O que nasce em nós depois que alguma coisa se perde? A vida nem sempre muda pedindo licença: às vezes ela muda quando alguém parte, quando um sonho se interrompe, quando a saúde vacila, quando uma relação termina ou quando uma certeza desaparece. Neste episódio do PodSER, conversamos sobre dores, perdas e lutos — e sobre aquilo que, mesmo diante da ruptura, ainda pode renascer.
Partindo do olhar espírita e também da ciência, o grupo reflete sobre a dor como convite à transformação: reconhecer as cicatrizes, respeitar o próprio tempo e descobrir que reconstruir não é apagar o que aconteceu, mas encontrar um novo jeito de seguir.
Neste episódio
- A dor é inevitável, o sofrimento é opcional: o que a neurociência e a doutrina espírita têm a dizer sobre a diferença entre sentir a dor e se prender ao sofrimento.
- Vínculos que não se desfazem: por que os laços com quem partiu não terminam com a morte — eles ganham profundidade, extensão e novas dimensões.
- Nomear e expressar a dor: a importância da palavra, da escuta e do choro como formas legítimas de elaborar a perda.
- Empatia como ponte: a empatia que é, ao mesmo tempo, emocional, espiritual e neurofisiológica.
- Autorizar-se a viver de novo: como abrir os braços outra vez para as bênçãos da vida — e florescer — mesmo depois da despedida de quem amamos.
- O luto também do outro lado: a compreensão espírita de que os que desencarnam também atravessam o seu processo de readaptação.
Participantes
- Thiago Franklin — apresentação
- Ana Tereza Camasmie
- Júlio Corradi
- Saulo César
- Márcia Gama
- Tamires Cortat
Para encerrar
O episódio se despede com o poema “Cantiga da Dor”, de Maria Dolores/Chico Xavier, e com o tema que atravessa toda esta temporada: nascer, morrer, renascer e progredir, sempre — a certeza de que, no amor, não há abismo que não possa ser preenchido, porque o amor é imortal.
Ler transcrição do episódio
Você está no Pode Ser, o podcast do Instituto Ser. Você já conhece o Instituto Ser? É uma instituição sem fins lucrativos, espírita, com sede em Belo Horizonte, Minas Gerais. Acesse www.portalser.org e conheça nossos projetos. A de nascer, nova era de crescer, novo homem coração de quem quer servir. Olá pessoal, aqui é Thiago Franklin Estamos iniciando mais um episódio do Pode Ser O que nasce em nós depois que alguma coisa se perde? A vida nem sempre muda pedindo licença. Às vezes, ela muda quando alguém parte, quando o sonho se interrompe, quando a saúde vacila, quando uma relação termina, quando uma certeza desaparece.
E diante dessas perdas, uma pergunta silenciosa começa a nascer dentro da gente. O que eu faço agora com aquilo que vivi? Toda dor carrega uma ruptura, mas talvez ela também carregue um convite. Um convite para olhar para dentro, reconhecer as cicatrizes, respeitar o próprio tempo e descobrir que reconstruir não é apagar o que aconteceu, é encontrar um novo jeito de seguir. Hoje vamos falar sobre perdas, dores e transformações. Sobre aquilo que se quebra, mas também sobre aquilo que pode renascer. Porque talvez o próximo passo não seja entender toda a estrada.
Talvez seja apenas ter coragem de dar o próximo passo. Hoje nós temos como convidados a nossa querida Ana Tereza K. Masmi, o Saulo, Saulo César, a Tamires Cortaz, a Márcia e o Júlio. Eu queria convidá-los pra poder a gente começar esse episódio. Disse uma frase do Leão Deni no Gui com o Problema do Ser. Não há abismo que o amor não possa encher, porque o amor é imortal. Bom dia, pessoal. É uma alegria estar aqui com vocês hoje, este time maravilhoso, e a minha frase é A vida é a experiência digna da imortalidade. Bom dia, tudo bem?
Essa frase é importante para mim, sem citar alguém especificamente, mas eu trabalho com isso, né? A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Bom dia, Thiago. Bom dia, amigos. Eu também Ana, escolhi uma frase do capítulo da dor, do amor, o problema do ser, do destino e da dor de Neon Denis. Nas horas de provação, se soubéssemos observar o trabalho interno e a ação misteriosa da dor, compreenderíamos muito mais a sua obra sublime em educação e aperfeiçoamento minha frase é nós temos amigos então vamos para mais um episódio do Pode Sim o céu do mundo seu net movie rené e progressê Eu vou deixar o Júlio fazer a introdução das primeiras perguntas Ele veio preparando esse podcast a semana inteira então eu vou deixar ele fazer essa abertura eu vim sofrendo com ele, essa é uma mentira eu só vou falar uma coisa, antes de você começar isso eu tô achando assim tão maravilhoso estar aqui porque assim, eu sou apaixonada pelo Pode Ser, eu assistia todos, era um momento super sagrado, como é o Pode Ser dessa ser humano, não sei o que mas de repente tô eu aqui, isso é muita coisa, sabe assim quando você assiste o programa há muito tempo na sua vida e de repente você está no programa isso é muito grandioso eu quero demais agradecer isso, essa oportunidade de estar com vocês aqui uma honra grande pro meu coração eu sou apaixonada pelo programa, essa música me deu vontade de chorar lembrei de começo é dureza é muito feliz É um abraço que eu não deixo de buscar em todos os eventos que a gente vai.
Acho que a gente não passa sem se abraçar, né? Sem trocar palavras. E de muito tempo isso. Então assim que dá a impressão que sempre esteve aqui. O Saulo também já é uma pessoa de muito tempo, né Saulo? De muita história. A gente já esteve junto falando de projetos lá. Eu não tinha… O ser nascendo O Saulo, novinho, novinho E é uma história linda Porque são pessoas que estão jornadeando com a gente E isso é relevante aqui no encontro Porque Quando a pessoa não conhece Não sabe nada, não conviveu Muitas vezes ela não consegue extrair tanto Mas o Saulo também do coração É uma pessoa que a gente não passa sem Tem muita gratidão Por muitos motivos ao Saulo E gratidão é uma coisa boa, né?
Mas vamos lá. Já que abriu esse momento mais emocional aí, deixa eu só comentar também da alegria de estar aqui com vocês, porque o ser, ele inaugurou um novo momento dentro da doutrina espírita, dentro do movimento espírita, trazendo material de qualidade, uma mídia nova. Acho que todo mundo que teve a oportunidade de ver o desenvolvimento do movimento espírita nas últimas décadas, sabe o quanto a gente deve ao ser esse trabalho que vocês fizeram e que tocou tantos corações e o que eu acho muito bom de estar aqui com vocês hoje é que existe uma dimensão que a Ana Tereza colocou muito bem da gente que era espectador, da gente que ouvia mas existe uma coisa muito profunda e que eu acho que ela é muito transformadora, que é das pessoas que participaram desse movimento, participaram essa é uma dimensão que quem está ouvindo talvez não consiga abarcar porque ela é muito profunda, ela é muito transformadora e pra gente poder estar aqui hoje falando desse tema tá com essa equipe maravilhosa isso pra gente é uma honra, é uma alegria e eu me sinto muito seguro porque eu tenho aqui a Ana Tereza que vai dar apoio pra gente nesse tema porque é uma pessoa que tem muita experiência muita sensibilidade e eu fico mais tranquilo de estar ao lado dessa querida irmã que tem uma sensibilidade e um conhecimento doutrinário extraordinário, junto com Márcia, junto com Tamires, mas eu queria dar os parabéns aqui para você ter retomado isso, porque isso certamente vai ser muito importante para as pessoas que vão ouvir, mas sobretudo para quem está trabalhando, para quem está na obra do Cristo.
Obrigado, Salvo. É interessante ouvir isso, Júlio, sabe por quê? É uma perda, né? A gente sempre ouve de todo mundo que nos procura. Eu falo quanto isso. Uma vez eu estava no ônibus, de costas, falando com o Júlio no telefone. De costas, aí uma pessoa me cutucou e falou assim, ô, o podcast tá atrasado, hein, quando é que vai entrar? Eu nem conheço a pessoa, a pessoa ouviu eu falando, eu não sei quem era a pessoa. Ela simplesmente me cutucou, falou e desceu do ônibus. Eu não sei nem se era um espírito que era. Então, assim, e muita gente vem com essa perda, cadê o podcast?
O podcast parou? Então, assim, eu acho que até pra introduzir esse assunto, É algo que é importante para a gente poder começar a nos situar, né? É, a gente podia então falar do luto, né, dessa perda do podcast, do próprio podcast. Porque parte pra todo mundo porque é um luto pra gente também que tava fazendo, né? A gente perdeu essa conexão de realizar, de fazer de tá na organização disso e a gente tá retomando, né? Eu passei a semana toda organizando a parte, a gente fala que é a parte técnica do negócio, dos feeds, de como fazer isso chegar no telefone das pessoas mudou a tecnologia toda os acessos todos mudaram, gente o podcast tem o que?
10 anos quase? Teve um hiato aí que a gente parou de fazer e muita tecnologia mudou. Então ontem, essa semana eu vim retomando, reconstruindo as coisas, os problemas todos que a gente foi deixando, foi deixando, foi deixando. E na hora que a gente precisa retomar e você vê, nossa, olha como é que ficou isso parado, olha o tempo que isso aqui parou. Aí eu fui ver os números, que o podcast continuou no ar, as pessoas baixando. Tem mais de 15 milhões de downloads do conteúdo, só de áudio, não tá nem no YouTube, nem nada.
Então as coisas estão andando ainda, as pessoas estão ouvindo, estão continuando consumindo aquele próprio material que estava lá. Então assim, nós precisamos realmente retomar, porque é um projeto muito bonito, né? A gente precisa nascer de novo, de verdade. Nascer de novo, exatamente, nos reencontrar e pensar o que eu vou fazer a partir de agora com o que nós temos, né? Então, Tiago, eu vou puxar as perguntas aqui, que são provocadoras, para a gente iniciar essa conversa, porque essa neve é tão ampla, né? Que o horário, senão a gente se…
se perde. O que é perder? Toda dor nasce de uma perda? O que acontece conosco quando algo importante desaparece? Será que sofremos apenas pelo que perdemos? Ou também pelo que acreditávamos que jamais perderíamos? E aí eu já abro pra gente conversar. Ah, então, deixa eu dar um pontapé inicial. Sim, eu acho que As dores se originam das perdas que são de várias formas, aquele texto inicial que vocês colocaram, vocês deram vários exemplos, a gente tem assim uns seis grupos de perdas principais que nos rondam uma existência inteira, porque a gente está aqui na Terra aprendendo o desapego, e o desapego só pode ser aprendido assim.
E o que a gente perde não é exatamente só aquilo que se foi. A gente também se perde um pouco de si porque a gente cria identidades com pessoas, coisas, lugares. Então quando algo se vai, a nossa identidade também sofre abalos inevitavelmente. Então a gente nunca mais volta a ser o que a gente era antes, mas podemos ser muito melhor do que éramos antes. Mas é preciso poder concordar que aquilo que se desfaz já estava na casquinha e precisava ir mesmo. A gente é que estava ali agarradão, né? Então, assim, o que deixa a gente muito aflito na hora das perdas é que a gente vai ter que reconstruir muita coisa a si mesmo, o ambiente, o entorno, a estrutura, a forma, novo sentido, novo significado.
É um grande trabalho. Por isso que eu chamo o luto de travessia. Luto não é para ser superado, não é para ser esquecido, ele é para ser atravessado, porque é essa travessia que é transformacional. E a gente vai, cada dia que vai passando, a gente vai tendo força para fazer algo mais por nós. Então, quando o Tiago estava falando aí, poxa, eu estava olhando lá, vi que a tecnologia mudou e não sou a mesma coisa. Pois é, então agora há força em vocês para poder retomar e poder fazer outra coisa. Antes disso não era possível.
Porque é isso, a gente vai se fortalecendo num tempo que não é pensado, é um tempo da alma, né? Então é um momento delicado e lindo eu acho um dos momentos mais preciosos da alma quando a gente vai pra esse lugar é isso, só um pontapé pra gente começar eu acho interessante isso que a Ana comentou porque quando a gente fala de luto sempre me vem na cabeça uma coisa assim é uma característica da condição humana E muitas vezes a gente tenta lutar contra isso, a gente tenta negar isso. No próprio processo de luta há uma fase de negação.
Mas é uma característica da condição humana. Se você não sentiu a necessidade de passar por essa travessia do luto, você não viveu a experiência humana. Porque a dor se origina do rompimento de um vírgula. E que vida triste é a vida que nunca teve um vínculo, que uma vez se rompido, não vale a pena chorar por ele. Eu costumo brincar que enquanto a gente está falando aqui, quantas pessoas no mundo estão morrendo nesse momento. E isso não nos toca do ponto de vista de um sentimento mais… Não estou dizendo que a gente não tenha a fraternidade, a compaixão, mas isso não nos toca, não vai mudar a nossa vida.
Por quê? Porque não existe o vínculo. Quando a gente fala de luto, o luto é uma resposta humana, natural e importante ao rompimento de um vínculo que existiu. Porque muitas vezes a gente tem uma tendência humana, tem até um aspecto na psicologia que é interessante, que é a ilusão do fim da história. A gente sempre tem essa ilusão de que a nossa história vai ser uma continuidade daquilo que a gente está vivendo hoje. Seja em termos de relacionamentos, seja em termos de projetos. A gente dificilmente consegue imaginar o nosso futuro muito diferente daquilo que a gente tem vivido no momento presente.
E quando a gente passa por uma perda há um futuro que se perde também a Ana Tereza colocou de uma identidade que se altera e eu acrescentaria isso, há um futuro que se perde há um sonho que se desfaz há uma estrada que a gente tinha imaginado de uma determinada forma aconteceu daquele jeito E que outras estradas vão se abrir, mas aquela que a gente às vezes tinha idealizado com tanto carinho, com tanto zelo, ela deixa de existir. E a gente não pode negar isso, a gente não pode negar que é natural e humano sentir tristeza.
É natural e humano passar pelo sentimento de dor, de luto. Porque se a gente não tem esse sentimento, é porque a gente não construiu vínculos. Só existe tristeza onde há algo de significativo que está ausente. E quando a gente pensa na característica do luto, existe uma dimensão que é coletiva, que a gente compartilha pela nossa condição humana, Nós passamos pelos mesmos padrões de emoções, raiva, negação, às vezes culpa, a culpa também às vezes está presente no luto, mas existe uma dimensão individual que é inacessível a qualquer outra pessoa.
Que é exatamente aquela que deriva das nossas experiências, de como a gente viveu a relação com aquele vinho, com aquele objeto, com aquela pessoa, com aquele projeto. Ninguém pode compartilhar isso. Existe uma dimensão muito individual do mundo que é inacessível a qualquer pessoa que esteja fora olhando, por mais que a gente se sensibilize. E eu queria encerrar falando da questão do ciclo, né? Quando a gente fala de luto, a Ana Tereza colocou muito bem o jornal, é um si. É algo que tem um começo, tem um meio, mas também precisa ter um fim.
Porque o adoecimento surge quando a gente não vive esse fim. Quando a gente não tem esse encerramento do ciclo, que é o ciclo do reconhecimento da perda, a construção de uma nova identidade, o estabelecimento de novos caminhos, e a gente fica parado, parada naquele momento. E muitas vezes, eu vou entrar num tema polêmico aqui, mas eu acho importante, muitas vezes a gente se destina ao papel do rito. Interesse-se. E aí eu queria dizer assim, a gente está em um ambiente espírita e muitas vezes as pessoas falam, ah, mas a doutrina espírita ela não tem ritos.
Calma lá, meu amigo, não é isso. Se a gente volta lá para a questão 653, o que os espíritos criticam é a externalidade, é o exterior sem nada do interior. É a adoração externa que ela não deriva de um sentimento legítimo. Em nenhum momento Na doutrina espírita, nós vamos encontrar uma crítica a um sentimento interno legítimo que se externaliza de uma forma. Não há essa crítica, né? Há crítica ao externo que é vazio. E muitas vezes esses ritos podem fazer sentido, sabe? A volta ao ponto… A gente viu isso aqui, né?
A música que nos emocionou a todos. Por que ela nos emocionou? Porque ela faz a gente reviver aquele momento, a gente faz volta naquele sentimento. Então, muitas vezes a gente ter essas pequenas estratégias para poder lidar com essa situação é muito importante. E aí, a gente lembra o quanto a doutrina espírita é uma bênção, porque ela nos mostra que o vínculo vale a pena, que nenhum vínculo afetivo se perde. Que ela é um antídoto contra o desespero, não contra a tristeza, mas é um antídoto contra o desespero. E ela também nos tira a ingenuidade, porque eu vejo entre muitos espíritas a gente às vezes acreditar que aquele vínculo com aquela pessoa, ele reduz a pessoa ao vínculo que ela tinha com a gente.
E, gente, não é assim, né? O espírito, quando chega do lado de lá, ele descobre que… Eu vou falar do meu caso, né? Minha mãe já está desencarnada. Ela continua sendo a minha mãe, mas provavelmente ela mudou de todas as coisas, né? Pode ter tido a encarnação que eu fui o pai dela, pode ter tido a encarnação que a gente foi irmão, pode ter tido a encarnação que a gente tem outros vínculos. Então, a gente não tentar reduzir, e aí esse é um tema muito espírita, né? A gente tentar reduzir… O outro que desperta para a vida imortal há exclusivamente o vínculo que ele tinha com a gente.
Aquele vínculo existe, o papel dele está ali, mas ele não é só isso. E ele tem uma visão ampla, o que explica por que muitas vezes a gente às vezes cria essa expectativa de como é que vai ser esse vínculo após a morte, mas ele não se expressa da forma como a gente estava querendo. Por quê? Porque o outro é mais. E a gente tem que sentir muita gratidão por ter construído aquele pequeno pedaço numa individualidade que é muito maior do que qualquer vinho. Saulo abriu várias janelinhas para a gente agora, e eu estou querendo ouvir algumas vozinhas que não falaram ainda antes da Ana Tereza, a Márcia e a Tamires.
O Saulo falou de vínculos, eu queria voltar na ideia das dores também, porque a gente vai chegar nesse luto, né? Mas primeiro vai ter a dor, essa dor que vem, que provoca esse processo que é o luto, que é o machucadinho, o machucado, aquilo que doeu primeiro. E a Tamires trabalha muito com a questão da dor. Ela estava falando, tem um conceito da ciência sobre dor, como é que é isso, Tamires? Da neurociência, nós temos uma doutoranda em neurociências e uma doutora em neurociências aqui na sala, viu gente? Então nós podemos explorar bastante aí.
Eu ia trazer uma outra fala sobre a pergunta que vocês fizeram, mas vou trazer então a definição que o Júlio pediu. Como eu trouxe a frase, a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. A gente entende que o sofrimento não nasce apenas do acontecimento, mas da nossa percepção de como as coisas aconteceram. E a definição mais atualizada de dor que a gente tem na ciência, que quem traz ela é a IASP, Associação Internacional de Dor, ela foi… atualizada em 2020, porque de tempo em tempo a gente precisa atualizar essas definições, eles trazem que a dor também tem essa característica.
Então, qual que é a definição de dor da IASP atualmente? É uma experiência, uma experiência sensorial e emocional desagradável. Mesmo que seja uma dor ali que você cortou o dedo, uma dor que você… romper um ligamento, ela é uma experiência, porque eu não tenho como calcular, medir exatamente como que a pessoa sente essa dor, mesmo que seja física. Então, ela é uma experiência sensorial e emocional. E eu acho interessante a gente vincular com o olhar da espiritualidade aqui, porque eu vou ter uma experiência sensorial…
mais material… e eu tenho uma experiência emocional… e a gente pode ir para o lado da percepção do espírito… da interpretação do espírito sobre essa sensação. Eu sempre vou ter essa dualidade… do que tem de componente físico… e do que tem de componente de entendimento e quando a gente fala de emocional uma vinculação do que eu entendia e eu mandei aquela resposta para os hormônios modularem é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada aí aqui a gente tem uma dificuldade imensa de continuar essa frase porque são inúmeras possibilidades eu poderia linkar aqui com os quatro itens para a gente tentar dividir essa definição é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou semelhante e associada à lesão tessidual real ou potencial Ou seja, eu posso ter uma dor, que eu sinto essa dor, por conta de uma lesão real.
Eu machuquei, eu bati, eu cortei, eu sofri um trauma. Mas eu posso ter essa experiência sensorial desagradável, emocional desagradável, associada a uma lesão potencial. Isso quer dizer, eu experiencio, eu me aproximo de uma situação que parece… uma lesão para mim, parece um conflito para mim, ela se aproxima de algo que eu vivi na infância, ela se aproxima de algo que a gente pode considerar em outras encarnações, então eu estou me envolvendo com um projeto novo, estou me envolvendo com um relacionamento novo, estou me envolvendo com uma situação em que a vida foi me levando para aquilo, Mas aquela situação me lembra, é potencial, me lembra uma situação de outra vida.
Ela pode me trazer um sofrimento, um desconforto semelhante à de outra vida. Quando a gente pensa em perdas, dores relacionadas a perdas, lutos, a gente pode ir por um caminho de entendimento de perda de possibilidade de vida, né? E quando a gente fala de perda de possibilidades de vida, a gente envolve instinto de sobrevivência. Se a gente precisa de encarnar para evoluir, eu preciso me manter aqui encarnado o máximo de tempo possível para experienciar o que eu preciso experienciar para evoluir. E aí, quando eu tenho essa sensação de perda de vida, tem um sofrimento.
Pode ser ter perdido a vida de alguém, E aí eu perco as possibilidades de vida com essa pessoa. Me traz um sofrimento por conta dessa sensação de vida, que eu preciso me manter vivo para evoluir. Instinto de sobrevivência. E aí isso impacta nos nossos órgãos relacionados à vida, a parte respiratória, tem linhas de estudo que relacionam as doenças da parte respiratória com esse sentimento de tristeza, quando eu não consigo colocar vida. E eu gosto muito da simbologia que eu ouvi numa fala uma vez que Deus é como se fosse cuidando da gente com um cavalinho, tem um cabris, coloca a gente para se alimentar em determinado lugar.
Quando acaba aquele alimento em determinado lugar, ele vai lá e troca o cavalo de ambiente. O dono do cavalo não vai deixar ele num ambiente que não tem comida para ele estar cuidando dele. Mas aí quando a gente é trocado desse lugar que a gente está acostumado, a gente sente essa perda de vida, como que eu vou sobreviver ou viver em outra situação, como que eu vou viver sem essa pessoa, essa falta de vida de possibilidade de vida aí eu tenho que me reinventar me reconstruir me reencontrar nessa nova situação, mas é onde a gente nasce de novo bacana, eu queria fazer uma provocação aqui a Marcia, ela é fonoaudióloga né?
Então assim, depois de uma perda, muita gente silencia, né Márcia? Muita gente silencia, perde a própria voz. Qual que é a importância de dar nome à dor? Encontrar uma forma saudável de comunicar o sofrimento. Como é que você pensa isso dentro da sua área de atuação como fundo de obra? Antes de responder você, eu só fui anotando aqui algumas ideias que vocês trouxeram. Muita coisa boa, né? Nossa! Muitas janelas aí, como o Júlio disse. Eu quero dizer que vim digerindo, já faz duas semanas que estou digerindo aqui esse material.
O que ficou para mim é que do mais importante de tudo que a Ana e o Saulo disseram, que para mim ficou muito importante, tocou meu coração. É como um rito de transformação. Inícios e fechamentos de ciclo e que quando a gente entende isso como uma possibilidade de aprendizado isso a doutrina nos traz muito forte como esse rito de transformação a gente consegue olhar quase com uma beleza A gente usou a arte para falar sobre dor e luto. A gente trouxe o querido Portinari. Então quase que a gente vê uma beleza no que se transformou depois.
E descobriu o potencial que estava dentro da gente, que às vezes a gente não conhecia. Nossa, esse aqui não sou eu, como que eu consegui passar tudo isso? E conseguir fazer tudo isso… nesse rito de transformação, né? E aí, como a Tamiris trouxe a questão do sensório, né? O Leão Deni também coloca no problema do ser, do destino e da dor a questão do sensório físico, que faz esse transporte entre as sensações do corpo e as sensações do espírito, né? Faz esse trânsito e E aí a gente, vamos pegar aqui o exemplo do Tiago, alguém que entra em luto, alguém que entra num trauma, pode perder a voz.
E se a gente for pensar que a voz é a grande identidade do ser humano. A gente pode não estar com a pessoa, mas a gente a reconhece de longe pela voz e não precisa ver. Mas ouvir a voz, a gente sabe que o bebê já é acalentado no feto, já com as ondas sonoras, mesmo que distorcidas por conta do líquido amniótico, ele escuta a voz da mãe e a reconhece logo após o parto. As pesquisas mostram. A voz é uma expressão muito significativa. E ela transporta toda uma vibração, Emmanuel tem textos maravilhosos falando sobre isso, da vibração que as palavras produzem.
Então, realmente, perder a voz ou alguma outra consequência física é muito natural e é muito significativo, né? Por conta desse momento em que eu entendo que a pessoa fica ali não encontrando saídas, né? E se encontrando sem forças. E por isso ela perde até a própria voz, né? E retomando um pouquinho também o que a Tamires falou, né? Estava falando um pouquinho com o Júlio esses dias e a gente se lembrou também da questão, por exemplo, do membro fantasma. Não é? Então, assim, alguém parte, por exemplo. A gente pode ficar com aquele fantasma da presença da pessoa.
Ou essa pessoa pode nos acompanhar. A lembrança, né? No sentido da lembrança dela, né? Das coisas que foram vividas, coisas que não foram resolvidas. Processos de perdão, muitas vezes. E aí é como se a gente ficasse como um amputado com essa sensação Não é, Tamires? Do membro fantasma que fica ali nos assombrando e a gente precisa tomar muito cuidado com isso, né? Ué, eu tenho muita coisa pra falar, porque cada um vai falando e vai despertando 50 coisas, não é? Então, eu queria começar sobre o ritual, que foi quando me deu vontade de falar.
Foi quando o Saulo falou sobre ritual, né? Os rituais, eles dão sustentação pra essa travessia. Não só pra quando a gente perde um ente querido. Os rituais que acontecem quando a gente casa, quando nasce um filho, quer fazer um enxoval, é um ritual, né? Então a gente precisa dessas ações comunitárias junto com os outros para a gente poder ter sustentação para atravessar. Ela não se dá aqui na minha cabeça. Quando uma pessoa morre, quando ela falece, quando ela desencarna, ela também está mexendo não só comigo que tive o laço mais próximo, mexe com todo um coletivo.
E a maneira que esse coletivo cuida, lida e atravessa é através dos rituais. A gente precisa do ritual, inclusive, para conseguir acreditar que está acontecendo. Eu tinha uns 19 anos quando meu pai faleceu. Eu fui ao enterro do meu pai, estava tudo certo. Quando acabou o dia, eu estava em casa, eu tinha a impressão que ele ia entrar pela porta ali. E eu mesma ficar acima de 20, mas eu enterrei já, como assim ele vai entrar pela porta? Porque o tempo da alma não é o tempo do que o nosso olho vê. Então, os rituais nos ajudam a fazer isso, um certo encaixe do acontecimento objetivo que está diante do olho da carne e o acontecimento na alma da gente.
Então, quando meu filho faleceu, eu tinha muita dificuldade de trancar a porta, porque eu achava que ele chegava sempre sem chave, nunca sabendo onde estava a chave. Então, eu deixava a porta da casa aberta. Foi difícil para mim trancar a casa, porque trancar a casa significava ele não vai voltar. Não pela porta feita. Então, essas ações cotidianas que são reestruturantes, a gente precisa delas demais. O fato de sermos seres espirituais não nos retira dessa necessidade que é tão material e corporal porque nós estamos num corpo, né, Joté?
A gente precisa, assim, então gostei muito de você ter falado isso, E queria poder juntar na dificuldade que o espírita tem de falar a palavra morte. Então, o espírita fala assim, desencarnou. Mas é difícil dizer morreu. Morreu, faleceu. Porque, olha só, desencarnação é um processo biológico e espiritual, mas não é um processo emocional, não. O processo emocional é morte mesmo Nós precisamos dizer Morreu Porque, ó Nascer, viver, morrer Renascer sempre Tal e além Então a gente precisa do morrer pra encarar o renascer Então a gente meio que dribla a dor, assim, acho que o espírito meio que trapaceia a dor.
Quem não fala morreu. Não, desencarnou, né? Desencarnou, como se fosse assim, né? Mas, gente, uma coisa não substitui a outra. Desencarnou e morreu. Quantos espíritos desencarnam e não morreram ainda? Todo mundo espiritual vagando não entendeu que morreu. Ou seja, não entendeu que findou aquela experiência. Nós somos espíritos imortais, mas essa vida é finita, ela acaba… E só quando a gente se dá conta do fim das coisas É que a gente tem espaço afetivo para recomeços e novos começos Então quando vocês falam aqui, parece tão simples, né?
Então terminou aquele ciclo do pode ser? Então terminou, acabou A gente precisa dizer acabou Cessou, fechou, terminou Porque com isso eu assim, bom, então agora eu posso me dirigir para o novo, né? E aí a gente, quando você fala aí do perder a voz, Tiago, eu me lembrei da Hannah Arendt, que foi uma estudiosa disso, que ela disse que os soldados voltavam da guerra e não conseguiam falar. Então, quando eles conseguiam contar o que aconteceu na guerra, já era ali um ponto de cura. Porque quando a gente vive uma dor traumática, intensa, não há possibilidade de eu poder me afastar de mim e poder contar uma história sobre o que houve.
Então, quando eu posso contar a história, olha, meu irmão morreu assim e eu tava ali, e a gente fica assim com enlutado, tá, você já contou essa história. No enlutado precisa contar muitas vezes essa história. Porque contar a história, eu consegui ir fazendo o afastamento, eu consegui me desgrudar do trauma, poder olhar esse trauma de um outro lugar. Então, quando a história é terapêutico, é necessário falar, nomear, dar contorno para aquilo que era tão maior que eu, eu não tinha condição de contar. Então, sim, a gente perde a voz.
Eu me lembrei daquela música do Milton Nascimento, chamada Travessia, que ele fala, solto a voz das estradas, já não quero parar. Então ele fala não tem jeito, hoje eu tenho que chorar hoje eu tenho que falar, eu tenho que chorar eu tenho que ir, então isso é cura isso é bom demais a gente tem que ter paciência com a gente e com os outros nesse momento, porque tem que falar tem que falar pra se curar é isso, depois eu continuo aí, bora seguir bem rapidinho, isso que a Ana Tereza colocou eu lembro do Divaldo falando o Divaldo dizia que quando as pessoas chegavam ela falava assim, nossa perdi meu marido, perdi minha esposa eu falava assim, não, a gente perde chave a gente perde esse telefone pessoas morrem então assim, é interessante a gente resgatar esse sentido porque muitas vezes a gente oculta, a gente soterra a experiência da morte que ela não nega a sobrevivência da alma, e a gente precisa aprofundar nisso.
E a questão do falar, quando a Maestra estava comentando, eu me lembrei da primeira tarefa que Deus dá a Adão no Antigo Testamento. A primeira coisa que Deus diz para Adão é o seguinte, nomeie as coisas. É a primeira tarefa. O mundo já existia. E Deus diz, olha, dá nome para isso. Por quê? Porque nomear, falar sobre aquilo é estabelecer vínculo, é estabelecer relações. A realidade, ela não cabe dentro da nossa cabeça de maneira integrada. Ela vem na medida em que a gente filtra essa realidade e falar, utilizar as palavras significa estabelecer esses vínculos que muitas vezes são individuais, né?
E na medida em que a gente vai exercitando esse falar a gente vai construindo esses vínculos se eu disser aqui, por exemplo, aranha provavelmente muitas pessoas assim como eu vai ter um sentimento de asco Eu tenho um amigo que ele adora cuidar de aranha, ele tem lá uma coleção de aranhas. O sentimento é diferente, né? Ou seja, a palavra ela não é a realidade, mas ela é como eu me relaciono com essa realidade. E quando a gente perde essa capacidade de se relacionar, quando a gente silencia, como o Thiago falou, é muito triste, porque eu perco aquele que é a primeira tarefa que Deus deu ao ser humano, se relaciona comigo.
Vai lá. Interage com o mito. Deixa eu só fazer uma parte rápida aqui antes do Tamires, porque como você falou da questão do nomear, do falar, é o verbo, eu uso o verbo. E aí, do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem, do desenvolvimento da fala, a gente pode pegar aqui pessoas que falam Por exemplo, tiveram um câncer, tiveram suas línguas amputadas, né? Ou então, deficientes auditivos com dificuldade de desenvolvimento de fala e linguagem, como a nossa oralidade, eles têm outras estratégias de comunicação. A vida, ela toma outro sentido, né?
Por exemplo, vamos tomar aqui um deficiente auditivo, né? Ou surdo, como queiram, né? Ele vê a vida num prisma um pouco diferenciado do que a verbalização. Não melhor nem pior, é só um pouco diferente. Então realmente, na história da humanidade, a grande virada na evolução do homem foi a conquista da linguagem, foi a conquista da falha da linguagem, a partir de um ponto em que o homem se tornou ereto na história da evolução dele e aí mudou tudo. Então o verbo realmente na expressão e como a Ana disse deixa falar para extravasar ou deixa chorar porque o choro também tem a sua expressão verbal O choro, como no caso do bebê A gente tem muitos Jeitos de choros diferentes Existem trabalhos só pra Identificação desses choros Agora quer comer, agora quer manha Agora quer que troque a fralda Agora tá com cólica Então faz parte da natureza do ser humano Essas expressões Numa conversa essa semana também Desculpa, Tami, estou encerrando Eu estava falando exatamente com os amigos Dessa questão da expressão Então num momento de dor Eu não tive ninguém para ouvir a minha expressão Não tinha nenhum interlocutor E aí, antes, o Saulo tinha falado, e eu anotei aqui também, sobre a questão da empatia, né?
E a empatia não é só emocional e espiritual, ela é também neurofisiológica. Então, quando eu encontro alguém, um interlocutor, né? Já não estou mais falando daquele que está vivendo, estou falando… Para aquele que pode se colocar na posição do ouvinte, estou aqui para te escutar. Eu acendo a minha amígdala junto com a amígdala do outro. E a gente cria uma empatia vibracional, espiritual. Neurofisiológica, mas espiritual. E aí, às vezes as pessoas se curam só de falar. Não é? Desculpa, Tamires. É interessante, antes da Tamires falar, só para a gente…
Acho que é importante a gente falar isso, porque quando a gente não fala, quando a gente não traz isso para fora, no externo, a gente somatiza isso de outras formas. Tem gente que tem azia, que tem queimação no estômago, tem gente que perde cabelo… é muito importante trazer trazer pra fora, né mesmo que você extravase de formas erradas e tudo, mas é importante trazer pra fora pra que a gente possa corrigir do que somatizar isso às vezes tem gente que fica anos sem falar com o pai sem falar com a mãe sem falar com o filho, né com o parente, com o patrão e aí somatiza isso eu tenho o caso de um primo que ele e o pai viviam brigando assim toda vez que você viu os dois eles estavam brigando aí o pai teve câncer e foi uma das coisas mais bonitas que eu vi na minha vida porque o pai teve câncer e quando descobriu ele teve três meses de vida no finalzinho mas foi esse filho que teve que cuidar do pai e foi um processo de restauração para os dois só tinha os dois, não tinha o que fazer e aí quando o pai desencarna a gente vê um processo de saudade de coisas que a gente nunca imaginaria que aconteceria por conta do que foi um processo de vida inteira de 40 anos numa discussão e brigas e tudo Música então assim, como é importante a gente poder trazer pra fora e aí Deus nos coloca, né Tamires, como você falou do cavalinho, o cavalinho vai te colocar numa outra posição e aí eu lembro da outra metáfora que é da vaquinha família que tinha uma vaquinha que ir lá, tirava o leite e tudo e Deus vai e empurra a vaquinha pro morro abaixo e acabou a vaquinha vocês vão ter agora que se virar e caminhar de outra forma e encontrar outras soluções pra lidar com as necessidades Outra coisa que é muito importante que eu fico pensando, a gente fala assim, ah, desencarnou e morreu Quando você chega do outro lado, quantos pais, quantos filhos, quantas mães você foi, você tem do outro lado É uma coisa até complexa pra olhar de quem tá de lá pra cá, né Aqui é o momento e quem tá encarnado tem uma atmosfera mais densa, complexa Lá você tem uma outra visão da vida, né Do que é a vida?
Sobre falar da dor… Eu gosto de uma frase que eu aprendi num curso que chama… Que é assim… O que não se expressa, se imprime. Vai imprimir de alguma forma na sua vida, no seu corpo. Mas eu gosto de tentar entender atualmente os componentes físicos. Eu não sei vocês, mas eu tenho uma tendência de… achar que eu estou errada que eu não estou dando conta e aí se eu faço as coisas que precisam ser feitas e ainda não está dando certo eu acho que o problema é meu só meu, e às vezes é físico, de um processo e a Ana Tereza, eu queria comentar a fala da Ana Tereza sobre a morte do pai e Que ela esperava ele entrar ali pela porta Quando a gente muda Uma coisa de lugar na nossa casa Uma geladeira Uma gaveta, alguma coisa Quantas vezes a gente volta naquela mesma gaveta A gente volta naquele Mesmo local onde estava Aquilo Isso é por conta de um processo de plasticidade cerebral Eu preciso de um tempo Repetindo algumas vezes O que está diferente Para eu poder me acostumar com aquela situação Então o processo de esperar uma pessoa chegar, porque ela chegava sempre, ele vai ser físico.
Naturalmente a gente vai esperar por aquela pessoa. Aquilo foi repetido várias vezes no meu sistema nervoso central. Não necessariamente quer dizer que eu não estou dando conta. De lidar com a perda ou com a morte. É só porque precisa de uma repetição. Agora, quando isso permanece por um tempo, e a gente sabe que luto não tem prazo, né? Mas eu vivo em outra realidade, como se aquela pessoa existisse ali ainda. E isso começa a me atrapalhar de continuar a viver, de continuar novas situações de vida. O exemplo do Alzheimer, quando a pessoa está…
No passado, ela não está mais na realidade do presente, né? É a hora que o processo terapêutico precisa atuar para entender por que a pessoa está em outra realidade, continua em outra realidade e não consegue entrar na realidade atual. Porque é difícil a gente falar de realidade que está… Uma falta de realidade, ou dizer que a pessoa… está numa realidade que não existe mas na verdade na cabeça dela existe só preciso entender porque ela está permanecendo naquela outra realidade ou quer permanecer naquela outra realidade e isso começa a atrapalhar o contexto social dela Mas só para a gente lembrar que é importante essa repetição física para o corpo ir fazendo essa remodelação.
Mas para a gente conseguir fazer isso, precisa também da nossa vontade, do nosso entendimento que o contexto está diferente. E eu vou fazer coisas diferentes para trazer essa nova vida no meu dia a dia. Ô Júlio, vou fazer uma pergunta pra você. É possível reconstruir sem apagar as cicatrizes? Nossa, tem que ser, né? Reconstruir, né? Você pode… Mas essas cicatrizes nem sempre… Não sei, eu não sei essa resposta não, tá? Vou falar aqui. Porque a gente até estudou uma técnica japonesa de reconstrução de vasos, né? As cicatrizes passam a ser trabalhadas como algo que agrega um valor àquele vaso, àquela peça quebrada que é reconstituída.
Mas também você tem paredes rachadas em casa que você vai lá E, né, pinta de novo, passa a massa de novo, pinta, e elas estão lá, não é? Ou foram tiradas, retiradas, né, aquelas cicatrizes na construção, consertadas, reconstruídas. Então, eu acho assim que o lance que eu penso, porque eu também tô passando pelo meu processo de luto, né? Então eu estou no processo de aprender a cada dia o que eu posso dizer sobre isso, eu quero muito que a gente fale de dores e perdas, para a gente entender que as dores e perdas não são apenas o luto das pessoas que morreram porque tem pessoas que não passaram ainda por esse processo assim tão diretamente mas é que você tem se você está vivo apesar da dor, da perda de alguma coisa ou de alguém que passou pela sua vida e que não volta mais a entrar por aquela porta fisicamente.
Mas se você está vivo, é porque existe vida. E se existe vida, ela precisa ser vivida. A vida que está posta para você depois da perda do emprego quero depois conversar com o Saulo um pouquinho sobre isso, a perda financeira a perda, porque essa perda não é de se ignorar não gente, essa é uma perda de situação difícil demais da conta, mas assim mas se você está vivo eu aprendi muito no Odisseia, aprendi pra caramba gravar foi um assim Mas foi difícil, por salvo, porque eu era obrigado a ouvir, não podia nem sair da sala.
Então assim, mas se você está vivo, depois da perda, da dificuldade, porque tem saída, tem vida a ser vivida, e você é um processo de descoberta de como é que é que você vai fazer depois daquilo. Mas existe vida. Aí o conceito do espiritismo que eu queria evitar de ser aquilo que a gente diz para alguém que está enlutado que a morte não existe ou existe vida após a morte de forma mas existe vida após a morte em vida então acho que é isso que eu sinto eu digo da minha experiência que eu não quero tanto falar que você vai todos os dias tropeçar numa lembrança, num processo Então, você entender como isso acontece te ajuda a transpor aquele processo, passando à frente, levando às vezes ele com você como uma experiência, levando, mas prosseguindo.
E não essa dor que nos estaciona, nos paralisa. Nos mantém num processo vicioso de sofrimento mas é isso que eu penso e abrindo a janela e o Saulo já está com a mão levantada joga a bola o que eu fiz então, eu lembro de uma coisa muito bonita na cultura japonesa que é o Kintsugi quando um jarro quebra aí depois as pessoas pegam aquele jarro e remendam o jarro normalmente utilizando um metal precioso Muita frequência é ouro E é curioso porque aquele jarro reconstruído Ele tem um valor monetário Muito maior do que um jarro inteiro Assim, você vai comprar um jarro Tá lá, custando Só pra gente ter um tempo de comparação 10 dólares é um jarro inteiro Aí um jarro igualzinho esse Que quebrou e passou por um processo De reconstrução Vale 100 Aí você fala assim, não, mas é por conta do material utilizado?
Não, é porque aquele jarro Que quebrou e que foi reconstruído Ele tem características Únicas únicas, aquele não tem outro igual, né, e aí tem muito na questão que o Thiago comentou que foi como que a gente continua e a verdade é o seguinte, gente a gente sempre continua a pergunta não é se a gente vai continuar é como a gente vai continuar é como a gente vai conseguir construir a nossa identidade o que a gente vai continuar fazendo então a gente vai continuar E aí tem pessoas que realmente chegam a situações muito difíceis.
A Thalita estava comentando sobre essa relação do corpo… com a nossa neuroquímica, com a nossa experiência. E às vezes a gente esquece que quando a gente fala de emoções, nós não estamos falando de algo desvinculado do nosso aparelho neurológico, do nosso cérebro. A gente tem uma dimensão fisiológica, neuroquímica das nossas emoções. E muitas vezes por ignorar isso, a gente acaba permitindo que aquele desequilíbrio neuroquímico que ele surge quando a gente está num momento de choque, de perda, ele se agrava a tal ponto que a gente fica com depressões seríssimas.
A gente às vezes tem dificuldade de entender que, olha, quando eu falo de emoções, eu não estou negando aquilo que está no corpo. Quando eu falo do que está no corpo, eu não estou negando aquilo que está na emoção. E quando eu falo dessas coisas, eu não estou negando o que está no espírito, porque é exatamente essa experiência que… No mundo material, essa experiência na carne Que vai dando possibilidade para o espírito progredir Não é uma ausência, a questão 132 do mundo do espírito Deus impõe a reencarnação a fim de fazer chegar à perfeição É o caminho, é o caminho da experiência E eu lembrei aqui de Jesus Porque Jesus disse assim, bem-aventurados os que choram Ele não falou assim, felizes os que não choram Ele não falou assim, olha que bom Se eu chegar para Jesus e falar assim Jesus, eu perdi minha mãe, perdi meu tio Mas eu não chorei Ele falou assim, tá bom Eu disse assim, bem-aventurado diz que choram Ele não falou que as pessoas que silenciam, elas são bem-aventuradas.
O silêncio, o não reconhecer as próprias emoções, não entender, a gente fala muito disso, né, Júlio, no Odisseia, de não entender, de não colocar para fora, de não realmente assumir esse momento, Causa dano interno e a gente precisa desse espaço para a gente compartilhar. E a gente precisa, aí trazendo um pouquinho para o movimento espírita, acho que a gente precisa aprender a ouvir a voz do inúmero. A gente precisa aprender a ouvir a dor das pessoas. A gente às vezes vai muito rápido no orientar, não que ele não seja importante, ele tem seu papel, mas a gente às vezes esquece de construir um ponto de afeto.
A gente ouvia a pessoa primeiro. O que essa pessoa tem a dizer? Qual é a dor dela? Como é que ela está se sentindo? Sem julgar, sem criticar. E aí, depois dessa ponte de confiança construída, eventualmente pode ser que haja oportunidade de dar algum esclarecimento, mas muitas vezes nem precisa, né? Quem aqui nunca participou de uma atendimento fraterno que a pessoa vai lá falar os problemas dela, você fica escutando, daí há 15 minutos ela já tem a solução. Aí você fala, muito bem, não te disse nada, né? Por quê? Porque esse falar ele transforma.
Talvez essa tenha sido a grande contribuição do Freud descobrir que a fala, fala pela fala, falar cura. Falaculha. Iria só fazer um complementozinho aqui do que o Saulo falou, né? Eu acho que você trouxe um aspecto muito importante, né? Que eu também tinha até comentado um pouquinho antes, que é o outro nessa relação. Porque a gente está falando, eu perdi, alguém que perdeu, mas qual é o papel nosso com o outro? Como irmão fraterno, como irmão de empatia, que vai se propor a cuidar e oferecer mãos e braços para esse outro que passa por esse caminho.
E me lembrei aqui de uma… de uma conversa com um amigo espiritual, em que ele contava as suas dores, sua última encarnação, e contava das suas dores… E ele dizia que, que bom, ele tinha passado por tudo aquilo, porque no nível de evolução que ele está hoje, ele entende o quanto que ele aprendeu e hoje tem a condição de vivenciar o que ele vive hoje. E ele disse assim, dor é dor em qualquer lugar, e a gente não pode malbaratear a dor de ninguém. Dor não tem grau, dor não se mede a dor de ninguém. Ela mesma só é medida de acordo com a evolução do espírito então eu vou sentir menos dor porque tenho mais entendimento no meu processo de evolução e aí vem com o que você falou também com a questão da reencarnação que é na verdade um grande consolador para a gente saber que também poderemos ter a oportunidade de vivenciar outras questões até mesmo com aquilo que foi perdido Só para encerrar a minha ideia, quando estou falando do outro e a gente está aí incentivando o outro que está nesse processo de luto, esse mesmo amigo trouxe a seguinte ideia.
Um atleta ou alguém que só pode andar 10 metros e você exige dele 50 metros… não é caridoso da nossa parte. Será caridoso com ele, se eu conseguir observar nele o que é possível naquele momento, ou até mesmo conosco. Se eu só estou com fôlego para andar 20 metros e me proponho a fazer uma maratona de 1 km, eu vou estar sendo também descaridoso comigo. Então, da gente também ter esse olho, a caridade comigo mesmo e a caridade com o outro, em sentir o que é possível naquele momento. Mas ele disse, não importa quantos passos sejam dados, o que importa é manter-se no ritmo do movimento, não parar.
A gente se entender espírito é uma tarefa, né? Acho que quando a gente reencarna e a gente tem o esquecimento do passado, parece que a gente também esquece que é espírito. São duas coisas diferentes. A gente esquece o passado, mas a gente não pode esquecer que a gente é espírito imortal e estamos aqui numa trajetória temporária. Então, quando a gente desencarna, Não é assim, eu deixo de ser a mãe, eu deixo de ser o pai, porque eu me lembro dos outros vínculos. Foi legal que o Salvo trouxe, né? Sim, ela não é só minha mãe.
Quando ela volta ao mundo espiritual, ela também retoma muitos outros laços, mas o laço comigo não desaparece. Tanto que muitos anos depois que meu pai desencarnou, mais de 20 anos depois, ele deu uma comunicação na nossa casa espírita e disse, minha filha, eu continuo o pai. Então assim, foi bom demais ele dizer aquilo pra mim assim Há alguém no mundo espiritual que me aguarda voltar pra lá Eu tenho certeza que eu vou encontrar com ele, né? Que eu vou ser recebida também E a gente tem esses relatos todos Que os pais esperam seus filhos Os avós recebem seus netos É assim, ninguém tá à deriva Então os nossos laços, eles não se desfazem Eles se transformam Então, ele foi meu pai nessa experiência aqui, enquanto eu fui Ana Tereza aqui nessa encarnação, e a gente estabeleceu muita coisa, eu e ele.
Então, novos rumos virão para ele, novos rumos para mim, mas aquilo que a gente viveu fica no meu coração para sempre e no dele também. Então, a gente, os laços parentais não se desfazem não, gente. Eles ganham outras dimensões. Eles ganham profundidade, eles ganham extensão, eles ganham intensidade, se transformam, crescem. Isso é maravilhoso de pensar, né? Então, a gente tem que ter um cuidado com essas coisas. A gente tem uma visão tão cartesiana, às vezes, né? Então, da gente poder estender isso. Não somos só corpo, não somos só neuroquímica, não somos só matéria espiritual.
Somos essa junção tão bonita, tão perfeita, né? Então, sim, o nosso corpo vai responder neuroquimicamente, mas a raiz não é neuroquímica. A raiz é espiritual. É o espírito que dá gênese à escassez ou excesso da quantidade de neurotransmissores que a gente tem no cérebro então a gente tem os automatismos cerebrais, tem tudo isso mas eles não são originários não senão os desencarnados não teriam tudo isso que a gente experimenta aqui os desencarnados passam por luto, passam eles fazem a travessia do luto também levam um grande tempo pra se readaptar a uma vida sem corpo então a gente precisa poder transitar nesses assuntos é difícil pra nós ainda nós estamos gateando essa é a primeira coisa que eu queria trazer a segunda coisa como é difícil pra gente se autorizar a ser feliz depois que alguém vai Será que a gente pode abrir os braços de novo para as bênçãos que a vida oferece quando os nossos amores vão para o lado de lá?
O quanto os florescimentos acontecem na nossa vida… E a gente fica assim… O quanto a gente tem o direito de ser feliz… Porque parece que é só na tristeza… Que a gente está com aquele que foi… Então como é que eu posso estar com aquele que… Que está no mundo espiritual agora… Mas também na minha alegria… Também no meu crescimento… Também no meu florescimento… Também das coisas incríveis… Que acontecem na vida da gente… Então na travessia do luto… Tem também essa construção… Dessa autorização…
Porque para o desencarnado, quanto mais feliz a gente for, melhor. Porque ele se desencarrega do peso. É muito duro pra… Eu fico me imaginando assim, eu desencarnado, vendo o meu ente querido, amado, num sofrimento atroz. E eu quero fazer coisas bem bacanas aqui no mundo espiritual, mas eu tô ali. Ai, nossa, meu Deus, mas ela tá morrendo de culpa, mas ela tá ali agarrada nas coisas, então… se eu vejo que o meu ente querido a vida dele seguiu ai, eu também posso seguir, a gente continua junto, mas a gente agora já pode fazer novos caminhos, né não tô dizendo com isso negar a dor não, porque tem espírita que fala isso olha, ele tá sofrendo, para de chorar com ele, tá sofrendo, não é disso que eu tô falando tô falando de outra coisa Eu estou falando das autorizações que a gente precisa se dar para os passos de florescimento que vêm toda vez que a gente passa por tempestades.
O quanto a gente pode viver uma bonança. A Ana colocou uma coisa tão bacana, porque a gente precisa pensar em fazer, como lidar com esse mútuo o dia depois. E tem uma coisa que sempre me veio à cabeça, que é a gente honrar aquele vínculo construído. A gente honra aquele afeto. E você, como é que você honra aquele afeto? Não é destruindo a sua vida, não é se limitando, é mostrando que aquele momento que você teve com aquela pessoa te tornou uma pessoa mais capaz, uma pessoa mais ativa, uma pessoa mais viva. É mais ou menos como se a pessoa tivesse, durante um tempo, depositado a confiança na gente, construindo coisas juntas.
E ok, ela se foi momentaneamente, mas quando eu me encontrar com ela, eu vou dizer assim, olha o que eu fiz de tudo aquilo que a gente passou junto. Como eu dei continuidade a isso, como eu honrei essa relação, que aqui ela teve nenhum período de interrupção, mas eu dei segmento a ela, transformei isso numa sernete positiva, né? E não enterrei aquele talento, né? Deixei aquilo no mesmo ponto. Não, aquilo tem um significado para mim e para as outras pessoas. É um termo muito importante quando a gente pensa assim, um dia depois do luto.
Porque a gente não esquece que alguém, a Ana Teresa, é uma mãe cujo filho é eu. O Saulo é um filho cuja mãe é ele. A gente não muda isso, a gente segue com isso. E é possível transformar essa experiência em uma experiência de redenção, uma experiência de construção, uma experiência de esperança, desde que a gente se permita avançar, como a Ana Teresa colocou. Uma das coisas, né, eu… Tem experiências, né, gente, de você perder alguém que você ama, que calma, mas também tem experiências de relações interrompidas, que eram relações difíceis, em processo de trabalho, e que quando a pessoa vai, você, o que eu faço agora?
É o perdão que você não pediu é a mágoa que você guardou é um tanto de coisas que ficam dentro não tem esse luto romântico apenas agora isso falta e tal a grande coisa que eu fiquei pensando essa semana é isso como é que eu trabalho as perdas no fundo desse luto que a gente está falando que envolve a perda de um ente querido mas envolve a perda de várias coisas porque às vezes a presença da pessoa na nossa vida tem muito de material né Ou seja, ela fazia para mim, ela cuidava de mim, era uma relação, era um contrato social, né?
Tem relações que se você olhar bem, não tem esse romantismo, mas ainda assim tem que ser superado as nossas perdas, né? E isso significa que isso fala muito da nossa perspectiva de viver. Talvez o luto, a dificuldade e eu passando por ela, entenda, que fala muito de como eu vivo. Se permitir ou não viver depois tem a ver com como eu vivo hoje. Então, assim, não espera perder alguém. Repara em como você vive com ela hoje. No caso, eu aprendi muito com o Saulo falando sobre prosperidade real. Repare em como você vive com o dinheiro hoje, porque se…
o pouco que você perdeu ou muito do que você tem. Você perder o seu luto nesse processo vai dizer de como você se relaciona com ele hoje. Tem a ver com como você tá vivendo com o que você acha que tem, né? Hoje. E isso envolve amigos, gente. Luto de amigos, luto de trabalho. Você trabalha uma vida inteira numa empresa. Qual que era a sua relação com aquilo pra Fazer a transição de carreira… Fazer um processo de aposentadoria… Existem vários lutos… Tem pessoas que não se casaram… Aposentadoria é luto também, né?
É luto também… Tem gente que perde o emprego… A pessoa perde o emprego… Acho que perdeu a vida, né? Não consegue… Isso mostra como ela está reagindo… com o que ela chama de perda, que é a pergunta lá. Será que tem a ver muito só com a perda da pessoa? Não, tem um monte de coisas que vai junto. Quem que arruma aqui em casa é quem que arruma a casa. Tem muito disso, cara. Tinha uma metade que outra pessoa fazia, ou mais do que a metade, geralmente, da esposa, que você fica maluco. Tem um luto aí, um luto e uma luta.
Agora… esses processos que a gente está caminhando já para a gente ir, né? A gente não vai encerrar, tá gente? A gente vai simplesmente pausar para vocês refletirem quem sabe a gente voltar nisso aqui porque esse é um assunto que envolve a encarnação a encarnação é um processo de pedra o Doutor gosta de citar aquela história do escultor, né? Porque do bloco de pedra lá do Rodin a frase do Rodin sei lá nossa, essa obra de arte, ela chegou pronta pra mim eu só fui tirando umas partes aqui só tirei o excesso e o processo da vida é com a gente, me parece, que é tirar o excesso, né?
A gente vai tirando, Deus vai tirando, ou a vida, as leis divinas vão tirando os excessos respeitosamente, né? Na medida, inclusive, que a gente permita que se tire aqueles excessos, né? E a gente vai crescendo, mas eu tô falando de um tema, né? Eu queria muito, assim, sair daqui, como eu tenho trabalho essa semana, assim, compreendendo que Os processos de vinculação e desvinculação, eles acontecem constantemente na nossa vida, né? E a gente precisa olhar para isso, entendendo como eu estou lidando com isso. Como é que eu lido com aquilo que eu pensei que era para sempre, mas a vida me mostrou que era para um tempo.
O multilego dizia, né, Júlio, pra sempre não é todo dia, né? Tem uma música dele que é tão bonita que ele diz assim, olha, eu acho que será pra sempre, mas pra sempre não é todo dia. São retomadas, né? A gente tá se aquecendo novamente pra poder encontrar esse novo pode ser, né? Como que a gente caminha com ele. Eu acho que a gente precisa realmente repensar o processo de dor como reconstrução, como sempre, né? Ele é sempre nesse nível, né? A dor, as perdas, elas são sempre processos de reconstrução, oportunidades, né?
Acho que a gente precisa compreender isso, são oportunidades de reconstrução da nossa vida, né? Uma perda de emprego, uma aposentadoria, como o Salvo falou, um filho que desencarna ou morre… Eu falo, para espírito é difícil mesmo falar morreu, é muito difícil, eu não tinha pensado, para mim isso era simplesmente uma questão, nossa, desencarnou, não fala morreu, mas depois que a Teresa trouxe, fez mais sentido para mim, realmente é muito difícil falar, não, a pessoa morreu, desencarnou. É uma coisa bem importante, assim, da gente trazer essa reflexão.
Acho que, pra mim, é o que tá ficando desse podcast hoje, é muito essa questão de encarar a morte das coisas. As coisas precisam morrer pra que eu possa dar continuidade em outras, né? Tiago, eu, quando Sheila teve o diagnóstico, né? E como era uma coisa intestinal, eu conversei com o Deciano. E eu mandei para ele, ele contou do jeitinho, me falou que a gente tinha uma jornada de tratamento. Depois, aí vou falar de sim, cara, dela, eu encontrei com ele no congresso e ele me perguntou. Aí ele morreu de rir ele é sério, ele ficou sério e riu e aí, como é que tá?
Aí eu falei assim com ele o Dez, descobriu uma coisa aí ele ficou assim a morte existe aí ele ficou me olhando assim, depois encontramos de novo, ele falou assim queria te agradecer por ter me dito isso ele entendeu que eu estava falando isso foi uma grande lição que essa perda que esse sentimento de perda me trouxe e ainda eu estou nele é isso né é entender a profundidade das perdas das pessoas dos sentimentos dela e tal Então é… Eu vou trazer um exemplo, eu não ia trazer, eu vou trazer, porque é um exemplo de quem partiu.
Eu perdi meu pai, eu tinha quatro meses. Meu pai desencarnou quando eu tinha quatro meses e ele era médio, ele previu a morte, deixou as coisas pagas, falava que era pra minha mãe e tal, e de repente ele desencarnou lavando o carro no posto de gasolina ele tava lavando o carro no posto de gasolina entrou um caminhão e atropelou ele dentro, lavando o carro essa mesma coisa, mas eu cresci, quatro meses, cresci depois de um tempo eu me descobri com uma mágoa porque eu também tive um presságio de morte lá pelos vinte e poucos anos e quando os espíritos chegaram dois espíritos falaram comigo que eu ia desencarnar e eu virei onça pra cima deles e falei, deixa eu falar Vai rolar não, porque é o seguinte, minha mãe perdeu meu pai, ficou viúva, ficou com dois filhos.
Vocês agora vão levar o filho mais novo? Vai falar, você não tem noção do problema que vocês vão ter comigo se isso acontecer? É tipo assim, vou pegar vocês na saída, mas com certeza eu vou pegar vocês aí. E é o seguinte, não tem conversa com essa história, mano. Aí, no meu sonho, eles foram lá com o fabular, mano. E falaram assim, não tá, você tem até os 40, eu tinha 20 e poucos, 40 anos é tipo uma eternidade, né? Só que com 40 e poucos anos, 40 anos ali, o que aconteceu? Eu tinha meus filhos na idade que eu perdi meu pai.
Aí eu falei assim, não vou, bicho, não vou. Não vou fazer como meu pai fez, meu pai não lutou pra ficar vivo. Aí eu descobri a Mago, que era inconsciente, né gente, praticamente, né? Aí um belo dia eu estava do nada Eu entrei num hospital levando um músico Que veio tocar aqui em Belo Horizonte, que ele passou mal Eu entrei no saguão do hospital Me veio uma voz do ouvido e falou assim Você pensa que eu te abandonei Aí ele falou do luto dele Quando eu tive Que abrir mão da minha família Para você viver a orfandade Que você tinha que viver Ou seja, o fruto que tava na doutrina trabalhando, que tava aprendendo, que tava desenvolvendo, que tava fazendo, precisava daquela orfandade, daquela vida amalgamada entre eu, minha irmã e minha mãe.
Esse trio tinha que seguir e a presença dele não podia, não tava naquele plano. Então ele veio me falar do luto dele, o luto de não poder ser pai. E aí nesse dia, Eu aprendi muita coisa com a perda dele. Eu aprendi que se algum dia eu não estiver nos planos das melhores coisas para os meus filhos, que eu vou partir sem causar a eles um impacto da culpa de nada. Porque eu vou aprender a abrir mão. Porque a gente, às vezes, a pessoa parte para o nosso benefício, para que a gente possa crescer, para que a gente possa prosseguir, fazer novos caminhos.
E a gente não valoriza o esforço, não valoriza o outro que o outro passa do lado de lá e fica ali. Então, não sei se eu estou dizendo como uma verdade, mas como uma experiência que eu vivi e que me marcou porque ela vai de um extremo ao outro da experiência. Hoje minha mãe tem 85 anos está aqui eu olho para ela e falo assim o que seria quem eu seria se meu pai estivesse aqui se ele não tivesse feito esse esforço por mim pela família, por todos nós tem um poema que eu quero ler da Maria Dolores que se chama Cantiga da Dor antes da gente terminar.
Mas que fala disso também, né? Eu vou deixar com o Thiago, se a gente vai para as palavras finais aí. Eu queria ver se a gente fechava, então, perguntando para cada um dos nossos convidados, qual é o próximo passo possível? Você começa para a gente, Ana? Eu posso começar no lugar da pedida de licença? Pode. Porque eu acho que vai… Trazer chaves de resposta para uma pergunta que você deixou, das cicatrizes, se dá para reconstruir sem apagar as cicatrizes, né? E eu peço licença para contar uma história, vou deixar para vocês como uma história.
Era o início da carreira de uma jovem professora de história. Naquela manhã, ela levaria sua turma ao museu pela primeira vez. Preparara a visita com entusiasmo. E estudar a cada sala, cada período histórico, cada artista. Estava feliz por finalmente ensinar tudo aquilo que ela tanto amava. Logo ao entrar, porém, algo lhe chamou a atenção. Enquanto os demais alunos se detinham diante das pinturas, um menino parecia olhar para outra coisa. Seus olhos não repousavam sobre as telas. Passeava pelas bordas, pela madeira envelhecida, e não se sentia bem.
Pelos detalhes dourados, pelas linhas simples ou ornamentadas das molduras. Depois de algum tempo, ele se aproximou do guia. A professora curiosa caminhou discretamente atrás dele. Posso fazer uma pergunta? Claro. O menino apontou para a parede. Se todos esses quadros são importantes, por que nenhum deles tem a mesma moldura? Por um instante, fez silêncio. O guia olhou para a professora Ela retribuiu o olhar. Nenhum dos dois parecia ter uma resposta pronta. O guia sorriu, mas não respondeu. Continuaram caminhando. Passaram por retratos, paisagens, mares revoltos, jardins, cenas de infância.
A professora percebeu, pela primeira vez, algo que nunca havia notado. Nenhuma moldura parecia ter sido escolhida ao acaso. Cada uma parecia pertencer exatamente àquela obra. Somente então o guia parou, sem olhar para o menino, disse baixinho, porque nenhuma obra cabe em qualquer moldura. A professora sentiu que aquela resposta não terminava ali. O menino apenas sorriu e seguiram a visita. Há perguntas que continuam conosco muito depois de encontrarem uma resposta. Anos mais tarde, quando a vida lhe apresentou perdas que livro algum ia ensinar a enfrentar, Aquela cena voltou inteira à sua memória.
Foi então que compreendeu que aquela conversa nunca havia sido sobre quadros, apenas sobre quadros. Era também sobre pessoas. Os acontecimentos são a tela, mas a experiência é a moldura que a vida vai construir ao redor dela. As dores podem ser a tela, a moldura as nossas experiências. Nessa moldura cabem a infância, os afetos, a fé, os medos, as perdas, os encontros, aquilo que nos feriu e aquilo que nos sustentou. E às vezes a vida muda de casa, o quadro continua o mesmo, mas a luz é outra, as paredes têm outras cores.
O que antes parecia perder o brilho naquele novo ambiente, pede uma nova moldura, não para esconder a obra. Mas para permitir que ela continue dialogando com o lugar onde agora vive. Talvez seja assim também com a dor. Nem sempre conseguimos mudar o que aconteceu, mas ao longo da vida podemos encontrar novas molduras para contemplar a mesma história. Talvez seja por isso que duas pessoas nunca sintam exatamente a mesma dor. Não porque o quadro seja diferente. Mas porque ninguém conhece a moldura que uma vida inteira construiu ao redor dele.
Eu queria responder a pergunta que o Thiago fez, qual é o próximo passo? O próximo passo talvez seja aquele viajante que pega aquela imagem, aquela figura do país que ele visitou, cola na mala e sai de viagem. E a gente não abrir mão daquela experiência, não abra mão da experiência. Essa experiência é sua, ela é importante ela tem valor, não abre mão colhe ela ali na malinha com muito carinho muita força, mas não esqueça que a vida te aguarda e segue viagem obrigado Saulo, pela sua emoção compartilhada do coração, obrigado mesmo eu vou soltar em um minuto aqui um videozinho que um amigo gravou deu a mensagem que a gente recebeu Pensei estivesse morto, vivo estando ainda, eis que vivo, depois de morto haver estado, uma vida mais vivida, depois de finda, um novo início, depois de tudo acabado.
Resolva-se esta charada desabrida, qual é realmente o marco mortuário? Se morrer é renascer em nova vida, então nascer é morrer ao contrário? Um dia tomei corpo morto ficando mergulhei-me na ilusão traiçoeira tolo, orgulhoso e temperamental hoje modificado pois morto estando deparei-me com a vida verdadeira e descobri que sou imortal vou deixar a última fala pra Ana respondendo a pergunta do Tiago eu responderia Dá o próximo passo. Se o próximo passo vai significar um caminho de um quilômetro, dois quilômetros, três quilômetros, não importa.
Só se manter no movimento da vida. Lembrar que nosso coração é elástico. Uns vêm, outros vão, mas ninguém vai embora para sempre. Cabe sempre mais gente. Então, eu diria o próximo passo, amar a vida. Amar o que tem, amar o que é, amar o que você está sentindo, amar quem se despediu. Ninguém vai desaparecer. Nós temos dificuldade de lidar com aquilo que está fora do olho físico, mas os nossos entes queridos estão conosco o tempo todo. Pensou, chegou. Então a gente os visita, eles nos visitam, é um intercâmbio tão natural.
Nós somos médiuns, né? André Luiz falou que somos, e somos mesmo. Então, próximo passo… tecer a confiança de volta na vida amar, é isso é isso aí, obrigado pessoal posso ir pro poema, Thiago? Vamos só a gente encerrar já quem tá aqui? pode, pode sim cantiga da dor, Maria Dolores e por que tanta dor por este mundo afora? Perguntei ao mentor que me instruía ralava-me na terra a escassez de alegria voltei do mundo físico e ainda agora, novo tipo de lágrimas me assiste Sou feliz e sou triste, vendo aqueles que amo em provação constante, sem que eu possa valê-los.
Muito embora o carinho dos meus erros e o meu imenso amor de cada instante, ele explicou-me com bondade. Essa história da dor na humanidade precisa ser revista. Por que menosprezar-lhe a função alta e bela, se não há criatura a evoluir sem ela? Vemo-la em toda parte, desde o sono da pedra aos altos sonhos da arte. Entre os homens e irmãos, tudo o que se conquista. A célula corporal, as posses e os prazeres pedem a vida de milhões de seres. Quanta aflição envolve a natureza para que o homem se alimente à mesa? Se houvesse uma consulta em cada horta?
Se alguém se dispusesse a ouvir a queixa dos rebanhos? Ou se escutasse o tronco que se corta quantas inquietações e protestos estranhos. A dor também é lei na qual se apura a civilização de que tens a cultura. Força de propulsão, sofrimento é processo para que se organize o topo do progresso ante o esplendor da evolução. E posso caminhar sem dor em minha estrada? Indaguei pensativo e o mentor respondeu em voz pausada. Sem a benção da dor, que nos guarda e elucida Para o encontro do bem, ninguém pode entender os ensinos da vida Nem saberá servir junto de alguém Morir, rené, e progresser, sem césar Morrer, rené, e progresser E progredir Ao ar Aleluia To be born To die To be reborn Again And constantly Progress That is The law MÚSICA Morrer, morrer, renascer, renascer a um mar e progredir, e progressar, sempre, ao é, além, além da lei.”
Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.
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