#029 – Estudo do Velho Testamento – Livro Isaías

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Neste episódio da série de estudos do Velho Testamento à luz do Espiritismo, conduzida por Haroldo Dutra Dias, o foco recai sobre o Livro de Isaías, especificamente em sua segunda parte (capítulos 40 a 66).

O que é estudado neste episódio

  • A riqueza da revelação e a evolução do intérprete: Haroldo Dutra Dias introduz a ideia de que a revelação é tão rica que o intérprete precisa se deslocar e amadurecer para enxergar suas múltiplas faces. A interpretação do texto bíblico não é meramente intelectual, mas envolve todas as potências da alma, crescendo em complexidade e experiência.
  • Níveis interpretativos da Torá: Retomando o estudo anterior, são mencionados os níveis interpretativos (Pechat, Ramesh, Darash, Sod), que representam graus crescentes de complexidade e sutileza na compreensão do texto, comparando-os à evolução do princípio inteligente.
  • Estrutura simétrica da segunda parte de Isaías:
    • Divisão em três partes: A segunda parte de Isaías (capítulos 40 a 66) pode ser dividida em três blocos de nove capítulos cada (40-48, 49-57, 58-66), cada um com uma estrutura simétrica e um capítulo central que resume seu espírito.
    • Primeira parte (40-48): O capítulo central é o 44, que exalta a grandeza de Deus Criador e Sua justiça. A justiça divina é apresentada não apenas como administração de débitos, mas como harmonia, regulação, regeneração e pedagogia.
    • Terceira parte (58-66): O capítulo central é o 62, que aborda o amor de Deus e Sua relação com a criatura, comparando-a a um casamento. Este relacionamento exige fidelidade, confiança (emunar/pistes) e entrega, com Deus sendo o fiel e a criatura, a variável.
    • Segunda parte (49-57): O capítulo central é o 53, que trata da caridade e bondade de Deus, que doa o maior presente à humanidade: Jesus, o modelo e guia.
  • Nova perspectiva de Isaías 40-66: Uma segunda maneira de interpretar essa seção é colocando o capítulo 53 no centro, como o topo de uma pirâmide.
    • Capítulos 40-52: Descrevem as aflições, exílios, lutas e escravidões de Israel, simbolizando as agruras da humanidade.
    • Capítulo 53: Apresenta o “Cordeiro” (Jesus), o presente de Deus, que é o Cordeiro Pascal, libertador da escravidão. É um “mini-êxodo”, um resumo do livro de Êxodo, mas em um nível mais profundo, libertando da escravidão aos vícios, à ignorância e ao afastamento de Deus.
    • Capítulos 54-66: Mostram o resultado da vinda do Cordeiro na vida do povo hebreu e na humanidade, a vitória sobre as aflições.
  • O Cordeiro de Deus: O capítulo 53 de Isaías é o único no Velho Testamento que associa Isaías diretamente ao Cordeiro, sendo uma referência clara a Jesus. João Batista e o Apocalipse de João reforçam essa conexão, identificando Jesus como o Cordeiro de Deus.
  • As revelações não são livros: Haroldo Dutra Dias enfatiza que a Primeira, Segunda e Terceira Revelações não são livros, mas sim somatórias de encarnações de espíritos missionários. Os livros são biografias e registros dessas vidas, mas a vida em si é a revelação.

Reflexões

  • A interpretação do texto sagrado exige mais do que intelecto; demanda a evolução moral e espiritual do indivíduo, que, ao progredir, descortina novos ângulos da verdade.
  • A lei divina é de justiça, amor e caridade, e Isaías, em sua segunda parte, apresenta essa tríade através da grandeza de Deus, de Sua relação de amor com a criatura e de Sua caridade suprema manifestada em Jesus.
  • A verdadeira libertação (o “êxodo”) não é apenas política ou econômica, mas espiritual, libertando o ser humano da escravidão aos vícios, à ignorância e ao afastamento de Deus, um processo simbolizado pela vinda do Cordeiro.

Ler transcrição do episódio

Bom dia! Bom dia! Agora sim, agora está com áudio. Primeiro tenta a leitura labial, depois. Pois é. Tudo bem, Haroldo? Ô, Júlio, bom dia, tudo tranquilo? Nós não atrapalhamos o João aí na prova, no esquema dele? Não, eu estou ajustando aqui, peraí, o lugarzinho aqui, para ficar bonitinho, peraí. Então tá bom. Tá bom, agora sim. Hoje o Haroldo está falando… Olha aí, Leonora. Bom dia, então, amigos, bom dia, Haroldo, passou bem a semana? Graças a Deus, tudo em paz, muita atividade, mas tudo em paz. Isso, só para lembrar que o pessoal está nos pedindo os livros, o Haroldo, ele já vai me mandar a lista dos livros da semana passada, que todos os dias eu recebo mensagem pedindo sugestão dos autores.

Não, mas acabando hoje o estudo, então, eu já tiro a foto da capa deles, já te mando, que aí você já aposta. Combinado, sim. Só não faça isso agora, porque senão vai interromper aqui, aí a gente perde a dinâmica. Então, hoje, conforme combinado, a gente preparar a nossa aguinha, preparar a nossa prece, antes do bom dia. Isso, vamos fazer a nossa prece, até lembrando aquilo, que o nosso estudo aqui é um estudo espírita, e a gente também tem uma preocupação com a vibração, com o envolvimento da espiritualidade, não é um estudo apenas intelectual, ele tem também, tem uma atividade espiritual também.

A gente precisa de vigilância nesses momentos também, não é, Haroldo? Porque toda a estrutura de pessoas que assistem com a gente e que vibram pelo trabalho contribui para que o resultado seja o melhor, não é? Então, apesar de estarmos distantes, às vezes cidades diferentes, é criada uma grande rede de solidariedade, de união, de luz, e que é mais importante do que a gente, às vezes, ter uma opinião sobre isso, ou uma opinião sobre aquilo, ou até mesmo de nós estarmos com a verdade ou não sobre determinados pontos, ou todos os pontos, não é, Haroldo?

O mais importante é que nós estejamos unidos em solidariedade pelo aprendizado. E o aprendizado é feito no diálogo, na fraternidade, nesse esforço de todos nós aprendermos juntos. Então, é só mesmo uma vigilânciazinha para que a gente possa trazer tanto aqui nos comentários que são colocados, tanto quanto na oração, na vigilância, porque se estamos aqui, significa que desejamos aprender, não é? Não estaríamos aqui se não estivéssemos afim de nos irmanarmos no aprendizado que você se esforça por nos trazer. Então, a gente entende que a maior parte do tempo é assim, mas a gente pede que fiquemos tranquilos, e se em algum momento também houver alguma questão, seja nos comentários, que nós também estejamos vigilantes quanto à questão de não incendiarmos um processo.

Nós estamos na internet, é importante que a gente entenda que nós estamos em um ambiente muito aberto, não é, Haroldo? É um ambiente que todas as pessoas, podem chegar pessoas de todo tipo aqui assistir a live, são todas muito bem-vindas, os comentários também são todos muito bem-vindos, não tem problema, não estamos querendo que as pessoas fiquem pensando assim, não pode comentar, não pode emitir uma opinião, mas vigilância e atenção para que a gente não quebre uma corrente pura em vigilância, porque é um trabalho bem delicado, não é uma coisa simples, é só essa atenção mesmo, porque a internet é um ambiente muito aberto.

Importante também dizer, né, Júlio, que o trabalho tem uma proposta, existem várias abordagens, existem vários estudos, esse tema pode ser abordado, aqui nós estamos fazendo uma abordagem espírita, é bom que isso fique bem claro, todos são bem-vindos, mas a pessoa não deve alimentar falsas expectativas de que nós vamos fazer uma abordagem aqui que não seja espírita, ou que nós vamos abrir mão dos conteúdos da doutrina espírita para abraçar outros tipos de conteúdos, outros tipos de ideias, principalmente aquelas ideias que se chocam com os fundamentos do espiritismo, isso aí, nós jamais faremos isso aqui nesse trabalho, então se a pessoa vem com essa expectativa, é bom logo que ela já se frustre de início, para não se frustrar ao longo do trabalho, não é?

Isso mesmo, a gente vai colocar a mesa, o que nós temos a trazer, né, Arudo? E o que nós temos a trazer aqui é o esforço de trazer à luz da doutrina espírita, né? Então, mas vamos todos afinando nosso instrumento, como uma orquestra, uma hora ela fica afinadinha, fica tudo bem, né, Arudo? Tudo certo, o pessoal está muito empenhado, o pessoal está bem empenhado. Então, eu posso ler, fazer uma leitura, para a gente fazer a prece, Arudo? Deve, juro, deve. Abriu um capítulo que me parece interessante, o título dele é Contribuir, quem sabe seja para nós todos aqui?

Cada um contribua segundo o propôs em seu coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama o que dá com alegria. Paulo aos Coríntios, 9 e 7, lindo, não é, Arudo? Nossa! Qual que é o contexto dessa passagem, Arudo? Aqueles conselhos das cartas de Paulo, né? Eu acho que tem umas falas de Paulo que não tem nem contexto, viu, Júlio? Que se aplica a qualquer época, a qualquer indivíduo, a qualquer situação, né? Olha isso, Deus ama aquele que dá com alegria. Tem como achar contexto para isso, né? Ou contexto que não caiba a isso, né?

Beleza. Quando se divulgou a afirmativa de Paulo, de que Deus ama o que dá com alegria, muita gente apenas lembrou a esmola material. O louvor, todavia, não se circunscreve às mãos generosas que espalham óbulos de bondade entre os necessitados e sofredores. Naturalmente, todos os gestos de amor entram em linha de conta no reconhecimento divino, mas devemos considerar que o verbo contribuir na presente lição aparece em toda a sua grandiosa excelsitude. A cooperação no bem é questão palpitante de todo lugar e de todo dia.

Qualquer homem é suscetível de fornecê-la. Não é somente o mendigo que a espera, mas também o berço de onde se renova a experiência, a família em que acrisolamos as conquistas de virtude, o vizinho, nosso irmão em humanidade, e a oficina de trabalho que nos assinala o aproveitamento individual no esforço de cada dia. Sobrevindo o momento de repouso de outurno, cada coração pode interrogar a si próprio quanto à qualidade de sua colaboração no serviço, nas palestras, nas relações afetivas, nessa ou naquela preocupação da vida comum.

Tenhamos cuidado contra as tristezas e sombras esterilizadoras. Má vontade, queixas, insatisfação, leviandades não integram o quadro dos trabalhos que o Senhor espera de nossas atividades no mundo. Mobilizemos nossos recursos com otimismo e não nos esqueçamos de que o pai ama o filho que contribui com alegria. Estamos todos aqui contribuindo com alegria. Exatamente. Você quer fazer a prece, Haroldo? Ah, prefiro que Eleonora faça. Então vamos. Fazemos com o nosso coração em paz com as mensagens de Paulo, que possamos contribuir na seara do Cristo, tal qual como o corpo de Cristo, aqueles que tenham olhos de ver, ouvidos de ouvir, mãos de trabalhar, pés, tal qual um corpo, cada um, se sinta parte dessa seara imensa que nos conduz aos caminhos do pai.

Eu sou o caminho, a verdade e a vida, Ele nos disse, e compreendemos pelas lições dos trabalhadores da primeira hora que previram a sua chegada. E essa promessa ecoa em nossos corações até os dias de hoje, que todos que fazem parte desse estudo, que fazem parte desse ideal, se sintam nessa manhã o paz espiritual, a fortificação e a limpeza dos seus lares, e o consolo do amor de Deus, que assim seja. Vou deixar vocês dois aí na tela para ficar mais harmônico aqui, né? E vou acompanhar, tá, Aroto? Qualquer coisa que precisar, tá fechado só, Aroto, abre.

Eu queria, só antes de sair, deixar um beijo para uma pessoa que está aqui, que há muito tempo não falo com ela, que é a Alessandra Gerum. Saudade dela demais. Muita saudade, viu, Alessandra? Fique com Deus, querida. Deixa eu sair. Beijo, pessoal. Então, pessoal, hoje, como Aroto, ele tem horário, né, Aroto? Hoje nós vamos fazer o estudo de uma hora. Então, todos se sintam bem-vindos, não vamos dar nomes, né, mas todos que estão aqui no chat emanando, né, as vibrações de bom estudo, que se sintam todos bem-vindos, estamos juntos na manhã de hoje.

Então, semana passada falamos de conexões, falamos de tradição oral, falamos dos sábios, né, que sabem muito mesmo. E hoje? Eleonora, hoje eu vou apresentar aquela simetria da estrutura da segunda parte de Isaías, mas eu vou trazer um outro ângulo, uma outra maneira de ver e esse é bonito, porque esse é um princípio da interpretação hebraica, que a Torá tem 70 faces, então, você nunca pode ficar encantado por uma visão, você sempre tem que estar você se deslocando para poder enxergar outras coisas. Então, é essa a ideia, o texto, a revelação, ela é tão rica que quem se desloca não é a revelação, é o intérprete.

Então, nós que temos que amadurecer, nós que temos que viver experiências, nós que temos muitas vezes que passar por expiações e provas a fim de depurar nossas almas e a partir dessas experiências nós vamos conseguir enxergar outras faces do texto que estavam ocultas. Então, nesse sentido, a interpretação do Velho Testamento e do Novo Testamento, não é uma atividade puramente intelectual. Ela é uma atividade que envolve todas as potências da alma. Todas elas. E o Espírito, à medida que ele cresce, que ele progride, que ele avança, ele descortina novos ângulos na revelação que antes ele não conseguia por conta das suas limitações pessoais.

É importante isso. A leitura tem que ser sempre aberta. Nunca nós podemos fechar. Não é essa a proposta. A proposta é que a leitura seja coerente. Coerente. Coerente ela tem que ser. E nós vimos muito isso no estudo da semana passada sobre o Pechat, o Beresh, o Pechat, o Ramesh, o Beresh e o Sod. Os níveis interpretativos que revelam, na verdade, níveis de complexidade. Então, quando eu saio do nível literário, que é o Pechat, e vou para o Ramesh, eu subi de complexidade. Eu cresci em sutileza. Eu cresci, ficou mais amplo.

Quando eu vou para o Darash, eu fico mais complexo ainda. Então, é mais ou menos igual ao princípio inteligente. Ele sai do simples e ignorante para o Espírito puro, com as duas asas da sabedoria e do amor. Essa é a ideia. Ele ganha em complexidade e ele ganha em conhecimento no sentido não conhecimento apenas cognitivo e intelectual, mas experiência. Talvez experiência seja a palavra mais adequada nesse caso. Então, agora, nós já tínhamos dito e o texto fica mostrando isso para a gente, que a segunda parte de Isaías tem uma simetria.

Nós poderíamos pegar a segunda parte quando eu digo segunda parte, eu estou falando do capítulo 40 ao capítulo 6,5. Nós poderíamos dividir essa segunda parte em três. Então, eu teria que ter três cristais. Três fractais. Por que cristais? Porque eles têm a mesma estrutura. Então, se eu pegar esse grande bloco que é a segunda parte de Isaías e dividir em três, eu vou ter três partes idênticas do ponto de vista de estrutura. Não idênticas do ponto de vista de conteúdo. Porque, é claro, cada parte vai falar de coisas diferentes.

Mas vai falar no padrão estrutural. Qual que era o padrão estrutural? Nós tínhamos aqui, não é? O número de capítulos. Então, lá. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, não é? Então, tem lá a primeira parte do capítulo 40 ao 48. Depois, a segunda parte do capítulo 49 ao 57. 9 de novo. E aqui, claro que essa divisão em capítulo é artificial, porque no texto original hebraico não tem capítulo. Não tem versículo. É um pedaço de rolo. É um pedaço do rolo, não é? Um pedaço do rolo. Então, eu tenho a primeira parte do capítulo 40 ao 48, a segunda do capítulo 49 ao 57 e a terceira do capítulo 58 ao 66.

Como cada uma dessas partes tem uma simetria, tem a mesma forma, como se eu tivesse, por exemplo, três triângulos, três quadrados, três círculos, tem a mesma forma, cada parte dessa tem um capítulo central. O capítulo central ele resume o espírito, a ideia, o conteúdo de toda aquela parte. Falando sobre isso. Então, na primeira parte, nós temos o capítulo central ao 44. Aqui uma revisão breve, revisãozinha de dois minutinhos. Então, a primeira parte é o capítulo 44, que ele fala do que? Da grandeza de Deus Criador.

A grandeza de Deus que ordena, que ordena, que cria, recria, gera e regenera. Gera e regenera. Ora, se Deus gera e regenera, que atributo é esse? É o atributo da justiça. Porque a justiça não é apenas decidir crimes, tirar essa ideia. A parte de administrar resgate de débito é apenas uma das facetas da justiça divina. Então, às vezes, a gente costuma reduzir a justiça divina a uma administração de quem vai espiar a quem vai provar. Não é só isso. A justiça tem a ver com harmonia, regulação, adequação, regeneração, corrigenda, educação, uma pedagogia.

Então, por que essa parte da justiça divina está associada ao Deus Criador? Porque a ideia do monoteísmo hebraico é se Deus é todo poderoso para criar, por que Ele não é todo poderoso para regenerar o que Ele criou? Essa é que é a ideia. Essa é que é a ideia. Se Deus é poderoso para criar, Ele é poderoso para recriar. Ele é poderoso para restaurar, para reequilibrar, para repor, regenerar, e isso são funções da justiça. Quem restaura, quem regenera, quem reequilibra, quem repõe, é a justiça. Então, a primeira parte é um canto, é um hino à justiça.

É a justiça. E o capítulo central dessa primeira parte é o capítulo 44. Por que? Porque é um canto ao monoteísmo. Está dizendo todos os deuses são deuses de mármore, todos os deuses do mundo são deuses de pedra. O único Deus vivo, o único que é inteligência suprema, o único Deus que é inteligência suprema, o único Deus que é amor infinito, o único Deus que é o Criador, que age na criação, é esse Deus que está sendo apresentado aqui. É o Deus do monoteísmo hebraico. Então, essa é a ideia. Depois, nós vamos para a segunda parte.

Melhor, vou para a terceira, que fica mais fácil. Na terceira parte, na terceira parte, nós retomamos e eu vou hoje, hoje o nosso estudo vai concentrar na terceira parte, o que está relacionado com o amor? Porque a terceira parte, ela diz respeito à relação de Deus com a criatura. Existe um relacionamento entre Deus e as suas criaturas? O Deus é um sujeito isolado, sujeito que eu digo aqui como um ator, um agente da criação. Ele é isolado Ele não se comunica? Ele não se relaciona? Ou ele se relaciona? São perguntas importantes.

Deus criou e tirou férias e deixou lá um computador gerenciando a criação? Tem muita gente que pensa nisso. Que as leis divinas são inteligência artificial. São como um computador que fica regendo o universo. Automaticamente. Então, tudo está determinado, tem um determinismo, tem uma lei, não é? Como se não houvesse espaço para o amor, para mudar, para suspender, para decidir. Então, o texto bíblico, aqui, ele vai dizer que sim. Que sim. Que Deus se relaciona. E ele se relaciona de uma maneira que é muito intensa. Que o relacionamento de Deus com a criatura vai ser comparado ao relacionamento mais íntimo que o indivíduo podia ter nessa sociedade aqui.

Qual era o relacionamento mais íntimo? O casamento. O casamento. Nessa sociedade aqui, que era uma sociedade de nômade, as pessoas viviam em tendas, acampavam ali em tendas, depois elas se fixaram na intimidade da tenda. Qual era a intimidade mais profunda de duas pessoas? A intimidade sexual, a intimidade da relação afetiva, em que você está literalmente nu, diante da outra pessoa. Você está totalmente entregue, totalmente exposto, um ao outro. Então, o texto bíblico, e isso é chocante na Bíblia hebraica, que ela vai dizer que a relação da criatura com Deus é um casamento.

Então, a terceira parte aqui, o tema é o amor. E o capítulo 62, ele vai falar do que? Tomando Israel como a humanidade, tomando Israel como um símbolo da humanidade, vai falar das núpcias do casamento. Isso já está nos profetas. A gente vai ver isso em Roséias, em Jeremias, nos profetas. Essa ideia de que Deus casou. Deus contraiu núpcias com Israel. Núpcias com a humanidade. O casamento da terra com Deus. É um casamento. O que é importante nisso? Casamento não é uma atividade intelectual. O casamento aqui, o casamento verdadeiro, como está colocado, nos parâmetros que o texto está colocando, ele envolve o que?

Amor. Amor. Fidelidade. Entrega. Confiança. A palavra confiança é emunar ou, em grego, pistes. Foi traduzido para o português como fé. Esse é um grande problema. Porque nós temos uma visão distorcida de fé. Para o hebreu, fé é confiança. Confiança no sentido de a intimidade e a fidelidade que um casamento exige. Então, se eu estou casado com Deus, eu sou fiel a Ele, Ele é fiel a mim. Os evangélicos adoram essa frase. Deus é fiel. Deus é fiel, claro. A pergunta é e nós somos? Deus é fiel. Nós somos fiéis a Deus? Essa é uma grande pergunta.

Mas, o importante aqui é no sentido de que essa relação exige fidelidade. Ela exige fidelidade. Então, a gente precisa dessa componente. Essa componente muito forte que é a confiança. Então, se você está em uma relação íntima, se você se entregou a alguém, você confia. No caso de Deus, Ele é o Todo-Poderoso. Ele é perfeito. Ele é puro. Então, Ele sempre vai ser fiel. Ele sempre vai ser confiável. Qual é a variável complicada nessa relação? A criatura. Então, nessa relação, quem pode pisar na bola é a criatura, não é Deus.

Então, é importante. E a gente vai perceber que o capítulo 62, que é o centro dessa estrutura, ele é um capítulo que fala do casamento. Então, é o tema das bodas. Esse é o que eu chamo de um dos grandes temas bíblicos. Então, a Bíblia tem grandes temas. Êxodo é um deles. Êxodo e Cordeiro. Casamento. Videira. A videira. O jardim. Então, são os grandes temas bíblicos. Por que grandes temas bíblicos? Porque eles estão presentes desde o início até a Apocalipse. São os grandes temas. São os padrões temáticos da Bíblia. É importante a gente entender isso, porque quando Jesus conta a parábola das bodas, quando Jesus inicia a sua atividade pública nas bodas de Cana, o que ele está fazendo?

Ele está fazendo uma grande referência a esse tema bíblico aqui do casamento de Deus com as criaturas. O grande casamento de Deus com as suas criaturas. Aliança, né? Aliança. E aliança é nesse sentido aqui mesmo. Aliança é aliança mesmo. A aliança de Deus é casamento mesmo. É aliança. Inclusive, essa aliança que a gente usa, ela vem dessa aliança lá. Dessa tradição, né? E a terceira parte, que na verdade está no meio aqui, é a segunda. O tema é… Bom, Deus é o Criador, Deus é justo, Deus educa, Deus regenera, Deus reequilibra, Deus ama, Deus casa com a gente.

Deus estabelece uma relação e Deus doa. Doa com alegria. Deus é o doador. Deus é o caridoso. Ele é a caridade. Ele é a personificação da caridade. Não há nada nem ninguém mais caridoso do que Deus. Ninguém. Então, o mais caridoso não é Chico Xavier. O mais caridoso não é Francisco de Assis. O mais caridoso não é Jesus. O mais caridoso é Deus. Por isso que quando o jovem mancebo chama Jesus de bom, bom mestre. Você está me chamando de bom por quê? Bom só há um. Que é Deus. Ele é a bondade suprema. Por quê? Porque Deus é bom com o universo infinito.

Ele não é bom só com um planeta, só com um sistema, só com uma galáxia, só com um universo, com várias galáxias. Não. Ele é bom com a criação infinita. Então, não tem bondade de maior qualidade e de mais quantidade do que a dele. Então, essa parte aqui do capítulo 49 ao 57 é A parte que fala da caridade de Deus, da bondade de Deus, que doa, doa, doa. E o núcleo dessa parte é o capítulo 53, em que Deus deu um presente para a humanidade. Deus doou para a humanidade o maior presente que a humanidade já ganhou. Olha, o maior presente não é a Terra, a Terra física.

Não é o planeta. O maior presente que a humanidade já ganhou é a vinda de Jesus. Por quê? Porque ele é um modelo. Ele é um modelo. Ele é um modelo do filho de Deus. Se a pessoa quiser se tornar o filho de Deus, com letra maiúscula, o modelo é Jesus. E, além de ser modelo, porque se fosse um modelo, apenas, seria uma coisa que colocou lá e a gente, não. Além disso, ele é guia. Se ele é guia, significa que ele está ao nosso lado. Significa que ele voltou e está caminhando de novo conosco, um caminho que ele já fez. Ele não precisava, porque ele já sabe.

Essa viagem que Jesus está fazendo com a gente, ele já fez. Ele não precisava ficar repetindo. Se ele está nos guiando, é por amor. É como uma mãe, uma professora, que está ali alfabetizando uma criança, ela já é alfabetizada. Ela não precisa ficar estudando sílaba de novo. Ela já sabe ler e escrever. Mas por que ela refaz esse caminho? Porque ela está guiando os seus tutelados, os seus educandos. Ela está guiando. Como ela está guiando, ela repete o que ela já sabe. Esse é o núcleo do capítulo. Bom, agora fizemos uma revisão zona aí.

Agora eu vou dar uma outra visão. A outra visão é o quê? Vamos dividir isso aqui em duas partes. Podemos dividir isso aqui em duas partes. Dividido em três partes, eu tinha justiça, caridade e amor. Ou justiça, amor e caridade. Que a lei é a última lei moral que resume todas as outras. Lei de justiça, amor e caridade. Então, capítulo 40 ao 66 de Isaías é o quê? É a lei de justiça, amor e caridade. É isso. É isso. Agora, podemos ver isso aqui de uma maneira diferente. Como é que eu posso ver? Eu coloco o capítulo 53 no centro como se ele fosse o topo de uma pirâmide.

E aí eu tenho 13 capítulos subindo e 13 descendo. Sendo que o capítulo 53 está no topo. Então, 13 capítulos é do 40 ao 52. Aí eu chego no topo, que é o 53. Depois eu desço 13 degraus, que é do capítulo 54 ao 66. Qual que é a ideia aqui? A ideia aqui é do capítulo 40 até o 52, esses capítulos estão descrevendo todas as agruras que Israel passou. Todos os exílios, todas as lutas, todas as dificuldades todos os tipos de escravidão, todos os tipos de violência, de massacre, de opressão, tudo. Aí vem o Cordeiro, que é o Taliá.

O Cordeiro no capítulo 53. Ele é o presente. Ele é o Cordeiro Pascal. Ele é o Cordeiro que vai livrar da escravidão. Ele é o Cordeiro do êxodo, da libertação. Depois dos capítulos 54 até o 66, eu tenho qual foi o resultado da vinda do Cordeiro? O resultado na nação de Israel, na vida do povo hebreu e o resultado na humanidade. O que o Cordeiro fez e fará por Israel e pela humanidade. É uma outra maneira de enxergar a segunda parte de Isaías. O que nós estamos percebendo é que não importa se você divide em três, se você divide em dois, não importa como você divide, o núcleo é sempre o capítulo 53.

Por quê? Porque ele é o único capítulo do Velho Testamento que vai associar Isaías ao Cordeiro. O único lugar do Velho Testamento em que nós vamos ter uma associação direta. Não estou falando uma associação, eu estou falando uma direta, clara, com o sol ao meio-dia, em João Pessoa. É esse do capítulo 53. Por quê? Porque esse capítulo 53 ele é um mini êxodo. O capítulo 53 é um resumo do livro de êxodo inteiro. O primeiro êxodo o primeiro êxodo é uma imagem pequenininha do que será o grande êxodo da humanidade. Porque a escravidão política e econômica de Israel no Egito é fichinha diante da grande escravidão humana.

A escravidão aos vícios, a escravidão ao mal, a escravidão à violência, a escravidão à falta de confiança em Deus, a escravidão do afastamento de Deus, essa é a maior escravidão. E o verdadeiro êxodo é libertação disso. Então, aqui nos 53, nós temos um novo êxodo. É importante isso, Eleonora? Porque lá no Evangelho de Lucas, antes do tabu, na passagem do tabu, o evangelista Lucas diz assim, e Jesus sabia que se aproximava o seu êxodo. Está lá. O seu êxodo. E o que Jesus vai dizer? No mundo tereis aflições. O que é isso?

Capítulo 40 a 52. No mundo tereis aflições. As aflições estão descritas aí, do capítulo 40 ao 52. Mas tem de bom ânimo. Eu venci o mundo. Capítulo 54 a 66. Nossa! No mundo tereis aflições. Eu venci o mundo. As aflições estão descritas aí, do capítulo 40 ao 52. Que são as aflições do cativeiro. Por exemplo, o cativeiro da ignorância. O espírito, às vezes, fica 20 encarnações. Escravo do fanatismo. Escravo da ignorância. Escravo dos vícios. Escravo da violência. Escravo do afastamento a Deus. Escravo do afastamento das leis divinas.

É uma escravidão. Em que o grande, o grande dominador, não é o outro. É ele mesmo. Então, a gente fala que a grande luta é a luta interior. Em que a gente vai adquirir autodomínio. Autodomínio é o quê? É você se libertar da escravidão dos impulsos. Então, está essa parte bonita. E aí nós vamos ver o quê? O que o João Batista vai dizer lá no Evangelho de João. Capítulo 1, versículo 29. O que o João Batista vai dizer? O João Batista vai dizer assim. Povo hebreiro! Pessoal que está estudando Isaías. No espiritismo.tv.

Abre a sua Bíblia. Abre no capítulo 53 de Isaías. Vou dar uma dica para vocês. O Cordeiro de Deus é esse que vai chegar aqui e vai encontrar comigo. Presta atenção. O Cordeiro de Deus, lá do capítulo 53 é Jesus. É o Messias. E ele vai vir agora encontrar comigo. E eu não sou digno nem de carregar as sandálias dele. É isso. É isso. Outra referência gigante. Está em João também. Lá em Apocalipse, o capítulo 21 e o capítulo 22 inteiro. São dois capítulos do Apocalipse 21 e 22 que todo tempo fica chamando Jesus de Cordeiro.

É como se o evangelista João quisesse sacudir a gente e falasse pelo amor de Deus conecta o evangelho ao capítulo 53 de Isaías. Pelo amor de Deus. Você não está enxergando? É isso. Esse é o Cordeiro de Deus. Eu estou anotando aqui. Não sei se o pessoal está vendo. Está tudo aqui. Pode vir. Para a gente poder compreender. Tem uma pergunta que acho que tem bem a ver. Eu perdi, mas o amigo estava perguntando se todos esses profetas vieram para pavimentar a vinda de Jesus. Todos, não sei, mas Isaías com certeza. É. Eu acho que ele está fazendo referência aos profetas que estão citados na Bíblia.

Não é isso? Aqui, o João Porto. Bom dia. Excelente esclarecedor e estudo. Podemos entender que a vinda de todos os profetas foi programada para pavimentar a encarnação de Jesus na Terra? Sim, acho que os bíblicos. Como é o nome dele? O João Porto. Ah, o João. João. É mais que isso. Vou dizer uma coisa. Esses profetas que encarnaram eles são a primeira revelação. Vou repetir. A primeira revelação não é esse livro que você está segurando na mão. Deixa eu segurar ele aqui. Aqui. Estou pegando aqui, meu amor. Aqui. Tem gente que acha que a primeira revelação é essa parte aqui da Bíblia.

Essa parte. Fala, ah, eu estou segurando a primeira revelação. Não, não, não. Isso que você está segurando aqui é a biografia reduzida, resumida das vidas que compõem a primeira revelação. A primeira revelação não é um livro. Esse é o maior equívoco que o espírita comete quando interpreta a Bíblia. E por que que eu estou dizendo que é um erro? É um equívoco. Você vai abrir o Evangelho Segundo o Espiritismo no capítulo 1 Não vim destruir a lei. Você vai lá em Instruções dos Espíritos e a primeira mensagem que está no capítulo 1 é de um espírito israelita.

E ele vai esclarecer isso. Leia com atenção. A primeira revelação não é um conjunto de livros escritos. A primeira revelação é uma somatória de encarnações. Abraão, Isaac, Jacó, aí vem as mulheres, Sara, Raquel, Lia, Ismael, Ismael, aí vem José do Egito, aí vem todos os profetas Jeremias, Isaías, Ezequiel, Natan, Davi, Salomão. Todas essas encarnações reunidas constituem a primeira revelação. O que nós temos aqui é uma biografia. Biografia não é vida. A vida é muito maior do que uma biografia. Porque eu não consigo resumir, por exemplo, Eleonor, a sua vida num livro de 200 páginas.

Da mesma maneira, a segunda revelação não são os 27 livros, o Novo Testamento. A segunda revelação é Jesus encarnado. Ele é a segunda revelação. E todos que estão ao redor dele. Operando na sua missão. E isso é a segunda revelação. É importante atentar para isso. Porque, se não, eu vou virar adorador de livro. E a letra mata. Tem gente confunde. Então, para que tivesse a segunda, para que Jesus pudesse encarnar e dizer e ensinar tudo o que Ele ensinou, centenas de missionários tiveram que encarnar antes dEle. E quem fecha o ciclo de encarnações da primeira revelação?

Quem fecha o ciclo de missionários da primeira revelação? João Batista. O precursor. Ele é a última missão. A última encarnação da primeira revelação. Anunciando a segunda, que é o Messias encarnado. Vivo. Não um livro. Isso, Eleonora. Se eu pudesse, como diz o Chico, se eu tivesse autoridade, eu pediria para todo espírito a repetir isso todo dia, 50 vezes, para gravar. Não é o livro que você tem na mão que é a revelação. Não é o livro. São as vidas. As vidas. E aí nós, para a segunda revelação, a mesma coisa. Para a terceira, a terceira revelação começa com a encarnação de um ser que recebeu o nome de Allan Kardec.

Junto com ele, vários outros ao lado dele. Depois nós tivemos uma sequência. Uma sequência. Eurípedes, Doutor Bezerra, Chico Xavier, e vários outros. É um conjunto de vidas. Importante a gente entender isso. Por quê? Só uma vida pode transformar outra. O livro é um registro para a memória. Só isso. O livro é um registro para a nossa memória. É por isso que Jesus vai lá e pega aquele espírito que encarnou como Ismael que está no mundo espiritual. Está vivo. Ismael não é uma figura de livro. Ele é um espírito. Jesus pega ele e fala Vem cá, Ismael.

Você serviu tanto. Agora você vai governar a parte do Evangelho. É por isso que ele pega o Iléu e diz Vem cá, Iléu. Você vai coordenar os processos sociais da Terra. Isso é belíssimo. Porque essas vidas, influenciando outras vidas, é o que gera também essa tradição aural. As histórias que a gente conta, as coisas que eu aprendi com meu avô, as coisas que foram aprendendo uns com os outros. Para os hebreus, a Torá oral é superior a Torá escrita. Esse é um princípio. A primeira coisa que um doutor da lei aprende é isso.

A primeira coisa que alguém que vai aprender a Torá aprende é Torá oral é superior a Torá escrita. O pessoal aqui está perguntando se o Ismael do Antigo Testamento é o Ismael, o protetor do Brasil. Está lá no livro crônica de Alain Tumulo. Está lá no livro crônica de Alain Tumulo, ditado por Humberto de Campos, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Inclusive, lá dá tudo. Ismael, filho de Abraão e de Agarro. Textualmente citado. É o próprio. É o próprio. Então, eu fico, Eleonora, eu fico escandalizado quando eu ouço um espírita dizendo que não precisa estudar o Velho Testamento.

Um espírita brasileiro dizer um negócio deles. Como é que você diz isso olhando para Ismael? Eu teria vergonha. Eu teria vergonha dizer isso olhando para Ismael. Muito bem. Luiz Henrique aqui, ele lembrou de João, 21, 24. Se fossem escritas, nem o mundo inteiro poderia conter os livros. Lindo isso aí, né? De tudo que Jesus fez. É o próprio João. E aí, quem está falando não é o Aruodo. É o João Evangelista. Ele foi um evangelista. Ele escreveu o Evangelho. Então, um evangelista dizer isso aí, Eleonora, é muito significativo.

O que ele está dizendo? Está dizendo assim, gente, eu estou redigindo o Evangelho, mas deixa eu explicar para vocês. Não tem livro que vai dar conta de retratar essa criatura que encargou aqui. A Terra não cabe tanto de livro se fosse contar tudo. Porque a vida dele é grandiosa. A vida do Cristo é grandiosa. Então, eu selecionei algumas coisinhas aqui para redigir. Mas, se eu fosse escrever tudo que eu vi, a Terra não caberia de tanto livro. Eu precisaria escrever bilhões de evangelhos. É bonito quem está falando isso.

É um evangelista. E, às vezes, a gente esquece disso. Aí, a gente acha que a segunda revelação é o livro que eu tenho na mão. É o rolo, o pergaminho. Mas, não é mesmo, né? Eu estou anotando aqui a divisão da segunda parte de Isaías em duas partes. No mundo tereis aflições, tem de bom ânimo, eu venci o mundo. Acho que essa foi a lição de hoje, né? Foi. É o resumo. É a síntese, né? É a síntese. Mais alguma pergunta? Sim, alguma. Vamos correr aqui. O pessoal contribuindo com as falas. Alguém ficou com dúvida com relação a isso, Eleonora?

Alguém ficou com dúvida com as divisões? Com as estruturas, né? Cortou o barulho. Já volta. Acho que a internet não está muito boa. A sua internet deu uma cortadinha. Deu uma cortadinha. Estou falando assim, se alguém ficou com dúvida com essa mudança de paradigma. De que primeira revelação, segunda revelação, terceira revelação não são livros. Os livros são resumos. Eu não estou dizendo que os livros não são importantes, pelo amor de Deus, né? Não é isso que nós estamos dizendo. Claro que os livros são importantes.

Porque eles são registros. São resumos. Agora, eu não posso transformar um registro em algo maior do que a vida que gerou o registro. Porque se Jesus não tivesse encarnado, não teria registro. Não teria livro para narrar a vida dele. Isso é muito lógico. Mas a gente esquece disso. Isso é óbvio. Mas é tão óbvio que a gente esquece. Então, se não fosse a vida de Moisés, não teria livro. Se não fosse a encarnação de Ismael, não teria. A citação lá de Gênesis. Se não fosse a vida, a encarnação de Isaías, não teria livro.

O livro não é a causa. O livro é a consequência. É a memória, Maria de Fátima está falando aqui. Então, Eleonora, a letra é o registro. O espírito da letra é o missionário que encarnou. Então, eu tenho que tirar da letra o espírito missionário que encarnou e que fez a história que foi registrada no livro. Tirar o espírito da letra. É uma outra maneira de interpretar isso também. O espírito não é só o significado do texto. É o missionário, o espírito imortal que encarnou e que gerou os livros. Se ele não tivesse encarnado, não teria livro, não teria história para contar.

Isso mesmo, acho que por hoje o pessoal comentando que a gente está precisando agora dessa parte do tem de bom ânimo para vencer o mundo. Exatamente, Leonora. Mas o que é isso? Se o Julio quiser entrar para… Para a gente despedir, né? Está sem áudio, Julio. Estou sem áudio. Estou sem áudio, agora não. É muito botão que fica apertando e os 52 anos de idade não combinam com os botões? Pois é, Julio. Hoje está sendo comemorado pelo Brasil o dia da consciência negra. Eu queria mandar um abraço para toda a África, o berço da humanidade e Todas as nações, todas as etnias, elas derivam dessa mãe África e a gente, a humanidade tem uma dívida com os povos africanos e a gente fica nesse dia pedindo a Deus que a gente possa resgatar essa dívida com amor, devolvendo o que foi tirado, restaurando as feridas e abraçando e hirmanizando, porque a gente tem uma dívida de gratidão à nossa mãe África.

A gente falou isso lá? Isso a gente não está falando. A gente já falou lá no A Caminho da Luz, não é mesmo? O primeiro lítero musical que o ser fez foi o A Caminho da Luz e eu lembro, como se fosse hoje, a gente separou um trecho lá do seminário para fazer uma declaração de amor à África, não é? Está gravado. Está gravado. Há dez anos atrás. Está lá gravado, não tem… É discurso. E depois nós tivemos tantas pessoas que participaram e eu gostaria de simbolizar todas os nossos irmãos de etnia, todos os nossos irmãos afrodescendentes, simbolizados no Altair Veloso, que participou e fez todo mundo chorar, fez todo mundo ir às lágrimas.

Então eu acho que, graças a Deus, nós do ser temos essa consciência de que a gente sempre valorizou nossos irmãos afrodescendentes, a gente sempre se ajoelhou e agradeceu a contribuição deles para a humanidade, para a humanidade. E eu não posso nem dizer, porque, assim, a família da minha mãe é de origem afrodescendente e, inclusive, eu tenho tias que são da cor da pele negra, então, para mim, estar na família é muito tranquilo. Mas eu, assim, todo mundo sabe da minha admiração por Demont Tutu, Martin Luther King, Nelson Mandela, os grandes jazzistas, os grandes músicos que, na sua maioria, são afrodescendentes, John Coltrane, Herbie Hancock.

Então, poxa vida, a África é um berço, que a gente saiba valorizar os nossos irmãos. Eu vou até, a gente está encerrando aqui, você tem que sair, mas eu vou deixar para quem quiser conhecer, eu vou compartilhar aqui a participação do Altair Veloso no nosso liter aqui, eu vou compartilhar a minha tela aqui para as pessoas também conhecerem. No Brasil Coração do Mundo, ele chegou lá e deu um show. Ah, foi um presente que a gente recebeu, não é, Haroldo? Eu vou mostrar rapidamente aqui, deixa eu só compartilhar a tela aqui, que você também pode falar, foi muito bonito o agradecimento dele também no final, a emoção que ele ficou, não é, Haroldo?

Nossa, isso aí vale… Então, vocês já estão vendo aqui a plataforma? Para quem quer, eu acho que… Eu ia falar, não é, Haroldo, quase que quando a gente fala que é um dia de consciência negra, é um dia de autoconhecimento, não é? E também, que essa dívida seja resgatada, também é com a gente mesmo, com a gente mesmo e com Deus, não é? Porque as oportunidades que tivemos e que desperdiçamos, não é, muitas vezes, Haroldo? Isso aí, isso aí. Importante lembrar disso, não é? E o Espiritismo nos deixa de forma bem clara que estagiamos em diversas oportunidades em outras etnias.

Então, é incoerente de nossa parte desprezarmos quem quer que seja, não é, porque nossas experiências… Eu sempre digo assim, Júlio, a gente pode ter passado por várias etnias, mas uma coisa eu tenho certeza, nós começamos na Arca. Sim, sem dúvida. Isso aí é história, antropologia, nós começamos na Arca. Mesmo quem é caterino, quem veio de fora, começou na Arca. Isso mesmo. Não dá para escapar, Haroldo. Negar nossas raízes. Aqui, ó, o Haroldo falou no litro musical A Caminho da Luz, muito importante para esse estudo também que a gente está fazendo agora, é um processo importante de se conhecer, que é o seminário litro musical A Caminho da Luz.

Aqui, o Brasil Coração do Mundo, o Consolador, Paulo Estevam, são seminários litro musicais que a gente fez. Vai entrar mais aqui? Está para entrar o do… O Consolador entrou? Ah, não, teve um que não entrou que foi diferente, que foi o Pensamento e Vida. Então, está aqui. Eu vou entrar aqui no Brasil Coração do Mundo e nós vamos compartilhar com vocês para a gente encerrar esse dia e nesse dia que, inclusive, nós temos aqui um bate-papo com o Aluísio Elias e o Gladston Laja que a gente fez uma homenagem ao livro Celeiro de Redenção que a gente lançou, que é um livro muito bacana que tem participação do Haroldo, do Aluísio, da irmã Ayla, do Zé Otávio, Gisela Morim, Alexandre Caroli, João Romário, Gladston.

E aqui tem uns bate-papos que a gente fez sobre o Brasil, autodescobrimento, foi muito legal. Então, você tem tudo aqui, tem músicas e tudo mais, o que nós vamos puxar aqui hoje é a história do Abacontá. Então, vocês fiquem com a história no finalzinho, quem tem tempo agora, é uma historinha mais longa, mas que vale muito a pena todos conhecerem, né? Justamente nesse dia. E o Haroldo, a gente se despede, o Haroldo… Agradecendo ao Haroldo por mais um estudo e deixando essa mensagem do Abacontá para a gente refletir, né, Haroldo?

Nossa! Vai ser nosso presente aqui, para nós mesmos e para todos os nossos irmãos. Você quer ter alguma palavra final, Haroldo? Só dar parabéns a todos, as nossas irmãs e irmãos afrodescendentes que estão acompanhando o estudo aqui. Dá parabéns, dizer da nossa alegria, graças a Deus, hoje nós já estamos em condições de reconhecer o patrimônio humano, cultural, filosófico da África, a importância dessa etnia para a evolução planetária. Então, gratidão, gratidão mesmo. E parabéns. Muito bom. Então, vou deixar para vocês, vou deixar ela toda, vou deixar um trechinho para vocês conhecerem, depois vocês vão lá na plataforma escutar o resto, tá bem?

Então, um grande abraço para vocês, fiquem com Deus. Tchau, gente, obrigada. Bom fim de semana. Parabéns aí a todas as irmãs e irmãos da nossa manhã. Boa noite, amigos. É um prazer, uma honra especial estar aqui nessa noite com vocês. Eu vou levar para casa muita da ternura que eu recebi aqui, do afeto. É uma noite para mim de um dia inteiro de celebração, de encontros, o sagrado ritual do encontro. Estou muito honrado, eu fui convidado pelo Júlio, pelo querido Aroldo. Me emocionei muito sentado aí ouvindo o Aroldo falando essas coisas sobre a nossa terra.

É tão bonito a gente ver que há esperança e a gente precisa encher o coração dos nossos meninos, dos nossos jovens dessa esperança. Eu fui convidado para dizer esse texto. É um texto médio único que foi recebido por um médium do Instituto Meimei. Botei o óculos aqui porque a vista não vai obedecer mesmo. É a história do Nego Zé. Ando por cá só olhando vocês nessa falar complicada, com o livro grosso na mão. Fiquei mesmo assuntando para não me fazer enganado por gente de má intenção. Eu já vivi nesse mundo e vi muita gente se esconder nas máscaras da palavra complicada, de intenção ruim mascarada fazendo esse povo sofrer.

Mas para vocês eu quero contar a história que não está escrevinhada, está tudo mesmo gravado na cabeça de abacontar. Era um menino matreiro lá nas terras distantes do mar, das tribos do Iorubá, tribo do homem guerreiro. Eu era um menino valente. Eu corria pela mata fechada, não tinha medo de nada, nem de escuro, nem de serpente. Mas um dia eu conheci o medo. Uma manhãzinha, logo cedo, saí para caçar para a família e acabei por querer ver o mar. Desviei do dever para nadar. Como fazia todo dia. Perdido na distração, senti uma rede me prender, comecei a gritar, me debater com meu coração na mão.

Vi dois homens com uma cara de mau falando, uma língua toda embolada. Enquanto a gente era arrastada, a rede era arrastada e eu preso nela como um animal. Lembrei dos avisos dos mais antigos, de não caminhar sozinho na trilha, andar sempre com gente da família ou junto com alguns amigos. Abá, a quieta, por Olorum e Obatalá, um dia minha mãe esbravejou. Quem caiu na rede do branco, Abá, nunca mais voltou. Tomado de apavoramento, continuei me debatendo, tentando me libertar. Gritei os nomes que eu lembrava para ver se alguém me escutava e vinha me ajudar.

Mas só uma resposta. Abá recebeu. Um dos homens me bateu e eu não vi mais nada. Só acordei num lugar diferente, apinhadinho de gente, tudo ali aprisionada. Tinha gente de tribo rival, mas na força daquelas correntes ali nós era tudo igual. Era animal, não era gente. E coisa engraçada que eu vou contar. Inimigo que Dante queria matar, ali se abraçava ao seu mal querer. A dor juntou os companheiros de sorte. Todo mundo ali temia a morte. Todo mundo ali queria viver. Nós fomos tudo amontoado em um barco tudo apertado para arrumar para o desconhecido.

E ante a rudeza do branco que tratava nós ao seu alavanco, nenhum gemido era ouvido. Pior que o chicote atrevido era o peito oprimido enquanto o barco movimentava. Gente que o branco prendia. Se na praia não morria, caia na estrada. Nunca mais me portava. Fiquei olhando minha terra, a terra da minha ternura que lá ia sumindo na lonjura e me fazendo pensar. Lá ficou minha alegria, minha liberdade, minha família que eu não soube escutar. Durante o primeiro dia eu pensava em ir manjar. Esperava ela se levantar e acudir os filhos maltratados.

Mas nós não fomos ajudados por nenhum Deus da nossa crença. Naquele barco mardito era só morte e doença. Ou era o chicote malvado que chispava no lombo pelado. Ou era a fome que matava. Ou os negros por si mesmos se jogavam nos braços do amigo mau. Buscando fim para aquele sofrer. Achando que era melhor morrer que se deixar escravizar. A comida era pouca e medida. E só para quem não tivesse ferida, nem febre ou prostração. Esses eram tudo acorrentado e no mar era tudo jogado sem qualquer compaixão. Nem sei quanto tempo isso levou, mas um dia o barco chegou onde tinha que chegar.

E nós descendo tudo assustados, fomos logo apreciados por quem queria nos comprar. Eu era só um menino, mas estava ali nas correntes, como se eu fosse um bicho. E vinham uns homens e me olhavam de vez em quando, falavam aquela língua embolada. Eu não entendia nada, mas queria falar pra eles também. Porque a Bacontá era a gente também. Queria voltar pra casa. Aí o povo me agredia. Pra piorar meu sofrimento, eu fiquei ali no relinto depois daquela agonia, naquela viagem sem fim, com fome, com sede, cansado, esperando ser comprado pra saber o meu fim.

Acabei por ser comprado por um homem mal encarado. Que me levou até a montaria, mas não me fez montar, me fez foi caminhar. Me puxava pela corda amarrada, nas minhas mãos acorrentadas, junto às outras mãos de outros que eu, na viagem, não morreu. Nós ia aquele bando, caladinho. Se caía no caminho, o homem dava uns arrancão. Gritava as palavras emboladas, parecia uma besta malvada, sem dó, sem compaixão. Nosso pé descalço no chão, ia ferindo, sangrando. Mas o homem ia puxando, sem querer saber de nada. Muitas horas caminhando, com a moringa queimando no sol forte da estrada.

Caminhando, bem longe, chegamos no alto de um monte com uma estranha construção, levaram nós pra esse lugar. Onde nós ia ficar era a nossa prisão. Tinha tanto negro lá dentro, que hoje eu penso admirado com tanta abominação. O que pensava esse povo branco pra fazer tanta loucura? Só por causa da pele escura, nós não eram seus irmãos. Durante muitos dias eu só ficava calado. Estava muito acabonhado de sordade e de dor. Mas a negra veio aproximando, aos poucos fui se acostumando com aquela vida de horror. Nem sempre nós compreendia o que o outro negro dizia, porque muitos que ali chegou vieram de lugar diferente.

Outra tribo, outra gente. Mas aos poucos nós aprendia a língua embolada do branco e a língua dos outros também. Pra entender a exórdia dada e não tomar uma lambada do chicote do feitor no seu constante estala. Estala? Nós trabalhava de dia e de noite se recolhia. Num lugar chamado Senzala. Onde dormia no chão, tudo amontoado. Mas tinha também os coitados que por cartigo ou rundade ficava preso pelas extremidades até a luz do dia voltar. Me chamaram José. Eu não era mais Abá. Eu vi o tempo passar. Eu já não era mais um menino.

Agora eu já era um homem forte, mas de jeito fraco, amuado. Não queria ser maltratado, tinha medo da morte. O menino atrevido da mata agora era manso que nem os gados. Obedecia calado. Trabalhava na plantação. Fugia das brigas que às vezes se dava entre os irmãos e ficava só espreitando o chicote do feitor, estalando no longo dos mais afoito que entrava em confusão. Por ser negro, manso, calado, que não gostava de brigar, um dia fui apontado pra poder acompanhar o senhorzinho daquelas terras. Parecia boa coisa. Ia comer melhorzinho, ia vestir melhorzinho, ficar na casa grande, sem serviço muito pesado.

Eu fiquei até animado. Pensei que a sorte sorria pra o coitado do Zé. E eu é que não sabia que tinha tipo de mardade que faz a gente sentir sardade do chicote do feitor. Ah, não. Tem castigo pior, lambada de toda hora, que num estalo no lombo me causa dor maior, a dor da humilhação que não marca a carne de fora, mas marca o coração. O senhorzinho em questão não viu o negro Zé. Mais que uma diversão. Muitas vezes na casa grande, no luxo daquela sala, eu tinha farta da senzala em meio aos meus irmãos. Mas agora eu não quero me alongar.

Eu vivi muita rudeza, conheci muita tristeza, judiaram muito de mim. Mas tudo nesse mundo tem fim. E é isso que eu quero contar. Oh, meu povo que estudam, vocês precisam saber que nessa vida na terra vale a pena tudo sofrer sem se dar na desforra. Um dia o senhorzinho casou. Parece até castigo o que se aconteceu. A mulher dele morreu no parto do primeiro filho e esse homem desassossegou. O menino nasceu adoentado e não aceitava ser cuidado pelas negras que ele buscava. Cada vez que uma pegava, se ouvia pela casa inteira o grito do menininho.

O desespero do pai que temia perder o herdeiro e gritava no terreiro fazendo todo mundo correr pra achar providência pro seu filho não morrer. Um dia fiquei assuntando e fui me aproximando pra olhar bem o menino que chorava no berço sozinho. Peguei ele nos braços, olhei aqueles olhinhos e balancei no regaço aquele cortinho humildinho. E não é que ele se calou, acho mesmo é que ele gostou. Aí o pai me deu um sossego porque eu tinha que pajear, fazer dormir e alimentar o menino branco do negro. O menino cresceu no meu colo, ouvindo minhas histórias inventadas, ouvindo as minhas toadas, me seguindo pra todo lado e nada parecia com o pai.

Nas durezas de namardade meu menino tinha bondade naqueles olhos de mar, mas tinha muita fraqueza. Por mais que o negro cuidava, por mais que se alimentava, parecia definhar como uma luz que se apagava bastando o vento sobrar. Desde que vim de minhas terras nas ondas bravas do mar, eu nessa terra bizarra, meus olhos haviam secado. Eu nunca tinha chorado nas tristezas que eu vivi, nem nas humilhações que sofri, nem nas vezes que eu apanhei uma lágrima e derramei, mas quando vi meu anjo branco baixar no buraco da terra, e vocês não podem imaginar a dor que eu senti, pelos meus olhos eu vesti o mar.

Vou ser muito verdadeiro, tive pena, muita pena do pai do meu menininho, nunca vi tanto desalim, não era a gente, era o diabo. Parecia enfeitiçado, exóis, embugalhado, perdido, sem razão. Não aguentava o sofrimento de ver seu único rebento enterrado naquele chão. Ele que fez tanta mãe chorar, separando dos filhinhos que outros brancos vinham comprar, nunca teve compaixão daquela mãe desesperada que nos seus pés se arrastava na suprema humilhação. Eita noite sombria que eu nunca mais vou esquecer. Depois do enterro do menino, a senzala toda sofreu, porque o chicote lambeu as costas de todo negro, inclusive eu.

E bateu com tanta agressão que naquela noite de tristeza, o chicote, na sua rudeza, libertou do sofrimento um outro irmão. A mim, ele feriu o braço. Acho que a carne se ofendeu, corria sem melhorar, acharam por bem cortar. Mas esse negro sobreviveu. Não sei se foi de pesar pelo exagero que fez, mas o senhorzinho nunca mais bateu em nós outra vez. Passaram os dias de ilusão daquele acontecido, o senhorzinho já envelhecido, já sem poder andar, não tinha ninguém pra cuidar. Sozinho no mundo, meio endodecido, a riqueza acabou.

O escravo fugiu, e eu também quis fugir. Mas que piedade eu senti. Por aquele homem acabado, naquele lugar mal cuidado, acabei por ficar por lá. Também eu era velho, sozinho, e afinal de contas, aquele senhorzinho era o pai do meu anjo branco, que alegrou meus dias de tristeza, e eu esqueci da rudeza que ele haverá de me tratar. Vi a morte chegar de manso, entre os gritos da agonia daquele pobre coitado. Havia mesmo endoidado, dizia ver sombra dos negros que ele tanto fez por maltratar. Esperando ele distrair, pra poder se vingar, os olhos do senhorzinho se fechou.

Depois de muito delirar, eu me pus a pensar pra onde devia fugir. Mas eu tava velho e aleijado, preferi ficar por ali. Até que a morte teve dó. Um dia eu dormi e acordei diferente. Mais forte, com disposição, não tinha mais meu aleijão, meu braço tava no lugar. Levantei e me pus a andar até que fui chamado. Mas não como eu era tratado, mas fui chamado por Raba. Me virei já estranhando, porque era a voz conhecida. Ah, meus filhos, que coisa boa. Eu devia tá sonhando, pois ali mesmo me chamando era meu anjinho de rosto rosado.

Eu fiquei meio abalado, sem saber o que falar. Aí o menino andou e logo se aninhou nos braços do negro. Eu me pus a chorar. Como é isso, senhorzinho? Se eu mesmo vi o menino baixar na cova, no chão, e meu menino bonzinho me deu essa explicação, eu nem preciso repetir. Pois vocês já sabem que eu morri. Com os dias na vida nova, eu conheci outras pessoas, mas era muito diferente. Ali toda gente era boa, tratava nós como gente. Meu anjo me ajudou e um dia eu pude entender o porquê do sofrer da minha vida que tinha acabado.

Não me cabe aqui dizer, mas também eu já fui marvado. Eu fiz muito sofrimento em volta dos meus pés, mas a divina piedade me deixou perejar pra poder me libertar da minha própria amardade. E pra afinar esses versos, eu quero dizer pra vocês que depois que conheci Jesus, eu soube tudo o que ele passou, só pra poder libertar os seus irmãos pecador, eu agora sou escravo por vontade desse novo senhor. Ele tem me ensinado que a força maior desse mundo é maior que as correntes de aço que um dia prendeu o nosso braço lá na escravidão.

E se nós aprender a amar, nós vamos nos libertar da corrente muito pior que as correntes de ferro. Nós vamos estar libertos das correntes da ilusão. E quem se liberta dessa marra já sente vontade de voltar. De modo a poder salvar aquele nosso irmão preso nesse tormento, acorrentado ao sofrimento nas terras do coração. Desde o dia que entendi, tenho muito lutado pra ver um dia libertado das correntes da ilusão aquele que foi meu senhor. Como Jesus nos ensinou, agora é meu irmão. Eu tenho esperado ansioso apertar no meu peito o saudoso coração do senhorzinho que luta agora no mundo reconstruindo os próprios passos.

E se fizer tudo direitinho, como manda as leis do amor, não demora a poder descansar no peito desse seu abado. Meu nome é Abba. Muito obrigado.

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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