#032 – Estudo do Velho Testamento – Livro Gênesis

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Neste estudo do Velho Testamento, Haroldo Dutra Dias aprofunda-se no livro de Gênesis, dando continuidade à análise da segunda temporada. O foco deste episódio é a palavra hebraica Nefesh, que, embora comumente traduzida como “alma”, possui uma riqueza de significados e nuances que o Espiritismo nos ajuda a desvendar.

O que é estudado neste episódio

  • A palavra Nefesh no Velho Testamento: O estudo inicia com a dificuldade de tradução precisa de “Nefesh” para “alma”, destacando a importância de analisar as ocorrências da palavra no texto original. É apresentada a metodologia do estudioso Hans Walter Wolff, que catalogou e analisou todas as ocorrências de Nefesh no Velho Testamento, especialmente no Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio).
  • A concretude da língua hebraica: Haroldo Dutra Dias explica que o hebraico é uma língua concreta, e a abstração surge da interpretação, não do texto em si. A raiz da palavra Nefesh está ligada à “garganta”, abrangendo o aparelho respiratório e parte do digestivo (boca, língua, garganta). Para um hebreu da época de Moisés, Nefesh significava a respiração e o ato de comer, indicando um ser vivo.
  • Adão como “Nefesh vivente”: O texto de Gênesis, capítulo 2, descreve Deus soprando nas narinas de Adão, que então se torna uma “Nefesh vivente” ou “alma viva”. Esta passagem é interpretada de forma concreta: Adão passou a respirar, indicando vida. A “Nefesh morta” (Nefesh Met) é mencionada em Números 6:6, contrastando com a “Nefesh viva”.
  • A interpretação de Kardec e a anfibiologia da palavra “alma”: Allan Kardec, na introdução de O Livro dos Espíritos, aborda a anfibiologia (múltiplos sentidos) da palavra “alma”. Ele a utiliza no sentido de Espírito encarnado, o “Espírito adamizado”, que é o Espírito corporificado, materializado na Terra. O perispírito, formado pelos fluidos do orbe, é o verdadeiro corpo físico, enquanto o corpo carnal é apenas uma veste.
  • Nefesh como ser humano necessitado: O estudo aprofunda a ideia de Nefesh como o ser humano em sua totalidade, com suas necessidades físicas, emocionais, psicológicas e intelectuais. A palavra Nefesh, ao focar na garganta e na boca, simboliza a constante necessidade de alimento e sustentação da vida.
  • A oposição entre Deus e Nefesh: Deus é pleno, enquanto a Nefesh (o ser humano) é marcada pela necessidade e fragilidade. A condição humana é de insegurança e carência, que impulsionam tanto ações negativas (traição, mentira, ganância) quanto positivas.
  • Paulo e os dois Adões: A Carta aos Coríntios, capítulo 15, é analisada, onde Paulo distingue o “primeiro Adão” (Nefesh vivente) do “segundo Adão” (Jesus, um espírito que dá vida). Paulo não via Adão como uma figura literal, mas como um padrão de ser humano, enquanto Jesus representa um novo padrão, uma nova humanidade.
  • A transcendência do Evangelho: Jesus, ao afirmar “Minha comida é fazer a vontade de meu Pai”, demonstra que não está sujeito às mesmas necessidades do “primeiro Adão”. O Evangelho oferece uma lógica diferente da lógica da Nefesh, uma lógica do Espírito, que transcende as carências e inseguranças humanas.
  • A fragilidade humana: A condição de encarnado implica perda de memória explícita, dependência absoluta na infância e a constante busca por suprir necessidades. A “marca do status adâmico” é a morte, o fim de ciclos, a efemeridade. Emmanuel, ao comentar o Reino dos Céus, ressalta que tudo que os olhos da carne veem está sujeito à morte, e o Reino dos Céus é puramente espiritual e imperecível.

Reflexões

  • A compreensão da palavra Nefesh nos revela a profundidade da condição humana enquanto Espírito encarnado, com suas inerentes necessidades e fragilidades, e como essa condição molda nossa jornada evolutiva.
  • A distinção entre o “primeiro Adão” (Nefesh vivente) e o “segundo Adão” (Espírito que dá vida) nos convida a refletir sobre a transcendência do Evangelho e a busca por uma lógica espiritual que nos eleve acima das carências materiais.
  • A análise da concretude da língua hebraica nos ensina a buscar o sentido primordial das palavras bíblicas, evitando interpretações superficiais e compreendendo a riqueza simbólica que se esconde por trás de expressões aparentemente simples.

Ler transcrição do episódio

Nesta segunda temporada do Gênesis, nós começamos estudando o sexto dia e falamos um pouco, fizemos um panorama do que já tínhamos estudado, comentamos um pouco sobre Adão, sobre a criação deste ser humano, da Terra, o Adão que vem da Adamar, é o terreno. E, hoje, nós queríamos dedicar a uma palavra que ocorre no capítulo 2 de Gênesis, mas que se refere a Adão. Nós adiantamos, pensando no sexto dia, que é a da criação do Adão, para nós entendermos esta figura e entender um pouco, também, da simbologia do Velho Testamento, como o Velho Testamento lida com algumas palavras.

E, a palavra de hoje que nós queremos estudar é nefesh, nefesh, em hebraico, que significa alma, traduzido por alma, mais comumente traduzido por alma. A primeira coisa que nós queremos comentar é a dificuldade da tradução. Porque nem sempre é possível traduzir com precisão nefesh por alma. E, aqui, nós queríamos fazer uma observação muito importante. Nós temos um estudioso alemão do início do século chamado Hans Walter Wolff, este livro aqui. O Hans escreveu um livro chamado Antropologia do Antigo Testamento. O livro é, assim, um tobogã.

Ele tem altos e baixos, tem coisas brilhantes e tem determinados momentos em que nós percebemos as algemas teológicas que acabam cerceando o pensamento do pesquisador. Mas, o Hans fez um trabalho primoroso e que eu só estou trazendo este livro aqui, comentando, porque o estudo dele de nefesh é muito importante. Ele estuda o Velho Testamento do ponto de vista da antropologia, então ele está preocupado com o homem, o corpo, as partes do corpo, a vida em sociedade. E, ele pega as palavras que expressam essas características do ser humano e da vida em sociedade.

Mas, o que é interessante do Hans? É que ele faz algo que é imprescindível de ser feito. A primeira coisa que ele faz é catalogar as ocorrências da palavra no texto, porque nós lemos muitos comentários sobre o Novo Testamento, muitos comentários sobre o Velho Testamento no movimento espírita e nem sempre há esse cuidado ou quase nunca para dizer a verdade. Então, vou dar um exemplo. Muito já se escreveu sobre Espírito Santo. Espírito Santo, Espírito Santo, Espírito Santo. Mas, quem escreve não se dá o trabalho nem de checar quantas vezes esta expressão ocorre.

E, quando a pessoa checa, ela olha só a tradução. Então, ela não sabe se no original é isso mesmo. Então, são coisas tão simples. É uma armadilha, assim, poeril, porque a pessoa tira conclusões, ela monta todo um sistema – ah, Espírito Santo é isso, critica, ataca, fala, mas o estudo não tem fundamento nenhum, nenhum. Então, é importante ficar atento a isso. Hans Wolff, como um bom alemão, não comete um erro tão poeril quanto este. Ele pega todas as ocorrências da palavra Nefesh, todas no Velho Testamento. E, Faz um estudo cuidadoso.

Nós só sentimos falta, porque é preciso entender que a Bíblia é uma coletânea de livros. Então, existem livros que estão no Velho Testamento, um foi escrito mil anos depois do outro. E, nós não podemos. Você passa rápido as páginas, mas, você não passa mil anos rápido. Então, também é este equívoco que nós não podemos cometer. O Hans Wolff vai centralizar a pesquisa dele de Nefesh no Pentateuco, que é Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronomio. Ele vai focar mais nisto, embora ele pegue, assim, os profetas, mas, nós precisamos entender a distância que existe entre um profeta Zacarias, que está próximo do Novo Testamento, e um livro de Gênesis.

É mais de mil anos de distância. Então, mesmo quando você vai estudar uma palavra, é importante olhar em um livro específico. A palavra Nefesh ocorre quantas vezes no livro Gênesis? Quantas vezes no livro de Jeremias? Quais os sentidos que esta palavra assume naquele livro? Quais os sentidos gerais daquela palavra na Bíblia como um todo? Porque, aí, você está estudando a língua como um todo. Então, é um cuidado enorme. Da mesma maneira, o Novo Testamento. Quando a gente vai estudar o Novo Testamento, tem que separar.

Esta palavra ocorre, em Mateus, quantas vezes? No Novo Testamento, como um todo. Quais os significados que ela assume? Então, olha que coisa interessante o Nefesh. Por que nós estamos pisando e vamos ficar, hoje, praticamente nesta palavra? Porque Paulo vai fazer uma afirmação na Carta aos Coríntios, capítulo 15. Ele vai falar do primeiro Adão e do segundo Adão e vai dizer que Jesus é o segundo Adão. Esta é uma reflexão muito profunda em Paulo. O que ele, metaforicamente, está querendo dizer, porque isto tudo é uma simbologia e não pode ser lido ao pé da letra, é que, em Jesus, tem início uma nova Gênesis, uma nova criação e um novo homem, um novo ser humano e, portanto, uma nova humanidade a partir dele.

Este raciocínio que está em Coríntios 15 é muito interessante, porque, primeiro, já dá uma dica de como Paulo lia Gênesis. Ele não encarava Adão como um ser humano de carne e osso que tinha esposa e, aí, a Eva começou a dar à luz, dar à luz e deu três milhões de partos. Não foi assim. Ele não lia assim. Então, ele está pensando Adão como uma identidade, uma identidade espiritual, uma identidade humana. Então, ele vê Adão como um padrão de ser humano e o novo Adão, que é Jesus, como um outro padrão de ser humano. E, todos aqueles que se identificam e que começam a refletir a imagem e se tornam a semelhança deste novo Adão, que é Jesus, compõem uma nova humanidade.

Eles são uma nova criatura. Daí, ele dizer que nasceu de novo, nova criatura é homem velho, homem novo, que nem sempre é bem compreendido isto. Nem todo homem novo é o homem novo que Paulo está chamando, porque o homem novo, para ele, é aquele caráter que nasce moldado no caráter do Cristo. Então, não basta mudar, tem que mudar e refletir os padrões do Cristo. Aí, é uma nova criatura, na terminologia de Paulo. Então, olha que pensamento interessante, uma reflexão muito interessante esta. E, aí, ele vai dizer o seguinte, que o primeiro Adão era uma nefesh, uma alma vivente, uma alma viva.

O que já é estranho. Uma alma viva? Mas, tem alma morta? Primeira pergunta. Uma alma vivente? Mas, tem uma alma morta? E, o segundo Adão, que é o Cristo, é um espírito que dá vida. Vivificante, às vezes, é traduzido. Mas, vivificante, eu acho que fica meio esquisito. A tradução não fica tão feliz. O que ele está dizendo é que é um espírito que dá vida, um espírito que faz viver, que insufla a vida. Então, olha que interessante. Um é um ser vivo, o outro não. Ele gera a vida. Um é alma, o outro é espírito. Desafiador, bem desafiador.

E, de fato, quando a gente lê em Gênesis, no capítulo 2, diz assim que Deus, o Senhor Deus, formou o Adão, o ser humano, da poeira da Adamá, o Adão da Adamá. Então, tem uma rima interessante. Deus formou o terreno da poeira da terra, mas ele soprou, soprou no sentido de encheu, como se fosse um balão. Encheu, insuflou. Insuflou é uma tradução melhor. Insuflou nas narinas dele um Nishamá. É a mesma raiz de néfesh, um ar. Aqui, ele põe um alento, uma respiração, uma respiração de vidas. Vida aqui está no plural. Interessante!

E, se tornou o Adão um Néfesh, uma alma. Este é o texto desafiador. Uma alma vivente, uma alma viva, que tem vida. Aí, o texto fica. Então, o que o Hans vai trabalhar aqui? Olha que interessante! A primeira coisa que ele vai chamar a atenção é que das ocorrências de néfesh no Velho Testamento, néfesh pode ser traduzido por pessoa, ser humano. É um ser humano, uma pessoa viva. Então, ele dá um exemplo. Em Salmos 107, o texto diz assim que famintos e sedentos, cuja néfesh desfalecia. E, aí, no versículo 9 do Salmos 107, vai dizer assim porque ele saciou a néfesh ressequida e fartou de bens a néfesh faminta.

Olha que interessante! Agora, quando a gente vai no principal ou na raiz da palavra néfesh, tem a ver com garganta. Então, a origem de néfesh é garganta. Garganta, boca, quer dizer, todo o aparelho respiratório e parte do aparelho digestivo. Essa parte toda, boca, língua, garganta, que é usada para comer e para respirar. E, aqui, eu faço uma pausa. Está complicado? Vai ficar simples. O hebraico é uma língua concreta. A abstração vem da interpretação, não da língua. O texto é sempre concreto. A hermenêutica é abstrata.

Então, o povo hebreu tinha uma sofisticação imensa na interpretação. A interpretação era tão sutil que você tinha os doutores da lei, os sábios e, por vezes, a pessoa passava 30, 40, 50, 70 anos estudando, como passa até hoje, o mestre da Torá, a vida inteira estudando, porque a abstração está na interpretação, não no texto. O texto é concreto. Se a gente quer ir na raiz de uma palavra hebraica, na raiz do sentido primordial, a gente tem que voltar ao aspecto concreto. Então, vamos lá. E, é isto que é brilhante no Wolff, porque ele vai ligar as palavras que ele está pesquisando aos aspectos concretos do ser humano.

E, qual é o aspecto concreto de Néfet? O aparelho respiratório e parte do aparelho digestivo. Então, você falava Néfet, para um hebreu, da época de Moisés, ele entendia a respiração, a boca, o ato de respirar e o ato de comer. Porque, se você está respirando e você está comendo, você está vivo. Você é um ser vivo. Você é um ser. Nós vamos avançar mais um pouquinho aqui e vamos ver a Néfet morta. Mas, daqui a cem anos, os próximos capítulos vão falar da viva. Então, o sentido básico é este. Come, respira e a gente vê que o texto de Gênesis é concreto.

Deus soprou no nariz do Adão, que estava formado, e, aí, ele se tornou alma vivente. Aí, ele se tornou uma Néfet. Por quê? Porque ele passou a respirar. Passou a respirar. Olha, o texto parece ingênuo, o texto parece ingênuo, mas, não é. Quando o obstretra tira a criança, seja no parto natural ou na cesárea, como é que ele sabe que a criança está viva? Você está respirando. A primeira respiração é o sinal de que você está vivo, nasci com vida. É concreto isto. Passou a respirar, tem Néfet. Fez o parto, tirou a criança, não está respirando, não tem alma.

Mas, está formado, tem o corpo, é, mas, o corpo cadê a Néfet? A alma. Interessante isto. É um sentido muito, muito, muito interessante. E, ele ressalta este sentido concreto em um texto de Isaías, capítulo 5, versículo 14. O texto diz assim A mansão dos mortos abre a sua Néfet, escancar a sua boca desmensuradamente. Aqui, nós temos a chamada poesia em X, que é a rima de ideia. Então, é uma frase com uma ideia e uma outra frase que é sinônimo. Aqui, fica claro que Néfet é sinônimo de boca. A boca, a mansão dos mortos abriu a sua boca para engolir.

Então, é o sentido de boca. Não é um aparelho respiratório, porque não tinha nenhum manual de anatomia na época de Moisés. Mas, era a boca no sentido de comer, de respirar, etc. Goela, boca, garganta, narina, o órgão de ingestão de alimentos, o órgão da respiração. Tem um texto muito interessante, que está em Eclesiastes 6, 7, que diz assim Toda canseira do ser humano é para a sua boca, mas a Néfet não se enche. Todo esforço do ser humano é para sobreviver, para comer, para se alimentar. O sentido aqui de sobrevivência é comer no sentido de viver como um todo.

É a síntese de estar vivo. Então, todo o esforço dele é para comer, mas ele nunca está saciado. A boca nunca está saciada. Por quê? Você almoçou? Amanhã, você tem que almoçar de novo. Então, por que você não almoça e fica saciado para todos os almoços da sua vida? Ainda bem que não, não seria tediante. Você almoça todo dia, mas não se sacia. A partir de um elemento concreto, vai tirando um aspecto abstrato. Agora, o texto que é muito, muito, muito interessante está em Ezequiel 19, que é quando aparece a expressão Manéfet número 66.

Ezequiel, este texto que eu citei, 13, 9, faz uma distinção das néfeses que iam morrer e das néfeses que iam ficar vivas. Mas, aí, néfese pode ser no sentido de pessoa. Agora, o texto de números é interessante. Número 66 aqui vai falar de uma néfese morta, néfese met. Então, tem a néfese viva, quando Deus insuflou nas narinas de Adão, Ele se tornou uma néfese viva e, números, aqui, está falando de uma néfese morta. E, aí, o Hans não consegue alcançar, na minha compreensão, o aspecto mais transcendental da expressão néfese, que foi captado por Allan Kardec na introdução do Livro dos Espíritos.

Kardec começa a introdução do Livro dos Espíritos dizendo do problema da anfibiologia, das palavras que têm mais de um sentido. E, aí, ele vai dizer assim a palavra alma é uma destas. A alma pode ser usada no sentido do Espírito, a alma pode ser utilizada no sentido do fluido vital, a alma pode ser utilizada no sentido do perispírito, a alma pode ser utilizada no sentido do ser humano como um todo. E, aqui, o Hans vai dizer que este é o sentido no Velho Testamento, a alma é o ser humano como um todo, o seu corpo, a sua parte física, mas, a sua parte emocional, a sua parte mental, o ser humano como um todo.

Mas, o que é o ser humano como um todo para nós? É o encarnado. E, é exatamente este o sentido que Kardec vai dar a palavra alma. Ele vai dizer que neste livro utilizaremos a palavra alma com o sentido do Espírito encarnado. O que é o Espírito encarnado? É o Espírito Adamizado. E, quando você encarna, você vira Adão, porque você é terreno, você, agora, é um ser humano terreno, corporificado, materializado, condensado com a substância, com a matéria da terra. E, já comentamos, aqui, que o livro dos Espíritos também vai trabalhar um aspecto muito interessante, que, se o Espírito muda de um orbe para o outro, tem que trocar a matéria do perispírito, tem que trocar de perispírito, porque o perispírito é formado com os fluidos do orbe, ou seja, qual é a matéria que é o nosso verdadeiro corpo físico, que é o perispírito?

Porque o nosso corpo físico mesmo é só uma veste, é só o pó da terra. Olha a sutileza, é só o pó, é só a superfície. O corpo mesmo físico, o corpo terreno é o perispírito, que é formado dos fluidos da terra e tem um tempo de duração. Segundo André Luiz, na evolução em dois mundos, tem um tempo de duração. Então, este é o Adão, é o terreno, é a alma encarnada. Daí, nº 6.6, a alma morta, a alma que desencarnou, o que está no processo de desencarnação, vai se tornar Espírito. Interessante, não é? E, aqui, está a grande contribuição do Hans, neste livro aqui, que é o que nós gostaríamos de explorar.

O Hans, ao estudar a palavra Néfesh, vai fazer uma avaliação antropológica. O sentido humano e, Como é uma antropologia do Antigo Testamento, a relação deste ser humano com Deus. Várias palavras são usadas no Velho Testamento para descrever o ser humano. Vamos dar alguns exemplos, aqui. Vou pegar, aqui, algumas. Coração é uma delas. Alma, Néfesh. Carne, carne é uma palavra. E, Espírito. Palavras utilizadas, estou no índice, aqui, porque acho que ele dá. Coração, alma, carne e Espírito. São quatro palavras para designar o ser humano.

Evidentemente, que, quando o texto bíblico usa uma destas palavras, ele está querendo focar em um dos aspectos do ser humano, em algum aspecto que se sobrepõe. O que ele quer focar? Quando se utiliza a palavra Néfesh, ele quer dar um relevo à ideia da necessidade, da fragilidade do ser humano enquanto um ser necessitado. Então, vamos lá. Néfesh é a garganta, é a boca, é por onde se respira, é por onde se come. O que isso significa? Que a Néfesh tem de se alimentar constantemente. Ela necessita do alimento. Ela precisa de alimento.

No alimento, nós estamos dizendo sustentação da vida. Então, aqui, você pode incluir tudo. Necessita de abrigo, necessita se vestir, é frágil, tem necessidades físicas, emocionais, psicológicas, intelectuais. É o ser humano necessitado. O bonito é quando o texto do Velho Testamento faz uma oposição de Deus e da Néfesh. Qual a necessidade que Deus tem? Deus é pleno. Há um trecho bonito no livro de Jó em que Jó fica bravo. E, aí, ele pede uma audiência com Deus. Eu quero conversar agora. Eu quero conversar com Deus. E, fala com Ele.

Nós vamos ter que conversar aqui. Eu quero saber o que está acontecendo. E, aí, o texto diz assim. Deus conversa com Jó, dizendo tudo bem, só que tem um detalhe. Você vem como homem e eu vou como Deus. É lá no sentido de carne. Não é. Não é. Aí, há uma outra palavra que é muito interessante, também, que, quando se usa a palavra carne é O sentido, aí, é do efêmero. Quando você usa a palavra carne para expressar ser humano, você está dando enfoque ao aspecto efêmero do ser humano. Ele não dura. Ele morre. É interessante, não é?

Um nefeste da necessidade. O outro, da fragilidade. Fragilidade no sentido de efemeridade, de que ele não tem, ele não dura para sempre. Ele é como a flor do campo. Nasce, cresce, dá o perfume e, depois, murcha. Esse é o aspecto do efêmero. Ganha outra dimensão. Exato. Porque, se você pensa em Jesus falando o aramaico, que é a língua irmã do hebraico, nessa frase, ele usou nefeste. Não é? Não é o que entra pela nefeste, que torna impura. Ele está usando a boca, meu alimento. Então, ele está dizendo o quê? Ele está dizendo, eu não sou o primeiro Adão, eu sou o segundo Adão.

Olhe a inteligência de Paulo. Paulo teve acesso a essas falas, evidentemente. Teve contato com João, teve acesso a essas tradições orais, antes delas se tornarem texto. Ele teve acesso a isso. E, olhe onde ele foi com a interpretação dele. Porque, se Jesus diz assim, a minha comida é outra, quer dizer, eu não como comida de Adão. Olhe aqui. Eu não estou debaixo dessas necessidades humanas. Isto é que é bonito. E, tem um trecho muito interessante, que é um trecho emblemático, que está no livro Renúncia, quando Alcione pede para reencarnar.

O orientador dela diz assim, mas, você tem certeza? Porque, assim que você se corporificar na Terra, você vai experimentar anseios, carências, que são típicas do ser humano. São típicas da nefesh, do encarnado, da situação de encarnado, do status de encarnado. Alguém que não é encarnado como você, que é um Espírito que já não está encarnando mais, não tem. Não tem. Ou seja, esta fome da nefesh aqui, este alimento, vai muito além do alimento que a gente come, que vai para o estômago. Tem a ver com carências afetivas, psicológicas, físicas, todas elas.

E, vamos imaginar o status deste ser humano necessitado. Vamos pensar nos grandes desafios do ser humano, que são os grandes vícios, vícios de ordem sexual, vícios de ordem alimentar, ganância, o sujeito que é muito pão duro. Tudo isto tem a ver com recursos de sobrevivência, que estão sendo tratados da perspectiva de alguém que está desesperado por acumular. Por que este desespero por acumular? Lá no cerne disto, tem um medo da carência, tem uma condição de fragilidade que a gente tem consciência dela que não é agradável.

Nos deixa inseguros. Então, eu me lembro, uma vez, estava assistindo um programa de entrevista e era um psicólogo famoso. A pessoa fez uma pergunta, era ao vivo, foi lá no auditório do tribunal. A pessoa fez uma pergunta assim, olha, mas como que eu faço para ter segurança, então? Ele passou, pegou o microfone e falou assim, não tem jeito, porque não há segurança. Ficou à tona, não existe segurança. A partir do momento que nós temos consciência de que nascemos e, a qualquer momento, podemos morrer e de que vamos morrer, isto é certo?

Qual a segurança que existe? Não existe segurança. Existem meias seguranças, existem seguranças pela metade, mas a condição humana é de insegurança. Este é o ponto, aqui, que nós consideramos vital. Qual é a marca do Adão? Insegurança, carência. E, é a insegurança e a carência que vão mover Adão a fazer tudo de errado e tudo de bom. Então, se nós lermos o livro de Gênesis, que é o livro das genealogias, começando pelo patriarca Adão, todas as histórias que estão em Gênesis são histórias que vão ressaltar, que vão tirar uma lição da fragilidade, da carência, da necessidade, da insegurança humana.

O que o ser humano faz por conta da sua carência, por conta da sua insegurança, por conta da sua fragilidade? Este é o estatuto do Adão. Ele trai, ele abandona, ele desiste, ele fere, ele mata, ele ataca, ele mente, ele ilude, ele rouba, ele expolia tudo para satisfazer esta garganta insaciável. Eu tenho total certeza disso. É isto que o Paulo vai dizer. Ele está recuperando o projeto original do que o Adão deveria ser. Eu te entrego a minha néfex. Em tuas mãos eu entrego a minha néfex. Este texto é muito profundo, porque o que Jesus está querendo dizer é que a minha fé suplanta o meu status de carência, de necessidade, a minha garganta, ou seja, a condição humana.

A condição humana. Ele estava morrendo, o corpo físico dele estava morrendo, mas, interiormente, ele estava em absoluta tranquilidade, em alinhamento. É profundo, é muito bonito. É interessante, você citou o texto A Minha Comida Fazia a Vontade do Meu Pai, está no capítulo 4 de Jejão, que é o encontro com a mulher samaritana. A primeira coisa que ele fala com ela é a seguinte, esta água que você está buscando aqui, você vai voltar e sempre vai dar sede, mas, a água que eu tenho para te oferecer, se você beber dela, nunca mais você vai ter sede.

Então, é o que o Paulo captou, são duas realidades. Então, ele está falando do universo do Adão, da Néstor, que é almoçou hoje, amanhã tem que almoçar, depois da manhã tem que almoçar, depois tem que almoçar, você vai ter que comer. Comeu agora? Vai ter que voltar a comer. Bebeu água? Está com sede? Todo mundo já foi. Está com sede? Vai voltar a ter sede. Então, nós podemos falar, a sede de hoje, a sede de amanhã, a sede depois de amanhã, a fome de hoje, minha fome de hoje, minha fome de amanhã. Mas, acontece que nós podemos vestir, ao mesmo tempo, mais do que uma peça de roupa.

Você pode comer, no mesmo instante, mais do que o seu estômago dá conta? Não. Então, é uma refeição por vez. Uma tragada por vez. Garantiu agora e voltou para o estado da insegurança. E amanhã? Insegurança. Basta cada dia o seu mal. Basta cada dia o seu mal. Basta cada dia o seu mal. Basta cada dia a sua necessidade. Basta cada dia a sua fome. E, quando nós imaginamos Deus, porque o Deus de Gênesis é providência. Todos os elementos do Jardim do Éden são metáforas para expressar a providência divina que supri. Mas, eu preciso estar em relação com ela, porque, se eu cortar a relação com ela, eu tenho que estar em relação com ela e eu tenho que me colocar aberto para a providência.

Isto significa domínio do desejo, domínio da garganta, da néfex. Então, você pensa nos desvios de ordens sexuais, desvios de ordens alimentares, desvios de poder, desvios de todos. Eles estão sempre significando uma garganta que quer engolir, porque está necessitada. A néfex viva é o primeiro Adão, o Adão, alma vivente. E, o segundo Adão, o Cristo, é o Espírito. É o Espírito. Nós vamos ver, depois, vamos olhar este aspecto do Espírito. Mas, aí, já tem que ser em um outro momento. Vamos ficar um pouco mais com a néfex.

O interessante deste raciocínio é que, através de ideias tão concretas, porque isto é tão simples, uma criança entende isto. A gente vê que os símbolos do Veda são simples, porque eles são símbolos da vida cotidiana. Não são símbolos herméticos. As ilações, aí, você pode voar longe, mas os símbolos são simples. A ideia que está por trás, aqui, é que, ao encarnar, você perde memória. Pensa, neste elemento, a insegurança que isto gera. A gente já encarna um choque de insegurança. Você perde memória. As razões, aquela memória mais direta, perde.

Você fica com a memória intuitiva. Esta permanece. Mas, a memória explícita, ela perde. Você estava em uma condição de domínio. Você encarna como um bebê, porque não tem jeito. Todo mundo encarna e começa como um bebê. E, qual é a situação do bebê? Absoluta dependência. É o filhote mais dependente da natureza. É o do ser humano. Não tem outro mais frágil. Não tem. Porque ele depende cem por cento de outro para sobreviver. Vamos montando o histórico, aqui. Ao longo da vida, grande parte da vida, grande parte das suas ações, do seu projeto de vida, estão destinados a suprir necessidades físicas, que todos temos que suprir.

Não é opcional. Tem que respirar, tem que comer, tem que dormir, tem que se abrigar, etc. Isto para citar as mais básicas. Vou entrar nas emocionais, nas psicológicas. Aí, vira um rol gigantesco. Este é o estado de total fragilidade. O Adão é Poeira da Terra. É pó. Ele veio do pó da Adamar e volta para o pó. Mas, o Adão encontra esta expressão de fragilidade, esta alma que está viva, mas que vai morrer. Esta pessoa que está sujeita ao fim, à morte. E, tudo, qual é o signo, a marca do status adâmico? Morte. Tudo termina.

Tudo. Tudo termina. Tudo. A cidade da sua infância não é mais a cidade da sua infância. Tem até um poema do Drummond. Se você voltar lá hoje, é outra cidade que está lá. Não é aquela da sua infância. Aquela da sua infância só está agora na sua memória. Aquela criancinha que você brincava com ela na rua não existe mais, porque, hoje, ele é um adulto como você, é outra pessoa. Se você encontrar, talvez você nem reconheça quem é. São ciclos que vão se fechando, coisas que vão acabando. Por isso, Emmanuel, quando comenta o texto Porque o Reino dos Céus não vem com aparência exterior, ele diz assim Tudo que o encarnado, tudo que os olhos da carne podem ver está morto ou vai morrer.

Por esta razão, o Reino dos Céus, imperecível, não pode ser percebido pelos olhos da carne. Não tem aparência exterior, porque ele é puramente espiritual. E, aqui, para nós finalizarmos esta reflexão do Adão, neste sentido dele, desta fragilidade, desta nefesh. Foi interessante, assim? Dá um sentido, não é? Olha, quando a gente pega a nefesh, a alma, agora dá outro sentido. O Evangelho é fruto do Espírito. As realidades do Evangelho são realidades que extrapolam a condição de encarnado. Por isto que Emmanuel, de uma maneira brilhante, diz assim, Moisés ensina o homem a justiça, a ética no mundo, a viver no mundo de forma justa, ética, conectado com Deus.

No Monte Sinai, Moisés recebe as tábuas da lei e ensina o homem a viver de modo justo. Com o Cristo, no Monte Tabor, o homem aprende a desferir o voo sublime rumo à espiritualidade superior. O que significa isto? O Evangelho é transcendência humana. Transcendência humana que se aplica à vida aqui. Mas, é transcendente. É uma realidade transcendente. É outra lógica. Não é a lógica da nefesh. Não é. Se alguém for pegar sua túnica, você dá a capa? Não é a lógica da nefesh. É outra lógica. A lógica do Espírito. Nós vamos ver.

Nós vamos estudar o ruach, o Espírito. Os sentidos que esta expressão tem são maravilhosos. Mas, por hoje, nós ficamos na nefesh e já começamos a perceber o Adão, o encarnado, a característica principal do encarnado. Qual é a nossa condição? A condição humana. E, como Jesus disse para Mateus, Levi, mais tarde, perceberás que o homem é mais frágil do que perverso. Há mais fragilidade no encarnado do que perversidade. Às vezes, tem perversidade, até muita, mas tem mais fragilidade. É o Adão. A poesia hebraica tem as suas regras, os seus cânones, as suas características, mas, nós precisamos comentar sobre a literatura do entorno.

Qual era a literatura das civilizações? Qual era a literatura das civilizações?

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio; pode conter pequenas imprecisões.


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