Neste episódio, Haroldo Dutra Dias dá continuidade ao estudo do Velho Testamento, focando no livro de Gênesis. O estudo, que não é uma entrevista, mas uma aula, aprofunda-se em conceitos espirituais e filosóficos, contando com a participação da irmã Ayla, que enriquece a discussão com sua perspectiva católica e mística.
O que é estudado neste episódio
- Diálogo Inter-religioso: A importância da troca fraterna e amorosa entre diferentes religiões, buscando pontos que unem, apesar das diferenças de percepção e concepção.
- A Luz em Gênesis: Retomada do versículo de Gênesis sobre a criação da luz, explorando seus aspectos espirituais.
- Abraham Joshua Heschel e “Deus em Busca do Homem”: Apresentação do autor judeu Abraham Joshua Heschel e sua obra, que propõe um Deus que busca o homem, em contraste com a ideia comum do homem buscando a Deus.
- Os Profetas e a Revelação: Discussão sobre a obra “Os Profetas” de Heschel, que aborda o caráter da revelação divina e a inspiração bíblica, estendendo-a à inspiração individual e à ação de Deus dentro de nós.
- Racidismo e o Amor ao Próximo: Exploração do movimento judaico racidismo, que enfatiza o amor, a piedade e a religiosidade vivenciada através do acolhimento ao próximo.
- O Conceito de “Pathos” Divino: Aprofundamento no conceito grego de “pathos” (paixão, sentimento), explicando como Deus é afetado por suas criaturas e como isso se manifesta em seu amor.
- A Luz como Iluminação e Mediunidade: A ideia de que a iluminação recebida pelos profetas e místicos é uma forma de mediunidade ou revelação, que tira o véu e permite a comunicação divina.
- A Centelha Divina: A crença de que todos os seres humanos são centelhas divinas, e que essa luz pode ser expandida para iluminar a si e aos outros, comparando-a à passagem da chama do Círio Pascal.
- A Parábola do Bom Samaritano: Análise da parábola de Lucas 10, que ilustra a compaixão e o amor incondicional ao próximo, mesmo ao “outro indefinido”.
- Liberdade e Amor Incondicional: Discussão sobre a verdadeira liberdade, que se manifesta ao fazer o bem sem condições, em contraste com a visão moderna de liberdade que pode levar à concorrência.
- Crise de Convicções na Pós-Modernidade: Reflexão sobre a fluidez do tempo e a dificuldade de manter compromissos na sociedade contemporânea, contrastando com a essência do ser humano como espírito imortal.
- Mística e Kabbalah: Breve introdução à mística judaica (Kabbalah) e sua relação com a tradição de Tereza de Ávila, que via a luz divina perpassando todas as dimensões do ser.
- Teóforo: O conceito de “portador de Deus”, aquele que carrega a presença divina consigo, como resultado de uma profunda comunhão com o Cristo.
Reflexões
- A compreensão de que Deus não é um ser distante, mas um Pai amoroso que busca ativamente seus filhos, e que se afeta com suas experiências, revelando um “pathos” divino.
- A verdadeira liberdade reside no amor incondicional e na doação ao próximo, libertando-nos do egoísmo e expandindo a liberdade não só individual, mas coletiva.
- A crise de convicções na pós-modernidade desafia a permanência nos compromissos, mas a essência do espírito imortal nos convida a planejar e realizar propósitos duradouros, colaborando com o plano divino para nossa existência.
Ler transcrição do episódio
Boa noite para todos! Hoje, nós estamos muito felizes de estar recebendo corações amigos em visita. A gente queria cumprimentar todos os visitantes hoje, primeiramente na pessoa da queridíssima irmã Ayla e na pessoa do Geraldinho, que muito nos honra vindo aqui hoje, participando com a gente, não é, João Vítor? Obrigado pela sua presença. Os corações também de Campo Grande, queridos, estão vindo aqui e a todos que acompanham também pela internet. É de Niterói. É de Niterói, não é? É de Niterói. Estou esquecendo de Niterói.
A Lenita, de Niterói. Estou esquecendo do Rio. Que negócio é esse? Não é, não é? E todos os amigos que acompanham pela internet, principalmente o Grupo do Ser, que está em Curitiba, nos acompanhando. Está aqui, não é? Gesiane, Luiz e toda a turma da editora. Um beijo para todos. Hoje é um dia muito especial, porque nós teremos, neste final de semana, um evento na Associação Médica Espírita e é um evento muito importante. Nós o consideramos muito importante, porque é um evento espírita que terá a participação da irmã Aíla.
Para quem não conhece, a irmã Aíla é uma freira, é uma irmã de caridade, católica. Na verdade, ela é mais madre superiora, católica e temos o pastor Enéas, que é um evangélico e eu, que sou espírita, e fazemos uma atividade conjunta. Na tentativa de trazer para o movimento espírita essa consciência do diálogo interreligioso, da importância da troca fraterna e amorosa entre nós, que estamos seguindo o mesmo mestre, às vezes, com diferenças de percepção, de concepção, mas, estamos seguindo o mesmo mestre e também estamos unidos no amor.
Como, na reunião passada, nós comentamos o versículo do Gênesis, que falava da luz, de que Deus disse que faça-se a luz e a luz se fez, e, nós comentamos sobre os aspectos da luz, os aspectos espirituais da luz. Hoje, como a Ayla veio nos visitar, nós combinamos de falar um pouquinho – da última vez que ela veio aqui, ela falou de Tereza de Ávila e do castelo interior – dessa conexão profunda que todos nós temos com Deus e dessa ação que Deus tem dentro de nós e da importância de nós calar os sentidos exteriores para desenvolver sentidos interiores.
Maninho vai falar um pouquinho disso, mais um pouco. Hoje, nós gostaríamos de comentar sobre um autor que se chama Abraham Joshua Heschel. O Heschel tem um livro – aliás, ele tem dois, porque é muito impressionante – que se chama Deus em busca do homem. Foi um livro que mexeu muito com os religiosos, porque sempre se imaginou o homem buscando o Deus e o Heschel fala de Deus em procura do homem, um Deus que busca, que está, assim, faminto do seu filho, que está buscando o seu filho. E, o livro grandioso dele, talvez seja a maior obra, que é esta aqui, Os Prefetos.
Infelizmente, só tem em inglês. Tem, parece, uma tradução em espanhol também, em três volumes, mas ela está esgotada. Nós trouxemos e queríamos falar um pouquinho sobre isso. Claro, quem sentir vontade de conversar, de comentar alguma coisa, sintam-se à vontade. Mas, vai funcionar, assim, mais ou menos, como uma entrevista. Vamos conversar com a Ayla e perguntar para ela para fazermos um diálogo mesmo. E, também, para que as pessoas que estão assistindo entendam que diálogo é este. A gente, aqui, não evita – não é simplesmente um ecumenismo imaturo, formal, aqui é um diálogo mesmo, a gente tem um relacionamento, respeitamos um ao outro, nos amamos mesmo e, aqui, dialoga com toda a sinceridade do nosso coração, evidentemente, buscando aqueles pontos fortes que nos unem.
O Heschel é interessante, porque ele vai falar de inspiração divina. O Heschel se propôs a responder uma questão que é séria, que é a questão da revelação. Qual o caráter da revelação? É claro que o Heschel escreve no século XX. Então, ele está pensando como um homem contemporâneo, como um homem de hoje, um ser humano da nossa era, da nossa época, vai pensar inspiração bíblica, revelação, mas, mais do que isso, o Heschel também vai falar de uma inspiração individual, de como Deus atua dentro de nós e como Ele age dentro de nós e em que circunstâncias se dá esta ação, qual é a qualidade, as características desta ação.
Isto é muito incrível, porque, realmente, o Heschel tem uma visão interessante. Antes de eu passar para a Ila, perguntar para ela algumas coisas importantes, vamos só situar o Heschel. O Heschel nasceu na Polônia e o Heschel é vinculado a um movimento judaico chamado racidismo, que é, mais ou menos, a caridade no judaísmo. Eles são os piedosos, os caridosos, são aqueles que enfatizam o amor, a religiosidade vivenciada como o amor ao próximo. É uma religiosidade, uma experiência com Deus que deve ser medida, que deve ser mediada pela nossa relação com o outro e, sobretudo, o acolhimento ao outro.
O Heschel é um homem muito especial, apesar de ser um rabino, foi, enquanto encarnado, agora, ele é, mas no mundo espiritual. Quando ele estava atuando, o Heschel chegou a marchar ao lado de Martin Luther King. É interessante isto. E, nós vamos ver porquê. O Heschel acredita que Deus se manifesta pelo homem, Deus age pelo homem. Nós vamos ver um pouco disto. O conceito principal do Heschel, que é o que eu queria perguntar para a Ayla, para ela falar um pouco sobre isto, é o conceito de patos. Não vamos complicar, não.
É uma palavra grega, mas, nós estamos acostumados com ela. Nós falamos, por exemplo, antipatia. Eu tenho antipatia disto ou tenho simpatia por fulano, por determinada coisa. Então, simpatia é um patos favorável e a antipatia é um patos desfavorável. Agora, aqui não são patos, né? Vários patos. Não são patinhos, né? É patos como um sentimento. Nós vamos ver isto, aqui. Então, Ayla, o que é esta contribuição do Heschel? O que ele vai entender como o patos divino? Primeiro, quero agradecer a oportunidade de estar aqui novamente e dar um olá para os que estão vendo pela internet.
Dizer que hoje eu tive um presente especial de Jesus que vai me ajudar a falar sobre este tema, que eu vivi momentos fortes de amizade durante o dia inteiro na casa de Chico Xavier, pelo Leopoldo, na companhia de pessoas que eu quero muito bem, que me sinto também amada por essas pessoas, que é o Geraldinho Lemos, o Marcelo, o Carlos, a Bete, o Zé, a Lenita e os outros que estavam lá, que conheci, como vocês dizem, nesta vida. Para falar a língua de vocês, que eu conheci hoje e que também simpatizei com eles. Eu fico muito feliz que este momento, que durou o dia inteiro, foi prolongado, porque eles permaneceram comigo, estão ainda me acompanhando.
E esses amigos de Campo Grande, de Niterói, vieram para o evento. Isso também é muito gratificante, porque a gente sabe que essa amizade tem crescido muito, essa amizade que eram apenas três amigos de religiões diferentes, e hoje se expandiu, se tornou uma amizade mesmo entre igrejas, com o movimento espírita. Então, o que eu gostaria de falar primeiro, você corta aí quando eu estiver falando mais, por favor. Eu gosto muito quando a gente estuda a partir de uma conversa, quem me conhece bem sabe que eu gosto de perguntas, gosto de ser perguntada, as minhas aulas são sempre repletas de perguntas dos estudantes, e também gosto de fazer perguntas a eles.
Então, acho que isso ajuda muito a gente a se prender ao essencial. Então, o Rachel era um judeu que, como o Haroldo falou, era um grupo bem específico, que também gostaria de deixar claro que era um grupo dos místicos, que vocês diriam dentro do espiritismo médio, e que no movimento católico seriam os carismáticos, no movimento evangélico os pentecostais, quer dizer, são pessoas que recebem mensagens, acreditam que a fonte dessas mensagens é Deus mesmo, através das mediações que sejam possíveis, como se chama no ambiente católico e evangélico de Espírito Santo, o Espírito Santo é o principal veículo dessas mensagens.
Bom, então o Rachel é desse movimento que se volta para o serviço ao outro, porque se sente, antes de tudo, amado e em comunhão com o Divino, com Deus. E por que estão em comunhão com Deus? Porque Deus se comunica com eles, porque existem essas revelações, e eles se voltam para o outro. Então, faz parte de um fluxo, na verdade. Eles se sentem atingidos por uma luz, e porque se sentem atingidos por uma luz, eles se voltam para iluminar os outros. Então, eles acreditam que há diversas necessidades no mundo, para aqueles que têm a necessidade material, eles se voltam para ajudá-los materialmente, mas eles nunca ajudam só materialmente, então eles procuram também elevar a pessoa a uma dimensão espiritual mais profunda.
Então, eles sempre educam, eles sempre falam sobre Deus, e eles entendem que esse fluxo de luz, eles são herdeiros dos profetas, então eles entendem que esse fluxo de luz que chega até eles, que é a revelação, porque a palavra revelação significa tirar o véu, tirar o impedimento para ver, comunicar-se. Então, eles acreditam que essa iluminação que eles recebem, eles entendem essa comunicação, ou como você diria, essa mediunidade, como uma iluminação. E eles sentem que isso é possível, porque o ser humano foi criado como centelha divina, então ele é uma fagulha, é uma faísca, e, por isso, essa luz pode atingi-los e aumentar a luz que o ser humano já recebeu ao ser criado, o espírito humano.
E que todos os seres humanos são centelhas divinas, mas que alguns têm essa chama já mais profunda, uma chama maior, que pode iluminar mais outros. E seria assim, como no ambiente católico a gente faz na Páscoa, tem uma vela bem grande que se chama Sírio Pascal, e cada pessoa que vai à missa leva uma pequena vela, e os primeiros acendem no Sírio Pascal, e depois eles vão passando a chama para o outro. É baseado no prólogo do Evangelho de João, que a luz ilumina o mundo. Então, acreditam que a missão do cristão é passar um pouco da sua luz para a luz do outro.
Então, cada um leva uma vela e vão passando aquela luz. E aqueles que estão com a chama quase apagando, eles recebem uma luz maior para permanecerem sempre iluminados, iluminando os outros, iluminando o mundo. Então, o movimento racídico do qual o Richard pertence, que são herdeiros dos profetas, eles acreditam que é porque Deus, como Deus é amor, porque eles acreditam nisso, porque se sentem amados. Então, quando a gente vivencia a experiência de amor, a gente não tem dúvida de que é amado. Então, o verdadeiro amor é explícito, não há máscara no verdadeiro amor.
E aí, quem ama se envolve com o ser amado, com o destinatário do amor. Então, se Deus é amor e nos criou, Ele está profundamente envolvido afetivamente conosco. E Ele, então, se está envolvido em um relacionamento conosco, aquilo que nos acontece afeta Deus de alguma forma. Então, ser afetado, estar envolvido e ser afetado, é o que a palavra grega pathos, com língua odental, significa. No latim, deu a palavra paixão. Então, a gente fala a paixão de Cristo. E aí, as crianças da catequese dizem assim e por que Cristo estava apaixonado?
Então, porque a palavra paixão quer dizer a pessoa está afetada, se deixou envolver afetivamente e está afetada com o que se passa com o outro. Então, Cristo, porque nos ama, Ele está envolvido afetivamente conosco e a nossa situação de pecado, de imaturidade, de pouco desenvolvimento espiritual, o afeta. Ele se sente preocupado. Ele sente que deve fazer algo. Quer dizer, a forma como nós agimos, como qualquer pessoa que ama, qualquer ser que ama, está envolvido, é afetado pelo que acontece com o outro, aquele que é o ser amado.
Então, Santo Agostinho falou certa vez, não estou lembrada agora, o endereço de onde está, mas ele falou que, respondendo a essa questão de que disseram que ele falou sobre isso, o patos de Deus, e foi criticado. Então, ele foi criticado porque as pessoas pensam sempre em um Deus que é mais uma descrição de Deus, feita por Aristóteles, que não está errada, mas também não está completa. Não está errada porque Deus é a casa primeira, a inteligência suprema, é o primeiro motor que move tudo. Mas não é só isso. Além disso, Ele é alguém que nos ama.
E isso Aristóteles não conseguiu chegar a nenhuma conclusão, a essa conclusão. Então, Agostinho disse que pensar em um Deus que pode, de certa forma, sofrer, não o sofrimento da criatura, mas de quem ama, sofrimento de quem ama, sofrer por amor é muito mais divino, esse Deus, do que pensar em um Deus frio, em um Deus indiferente ao que acontece com a criatura. Então, se Ele ama, de alguma forma, Ele está envolvido e o que acontece conosco o afeta. Ele está afetado por isso. Então, é isso que é a paixão. O pathos. É isso.
Então, olha, só para fazer aqui uma diferença. Se uma criança está enferma, ela tem uma dor que é própria da doença. A mãe que a acompanha no hospital tem uma dor que não é da enfermidade, é a dor de quem ama. Esse é o pathos. Por exemplo, essa história que o Geraldinho contou do Chico Xavier, as mães que perderam os filhos sentiam um tipo de sofrimento. O Chico, que amava aquelas mães, sentia o pathos. Ele não perdeu um filho, mas como ele queria bem, como ele amava aquelas pessoas, ele sentia aquela dor. Não é a mesma, mas não deixa de ser dor.
Certo? Então, é diferente a dor de quem ama. Não é menor do que a dor de quem vivencia uma dor física, uma dor psicológica. É diferente, mas não deixa de ser dor. E, se Deus ama infinitamente, a sua dor de amor também é infinita. É interessante, porque até trouxemos outros textos da Revista Espírita, porque, na verdade, o Heschel também teve que conciliar duas correntes do judaísmo, uma da transcendência, porque Deus é transcendente, como diz o Einstein, Deus começa onde o infinito termina. Ele está para além de tudo, mas o aspecto da imanência é esse do amor.
Ele transcende a criação, mas ele está presente ou ela está dentro dele, e esse aspecto da imanência é uma visão que os gregos não conseguiram perceber. Porque eles estavam se achegando a Deus via razão, simplesmente. A razão os levou para pensar Deus, para considerar a existência de Deus, os atributos de Deus. Então, eles não estavam longe da verdade, mas eles não tinham aquilo que Heschel chama de insight, que vocês chamam de mediunidade, que é aquele falar, aquela revelação, aquela intuição, aquilo que acontece que levou Heschel a fazer essa tese.
Ele fala o que acontece com os profetas, por isso a tese é sobre os profetas, e ele definiu o que acontece com os profetas como um insight, algo que está bem dentro e que ele sabe, que deve comunicar, que ele sabe que deve fazer, que tem aquela coisa profunda, e que o levou a fazer uma tese de filosofia numa universidade secular sobre os profetas, dizendo que todo ser humano tem isso, todo ser humano tem o insight, tem aquela comunicação, alguns têm isso enquanto profetas, é mais profundo, ela é mais forte, mas todos têm, mas cedo ou mais tarde as pessoas sabem dentro de si o que é vontade de Deus, o que não é vontade de Deus, o que tem que fazer, o que não tem que fazer, se eu agir ou errado, se não agir ou errado, que as pessoas chamam de consciência, mas Deus fala através da consciência, então é na consciência que ele atinge, ele nos atinge, e que eles chamavam de centelha divina que está no espírito humano, que reflete Deus, e que essa luz deveria se expandir mais e mais, essa chama, ela deveria deixar de ser uma simples centelha e se tornar um incêndio, um coração que arde como disse lá o evangelho de Lucas no final, quando menciona os discípulos de Emmaus, que eles não reconheceram Jesus ressuscitado, mas o coração deles ardia, estava em chamas, que o levava a perguntar quem é este que está caminhando conosco, então ele fez essa tese de filosofia para falar sobre o ser humano, e teve a coragem de pegar um tema da tradição judaica, que é a profecia, e falar disso racionalmente, somente a luz da razão, e foi muito bem considerado, por isso que ele moveu tantas pessoas, ele é apreciado pelo protestantismo, pelo catolicismo, porque ele fala do ser humano, o ser humano que está em comunhão com Deus, essa comunhão é um cordão umbilical, às vezes esse cordão é muito teno, ele é um fio tão tão teno que ele é um tris, como um fio de cabeça, mas às vezes ele é algo extraordinário, muito profundo, muito seguro, que nos leva realmente a uma comunhão muito profunda com Deus, então é por isso que Heschel sempre falava disso, e nossa se a ação de Deus é pátria, a nossa é simpática, quer dizer, é isso, que nós reagimos a essa comunicação de Deus, a esse amor de Deus, nós reagimos, então às vezes a nossa reação é muito egoística, e nós reagimos gastando toda nossa energia negando que ele existe, mas estamos reagindo, então isso seria antipatia, isso seria uma antipatia do ser humano em relação a Deus, o ser humano negar-se a receber o amor, a receber a comunicação, a receber, ela existe, ela não vai deixar de existir, essa luz vai fluir de Deus para o ser humano e vai atingir o ser humano, e ele vai colocar assim um espelho e não vai deixar atingi-lo, e vai dizer assim, volta pra lá, como a gente faz com o sol, a gente é criança brincando com a luz do sol, e vai bater essa luz de Deus nesse nosso bloqueio, nessa nossa armadura, e ela não vai atingir o âmago do ser, então isso é antipatia, quer dizer, eu rejeito, e gasto as minhas energias com isso, e tenho que gastar muita energia, porque essa luz é forte, o amor é intenso, o amor de Deus é mais intenso do que a gente vê assim, no ambiente que a gente mora, mães que os filhos estão no tráfico, ou estão na dependência química, elas amam e amam aqueles filhos, e só recebem palavras grosseiras, até violência física, mas eles podem bater, podem fazer o que quiser com elas, mas elas nunca vão deixar de amá-los, então tem que conviver com o fato de que elas os amam.
Então, da mesma forma, esse gasto do ateísmo, é uma reação contrária a essa luz que vem, então eu não quero ser atingido por ela, que João chama de as trevas ou rejeitar, ele deixa bem claro. Então, são as trevas tão intensas, tão densas, mas a luz vence as trevas sempre, ela vai devagarinho, devagarinho, e, se nós estivéssemos todos aqui no escuro, e alguém riscasse um palito de fósforo, ela já iluminaria alguma coisa. E o outro é o que diria Tereza, eu deixo-me atingir pela luz, mas eu deixo-me atingir só as moradas superficiais.
Alguns apartamentos, se a Tereza comparou com um castelo, vamos comparar com um prédio de vários apartamentos, alguns apartamentos desse prédio permanecem no escuro. Então, é a hipocrisia religiosa. Todo mundo acha que eu sou uma pessoa iluminada, mas a área da minha vida que eu deveria deixar a luz brilhar mais intensamente, isso aí eu não permito. Eu deixo aquelas moradas superficiais, porque aí as pessoas veem primeiramente a superfície e elas pensarão que eu sou uma pessoa muito iluminada. Mas aí, na convivência, se elas conviverem um pouco comigo, elas verão as minhas reações e verão que eu não sou uma pessoa iluminada como eu aparento.
As áreas principais do meu ser permanecem ainda no escuro. Eu coloco barreiras em algumas áreas. Então, a pessoa é muito religiosa, mas o insight não se… não acontece de fato, porque essa luz está vindo de fora para dentro. Aquela área que o âmago do ser humano que o Inácio de Loyola, fundador do Jesuíta, dizia que é o âmago do ser humano. Quando ele não… ele é dado a Deus, quando a gente não deixa Deus agir naquela área que é central na nossa vida, então a gente, na realidade, não é uma pessoa religiosa, mas um idólatra.
Nós temos ídolos. E o outro é a pessoa que vai se deixando essa luz entrar em todas as dimensões. Em algumas áreas ela é mais forte, em outras áreas ainda precisa ser iluminada mais. Mas está em todas as… E o outro são os nossos santos, os santos de vocês, como Chico Xavier. Isso é uma explosão de luz de dentro para fora. Então, é mais ou menos assim. A nossa reação é simpatos, que no latim se chamaria compaixão. Nós temos compaixão. E compaixão é sentir com. É a reação que eu tenho ao amor que eu recebo. Então, se eu reajo bem ao amor de Deus para mim, eu amo o outro.
Então, eu me entrego pelo outro, eu me dou, eu me envolvo, eu me canso por causa do outro. Então, ele acontece, a compaixão, a gente sempre pensa que compaixão é ter piedade do outro, ter pena do outro, misericórdia do outro, porque a gente vê que a pessoa que sente compaixão, ela age em favor do outro. Mas, na realidade, a compaixão é a mesma coisa que a simpatia. Simpatia em grego e compaixão em latim. É sentir com Deus. Eu sinto com Deus e o que Deus sente? Amor por todos. Então, o que eu sinto por todos? Amor. Isso não lembra, Maninha, olhando a parábola do bom samaritano, Lucas 10, 73, que tem um verbo lá que é interessante, porque, quando ele vê o homem caído, o texto, alguns traduzem assim, ele compadeceu-se, outros, moveu-se de íntima compaixão.
O interessante é porque está em uma voz passiva. Alguns comentaristas dizem, também, que é o passivo divino que tem no Evangelho. Quando Deus está agindo dentro e, aí, usa-se a voz passiva para expressar essa ação. Mas, é interessante, porque a pergunta do doutor da lei era sobre amar a Deus. E, aí, Jesus conta a parábola do samaritano de um homem que compadeceu-se. O mais interessante da parábola do bom samaritano que, às vezes, nós não conseguimos atentar é que o homem está caído e foi retirado tudo, inclusive as roupas.
E, naquele ambiente, as vestes diziam da pessoa. A indumentária dava a identidade da pessoa. Se é rico, se é pobre, se é judeu, se é samaritano, se é grego, se é romano. Se é rico, se é pobre, se é sacerdote, se é pagão, de que religião seria. Mas, o homem não tem nada. Ele foi retirado tudo, inclusive as vestes. Então, ele é um anônimo. Ele é alguém que, até a parábola terminar, ninguém sabe quem ele é. Então, ele é o outro. Ele é o outro indefinido. É interessante que eu estava numa mesa redonda sobre essa questão do outro, que, na filosofia, chamamos de alteridade.
Porque, alter, em latim, é o outro. Então, a outra idade é a alteridade. Então, estávamos conversando sobre a alteridade. E, Tinha umas pessoas especialistas no pensamento de Emmanuel Levinas, que é judeu também, filósofo judeu. Então, ele trabalha muito essa questão da alteridade. Mas, aí, tem um jovem que estava estudando Sartre. Então, ele reagiu e falou que, quando a pessoa é muito religiosa e ela faz o bem, ela não tem liberdade. A liberdade dela é tolhida. Então, eu me lembro de ter usado a parábola. Eu disse, vocês me desculpem, porque o ambiente é filosófico, não é teológico, mas, no judaísmo, a decisão de Amar o outro, de fazer o bem, ou voltar-se para a alteridade, é uma ordem divina, e uma decisão do judeu em cumprir essa ordem divina.
E vamos pensar numa parábola de Jesus que reflete bem isso, porque essa parábola foi contada a partir da pergunta, o que é amar o próximo, que é amar a Deus e amar o próximo. Então, Jesus explicou numa parábola, e nessa parábola é o samaritano, ele é livre ou ele não é livre quando ele faz o bem. Então, vamos pensar naquilo que o jovem falou. Quem faz o bem, está com a liberdade tolhida. Ora, se eu fizer o bem porque a pessoa vai me agradecer, eu sou condicionada pela gratidão. Então, eu não estou totalmente livre, tem uma condição.
A minha liberdade não é incondicional, há uma condição. É que a pessoa me agradeça. Se eu faço o bem porque a pessoa tem bens materiais e eu vou de alguma forma lucrar com isso, ou que ela vai me convidar para a roda de amigos, então a minha liberdade está condicionada pelos bens materiais que a pessoa possui. Se eu faço o bem a alguém da minha religião, então eu também estou com a minha liberdade condicionada. Se eu faço o bem porque acredito que com isso eu vou ter uma situação melhor na vida espiritual, a minha liberdade está condicionada, não está incondicional.
Agora, se eu encontro uma pessoa caída, eu sou um samaritano, então eu não tenho na minha religião nada que me diga que se eu fizer o bem a ele, eu vou para o céu, não tem. Então, não é por isso. Então, eu não faço o bem a ele porque ele é rico, eu não sei se ele é rico. Eu não faço o bem a ele porque ele é samaritano, eu não sei se ele é samaritano. Eu não faço o bem a ele porque ele é bom, eu não sei que ele é bom, como é que eu vou saber se ele não é um bandido que entrou numa briga com outro bandido e foi ferido, eu não sei.
Eu não faço o bem a ele porque ele tem bens materiais, eu não sei se ele tem. Eu não sei nada sobre ele, eu não posso identificá-lo de forma alguma. E mesmo assim eu fiz o bem, então eu sou totalmente livre. Quando nós fazemos o bem sem condições, nós somos totalmente livres, porque não há nenhuma condição me empurrando, me movendo a fazer o bem. Entende? Então, isso aí é ser bom, fazer o bem porque é bom. Não é por nenhum outro motivo além do fato de ser bom. E é bom porque se sente amado por um Deus que ama incondicionalmente.
O amor de Deus a nos atingir é uma frase do meu pai, deixa o nosso coração derretido igual manteiga. O amor de Deus quando nos atinge, essa luz, esse calor, ele nos derrete, aquele nosso coração de pé e nos faz bom. Fazer o bem por pura bondade, às vezes, recebendo a ingratidão em troca daquele bem que foi feito. Então, isso é a verdadeira simpatia, uma reação ao amor de Deus que é amar, amar a Deus, corresponder ao amor de Deus e amar aquele a quem Deus ama. E Deus ama a todos incondicionalmente. É ser tão livre quanto Deus é livre.
Eu acho que a liberdade, o fazer o bem, cumprir o dever de amar, porque é interessante que para o judaísmo é um dever, é uma norma. Quando os judeus fizeram a aliança com Deus, os judeus disseram para Moisés, Moisés disse assim, Deus vai falar, ele vai dizer as normas dele. E o povo respondeu assim, nós obedeceremos e ouviremos. Que é a coisa mais interessante, que deixa os estudiosos loucos, porque que não diz, nós ouviremos e obedeceremos. Nós obedeceremos e ouviremos. Ou seja, primeiro eles tomaram a decisão de obedecer.
Agora que eu já estou com a decisão de obedecer, eu posso ouvir o que ele vai mandar. Porque eu já tomei a decisão prévia de obedecer. Isso aí é que o dever nos deixa livres, ele é uma decisão. Então, os teóricos, tanto o Rachel quanto o Levinas, o Manuel Levinas, diz que nós devemos tomar a decisão prévia de amar o outro. O outro que eu não sei quem é, o outro indefinido, eu amo o outro. E no meu dia a dia, eu vou ver o rosto do outro. O outro vai ter rosto quando eu encontro o Geraldinho, quando eu encontro você.
Então, o outro vai estar ali. Então, quando eu o encontro, eu apenas exerço aquela decisão prévia que eu já tomei de amar. Aí acontece, efetivamente, aquilo que eu já tinha decidido antes. Então, isso é importante no diálogo interreligioso. Porque eu já tomo a decisão de amar o meu irmão, que é de outra religião, seja qual for, antes de conhecê-lo. Então, quando eu o conhecer, aí vai apenas se efetivar aquilo que eu já decidi. Porque eu já estou previamente decidida a amá-lo. E se ele reagir de forma errada a esse meu amor, aí isso aí não é problema meu.
Eu vou continuar amando, porque Deus também o ama. Então, o dever de amar, ele realmente nos liberta. E a decisão de amar, incondicionalmente, nos liberta. E é o contrário do que prega algumas correntes da modernidade. De que fazer o bem, de que cumprir dever, de que se doar para o outro, que isso nos tolha a liberdade. É o contrário. O egoísmo nos escraviza. O amor nos liberta. O amor incondicional, a doação pelo outro, isso nos liberta. Nos liberta daquilo que mais nos escraviza, que é o egoísmo. Puxa, estou dizendo coisa muito grave.
Espero que hoje faça. Eu também. Parece que, você estava falando da modernidade, ele fala, também, da crise. Dessa crise, hoje. A modernidade trouxe o avanço da ciência e da tecnologia mas, inclusive, esses filósofos judeus nos dizem que o judaísmo vai na contramão do que a modernidade prega em relação a essa coisa da liberdade. Porque o judaísmo, nós podemos dizer que o cristianismo, nós que somos cristãos, quando aprendemos com Jesus essa lei do amor que não é mais amar o próximo, simplesmente, mas amar como eu, está no Evangelho de João.
Acho que é porque eu convivei com Geraldinho o dia inteiro. Ele gosta muito do Evangelho de João. Estou lembrando. Então, amar como Jesus amou é sacrificar-se, é colocar-se no lugar do outro e sofrer por ele. Não é só sofrer com ele, mas até por ele também. É uma renúncia. Jesus não precisava sofrer por ele mesmo, não. Se ele sofreu, foi por nossa causa, porque nos ama, porque quis nos substituir e quis nos amar até o fim, mesmo quando nós o rejeitamos. Então, a modernidade trouxe o avanço da ciência, o avanço da tecnologia, isso é ótimo.
A razão humana chegou a um grau profundo de desenvolvimento. Mas o pensamento da modernidade sobre a liberdade é confuso, porque o pensamento da modernidade sobre a liberdade marcou, inclusive, o capitalismo atual. Ele diz assim, a minha liberdade termina onde a sua começa. Quando diz isso, ele está dizendo assim, se eu quiser ampliar os limites da minha liberdade, eu tenho que diminuir a sua. Então, nós somos concorrentes. Então, nós somos concorrentes, porque se a sua liberdade limita a minha, eu vou querer aumentar a minha e, para isso, eu tenho que diminuir a sua.
Alguém tem que perder. Então, nós nos tornamos concorrentes na liberdade. E, aí, o que acontece com o que diz a Escritura? É o contrário. A minha liberdade, quanto mais liberdade eu tiver, mais liberdade você terá. Nós não concorremos com liberdade. A sua liberdade não limita a minha, não. A sua liberdade aumenta a minha liberdade, porque quanto mais livre você for, quanto menos egoísta você for, mais livre você é. E, quando você é menos egoísta, você faz tudo para que eu me desenvolva, para que eu cresça, para que eu seja livre.
Então, às vezes, eu sou uma pessoa muito oprimida. E, aí, vem você que não está marcado pelo egoísmo. Então, vamos pensar naquelas pessoas, já que tive o dia inteiro na casa de Chico Xavier, aquelas pessoas que Chico Xavier ajudou. Ele era uma pessoa que era livre. E todas as pessoas oprimidas que chegavam perto dele se desenvolveram, cresceram na liberdade, venceram seus barreiros, seus bloqueios, se expandiram, se desenvolveram, evoluíram. Onde a pessoa é verdadeiramente livre, vai diminuir a liberdade do outro? Nunca!
Isso é… A pessoa que é verdadeiramente livre traz liberdade para o outro, aumenta a liberdade do outro. Então, nesse sentido, aquilo que ensina o judaísmo do amor ao próximo, e o que ensina Jesus do amar como eu amei, está na contramão do ensinamento da modernidade sobre a liberdade. Então, o que acontece na pós-modernidade, agora que ninguém sabe direito o que é, mas temos que ir pensando. Então, é como a música do Lulu Santo, o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Ele definiu a pós-modernidade numa moedinha e ela está sendo estudada, porque o sociólogo Zygmunt Bausch diz que a pós-modernidade é a fluidez do tempo, ele escorre pelas mãos.
Então, a gente tem que se permitir, a gente tem que viver, a gente tem que se divertir, porque daqui a pouco, isso aqui já passou, e o que eu tenho é isso mesmo. Então, o que as pessoas têm? Elas têm um relativismo. Então, às vezes, na comunidade religiosa, como ele falou, eu sou mata superior, não respondo muito bem ao protótipo. Fazer o que? O mundo está mudado. O mundo está mudado. Então, as pessoas dizem assim, cadê as vocações, cadê as noviças? Então, tem conto, todas as matas superiores, todas preocupadas com o esvaziamento das grandes congregações, e eu disse exatamente o que eu vou lhe dizer agora.
Não há crise de vocações, há crise de convicções, de manter os compromissos assumidos. As pessoas têm dificuldade de manter o casamento, de manter-se padre, de manter-se freira, de manter-se num grupo de oração, de manter-se num centro espírita. Elas ficam por um tempo. Aí entra uma crise de convicções. O tempo voa, amor. Os compromissos vão. Então, as pessoas vão para outra coisa. Então, elas têm crise de convicções, elas não conseguem manter o compromisso, elas não conseguem pensar num compromisso definitivo. Elas acham que eu devo me comprometer por hoje e, amanhã, eu já tenho que estar em outra.
Mas, isso, o ser humano não é assim, porque o ser humano é espírito imortal, dizem vocês. O ser humano é espírito imortal. Então, ele é permanente. Ele não é de estar, a cada hora, fazendo… Ele é ele e se expressa de diversas formas. Mas, ele apenas se expressa de diversas formas. Mas, ele é o que sou eu, diz o catolicismo, que é uma individualidade. Quando eu falecer, eu vou continuar sendo Aíla. Eu não vou perder a minha personalidade. É por isso que a gente tem os santos. O Francisco, o São Francisco, que ajudava os pobres enquanto estava aqui.
Não é possível que, quando chega no mundo espiritual, ele esqueça os pobres. Ele é Francisco. Ele não vai deixar de ser Francisco. Então, essa coisa da pós-modernidade, dessa crise de convicções, de manter-se nos compromissos assumidos, isso vai contra o que nós somos em essência. Então, nós temos planejamentos. E, nesses planejamentos, nós decidimos por coisas duradouras. Coisas que são duradouras. Então, nós temos que nos manter naquilo que nós planejamos. E realizar aquilo que nós planejamos. E realizar bem. E, quando terminar, dizer igual a Deus que viu que era bom.
Como é bom a gente olhar para trás e aprovar uma coisa que a gente fez. E dizer, olha, eu fiz o possível. Melhor do que isso. Não podia sair. Então, as pessoas, quando me perguntam minha frase, você está cansada? Eu sempre respondo, cansada e satisfeita. Satisfeita. Por quê? Porque era o meu dever. E, aí, aquele cansaço não é só cansaço. Eu estou feliz em ter realizado alguma coisa dentro dos meus limites. Não podia ser melhor do que isso. Porque sou uma pessoa limitada. E, além de limitada, sou pecadora. Mas me doei.
Fiz o meu dever e me sinto cansada. E profundamente satisfeita de ter colaborado em alguma coisa para que a humanidade não viva, como diz o Lúcio Santos também, em passo de formiga e sem vontade. Então, a humanidade… Hoje a pessoa está moderna. Essa amada está muito moderna. Se chamar de amada superior, é mortal o paradigma. Então, por que essas músicas que tentam retratar a nossa época, elas que os jovens estão cantando, elas dizem algo do que as pessoas sentem sobre o que nós estamos vivendo. E não podemos ficar alheios a isso.
Não podemos ficar na estratosfera. Somos seres encarnados. Estamos dentro desse mundo. Esse mundo tem que ser um pouco melhor depois da nossa passagem. Então, não podemos não levar a sério aquilo que está acontecendo. Aquilo que está acontecendo é um momento definitivo. Todas as religiões sentem que a coisa não está indo bem e estamos passando por um processo que vai nos tornar um mundo diferente. Isso é insight. Isso é aquilo que as pessoas estão sentindo. É uma coisa coletiva. Depois de dois mil anos de cristianismo, e mesmo os que não são cristãos sentem alguma coisa no ar e que algo está acontecendo e que vai acontecer.
Os evangelhos colocam aos altidões Jesus está voltando. Volte antes para ele. Então, sentimos que algo está acontecendo. Temos que manter as convicções. Isso não quer dizer que, de certa forma, algumas coisas ficam desgastadas mesmo que não dê jeito. Mas devemos nos esforçar para manter as nossas decisões porque planejamos as coisas. Quando planejamos, devemos chegar até o fim do planejamento. E quando ficar cansado e satisfeito por ter realizado bem aquele dever que nos foi proposto. Nós participamos disso. Deus tem um propósito, um plano para nós, mas esse plano não é só de Deus.
Mesmo dentro do catolicismo se diz isso. O propósito de Deus também é um propósito meu. Eu participo, eu colaboro com Deus porque é um propósito para a minha vida. Ele não fez um plano para eu seguir sem que eu tivesse a participação nesse plano. Eu colaboro com Deus no plano da minha existência. Eu colaboro. Ele não vai decidir tudo e me programar como alguém programa uma máquina, um sistema para funcionar automaticamente. Não! Nós temos livre-arbítrio. Nós tivemos participação nesse plano e por isso a gente deve assumir bem esses compromissos.
Nos cansa, mas nós ficamos livres. No final a gente só sente que está cansada. Satisfeita! Eu acredito que é assim. Não sei se também estou falando certo, mas é isso que eu sinto. Por isso que a gente está, agora, estudando sobre a posmodernidade. Eu não falei nada. Você foi aí. Você engatou a quinta. Falta falar disso aqui. O Zorra. Eu tinha falado de Tereza. Não vai dar tempo? Não vai dar tempo, não. Cinco minutinhos. Vixe! No judaísmo, tem um movimento que se chama Kabbalah, que não é a Kabbalah da Madonna. É a mística, quer dizer, a mística não é o misticismo.
Misticismo é aquela coisa ingênua. Mística quer dizer ao pé da letra entrada no mistério. Algumas pessoas veem o mistério de dentro. Ou então, o mistério está dentro delas. Então, aquilo que é mistério para nós, que é o desconhecido, para elas está revelado. Não é oculto a elas. Então, chama-se a isso mística. E Tereza, é neta de judeus. Então, ela ajudou muito. Inclusive, eu escrevi um artigo bombástico, mas, ainda não foi publicado. Mandei para a revista, ainda não saiu. É um estudo sobre Tereza, Dabla e a Kabbalah, a Kabbalah judaica.
Então, a Kabbalah judaica é a mística. Ao pé da letra, a Kabbalah significa o recebimento. Eles recebem as comunicações, recebem as tradições. Então, o principal livro da Kabbalah chama-se Zohar. Zohar, ao pé da letra, quer dizer resplendor. Eles entendem que o místico é o reflexo, resplandece a luz de Deus que passa através pensamento e vida puro. E, aí, a gente está estudando aquele grupo. Eu fico só lendo as coisas que Lenita escreve. Está bonito. Então, Tereza é herdeira dessa tradição mística. Ela diz que a luz passa por todas as áreas do castelo, que é o espírito humano.
Melhor, é a alma, o espírito vivente aqui nesse mundo. Nós somos diversas dimensões, diversas áreas, os afetos, a família de origem, a família que se constitui, a igreja, o centro, etc. Então, nós somos diversas dimensões e essas dimensões têm que ser perpassadas pela luz. Agora, há uma dimensão muito profunda em nós que ela chama de a sala do trono, que seria o centro do nosso ser. E, aí, nesse centro do nosso ser, a sala do trono, esse lugar tem que estar totalmente iluminado. Nós temos que deixar que Jesus o ilumine.
E, aí, Ele pode resplandecer pelas outras áreas e pode resplandecer para todas as pessoas. E as pessoas que estiverem em contato conosco serão iluminadas por esse resplendor que vem de Deus mesmo. A fonte da luz é o próprio Deus. E, para ela, essa fonte é o próprio Deus criador que se manifesta dentro do indivíduo. E que isso é possível pela própria atividade de Jesus na Terra. Deus deu a oportunidade de, cada vez mais, nos deixar resplandecer por isso. Então, é isso que ela diz. E, para isso, ela acha que a gente deve não deixar que os nossos sentidos externos nos distraiam.
Por isso, quando ela ora, ela vai interiorizando. E não é como as pessoas pensam que ela está fugindo do mundo, mas ela está se esquecendo do ouvir. Ela não está ouvindo o ônibus que passa. Isso não a distrai. Nem está sentindo o tato da cadeira, nem das vestes que usa. Não está sentindo o cheiro de nada. Ela vai esquecendo os sentidos externos e desenvolvendo os sentidos internos. E ela desenvolve tanto os sentidos internos que… êxtase. É muito comum nos místicos, nas pessoas que têm essa comunhão profunda. E aí há uma identificação dessa pessoa com o próprio Cristo.
Há uma comunhão tão intensa que as qualidades do Cristo… A pessoa fica impregnada pelas qualidades do Cristo. Em alguns místicos, isso se torna visível no corpo pelos estigmas. As chagas. Em outros, é aquele odor do Cristo. Aquela presença. Há uma comunhão tão forte entre a pessoa e o Cristo que a pessoa fica impregnada de Cristo. E nasce esse agora, não é de Loyola, é de Antioquia. Chamava isso de Teóforo. Teóforo é portador de Deus. Que traz Deus dentro de si. Que carrega Deus consigo. Que carrega a presença de Deus consigo.
É isso, maninha. É isso que eu vim falar. É E fim. É sim, sim. É sim, é sim. É sim, é sim. É sim, é sim. É sim, é sim. É sim, é sim. É sim, é sim. É sim, é sim. Você ainda fez uns discursos aí. Olha aqui, falei tudo que está na coleira. Essa é a cola dela. Que é mínima, né? Não, eu sabe aqueles já terminou aí, né? Não, mas ele terminou de gravar, não? Todo mundo te ouvindo. Então, mas, o que eu ia dizer, eu digo assim mesmo, é que eu vou para a minha aula com aqueles, tem aqueles bloquinhos de papel autocolante, aí eu escrevo lá tudo que eu não posso esquecer.
Empatia, simpatia, insights, honrar, tereza, sentido, dever, liberdade, crise de convicções. Escorre pelas mãos, amor. De sete e meia às nove e dez, é a aula que, aí as pessoas iriam assim, é, Quando eu pego o papelzinho e olho assim, falando de aula, eu ligo o papelzinho amarelo para a gente não se distrair do essencial, ficar no essencial. E, o demais, aí é com o Espírito Santo que diz na hora, deixar o espaço para ele. Então, muita coisa que eu falei aqui não está no papelzinho, é que a gente acaba sendo uma ouvida a falar, um prece à voz e Deus age.
Deus misericordioso age. Isso serve para mim também, tudo isso, principalmente. Amém! Amém!
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.
Respostas