente por dente. Então, sofrer uma ferida, eu tenho direito de fazer uma ferida. Perdi um dedo, alguém cortou meu dedo, eu vou lá e corto o dedo da pessoa que cortou meu dedo. Então, isso foi um progresso. Acredite se quiser. Foi um progresso. Por que foi um progresso? Olha aqui um dos descendentes de Caim, o que ele vai dizer? Lá no versículo 23, Lamec disse as suas mulheres, Ada e Selá ouviram a minha voz. Mulheres de Lamec escutaram a minha palavra.

Eu matei um homem por minha ferida. Por minha ferida. Aqui, a tradução da Bíblia de Jerusalém está errada. Coloca por uma ferida, não tem por uma não, não tem artigo indefinido aqui não. É por minha ferida. Tem um pronome aqui da primeira pessoa, por minha ferida. Ou seja, alguém fez uma ferida nele, ele matou a pessoa. Isso. Desproporcional. Uma criança por uma contusão. Ele matou uma criança porque ela causou uma contusão nele. Desproporcional. É que Caim é vingado sete vezes, mas Lamec, setenta vezes sete. Outro erro de tradução da Bíblia de Jerusalém.

Ela coloca aqui, setenta e sete vezes, não. É setenta e sete vezes. É setenta vezes e sete. É um multiplicador. Porque está mostrando uma progressão. Olha que desproporcionalidade que criou. Com Caim, Deus já tinha advertido, falou Caim, cuidado. Cuidado. Se for aplicar aqui, vingança, lei de vingança, você vai ser vingado sete vezes. Agora, aqui no Lamec, multiplicou o mal. Multiplicou o mal. Aqui é um descendente longe de Caim. Aqui já está setenta vezes sete. Isso ocorria mesmo. Isso ocorria. Aliás, há uma série no Netflix, muito interessante, que eu recomendo para a gente entender aqui.

Esse fato aqui, histórico, né? Fato histórico. Chama-se A Tenda Vermelha. Ela conta a história dos filhos de Jacó, mas da perspectiva das mulheres. É uma série pequena, são dois episódios, muito interessante, muito legal. Conta da perspectiva das mulheres. A história é bacana, mas o que eu quero chamar a atenção lá é um fato que vai ocorrer lá, que vai demonstrar isso aqui. A desproporcionalidade da vingança. Por um fato que ocorre, por um fato que ocorre, uma multidão de pessoas é exterminada, assassinada a sangue frio.

Era assim. Então, quando surge o olho por olho, dente por dente, foi um progresso na legislação humana. Humana. Humana, não vamos confundir, gente. O direito penal que nós temos hoje, no século XXI, é muito imperfeito. Por quê? Porque ele é legislação humana. Ele ainda não está próximo da legislação divina. Não está. Está longe da lei divina, de justiça. A lei de justiça divina é infinitamente superior à nossa legislação penal. Infinitamente superior. Infinitamente. Então, nós temos que ter calma aqui. O que é lei humana e o que é lei divina?

Aqui está dizendo o que? A genealogia de Caim é uma genealogia de vingança. É a origem da vingança, a origem do homicídio, a origem da violência. Da maldade, do egoísmo. É uma geração. Então, nós podemos estender o raciocínio para entender que a geração de Caim pensa em Caim não como uma pessoa. Pensa na geração de Caim não como uma geração de pessoas, mas como uma genealogia psicológica. Aí, fica mais interessante. Fica mais interessante. E, o curioso é que o texto começa falando assim, Caim, no final, lá no 16, Caim se retirou da presença de Deus.

Então, ele se afastou de Deus. Se retirou da presença de Deus significa afastamento da alma do Criador. Desconexão com Deus. Se eu me desconecto de Deus, o que acontece? Eu começo a ter a ação humana. Então, é lei humana, é iniciativa humana, é empreendimento humano, afastado de Deus. É o homem desconectado de Deus. Então, o texto está claro. E, ele foi morar numa terra ao leste, que é a terra de Nórdia. Foi ser errante. Ele que era agricultor, agora se torna nômade, errante. Não tem terra, não tem raiz, perdeu a conexão com Deus.

Lá, ele conheceu sua mulher, está no versículo 17, que ela concebeu e deu à luz a enorme. Agora, é interessante, se ele encontrou a mulher dele, ela tem pai e mãe, estava lá na terra de Nórdia. Daí, o erro de se interpretar, literalmente, o livro de Gênesis. Porque tinha Adão e Eva, nasceu Caim e Abel. Caim matou Abel. Então, peraí, quem são os pais dos sogros de Caim? Não está aqui. Então, isso é um sinal que não pode ser interpretado, literalmente, o texto do Bíblio. O texto do Bíblio não pode ser interpretado literalmente.

É só o primeiro chequemate que o texto dá. É o primeiro alerta. Cuidado! Fica esperto. Ele vai lá morar e ele tornou-se um construtor de cidade. Então, aqui é interessante, por quê? Na psicologia de Caim, que é muito interessante este estudo, Caim é um homicida, uma pessoa violenta, praticou uma violência imensa contra o próprio irmão, vai fundar uma cidade. É uma vida urbana. Olha lá, fundou e deu a cidade o nome seu filho Enoch. Aí nasceu Irad, Irad e Maviavel, Maviavel e Matuzael, Matuzael gerou Lameque. Então, Lameque está lá na ponta.

Por isso que, quando chega em Lameque, que é o tatara, tatara, tatara neto do Caim, quando chega lá nele, já está uma progressão do mal. A vingança já é setenta vezes sete, não é sete vezes, é setenta vezes sete. Agora, é interessante aqui, porque Jesus, quando está no Evangelho, Simão Pedro pergunta assim, Senhor, até quantas vezes eu deveria perdoar? Até sete vezes? Está remetendo o quê? A Caim. E, aí, Jesus diz, não te digo que sete, mas setenta vezes sete. Fechou, foi lá no Lameque. Simão, vamos acabar com isso.

Vamos acabar com essa psicologia de vingança. Perdoar quantas vezes for necessário. Agora, perdoar é o quê? Esquecer o mal? Não, perdoar é tirar a mão do pescoço. Perdoar não é deixar de ter raiva, perdoar não é esquecer o mal, perdoar é você tirar a mão do pescoço do seu agressor. Tirar a mão do pescoço. E, deixar a justiça divina fazer o trabalho dela. Olha, serve profundo, gente, porque todo esse mal aqui, Caim foi lá e matou o irmão. Matou o irmão. E, aí, ele está esperando o quê? Que alguém ponha a mão no pescoço dele e mate ele.

Mas, aí, Deus adverte, você está enganado, Caim. Você está enganado. A violência de vocês é uma violência desequilibrada. Alguém vai vir e equipa a mão no seu pescoço, aí vão, seus descendentes vão matar sete. E, chega lá no Lameque, que é o último aqui da descendência dele, citado aqui no texto, para cada um que morre, setenta vezes sete são assassinados. Nós vamos ver isso nesse seriado lá, Tenda Vermelha, vai mostrar isso. Isso acontecia. Alguém entrava lá numa tribo, matava um membro. Eles da tribo de cá iam lá na outra tribo e matavam todo mundo, trezentas, duzentas pessoas.

Trezentas não é muito, não é? Não tinha tribo tão grande. Cem. Matava cem. Matava cem pessoas. Pessoa que não tinha nada a ver com o fato. Pessoas que nem, estavam lá na aldeia, eram da família, mas nem ficaram sabendo que alguém de lá matou outro. Isso aqui é um… Então, o que que Jesus, quando vai falar do perdão, estabelece? A contrapartida. Então, para a vingança desmedida, setenta vezes sete, um perdão imensurável. Um perdão sem limites. Um perdão incondicional. Um amor que cobre a multidão dos pecados. Bonito o texto, não é?

A gente percebe aqui uma uma nova proposta. E é outra coisa importante também. O livro de Mateus, de Levi, começa com a genealogia de Jesus. É interessante isso aqui é uma coisa que nós vamos falar com mais profundidade mais adiante. Mas, se nós examinarmos todos os antecessores de Jesus, nós vamos descobrir todos os erros que você pode cometer na terra como encarnado. Cada personalidade mencionada na genealogia de Jesus corresponde a um tipo de erro que você pode cometer encarnado. Não é um erro não, é um conjunto de erros.

Então, erro na área sexual, erro na área do uso do dinheiro, erro na área do poder, erro na área da violência, erro em tudo. Então, é como se Jesus abraçasse todos os erros humanos para redimir, para purificar, para ensinar como purificar de todos os erros que um encarnado pode cometer. Esse é o sentido da genealogia. Então, ele fecha um ciclo. Por isso que Paulo, muito inteligentemente, disse assim Então, Jesus é o segundo Adão. A história fechou com ele. Essa história de erro de Adão, que a gente vai ver aqui, é só tragédia.

A partir de Adão e Eva, do primeiro erro lá, que eles adotaram o projeto da serpente, só tragédia. O mal só se multiplicando, só tragédia, tragédia, tragédia. Chega em Jesus, fim. E, aí, começa uma nova humanidade. E o primeiro tipo, o primeiro tipo, o primeiro modelo da nova humanidade é Jesus. Por isso que ele é o tipo mais perfeito. Que Deus tem oferecido à humanidade para servir à humanidade de guia e de modelo. É um tipo para servir de modelo. Então, se a gente perguntar assim, qual ser humano que Deus deseja?

É um ser humano como Jesus. Esse é o projeto original que falhou com Adão. Não por causa de Deus, pela escolha de Adão. Porque, nesse projeto, não tem escravos. Só podem ter livres. Deus não obriga ninguém a seguir o projeto. O projeto dele é o excelente, é o melhor. Mas, você segue se quiser. Livre arbítrio, se quiser. Lembrando que para cada escolha, para cada ato, para cada pensamento, há uma consequência. Há uma consequência. Quando Deus apresenta um projeto excelente, é porque Ele sabe que as consequências de quem adota aquele projeto são a felicidade, o amor, a paz, tudo de bom.

O outro projeto da serpente, a consequência é o alastramento do mal, a multiplicação do mal, a violência, o egoísmo, o orgulho e todas as tragédias que marcam o nosso planeta e que nós estamos assistindo todos os dias no noticiário. Esta é a história. Por isso, uma genealogia. E, é interessante porque quando a gente estuda os descendentes de Caim, olha que interessante, o Caim ele se torna, então, um ferreiro, ferro. Interessante, não é? Ferro. Daí, a sabedoria de Jesus, não é? Quando ele diz, lá no orto, aquele que com ferro fere, com ferro será ferido.

É mais uma referência a Caim, o ferreiro. Caim se torna um ferreiro. E, ele gera o que? Constituição de cidade. Os descendentes dele são pastores, músicos, ferreiros e meretrizes. Meretrizes. Todos os elementos de uma cidade. De uma cidade aqui, de uma construção urbana. Todos os elementos que vão gerar, que a partir desses elementos geram-se uma decadência. Elementos degenerados. Não é um músico alinhado com Deus, não é um ferreiro alinhado com Deus, não é um pastor alinhado com Deus, não é a mulher alinhada com as suas energias, não.

É isso tudo desalinhado e a primeira cidade gerada por Caim vai progredir e vai chegar aonde? Vai chegar em Sodoma e Gomorra. Porque tudo aqui do livro de Gênesis é para mostrar a progressão do mal. Então, a primeira semente de uma cidade pervertida foi construída por Caim. Depois, nós vamos ter o auge disso lá em Sodoma e Gomorra. A Babilônia. A Babilônia. Então, é interessante, gente, porque esses primeiros capítulos do livro de Gênesis estão descrevendo as sementes do mal. As sementes do mal. Então, tudo começou numa semente, um irmão matando outro irmão.

E, isso vai gerar o quê? Assassinato, crime. Isso vai gerar as páginas, hoje, criminais dos jornais. Isso tudo começou com um irmão matando outro irmão. É assim que começa. A violência que a gente vê de assalto, de assassinato, começa na família. Na família. A pessoa assumindo um compromisso e abandonando esse compromisso. Aí, filhos sendo abandonados. Aí, não tendo estrutura, não tendo educação, não tendo orientação. Famílias desestruturadas. Aí, vai desestruturando e o mal vai crescendo exponencialmente. Mas, começou lá na semente.

Lá na semente. É importante isso. O livro de Gênesis chama-se Gênesis não é à toa. Porque, aqui, o que ele está tentando explicar não é a origem do mundo. É a origem do mal. As sementinhas do mal que geram florestas de perversidade. As causas do mal. Então, vai falando aqui dos descendentes dele para fixar, fixar esses pontos aí e mostrar essa geração pervertida, que é a geração de Caim. Que traz a herança psicológica de Caim. Mas, o capítulo 4 termina com uma esperança. Termina com esperança. Adão conheceu sua mulher.

Conheceu sua mulher é uma maneira de dizer que eles tiveram o ato sexual e concederam. Ela deu a luz a um filho e lhe pôs o nome de Sete. Porque, disse ela, Deus me concedeu outra descendência no lugar de Abel, que Caim matou. Então, esse aqui, agora, vem substituir o Abel. Ou seja, ele não tem vínculo psicológico, psíquico e espiritual com Caim. O vínculo dele é outro. Também a Sete nasceu um filho que lhe deu o nome de Enoch, que foi o primeiro a invocar o nome do Senhor. Então, aqui é uma nova geração. Sete, Enoch, e, aí, vai gerar uma genealogia.

Onde vai parar essa genealogia? Em Jesus. Em Jesus. Começa com isso mesmo, com o Sete vem para o Enoch e, aí, segue até chegar em Jesus. Então, é bonito porque eu tinha as duas propostas, como tem na evolução. Você pode escolher o bem e o mal. O mal foi escolhido, o bem foi eliminado, mas a misericórdia divina trouxe o bem de novo. Então, tem sempre opção. E, dessa genealogia do bem, surge Jesus como a grande opção da humanidade. Acontece que, quando Jesus é apresentado para que a humanidade faça a escolha, o que colocam lá?

Barrabás e Jesus. Então, um descendente de Caim, Barrabás, descendente psicológico, psíquico, que representa a psicologia da descendência de Caim e Jesus. E, a humanidade escolhe Barrabás. E, agora, está sofrendo as consequências dessa escolha. Por isso que a pergunta do livro dos Espíritos, feita por Kardec, é muito inteligente. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido, que Deus está oferecendo? Porque não foi aceito ainda. Deus está oferecendo, mas a humanidade não aceitou ainda. Ainda não aceitou. Jesus está sendo ofertado como um modelo, como um tipo, para a humanidade, mas ele ainda não foi aceito.

Não foi aceito. Até quando? Quanto que o mal terá que crescer? Quanto que a maldade terá que crescer? Quanto que o sofrimento terá que crescer para que a humanidade escolha Jesus? Isso aí depende de todos nós. Depende de mim, mas não depende só de mim. Depende de você, mas não depende só de você. Depende da humanidade como um todo fazer essa escolha. Por isso que a gente percebe que a narrativa aqui é coletiva. Ela não está descrevendo apenas uma questão individual. Ela está focada num global. Na humanidade como um todo.

E, no próximo episódio, nós vamos dar sequência a essas reflexões aí, detalhando um pouco mais. Espero que você tenha compreendido essa visão panorâmica, esse eixo central da passagem. Nós vamos voltar muitas vezes nesses pontos no próximo episódio. Autonomia Não ter autonomia para dizer não para o próprio desejo, para o próprio conforto. Autonomia é isso. Por isso, no diálogo, quando Sócrates está preso, a mulher dele vai visitá-lo, e ela fala, mas você está presa? Ele fala, não, eu não estou. Eu sou livre. Quem está preso é quem me colocou aqui.

Autonomia

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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