#060 – Estudo do Velho Testamento – Livro Gênesis

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Neste episódio, Haroldo Dutra Dias aprofunda o estudo do Velho Testamento, focando no capítulo 3 do livro de Gênesis. A análise se concentra nos versículos 14 e seguintes, que descrevem as consequências da aceitação da proposta da serpente por Adão e Eva, interpretadas à luz da Doutrina Espírita.

O que é estudado neste episódio

  • A proposta da serpente: É analisada como um plano de evolução que afasta o Criador de sua função de Pai e Pedagogo, propondo uma experimentação desequilibrada baseada no egoísmo e no orgulho.
  • Interpretação de Adão e Eva: São vistos como aspectos da psique humana e como símbolos da espécie humana em sua polaridade biológica, representando posturas psíquicas diante da evolução e a multiplicação da espécie.
  • O texto bíblico como existencial: A narrativa de Gênesis 3 é apresentada como um texto que busca responder às grandes angústias da vida humana, como a dor, o sofrimento, o desgaste físico e a existência do mal no mundo.
  • As grandes questões da existência: São abordadas perguntas como “Por que nascemos e morremos?”, “Por que a dor faz parte da existência humana?”, “Por que o trabalho exige esforço?” e “Por que Deus permite o mal e o sofrimento do justo?”.
  • A resposta do texto bíblico: A narrativa sugere que a condição humana atual não é o projeto original de Deus, mas sim uma consequência das escolhas humanas, remetendo à ideia de que o mal não é imposto, mas resultado da ignorância.
  • Os três elementos gerais do universo na Doutrina Espírita: São explicados o elemento material (matéria e energia), o princípio inteligente (inteligência relativa) e a inteligência suprema (Deus), que criou os outros dois.
  • Evolução do princípio inteligente: É detalhado o processo de evolução do princípio inteligente da ignorância para a sabedoria e da simplicidade para a complexidade estrutural, com ênfase na pequena parcela da evolução que ocorre na matéria densa.
  • O reino animal e os estímulos orgânicos: A fase animal da evolução é caracterizada pelo domínio dos estímulos físicos e biológicos, onde a matéria comanda o elemento inteligente.
  • A fase da razão e o surgimento do vício e da paixão: Com a aquisição da razão e da consciência, o Espírito pode se deixar dominar pelos estímulos biológicos, gerando o vício (apego ao prazer sensorial) e a paixão (exacerbação dos instintos com elementos emocionais como a posse).
  • O interesse pessoal como sofisticação do instinto de conservação: A transição do instinto de conservação animal para o interesse pessoal humano é explorada, mostrando como a busca por garantias, poder e satisfação de necessidades emocionais complexifica a jornada evolutiva.
  • A serpente como símbolo: A serpente é interpretada como a representação da animalidade que sobrepuja a razão, simbolizando um retrocesso e o embrutecimento das faculdades do Espírito, onde a matéria domina o espírito.

Reflexões

  • A Doutrina Espírita oferece chaves para desvendar o “espírito da letra” dos textos bíblicos, permitindo uma compreensão mais profunda das parábolas e metáforas sobre a condição humana e sua jornada evolutiva.
  • A narrativa do Gênesis, longe de ser uma história literal, é uma parábola existencial que aborda as grandes questões da vida, da dor e do sofrimento, atribuindo a origem dessas condições às escolhas humanas e não a um desígnio divino.
  • A evolução do princípio inteligente, desde o reino animal até a aquisição da razão e da consciência, revela como a subordinação aos instintos e o desenvolvimento do interesse pessoal podem gerar vícios e paixões, desafiando o discernimento e a capacidade de escolha do Espírito.

Ler transcrição do episódio

Hola, estamos aqui para mais um episódio do nosso estudo do livro Gênesis, de Moisés. Estamos no capítulo 3 e se você está acompanhando os episódios, percebeu que nós comentávamos os versículos 14 e seguintes do capítulo 3. É que depois da serpente ser bem sucedida, na sua estratégia de oferecer um plano de evolução para os seres, um plano cuja essência era afastar o criador da sua função de pai, orientador, educador e pedagogo da alma humana, a serpente então propõe uma estratégia evolutiva em que a criatura conta apenas com seus recursos próprios, em que a criatura se aprimora, adquire recursos evolutivos, através de uma experimentação muitas vezes louca, desequilibrada, que a faz perambular por caminhos obscuros de violência, de ódio, em que imperam o egoísmo e o orgulho, que são a tônica desta proposta da serpente.

Já comentamos tudo isso. Caso você tenha alguma dúvida, basta voltar aos episódios anteriores, onde este breve resumo que faço aqui está bem explicado nos episódios anteriores. É importante também lembrar que a nossa avaliação destes textos se dá à luz da doutrina espírita. É então contando com estes recursos iluminativos do Consolador que nós penetramos no texto bíblico, procurando extrair o espírito da letra, a essência espiritual que está para além da forma literária, para além dos aspectos culturais. Isto significa que nós estamos aqui interessados na parte eterna do escrito temporário e humano.

Este é o ponto. Na inspiração divina que gerou a escrita humana. A escrita é temporal. Ela se utilizou de uma língua que não existe mais, da forma como foi escrita aqui. Existe o hebraico moderno, mas não este aqui. A cultura também não existe mais, porque se trata de mais de dois mil anos antes de Cristo. Portanto, nós buscamos aqui aquela essência imperecível que é válida em qualquer época da nossa jornada evolutiva. Uma vez aceito o plano por Adão e por Eva, que nós já entendemos também esta sutileza do texto e resolvemos aqui dar um enfoque de Adão e Eva como aspectos da nossa própria psique.

Adão e Eva estão dentro de nós. Adão e Eva representam também posturas psíquicas perante a evolução. Este é um ponto também, porque nós temos que comparar três posturas. A da serpente, de Eva e de Adão. Já comentamos isto. E há também um nível sociológico em que Adão e Eva representam o casal, o casal humano biológico que vai procriar, que vai multiplicar a espécie humana. Então, eles seriam uma espécie de símbolo da espécie humana polarizada. Polarizada no sentido biológico, não no sentido afetivo, no sentido biológico, biológico de reprodução, não é?

O elemento masculino, o elemento feminino do código genético que torna possível a multiplicação da espécie humana. Então, tem este sentido. Nós percebemos que o texto brinca com esta pluralidade de significados. Ora, o texto reforça um lado, ora, reforça outro e nós temos que ficar atentos com esta sinuosidade do texto bíblico, porque o texto bíblico é cheio de curvas, cheio de subidas e descidas. Nós não podemos imaginar que isto aqui é uma linha reta e interpretar ingenuamente. Então, vamos lá para as consequências.

Aqui, nas consequências, vai se estabelecer um parâmetro para explicar a angústia da vida humana, a peregrinação humana na Terra. Este é o texto base desta angústia, desta peregrinação. Então, nós poderíamos dizer, usando uma linguagem contemporânea, que ele é um texto existencial. É um texto que procura ir nas raízes, nas bases que explicam a existência humana. O que que este texto está interessado? Ele está interessado em responder, de maneira metafórica, através de uma parábola, as grandes questões e angústias da vida humana.

Por exemplo, por que nascemos e morremos? Porque a existência humana é um processo de degradação. Olha que interessante. Então, você olha para um recém-nascido e olha para alguém que atingiu uma idade muito avançada. Você olha que é um processo de desgaste. Por que a dor faz parte da existência humana? O parto é doloroso, nascer é doloroso, o trabalho exige suor, esforço, causa fadiga. Então, são perguntas. Já que o texto raciocina partindo do pressuposto do monoteísmo, é como se essas perguntas estivessem sendo dirigidas a Deus.

Por que Deus permite que a fadiga acompanhe o trabalho? Por que a gente se cansa por trabalhar? Mesmo quando o trabalho é honrado, ético, digno, trabalho no bem, por que a gente cansa? Por que o organismo se desgasta, necessita se alimentar, necessita repôr as energias, tanto através do repouso, da ingestão de líquidos e de alimentos sólidos? Por que? Por que esses marcos da vida têm o símbolo da dor, do sacrifício, do esforço? Perguntas importantes. E, a grande pergunta, a grande pergunta, por que, na ordem da criação, no cosmos da criação, há um espaço para o mal?

Por que Deus reservou uma margem de ação e de influência para o mal? E, a última pergunta, e essa é uma pergunta desafiadora, por que Deus, que é o Todo-Poderoso, permite, em certas circunstâncias, a hegemonia do mal? Que o mal vença o bem e que o justo, aquele que age no bem, que age em sintonia com Deus, em respeito a Deus, por que Deus permite que esse justo seja afetado, seja violentado pelo mal? Por que o justo sofre? Então, essas são as grandes questões. E, agora, esse texto vai concluir a resposta, é claro que aqui é uma resposta cheia de metáforas, de símbolos profundos, que nós vamos gastar a Bíblia inteira para entender.

Esse capítulo 3, ele é como se fosse a polpa do suco. Tudo mais da Bíblia será uma água acrescentada a essa polpa para explicar e desenvolver. Olha que interessante! Explicar e desenvolver. E, a gente vai compreender que a própria vinda de Jesus representa um basta, um ponto final nessa história e o início de um novo livro, de uma nova história, de uma nova humanidade. Então, Jesus é um novo homem, um novo ser humano, um novo projeto. E, a partir dele, desse novo projeto humano, vai se formar uma nova família humana, assim como nós temos a família Adâmica.

Isso é importantíssimo a gente entender isso. Porque, aqui, o próprio povo hebreu, mesmo com todo o seu nacionalismo exacerbado, mesmo com o seu fechamento no espírito de grupo, eles têm perfeita noção de que o texto bíblico, sobretudo o capítulo 3 do livro Gênesis, reforça uma verdade universal. A humanidade possui um tronco comum. Uma origem comum. É claro que, ao longo dos séculos, e até hoje, em algumas propostas chamadas de criacionismo, procura-se uma interpretação literal desse texto. Então, as pessoas buscam um Adão com CPF carteira de identidade, um Adão mesmo, um ser humano que viveu num lugar, num determinado momento da história e que teve, em alguns anos que ele viveu, milhões de filhos.

Como se Eva tivesse um parto a cada uma semana ela dava à luz para povoar a Terra, porque só assim para conseguir um povoamento tão gigante. Imaginando que o ano tem 52 semanas, a expectativa de Eva é que ela desse à luz um filho por semana para gerar, no mínimo, uma cidade pequena. Então, é claro que essas interpretações ao pé da letra, essas interpretações literais, elas não cabem mais, elas não atendem mais o nosso grau de desenvolvimento intelectual, o nosso grau de desenvolvimento afetivo, o nosso grau de desenvolvimento psicológico e o nosso grau de desenvolvimento tecnológico.

Então, é preciso tomar cuidado com isso e nós temos pontuado isso ao longo do nosso estudo do Gênesis. Não interprete o texto ao pé da letra. Então, quando dizemos que Adão é um tronco comum, o que o texto está querendo dizer é todos somos seres humanos, todos somos seres humanos. A nossa base é humana, nós somos humanos. Este é o ponto. E, a partir do Cristo, a partir de Jesus, nós temos uma nova humanidade, um novo padrão de humanidade, um novo padrão de comportamento humano. Então, como que o texto bíblico procura explicar essas graves perguntas que nós fizemos no início?

Perguntas sobre a dor, sobre o sofrimento, sobre o cansaço, sobre tudo isso. O texto bíblico vai dar uma resposta bem direta. Ele diz assim, é assim porque quis o homem fosse assim, não Deus. Isto é interessantíssimo. Então, o que o texto bíblico está dizendo é não é este o projeto de Deus. É o que ele está dizendo aqui. Não é este. Este não é o projeto. O que nos remete ao livro dos Espíritos, quando Kardec indaga todos os Espíritos devem passar pela fieira, fieira, interessante que é como se fosse uma fila, um caminho, em fila, pela fieira do mal, e os Espíritos dizem a ele do mal não, da ignorância.

Ninguém tem que passar pela fieira do mal. A ninguém foi imposto o caminho do mal. Então, é interessante que o que este texto bíblico quer pontuar é que existem dois caminhos. Um caminho que é divino, uma proposta que é divina, e nós não estamos dizendo que na proposta divina não tenha elementos que tem aqui na outra proposta, que seria uma evolução sem dor, sem encarnar, sem morte. Nós não estamos dizendo isso. Não estamos dizendo isso. Existe uma proposta que é a proposta da serpente, que é a proposta animal, a proposta da animalidade.

Quando a animalidade se sobrepõe à razão, olha que interessante, quando a nossa ancestralidade animal sobrepunha a nossa ancestralidade humana e sobrepunha principalmente a razão, a razão, que é a conquista que a nossa inteligência já foi capaz de realizar. A razão comece com essa aquisição da nossa inteligência, atual aquisição da nossa inteligência, ou estado atual da nossa inteligência, porque a inteligência é anterior à razão. A inteligência é mais. A razão é um atributo da inteligência. Então, aqui está o ponto.

Por que sobrepujou e esse fato da animalidade sobrepujar a nossa humanidade está aqui metaforicamente descrito na serpente. A serpente simbolizando a nossa animalidade. Então, agora, nós vamos utilizar das chaves da doutrina espírita para entender isto aqui. Então, vamos lá. Aprendemos na doutrina espírita que existem três elementos gerais no universo. Três elementos gerais que nós poderíamos resumir numa linguagem atual, contemporânea, em O primeiro elemento, matéria e energia. Elemento material, que é o elemento que diz respeito a campos, forças, energia, massa, que são as características da matéria.

Campo, força, energia, massa. Massa é o jeito mais simples de eu dizer algo que a gente lembra de matéria. A massa. Eu sei que é matéria. Então, este é um elemento. Só que, o segundo elemento do universo é um elemento que é a inteligência relativa ou Inteligência limitada ou Inteligência subordinada. Há um elemento inteligente por trás da energia, do campo, da matéria, da força. Este elemento inteligente, nós podemos dar o nome de princípio inteligente, se você está se referindo ao início da evolução, espírito se você está se referindo genericamente ou Espírito humano, arcanjo.

Mas, é um elemento inteligente. E, o terceiro elemento é a inteligência suprema. Ela não é mais subordinada, ela é suprema. Absoluta, ela não é relativa e ilimitada, ao contrário da inteligência limitada, que é o espírito. Esta inteligência absoluta, suprema, ilimitada é a inteligência que criou os dois outros elementos. O elemento matéria e energia e o elemento inteligência relativa. Ela é a geradora. Esta inteligência suprema nós costumamos chamar de Deus. Mas, se você quiser dar outro nome, não tem problema nenhum.

É a inteligência suprema, de onde parte a informação que estrutura toda a criação. Então, vamos lá. Aprendemos, também, na doutrina espírita que o princípio inteligente evolui da ignorância para a sabedoria, ou seja, ele desenvolve a sua inteligência e dá simplicidade para a complexidade estrutural. Então, ele começa, primeiro, manipulando elementos simples e, à medida que ele vai evoluindo, ele manipula elementos cada vez mais complexos. Quando eu digo simples e complexo, eu estou dizendo de estrutura. De estrutura.

Então, um apartamento é mais simples do que um prédio. Por quê? Porque o prédio tem vários apartamentos. O apartamento só tem um apartamento. Então, dá para entender. Vai ganhando em complexidade. Então, o princípio inteligente, à medida que ele evolui, ele é espírito, ele vai ganhando em complexidade. Mas, há um estágio da nossa evolução corporal e, aqui, diga-se de passagem, apenas uma pequena parcela da evolução espiritual se dá na matéria densa. Uma pequenina parcela. Considerando que o princípio inteligente, o espírito, é imortal, a maior parte da sua evolução não se dá no elemento material grosseiro.

É importante dizer isso. Uma pequena parcela se dá, ele corporificado, na matéria densa, como a nossa. Então, esse é um ponto. E, uma parte menor ainda, ele se desenvolve nas espécies não dotadas da razão e da linguagem racional. Então, é o estágio pelo reino animal, em que imperam o impulso físico, os estímulos físicos são determinantes. Esse é o ponto. Os estímulos físicos, biológicos, corporais, são determinantes. Então, se o leão está saciado, ele vai deitar e ali ele vai ficar. Enquanto ele não tiver um estímulo orgânico, de fome, ele não se mobiliza para correr, para caçar, para buscar, desenvolver seus músculos, sua inteligência, sua sagacidade, sua habilidade.

Ele não vai caçar. Até uma serpente que engole lá um animal e fica quietinha. Ela só vai voltar a mobilizar o seu movimento, a sua prudência, a sagacidade, experiência, suas habilidades corpóreas, ela só vai acioná-las quando ela tiver o estímulo orgânico. Então, a grande característica do reino animal é que ele é comandado por estímulos orgânicos, corporais. Então, a matéria, o elemento material e energético, comandam o elemento inteligente. Olha que interessante isto! Comandam. Atingida a fase da razão, o princípio inteligente, que agora nós passamos a chamar, como no livro dos Espíritos, de Espírito, que é o princípio inteligente, agora dotado de razão e dotado de consciência, consciência de si, consciência, ele está consciente agora, acordou, ele sabe que ele é ele, que o outro é o outro, ele sabe que existe um ambiente, que existe um universo, então, ele se dá conta, porque lá atrás ele não sabia, não conseguia distinguir.

Agora, ele tem consciência, consciência e razão. E, aí, ele começa a desenvolver um arsenal de recursos e o que vai acontecer? No primeiro momento, vai acontecer isto aqui. Os estímulos biológicos e materiais, eles podem continuar dominando a inteligência, o Espírito, como no reino animal, como no reino animal. Ao invés da inteligência, da consciência, dominar sobre o estímulo, ela se deixa dominar, com um agravante. Como agora eu já tenho sentimento, que é um desenvolvimento da sensibilidade, da percepção, e como eu tenho desenvolvimento da inteligência, que culmina na razão, vão surgir dois novos elementos, o vício e a paixão.

O vício e a paixão. Por que o vício? Porque, ao receber um estímulo biológico e corpóreo de prazer e ao deixar que este estímulo biológico supere a minha inteligência, a minha consciência, o meu sentimento, ao ficar subordinado a este estímulo, eu vicio na sensação de prazer. Então, eu vicio num líquido, que é uma bebida alcoólica ou outra, eu vicio em algum produto químico, uma droga, eu vicio na comida, eu vicio em uma prática, em um hábito, em fazer alguma coisa, por quê? Porque aquilo me traz algum tipo de prazer sensorial, um prazer dos cinco sentidos.

Olha que interessante. Já é um processo em que o estímulo físico e biológico, aquele estímulo que fazia o leão levantar, ele não levantava. Aí, dá fome, ele levanta e aí que ele vai correr, usar o músculo, tem outros estímulos também, é claro, tem o estímulo do perigo, ele sente algum perigo, alguma coisa, tem isso também, mas que é os estímulos que agitam, que fazem agir o instinto de conservação, porque ele quer continuar vivo, ele quer continuar existindo. Esse é o instinto primordial. Querer continuar vivo, querer continuar existindo, proteger a minha estrutura física, isso é muito básico.

Mas, aqui, na Idade da Razão, já começa a entrar o vício, que é esse apego ao estímulo físico e um outro elemento, que é a paixão. A paixão tem também esse componente, essa raiz biológica e corporal, mas a paixão já diz respeito à sensibilidade adquirida pelo Espírito, diz respeito ao sentimento. Então, o sentimento de posse é meu. Essa ideia de que é meu, é do outro, eu posso pegar, é para mim, conservar, guardar, proteger olha que interessante, porque se você vê um leão comendo, ele tem lá um corpo de uma zebra e ele fica bravo, porque enquanto ele está com fome, ele fica bravo, ele come, mas depois ele come, relaxa, o outro vai ali e come, vem outro bicho e come, ele não tem aquela coisa, não, a zebra, eu chupo a zebra na geladeira, eu vou guardar ela em saquinho, não, o leão não tem isso.

Então, esse elemento emocional, que é da posse, do guardar, do é meu, vem, vem, é fruto do desenvolvimento da consciência, a consciência de que eu sou eu, o outro é o outro, o mundo é o mundo, eu tenho necessidades, a consciência de que eu estou com fome agora, mas eu vou voltar a ter fome, que o leão não tem, o leão não pensa semana que vem eu vou ter fome, deixa eu caçar duas zebras, guardar uma, não tem isso, não tem isso, isso já é da nossa experiência humana, o vício, a paixão e o elemento condutor de tudo isso.

Então, nós citamos três elementos aqui do humano, que é a subordinação da inteligência aos estímulos físicos e corporais, ou seja, a matéria, a energia, o corpo sobrepujando o espírito à inteligência. O vício, que é a escravização aos prazeres que o corpo proporciona através dos cinco sentidos, e a paixão, que é uma exacerbação daqueles instintos que eram só biológicos, só físicos, e que agora passam a incluir elementos da nossa emoção, do nosso sentimento, da nossa consciência, da nossa percepção de seres separados, distintos.

E tudo isso comandado por quê? Se lá atrás era o instinto de conservação, a pedra fundamental que sustentava o edifício de todos os instintos, porque todos os instintos funcionavam e funcionam, não é? Através do comando do instinto de conservação, tudo é feito para conservar a existência e a forma, a existência e a forma. Agora, de posse de um patrimônio emocional, de um patrimônio intelectual, de uma inteligência e de consciência, consciência de ser algo distinto do outro e distinto da natureza, do cosmos, surge o elemento que vai ser o fundamento de tudo, o interesse pessoal.

Interesse pessoal. O interesse pessoal é uma evolução, uma sofisticação do instinto de conservação. Interessante, não é? Então, agora, eu sei que não basta caçar para matar a fome que eu estou tendo agora, porque eu já tenho consciência de que a fome é periódica. Eu estou com fome agora, eu vou comer, mas eu vou voltar a ter fome. Então, agora, os processos são mais sofisticados. Eu quero garantir a caça de agora e de um mês, de dois meses, de três, da vida inteira. Então, agora, eu já quero guardar, eu quero conservar, eu quero ter.

E eu sei que para ter isso, então, se eu tiver um terreno, uma área, porque eu cuido do animal, aí depois eu vou percebendo que eu tenho que ser dono para ter pessoas trabalhando. Aí começa todo um processo intrincado, intrincado, que gera a sociedade e que faz parte, faz parte da lei divina, que é a lei de sociedade. Então, em sociedade, o instinto de conservação se sofistica no mais alto grau, no mais alto grau. Então, aquilo que era a fome do leão que fazia ele se levantar para caçar a zebra, agora me faz ter muitas ações e comprar ações para eu dominar o mercado financeiro, para eu ter poder, para eu influir na política, influir nisso, entende?

Para conservar. É mais sofisticado. Então, não se trata mais de apenas uma conservação da existência. Não é mais só isso. Eu quero ter preponderância, eu quero dominar, eu quero controlar, eu quero exercer poder, eu quero garantir o conforto, eu quero me cercar de garantias. Olha só, garantias. Garantias de que? Garantias de prazer material. Garantias de que meus sentidos físicos serão atendidos prazerosamente. E, mais que isso, garantia de que as minhas necessidades agora emocionais, que agora, além das físicas, eu tenho emocionais, necessidades emocionais.

Então, necessidade de aprovação, ser aprovado, necessidade de admiração, necessidade de destacar, necessidade de dominar, necessidade de comandar. E, aí, começa um processo intricado, muito intricado, que forma uma senal gigantesca de recursos que vão desafiar, desafiar a inteligência do Espírito, o seu discernimento. Então, ele será desafiado na sua capacidade de escolher. Então, a proposta aqui da serpente, por isso que é uma serpente, porque escolheu-se um animal. Por que não escolheu um ursinho, um panda? Se fosse um panda, poderia ser o gato de botas.

E o gato, por que não é o gato de botas? Por que é uma serpente? Porque a ideia do autor bíblico aqui é te dar um desconforto, é te mostrar uma coisa, nossa, uma serpente, coisa que essa proposta da serpente é uma proposta de retrocesso, é uma proposta de anulação do nosso discernimento, da nossa inteligência e do nosso cabedal de sentimento em favor de um embrutecimento das faculdades do Espírito. É um sobrepujamento mesmo, a matéria sobrepujando o Espírito, os sentidos sobrepujando a inteligência, o sentimento, a percepção, a intuição.

Essa é a proposta da serpente. Mas, no próximo episódio, a gente continua e vamos explorar um pouquinho mais isto aqui e O que acontece com cada um desses elementos da história dentro dessa proposta aceita e homologada da serpente, rechaçando a proposta de Deus. Eu te aguardo até o próximo episódio. Temos que nos afastar dos processos de morte. Quais são os processos de morte? Tem vários, mas nós poderíamos citar aqui alguns que são vitais, vitais até paradoxal, alguns que são mortais.

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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